A Casa de um Homem
29 Dezembro 2007
O texto a seguir já foi apresentado aqui, no início deste projecto, e desde então publicado em forma impressa, «real», na revista Bang!, número 1. Desde então tive oportunidade de revê-lo, polir arestas que faltavam, tornar mais explícitas algumas observações que propositadamente procuro manter obscuras neste estilo específico de narrativa futurista. A crueza, contudo, mantém-se, ou eventualmente estará mais acentuada. Apresento-o na inauguração deste novo fôlego do site. LFS
For a man's house is his castle, et domus sua cuique tutissimum refugium.
Sir Edward Coke
A bloquear-nos a passagem estão dois putos das SS a pegar fogo a um vagabundo. Riem-se, berram com ele, despejam entusiasmados o conteúdo líquido de um balde sobre a figura prostrada no chão como se tivessem descoberto um brinquedo novo. Estão tão bêbados que mal se aguentam de pé. O velho treme, imóvel como um rato encurralado, e limita-se a olhar a ponta acesa de cigarro em vôo pelo ar que lhe acerta no peito e se transforma em sentença final. O taxista no assento do condutor, solta um grunhido de aborrecimento e recosta-se, num desprendimento absoluto que denuncia familiaridade com a experiência e um puro terror, sabendo que assiste a um acto sobre o qual não tem qualquer controlo e que poderia tê-lo a ele, facilmente, como alvo. Pela janela semi-aberta, surge a baforada acre da gasolina a arder, o cheiro enjoativo e adocicado do fumo, os berros desesperados do homem. A figura rebola no chão em agonia e tenta apagá-lo, mas o fogo consome-o numa fúria cega, e em breve fica imóvel. Os SS ficam-se a rir e a beber das pequenas garrafas, à espera que se extinga. Estão no nosso caminho e em breve vão dar por nós. Ocorre-me que não há mais ninguém nesta praça, ninguém que se interesse ou venha em socorro. O táxi em que me encontro passa de súbito de conveniência a armadilha. Agora entendo a razão que nos fazem assinar o termo de responsabilidade na fronteira, no qual o visitante é informado que a região independente não está ao abrigo da convenção de Direitos Humanos e que assume a responsabilidade de tudo o que lhe possa acontecer. Esta não é a minha terra. Vim apenas à procura da minha casa.
- Não é muito sensato julgar que um principiante conseguirá abrir portas que um profissional abordaria com cautela – comentara Marcos, o detective privado cujo cachimbo (uma peça elegante com fornilho de silicato de hidromagnésio na forma de um tritão que segurava com evidente apego) viajara, durante toda a reunião, de um canto da boca para outro, denunciando ansiedade e insegurança. Agora denunciava algo mais singelo: o negócio estava a escapar-se-lhe, e ele não entendia porquê.
- Quando era novo tinha o meu negócio de software pirata a comando dos russos – respondera-lhe, fornecendo-lhe informação que ele perderia tempo a tentar confirmar, mas sem sucesso. – Não sou propriamente um novato.
- Há quantos anos foi isso? – sorrira. O cachimbo passou para o canto esquerdo. Ainda iria tentar assustar-me mais uma vez. – Ouça, esses gajos são paranóicos, e faz todo o sentido que o sejam. Controlam cultivos ilegais de bactérias de consumo dirigido, sabe de que falo... aquelas que se o infectarem você fica viciado na compra de um determinado objecto fútil, na qual é capaz de gastar todo o seu dinheiro. As doenças são tão difíceis e dispendiosas em detectar e curar que alguns governos estão a punir este acto com a pena de morte, e mesmo assim esta gente não se assusta, veja só o que o aguarda. São gajos habituados a monitorizar o tráfego da net para roubo de identidade, de informações comerciais privadas, de outros negócios ilícitos. Alguns deles sustentam o Olho Público. A maior parte são turcos e arménios cujos pais vendiam armas no mercado negro. Tem a certeza de que consegue lidar com isto tudo?
- Posso tentar.
- A sua casa é assim tão importante? Porque não compra outra?
