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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

Série Convergente (Guião)

26 Janeiro 2006



Linha Temporal da Narrativa

A narrativa decorre em momentos temporais distintos que são expressamente assinalados no contexto de cada cena – maioritariamente em dois dias seguidos (designados por «ontem» e «hoje»), mas igualmente em momentos anteriores a esses dias (designados pelo mês do ano, apenas para referência da ligação entre si).

Uma vez que a narrativa é não-sequencial, e que o significado de cada momento temporal não é revelado por completo logo quando surge (pelo que estaremos continuamente a revisitar momentos com entendimento diferente), é crucial que a transposição cinematográfica tenha em consideração a individualização das sequências pelo recurso a técnicas de iluminação, cor e fotografia, pelas diferenças no estilo de filmar ou por pistas auditivas.



1 – EXT. CASA DE PRAIA DE JORGE – HOJE PELA MANHÃ

A imensidão do céu, azul e límpido pela manhã, possivelmente de finais de primavera. Estamos acima da linha do horizonte. A câmara roda e entram no plano sinais de nuvens de fumo, fumo muito negro e que progressivamente vai ficando espesso à medida que focamos a coluna principal de fumo. A cena decorre em SENTIDO TEMPORAL INVERSO: as nuvens descem do céu, convergem para a terra, contraem-se ao invés de se expandirem. A câmara desce para acompanhar esta convergência. Agora já se discerne o horizonte, vêem-se casas e montes e talvez um pouco de mar.

A câmara fixa-se numa vivenda, em plano picado. Uma parte do tecto desabou e o interior arde em enormes labaredas – mas como continuamos em sentido inverso, as labaredas não se espalham mas vão minguando e vão deixando livres e intactas partes da casa. Um carro vermelho está estacionado à entrada, coberto e amassado por pedras e tijolo desfeito, argamassa e madeira; ao redor, o jardim está igualmente sujo destes materiais, e fuligem e papeis a arder voam pelo ar em direcção ao incêndio.

Subitamente, as labaredas recolhem-se, e os detritos que cobriam o carro e o relvado erguem-se violentamente no ar e convergem de forma abrupta para o lugar que ocupavam no traçado da vivenda. O carro perde a amolgadela. O fumo entra no buraco que rapidamente se vai fechado, vai sendo preenchido pelo detrito que se revela como parte integrante da casa. A explosão recolhe-se como uma rosa que fecha as pétalas. E de súbito a vivenda fica inteira e incólume, e voltámos à manhã perfeita de primavera.



2 – INT. CAFÉ DE AUTOESTRADA – NOITE – (PASSADO: Janeiro)

ANTÓNIO surge da casa de banho de um café de bomba de gasolina como os que se encontram nas autoestradas. O café apresenta janelas amplas, por onde se vê a estrada e o estacionamento, e se percebe que cai uma tempestade forte, cobrindo os vidros de chuva. Há poucos frequentadores, a maioria concentrados numa televisão colocada no alto da parede, ao fundo. Vestem roupa de inverno, cachecois e gorros no caso de algumas crianças. Por todo o café vêem-se decorações de Natal, e talvez mesmo uma árvore enfeitada de plástico se encontre ao canto. Fixada na parede, uma grinalda anuncia votos de Feliz 2003.

António está nos cinquenta e poucos anos. Tem a barba por fazer e o cabelo despenteado, o que lhe dá um ar bastante desmazelado. Veste uma camisola de gola alta, forte, e um casaco de cabedal. Avança para uma mesa, onde HELENA o aguarda, de cigarro na mão. Helena é mais cerca de quinze anos mais nova, e tem uma aparência confiante, cheia da sensualidade e segurança de uma mulher madura.

António senta-se de forma pesada. Apercebemo-nos do rosto pálido, dos tremores e do suor, do ar de extremo desespero. Fecha o casaco com força como se tivesse muito frio. Por cima da sobrancelha esquerda escorre um fio de sangue proveniente de um corte extenso.

HELENA
(preocupada)
António, quem era? Morreu alguém?

ANTÓNIO
(abanando a cabeça)
Não, não. Era do trabalho. Papeladas.

HELENA
E deixou-te assim tão preocupado?

ANTÓNIO
Senti-me mal disposto, tive de ir à casa de banho. Não é nada.

HELENA
Mal disposto com o quê? Queres que peça alguma coisa?

ANTÓNIO
Deixa estar, já passa. Tenho de descansar um pouco.

HELENA
Foi do almoço? A mim não me afectou. Deitaste... cá para fora?

ANTÓNIO
Se vomitei?... Sim, sim, foi isso.

HELENA
E desmaiaste?

ANTÓNIO
Porquê?

HELENA
(indicando com o dedo)
Estás a sangrar.

António leva a mão à sobrancelha e encara o resultado. Fica transfigurado a olhar os dedos esticados, e lágrimas começam a surgir lentamente e a escorrer-lhe pelo rosto. Cerra os punhos, encosta a cabeça. Helena mostra-se preocupada, levanta-se e vai sentar-se do outro lado da mesa, ao lado dele, para confortá-lo.

HELENA
Pronto, António. Pronto. O que foi?

ANTÓNIO
Desculpa, desculpa. Isto é stress. E mal estar. Tudo junto. Não ligues. Que vergonha...

HELENA
Vergonha de quê, António? Tens de ter cuidado contigo. Olha, precisas de tomar qualquer coisa quente. Deixa-me ir buscar...

ANTÓNIO
(virando-se para ela de repente, agarrando-lhe no casaco)
Não vás, fica aqui.
(Pousa a cabeça no ombro dela)
Sabe bem. Incomoda-te?