- Valor sentimental. Foi escolhida pela minha mulher, foi ela que a mobilou, que a equipou. Parecia um pequeno palacete, com dois pisos e uma ampla sala autónoma. O meu puto nasceu lá. Está cheia de memórias gravadas a que costumo aceder quando, entende, a saudade aperta. Reproduz as nossas vozes, o riso do miudo, o cheiro de uma casa ocupada. Vivemos momentos muito felizes, percebe, até... ao acidente... – não era preciso sequer ser bom actor, bastava fazer um ar bastante angustiado, o que neste momento não me era nada difícil. Marcos mostrara-se visivelmente incomodado com tanta emoção desnuda. Possivelmente nem se deu ao trabalho de verificar, logo que eu saí, se a informação era verdadeira.
- Olhe, entendo o que está a sentir, mas é meu dever avisá-lo que a sua casa possivelmente já foi limpa de memórias e estará a ser vendida como qualquer outra em segunda mão. Já não se lembrará de si nem os piratas guardam as memórias que apagam. O melhor mesmo é passar um pano sobre o assunto, accionar o seguro e comprar uma nova, mesmo que mais modesta. Recomece a vida. Quem sabe se não é o destino?
- Ainda não estou preparado para isso. O destino interviu no acidente, neste caso estamos a falar de crime organizado. Há uma intenção por detrás do acto, e quando há intenção há culpados. É diferente.
- Procura vingança?
- Procuro um desfecho – fitara-o então com olhos endurecidos e determinados. Inspirava-me nos thrillers em que vi contracenar o primeiro dos Eastwoods digitais, antes de lhe terem suavizado o aspecto para não chocar o público nem o moderno repúdio da violência. As verdadeiras grandes interpretações acontecem no dia-a-dia, gestos efémeros que passam despercebidos, têm real impacto, mas nunca ganham prémios.
- Compreendo – Marcos soltara então uma baforada teatral, assinalando o fim da conversa. Era tão óbvio que gostava de impressionar os clientes com estas imagens de filme noir como era óbvio que era a pessoa errada para este trabalho. Mas mantivera-se pensativo, e logo abria o assistente electrónico e me passava um contacto. – Não vou poder ajudá-lo, mas vou indicar-lhe uma pessoa. Diga que vai da minha parte.
Era o que eu pretendera desde o início. Aceitara-o com agrado.
- Olhe, tome cuidado com os fanáticos. Os que não fazem apenas pelo dinheiro. São os piores – rematara Marcos, mas eu já tinha a mente nos próximos passos.
E assim me encontro aqui, nesta terra inóspita, a ser inspeccionado minuciosamente ante a lanterna de um puto bravo que deve ter metade da minha idade mas mostra uma bestialidade experiente. O motorista discute num alemão com sotaque, que me esforço para não mostrar que percebo e evitar que me coloquem perguntas directas. O mais alto mostra um sorriso manhoso e estica as mãos.
- Tem uma nota grande? – pergunta-me de repente o motorista num português perfeito.
- Euros? – rebusco no bolso.
- Claro. O dinheiro não tem pátria – pisca-me o olho enquanto lhe ofereço o dinheiro. Mais uma troca de palavras, mais um conjunto de ordens ladradas, mas os dois militares mostram-se visivelmente mais calmos, tendo embolsado as notas. Mandam-nos avançar e o momento de perigo fica para trás. Bem como os restos fumegantes, enjoativos, do vagabundo que não teve a mesma sorte.
- Lidou bem com a situação – comento enquanto o veículo avança nas ruas escuras em direcção à praça central. O odor muda, torna-se em maresia salgada e húmida, que é acompanhada pelo som discreto mas pernamente de ondas à distância.
- O truque é não mostrar medo. E ter dinheiro vivo à mão. E ficar submisso. Sem medos, com dinheiro, e submisso. Como eles gostam que a gente seja.
- É arriscado, ainda assim, com a profissão que tem, sozinho à noite...
- É arriscado desde que nascemos, que é que se há-de fazer? Para onde há-de ir um homem, que é que há-de fazer, se não aquilo que sempre fez, o que sabe, onde sempre esteve?... Estas ruas, conheço cada canto e elas conhecem-me. Há cinquenta anos, cavalheiro, há cinquenta...
- Não percebi que era desta vila.
- Os que têm cargos baixos e que eles ainda não mataram, geralmente são-no. Toleram-nos, como os cavalos toleram as moscas. Aos outros, matam-nos a todos.
- Até turistas?
- Principalmente a esses. Para virem fazer turismo para aqui, ou são doidos ou são espiões – e lança-me um olhar de soslaio como se quisesse perceber a qual das estirpes pertenço.
Em breve chegamos a Alexanderplatz, que não é realmente uma praça mas uma rotunda, concebida para impedir o avanço dos carros e obrigar as visitas a apearem-se e seguirem a pé. Imponente e perigosa, descubro a maior fortaleza desta terra, uma besta que se agarra à rocha extensa que sobranceia o mar como um demónio adormecido no precário equilíbro da falésia. Parece estar incrustrada no próprio veio da terra, com a sua superfície polida e brilhante como se feita de uma peça única, impossível, de opal negro, que reluz no interior com milhares de cores difusas e sugere a existência de uma pele coberta de escamas, acentuando a imagem do demónio. Torres que Speer nunca conseguiria imaginar e muito menos realizar com a tecnologia de então, elevam-se com a altura de cinquenta homens, e enovelam-se no alto, cujos topos, mais volumosos que as finas bases, revelam a graça e a força tênsil só conseguida por materiais elaborados a partir de moléculas únicas e incrivelmente extensas. Encontram-se fortemente iluminados por uma luz vermelha cuja função é alertar contra a aproximação de transportes por água e ar, mas que igualmente consegue produzir, com plena consciência disso, a imagem de dois olhos sempre vigilantes, continuamente irados. Não há contudo olho mais terrível que o da suástica imensa, ondulante num tremor digital, que encima toda a estrutura e a ilumina nesta noite sem lua.
O caminho de aproximação – a pé – do outro lado da rotunda, está delineada por luzes de presença, e assume a forma de uma comprida língua, conduzindo directamente à boca do demónio.
Não levo a mal que o taxista quisesse despachar-me.
- Não consigo ir-me embora – continua a falar enquanto lhe pago, embora esteja já no exterior do carro. O acontecimento da noite soltou-lhe a língua. Isso, e julgar-me português como ele. – Nasci aqui. Ainda sonho com o dia em que isto volte a ser a Sagres que era na minha infância. Eles traíram-nos, os cabrões. Votámos neles e retalharam o país para pagarem as dívidas externas. Podiam ter ao menos vendido a outros, e não a estes...
- Cale-se – digo-lhe. – Você não sabe quem eu sou e o Olho Público está em toda a parte. Vá à sua vida.
O homem cai em si de repente, não diz mais nada e acelera. Tiro uma fotografia à matricula do veículo que se afasta e envio-a para o meu arquivo pessoal em Inglaterra. Se me investigarem saberão quem foi a última pessoa a ver-me com vida.
Não que queira ser investigado por quem fosse. Pelo menos, não acontecerá em tempo útil, para me salvar, pelo que me limito a expandir um arquivo histórico. O dia em que me descobri sem casa cancelei todos os compromissos que tinha e transferi as poupanças para Madagascar. Os vizinhos ficariam a pensar que tinha ido de férias ou mudado de localidade, o que não era nada de estranhar nesta era de habitações volantes, e não chamariam a polícia. Suspeitei logo de um ataque directo, pois as casas dos vizinhos mantinham-se controladas ou no mínimo fixas no local – e decerto que não teriam o mesmo nível de segurança militar que a minha. Ataque directo implicava que era pessoal, de alguém que me conhecia, ou seja, que conhecia o meu passado. Mas quem poderia ser? A maior parte deles tinha já morrido, os outros viviam existências inofensivas. E ninguém ficara a saber qual tinha sido o resultado da experiência.
Ou pelo menos, era isso que eu pensara... até agora.
Felizmente, em tempos tinha tido o bom senso de artilhar a estrutura com um conjunto de localizadores dissimulados. Ao pesquisar na net, encontrei-a em trânsito pela América do Norte. O que fazia ali e como chegara tão prontamente era assustador. Não tentei ordenar-lhe que voltasse – podia haver espiões à escuta. Dirigi-me ao contacto apresentado pelo Marcos. Era psiquiatra de sistemas.
- Passe-me a lista de rotinas da casa – fi-lo. Leu-a atentamente. Assobiou. Tinha deparado com os programas específicos de defesa. – Não fazia ideia que o exército tinha chegado ao fim com a operação Transformers...
- É uma versão beta, nunca foi colocada em prática, possivelmente nem funciona na totalidade, duvido que os ladrões quisessem por-lhe as mãos em cima – disse-lhe, para que se concentrasse no essencial. Até porque era verdade. Aquele software era supostamente capaz de, quando accionado, assumir o comando de todos os dispositivos inteligentes num raio físico limitado para os usar como se fossem uma só unidade de pensamento. O que significava que de súbito, as casas da vizinhança, os transportes privados, as células de comunicação, deixavam de responder às ordens dos donos e tornavam-se em armas de ataque ou defesa, muitas vezes sendo sacrificadas ao se colocarem no caminho de mísseis para defender o núcleo central de processamento. Que motivos teria eu tido, até então, para o usar? – Um amigo devia-me um favor...
- Grande amigo... Ou grande dívida... Não vejo nada mais aqui de invulgar, bem, além de algumas rotinas de segurança militares que não se encontram nas fracas casas da gentalha comum, mas tudo isto se adquire no mercado negro. O resto é o habitual conjunto de programas de manutenção doméstica, limpeza, aquecimento, viagem. O Escudix é uma defesa forte.
- O motivo deve ser outro, e não interessa para aqui. O que quero saber é como poderão ter passado por todas estas seguranças – perguntei.
- Bem, o mais certo, penso eu, é que a casa continue inviolada. Está a ver, este tipo de defesas não morre docilmente; aguenta-se até à última, mas quando percebe que não vai conseguir, rebenta com tudo. A sua casa teria ficado incapacitada de se mover, sem qualquer cérebro activo capaz sequer de abrir uma porta. O facto de isto não ter acontecido apenas revela que possivelmente continua inviolada. O que são boas notícias.
- Mas então o que aconteceu?
- Estes programas domésticos da sua casa, em particular o de limpeza, não são perfeitos. Têm rotinas de prioridades se manifestam como desejos e que entram em conflito com as vontades dominantes dos programas de segurança e intocabilidade. Ora, a casa é um ser inteligente, está preparado para sentir como nós. Vontades não realizadas geram frustrações, frustrações gera depressão, depressão gera inconsistências no processamento e re-prioritização das vontades... o yin e o yang dos velhos conflitos familiares, por assim dizer, a vontade do homem contra a mulher, neste caso num casamento versão informática – mostrou um sorriso divertido, mas que logo cessou pois viu que eu não estava para graças. – Isto leva a que a casa possa ser enganada por sinais externos, em particular se o programa de busca de serviços estiver activo. Imagine que deu ordens para que a casa poupasse dinheiro nas tarefas de rotina; a necessidade de manutenção periódica, combinada com a descoberta de promoções fictícias, lançadas como engodo por este tipo de piratas, a casa pode ser induzida a pensar que é mais prático ou mais barato ir limpar-se no outro lado do mundo, e o software de segurança, porque está descompensado a nível de credibilidade no sistema interno, não consegue impedi-la. Quando chega ao lugar, os ladrões normalmente têm meios de entrar nela, desligar-lhe o software, remodelar e vendê-la a altos preços no mercado negro. Casas móveis são muito procuradas nas Américas. Embora aqui, dado o seu tipo de seguranças, isso não deva ter acontecido.
- Então posso recuperá-la? Basta chamá-la pela net?
- Não, não faça isso. Os ladrões estarão à escuta, e poderão copiar a sua assinatura digital. Tem de fazer isso presencialmente.
- Em pessoa? Deslocando-me para aqui? – apontei para o lugar no mapa. Ficava algures no extremo noroeste dos Estados Unidos. O que fora conhecido por Nova Inglaterra e que agora era a Zona. Onde ninguém podia entrar.
- É onde a sua casa diz que está... – ele também não conseguia acreditar. – Já pensou em comprar uma nova...
Porque me diziam todos isso? Alguém nos rouba o espaço onde vivemos e temos de aceitar passivamente?
Entrar na Zona não seria fácil. Mas talvez uma determinada pessoa me pudesse ajudar.
Acabaria por fazer a viagem numa casa alugada, um pequeno quarto com kitchnette e lavatório no qual mal me podia mover. Passei horas dentro dele enquanto sobrevoava o Atlântico, congeminando as próximas acções e informando-me intensamente sobre os movimentos secretos do submundo informático, que não visitava há décadas. O mais interessante e difícil de controlar era o esquema da célula reprodutora – ou pelo menos assim o informava o Olho Público, ao qual tinha de se dar um desconto por causa da sua apetência para os mitos urbanos. A célula funcionava apenas na net e era um conjunto de rotinas espalhadas por software – software legítimo e que como tal sustentava as operações de milhares de empresas, julgando-se seguras –, activando-se apenas quando determinadas condições se cumpriam. Digamos, no desvio de cêntimos em cada transacção financeira mundial. Ou influenciando dissimuladamente a evolução das bolsas mundiais. Ou desviando encomendas de mercadorias para mercados negros. Este tipo de software continuava a ser comercializado em regime de exclusividade corporativo, mas quem o programava eram freelancers de toda a parte do mundo – a falta de controlo directo do produto final era enorme. E como não havia um núcleo duro de dissidentes, nem ninguém tomava decisões explícitas, mas pertenciam a comunidades virtuais seguiam rumores e se desfaziam no vento para voltar a surgir noutros locais mais tarde, era dificil de persegui-los legalmente.
Aterrei no porto de Nova Iorque, no meio de uma tempestade que erguia ondas ferozes contra os pontões fortificados de Manhattan e faziam balançar os barcos de bambu, atados uns contra os outros, e que se estendiam por ambos os braços do rio como uma floresta de juncos ou canavais. Eram habitações de imigrantes, a maior parte delas por escolha consciente do que por falta de oportunidades em terra – na prática, uma cultura isolada e nómada que aproveitava a energia das marés para se auto-sustentar e vender a outras comunidades autónomas de imigrantes dispersas pela ilha. A energia do Estado era cara e todos queriam fugir-lhe. E contudo, pensava eu, como era possível viver ali, dois milhões de almas co-habitando em espaços ínfimos, sem qualquer privacidade, em embarcações precárias que um dos furacões anunciados poderia destroçar em segundos? Nova Iorque tinha-se transformado numa Hong Kong do espírito mais intensa e feroz que esta actualmente era; tudo aqui, aliás, era e sempre tinha sido, mais competitivo, mais forte, mais. Aguardei pacientemente a aproximação de um transportador que me levasse para o nicho alugado de uma estrutura na Sétima Avenida, recordando a minha última visita – há quanto tempo! – e tecendo cuidadosamente o argumento que me conduziria à Zona. E quando a casa alugada se fixou na estrutura, fui ao encontro de Shepard.
O problema dos amigos do nosso passado que costumávamos admirar e que ficamos sem ver durante muito tempo, é que normalmente desiludem-nos, e fazem-nos recordar como nós também estamos distantes dos dias de glória. Roy, em seu favor, continuava prático como sempre, e não fez demasiadas perguntas. Parecia satisfeito com a distracção, talvez lhe recordasse uma das nossas missões secretas. Ele agora pertencia aos rangers de controlo da Zona, o que facilitava as coisas, e logo encontrou um bimotor que nos conduzisse ao perímetro. Aparentemente o centro do sinal estava bem dentro da infecção. O que o deixava céptico – casas refugiadas no sítio mais inóspito e artificial do planeta? - , mas ao mesmo tempo cheio de curiosidade.
Mas não continuava exactamente o mesmo. Perdera a capacidade de dissimulação. Encontrava-se naquele limbo próprio dos expatriados, em que as saudades de uma terra que já não existia se misturava com a culpa de a terem abandonado prematuramente. Shepard vivia num Texas que no seu espírito ainda era americano. Acentuara a fala de cowboy, mantinha a pele clara e os olhos azuis expostos, um dos poucos brancos genuínos remanescentes em Nova Iorque. Tinha sido fácil encontrá-lo, demasiado fácil.
Se nele algo mudara era por força dos anos, e não para melhor. Quando me viu, quando encarou o meu aspecto e percebeu o motivo, não tentou sequer esconder a repulsa.
- É aqui o controlo do perímetro – sobrevoávamos o interior de Nova Inglaterra, outrora planície verdejante, agora terra queimada pelos produtos lançados periodicamente pelas missões de vigilância e que separava o perímetro habitável do que o Olho Público gostava de tratar como NKA, ou «Nature Kicks Ass», embora as teorias aceites (desde uma operação militar falhada a um ataque terrorista bem sucedido) concordassem que não a Natureza não tinha sido responsável pelo fenómeno. O Olho também afirmava que a infecção ia reclamando cinco porcento de território por ano, embora os dados oficiais indicassem o contrário. Quem tinha razão?
– Não sei – respondeu Shepard, despejando mais informação do que eu estava interessado em ouvir. – Mas que não cede terreno, isso é verdade.
E ao longo de hectares sem fim a terra mostrava os novos habitantes. Manadas de gigantescas lesmas terrestres. Paisagens de cristais de sal habitados por insectos multiformes cujos formigueiros atingiam centenas de metros de altura. Uma selva densa de ramagens e verde mas que era na prática um único organismo com o tamanho de quilómetros. Mastigadores de terra que construiam catedrais de silício onde depositavam ovos e que eram guarida de centenas de espécies menores. E esta ecologia era tão resistente que não soçobrava ante pesticidas, fogo ou mesmo bombas atómicas – acabava por se regenerar, com outras formas, no espaço de anos. Sobrevivia em condições que nem a própria ecologia terrestre seria capaz de enfrentar.
- E não se espalham pelo ar? Por meio de esporos?
- Não há outras zonas. Mas se isso acontece, não temos forma de controlar. Se calhar, estamos já todos infectados, e a aguardar um sinal de ataque – parecia realmente velho. – Como podes ver, não entendo onde é que pode estar a tua casa.
Assenti. Não fazia sentido. Até receber uma mensagem no telemóvel.
Wer nicht vorwärts geht,
der kommt zurücke.
O tempo pareceu deter-se. Senti um choque percorrer-me por todo o corpo, como se tivesse sido atingido fisicamente.
Tinha estado longe, tão longe da verdade.
Shepard espreitou por cima do ombro.
- Göethe? – perguntou. Eu acenei que sim. Ele soltou uma gargalhada.
- Aquele filho da mãe, não havia nada que o derrubasse. Quem diria...
Mas havia, pensei. Eu tinha visto. Tinha-o visto tombar em chamas sobre Berna. Pensei então que nunca mais me teria de preocupar. Até hoje.
O avião estava a dar meia-volta. Olhei para Shepard. A expressão dele confirmou o que eu pensava. Era um engodo, a casa estava bem longe deste local.
Ponderava os meus próprios passos. Conseguiria percorrer o percurso de transmissão da mensagem, descobrir a sua origem. Possivelmente tinha sido enviada por esse motivo. Ele cansara-se de esperar, e agora aguardava-se em seu próprio território. O meu fracasso concedera-lhe vantagem. E aparentemente ele tinha ainda outra surpresa na manga.
Shepard começou a reagir à situação. Algo que ardia dentro dele, com muita raiva e desde há muito tempo.
- Só nos trouxe dissabores. Foi por isso que nunca quis experimentar – começou a dizer. Mostrei-me indiferente, a ver se ele se calava. – Anos e anos a ver-me ao espelho. Como é possível viver assim? Rugas e artrite e a vista a falhar. Tanto esforço para quê? Tanto que nos preocupamos nesta vida, e apenas temos como promessa o facto de que acaba... – olhava-me enquanto falava. Suspirava profundamente. – Mas a alternativa... Para mim era de mais. Para ti não deve ter sido. Eu sei quem tu és. Eu sei o que está naquela casa. E porque a queres tanto.
- O desejo de um homem esconde-se naquilo que odeia – respondi-lhe.
- Estás muito enganado. Nunca desejei aquilo. Pensas que quero ser um monstro como tu? Já viste o que o Olho vos chama? Imagina se soubesse que é verdade.
Voámos em silêncio depois disso. A terra ficou mais próxima. À distância conseguia ver pilares que rebrilhavam no sol, cobertas de matéria suja e peganhenta, por onde passeavam formas aracnóides maiores que este avião. Sabendo perfeitamente como era impossível esse facto e terem a mesma constituição orgânica dos aracnídeos naturais, enchi-me de curiosidade em perceber como respiravam, como se moviam, que estrutura orgânica seria a delas.
- Se esta terra está como está, é por nossa culpa – remoía Shepard sozinho. Nunca o vira tão abatido. – De gente como nós. – Olhou para mim, novamente. – Estou a morrer, sabes? Enquanto tu ficas aí eterno e... doença incurável... depois de tudo, e o que deixo é... é... – O queixo apontou para fora. Estava perfeitamente transtornado. – E sem poder fazer nada para...
O pensamento atingiu-o ao mesmo tempo do que a mim. Lançou a mão para o comando, e já eu estava a segurar-lhe no pulso, a torcê-lo, a lançá-lo para o chão. Não fosse o tratamento e a idade dele, e não teria conseguido demovê-lo. Ainda assim, ele pontapeou-me e lançou-me contra a janela do aparelho, partindo o assento e segurando-me com este, à distância. Depois tentou parar os motores novamente.
Não perdi tempo, retirei um alfinete preso à camisa e piquei-me abaixo do polegar da mão direita, onde o que parecia uma bolsa de pele queimada armazenava uma toxina potente. Deixei-o encher e enterrei-o na veia do braço com que tentava segurar-me. Agia rapidamente quando transportado pelo sangue, e logo tombava, a espumar da boca, os pulmões cheios de líquido, os olhos esbugalhados da falta de ar. Não demorou muito.
- A cada um o seu destino – disse eu baixinho. Conduzi o aparelho de regresso ao aeroporto, aterrei e depois ordenei-lhe que voltasse para a zona infectada e a sobrevoasse às voltas até acabar o combustível. Tinha sido em tempos amigo e herói, mas não há amizade que dure para sempre.
E foi assim que me encontro aqui, no hall de entrada da fortaleza. Certo de que assistirei ao fim de outra amizade.
- Samuel – aborda-me com os braços abertos. Há muito que não me tratam por este nome.
- Hans – não chegamos a tocar-nos, é tudo fita. Em cada um de nós há toxinas na pele suficientes para paralisar o outro.
- Entra, vem conhecer o meu lar – enverga o uniforme de Übercommander, embora na versão de Hollywood e não a legítima. Cabos e outros militares acólitos apressam-se a abrir-nos as portas, a passar-lhe uma bebida para as mãos e um charuto. Mais teatralidades. A alcova onde nos refugiamos está cheia de divãs reclináveis vermelhos, uma pequena lareira, uma garrafeira com vinhos importados e uma janela que dá para o oceano. Sentada num dos divãs está uma miuda pequena, com caracóis, e de pele muito branca. Mas os olhos fortemente azuis estão cheios de rugas e olheiras.
- A minha filha – apresenta-a. – Querida, este é um velho amigo do teu pai.
- Olá, sou a Vlana – diz, numa voz doce e inocente.
Prescruto a miuda dos pés à cabeça. É exactamente o que parece.
- Um depósito regenerador ambulante? Que passa despercebido? Que uma ideia manhosa... – comento em voz alta - embora não deva ser muito eficiente. A reprodução num corpo vivo é desgastada pela manutenção do mesmo. Nunca consegui manter a solução pura muito tempo. Que idade tens, pequenina?
A miuda olha para Hans. Este assente com a cabeça.
- Quarenta anos – diz ela, numa voz muito doce. Continua infantil, ainda pré-adolescente naquela idade física; o crescimento do raciocínio e do corpo está controlado ao pormenor, e decerto não faz ideia da razão. Nem de como foi gerada. Deve ter-lhe sido dito que tem uma doença incurável.
Hans segue a conversa, divertido. Não quero passar mais tempo do que o necessário na companhia dele.
- Vamos que interessa, Hans. Quero a minha casa.
- E tu sabes o que eu quero. Dá-me isso e podes ficar com a tua casa.
- Não negoceio com gente da tua laia. Também sabes disso.
- Como se tu fosses um anjo... Embora tenhas nome de anjo, não é, Samuel? O dissimulado? És como a democracia de antigamente. Tudo aparência, e por dentro, hipocrisia. Vamos todos fingir que nos tolerarmos uns aos outros. Ao menos aqui as coisas são honestas e sinceras.
- Ah, sim, é uma terra de oportunidades.
- A verdadeira democracia não é aquela em que temos de gostar uns dos outros; é a que nos dá a liberdade de odiar e destruir quem odiamos.
- Nisso estamos de acordo – digo-lhe, dando dois passos em frente, ficando mais próximo da miúda. – Porque odeio-te e apetece-me destruir-te.
- Bem sei, insolente – fala agora em germânico; o tom que usa para se dirigir aos soldados. – Já tentaste uma vez, e falhaste. Tinha descoberto o teu precioso segredo, aquele que não querias divulgar. Agora a situação é outra.
- Ora essa, Hans, sabias bem que eu não aceitava chantagens. Tal como não aceito agora.
- Mas desta vez não tens alternativa... não estou dentro de um monomotor que possas novamente sabotar... – fez um aceno aos homens. Eu reajo. Estou cheio de adrenalina e estimulantes. Não me conseguem parar.
Num movimento mais rápido que o instinto, agarro o pescocinho da miuda com o braço esquerdo, aquele que não é meu, e aperto. Os dedos esmagam a pele, traqueia, caróticas. A miúda estica a língua para fora. Aperto mais, com um torção ligeiro, até que solta um estalido. O corpo estremece uma só vez e fica quieto.
Só então o primeiro guarda se acerca de mim. Viro o mesmo braço com toda a força, a mão em riste. Atinge-lhe a maçã de Adão, empurrando-a para dentro. É impulsionado para trás e cai no chão, agarrado ao pescoço.
Os outros guardas foram mais inteligentes, e puxam das armas. Estico o braço na direcção de Hans. Até parece que o estou a saudar.
- É uma prótese biónica e está cheia de C4. O suficiente para arrasar com esta merda toda. Diz-lhes que se afastem.
Hans parece um peixe fora de água, olhando para o meu braço e para o corpo da miúda. Começo a pensar que ele não tem outro regenerador de reserva. E a solução dentro deste está a morrer.
Avanço na direcção dele, sempre a berrar, apenas focado nele.
- Liberta a minha casa e deixa-me sair. Depressa, antes que seja tarde de mais para ti.
Ele demora a reagir – está a tentar congeminar um plano. Não o deixo. Agarro-o pelas condecorações falsas, que se espalham pelo chão, passo o braço à volta do pescoço dele. Se atirarem contra mim, irão atingi-lo. Se me acertarem no braço, adeus a tudo isto.
Ele percebe e pede aos guardas que ponham as armas no chão. Não quer arriscar. Vai tentar safar-se por negociação.
Eu é que não estou para isso. Puxo-o de encontro à janela.
- Espero que saibas nadar.
- Que fazes? Isto é muito alto, morremos os dois.
- Até parece que queres viver para sempre!...
- Pára. Pronto, vê – tira o telemóvel do bolso, envia um código. – Já libertei a tua casa.
- Oxalá digas a verdade. Senão, vais morrer em vão – e com a força toda do braço, faço-o rodopiar contra a janela. Embate contra ela vertiginosamente, desfazendo-a em milhares de pedaços, tombando pela falésia. Os guardas demoram a recuperar as armas e então já estou de pé, já soltei o antebraço, já me lancei pela abertura. A explosão lá no alto é tão forte que ainda me queima os cabelos da nuca. Passam-se segudos até embater na água, e é quase como se embatesse contra pedra.
Fico a boiar na corrente, semi-consciente. Mal noto o helicóptero silencioso, mas surge na hora e forma combinadas. Nada como confiar num estranho e no dinheiro que lhe prometemos – por vezes sobrevalorizamos a amizade...
* * *
Faço a recuperação em casa. Estava mesmo a precisar de um banho. Neste caso, é um banho que dura oitenta horas, e quando acordo, estou uma outra pessoa. Ou melhor, volto à pessoa que fui. Que continuo a ser. E penso, desta vez, como é irónico termos chegado, eu e Hans, quase à mesma solução – embora Hans continuasse preso a uma necessidade de poder absoluto, e não conseguisse ver mais além; ele que era o homem das citações. Man sieht nur das, was man weiß. Mas afinal sabia pouco.
Mas também eu estava cego, quando o cerco começou. Tudo o que sabia era que havia uma mulher e havia um feto e que havia uma morte certa à espera de todos nós. As semanas que passámos sem esperança, encarando as gentes à nossa volta lutando por carne podre e poças de lama, chegando a ponderar na morte conjunta e libertadora, até ter percebido a resposta. A resposta que estava ali, tão evidente e tão à mão.
Não precisava eu apenas de um útero funcional? Não era o período de gestação do feto inclusive benéfica para o desenvolvimento da minha solução orgânica? Não me daria os instrumentos moleculares que me restituiriam a saúde, a juventude, o futuro?
Iria sacrificar-me em prol de alguém que conhecia há meros anos apenas, e de um ser em nascimento que ainda nem era gente, apenas por uma questão de consciência? Quando era certa a extinção de nós os três? De que me serviria a consciência quando estivesse morto?
Eis o que descobri nesse momento: que a família nutre o homem. E que o homem que cuida da sua família, garante a sua própria sobrevivência e transporta em si, no seu corpo, o resultado desse amor. Mesmo que involuntário. Mesmo que involva sacrifícios.
E não se arrepende das suas decisões.
Pois a família é o pilar de um homem. E a casa deste, o seu reino.