HELENA
Claro que não.
(Afaga-lhe o cabelo)
Vá, descansa. Já passou. O que quer que tenha sido. Temos de limpar isto.
(começa a tratar-lhe da ferida com guardanapos que retirou do dispensador da mesa)


António queixa-se de dor. Riem-se ambos.


ANTÓNIO
Sou um bebé crescido.

HELENA
Com barba e dois metros de altura. Alguém te deu um murro?

ANTÓNIO
Bati com a cabeça... Fiquei meio atordoado.

HELENA
(em tom de brincadeira)
Não tinha notado...


Continua a tratar dele. António fecha os olhos.


ANTÓNIO
Sabe mesmo bem. Há muito tempo que não cuidavam assim de mim.

HELENA
Então para que servem as tuas amigas de ocasião?

ANTÓNIO
Ó Helena, já nem essas tenho. Até isso se perde com a idade.

HELENA
Qual é o mal de ter-se cinquenta?

ANTÓNIO
É o cansaço, Helena. Ver o que se alcançou a fugir-nos das mãos e ser preciso recomeçar. Começar a vida de novo. (Pausa) Não me via a fazer isto com esta idade.

HELENA
O quê?

ANTÓNIO
Sabes, sempre quis ter filhos. Queria tê-los cedo, como os meus pais. Queria chegar a esta idade com filhos já crescidos, talvez casados, e ter netos. Não sei porquê. Talvez a continuidade, não sei. Sempre me senti confortável rodeado de juventude. Mas depois a Maria adoeceu e não pode engravidar. E decidi ficar ao lado dela. Pensei, ainda pensei muito, em deixá-la e ir atrás desta vontade. Mas não me sentia bem abandoná-la. E gostava dela.

HELENA
E no fim ela deixou-te...

ANTÓNIO
Deixou-me com os meus sonhos por realizar. Este é um dos meus cansaços.

HELENA
Podes sempre encontrar alguém mais novo, e concretizar esse sonho.

ANTÓNIO
Não seria o mesmo sonho. A mesma família. E não posso ir à procura porque me apaixonei entretanto...


Helena fica calada durante uns instantes. Nota-se que ficou afectada pela última observação, mas persegue outro assunto.


HELENA
Foi o teu destino. Não se consegue lutar contra isso. Nem prever o que vai acontecer.

ANTÓNIO
(Pausa. Parece ponderar no que Helena disse)
Não tenho medo do futuro. Só tenho medo de não ter futuro. Que não aconteça nada de extraordinário.

HELENA
Não tens medo de morrer?

ANTÓNIO
Não... já não tenho.

HELENA
Eu tenho. Imenso. Às vezes ponho-me a pensar, se soubesse o dia da minha morte não ia aguentar a expectativa. Tentava suicidar-me antes.

ANTÓNIO
Isso é uma contradição.

HELENA
(rindo-se)
Talvez. Mas o conhecimento seria insustentável. Saber que tudo o que nós fazemos, todas as nossas preocupações mais pequenas, tudo isto vai desaparecer naquele dia, naquele instante, e a nossa história, seja ela qual for, é ali que acaba. O ponto final. Não te assustaria?

ANTÓNIO
Mas não se pode fugir a isso... Não interessa mais qual a história que se vive até acontecer? Que tenha um desenlace? Que não fiquem pontas soltas?

HELENA
De que é que estás a falar?

ANTÓNIO
Imagina o seguinte. Estavas a começar uma relação. Estavas ainda na fase em que podias sair sem grandes mágoas, em que não sabes bem no que é que vai dar. Uma relação é um nevoeiro cerrado. Não vês o fim do caminho, não sabes o que vai acontecer. Isso até faz parte do interesse de uma nova relação. Mas imagina que o dia ficava claro. Imagina que o nevoeiro se levanta por umas horas e dão-te a conhecer o desenlace. Se calhar vais casar, ter putos e ficar para sempre junto da pessoa, ou então divorciam-se passados vinte anos, cheios de dívidas e de mágoas. Se calhar só dura seis meses, até encontrarem pessoas melhores. Se calhar gostam muito um do outro, mas o trabalho ou uma guerra afasta-vos e acabam por arrefecer e esquecerem-se um do outro. Imagina que sabes logo à partida que não vai durar para sempre. O que fazes? Decides mesmo assim arriscar?

HELENA
Não sei... é como o dia da morte, não é? Se já sabes o fim, onde é que está a graça? Tudo o que fizeres, todas as tuas escolhas, sabes que não há fuga possível. Vais estar sempre a pensar que vai acabar daquela maneira. Vale então arriscar, fazer?

ANTÓNIO
Mesmo que venha a ser a paixão mais intensa de toda a tua vida? Negarias, por muito breve que fosse, vive-la?

HELENA
Não sei, nunca amei assim... É preciso amar de verdade a outra pessoa... (Pausa) Isso é uma ideia extramente romântica, António. Não te sabia assim romântico.


Ele sorri. Ela baixa os olhos, fazendo a pergunta que temia.


HELENA
Isso que tu disseste... é o que estás a sentir por essa pessoa?

ANTÓNIO
Não consigo deixar de pensar nela dia e noite. Sinto-me como um adolescente.

HELENA
E ela... sente o mesmo por ti?

ANTÓNIO
(docemente, virando-se para ela)
Não sei. Sentes?

HELENA
(subitamente comovida)
António! Já não me faziam corar há imenso tempo.

ANTÓNIO
Fica-te bem. Pareces uma adolescente.

HELENA
Adolescente com rugas à mistura... Então e os teus sonhos? Os teus filhos? A tua família grande? Não te vais arrepender mais tarde?

ANTÓNIO
Esse não é o nosso destino. É outro.

HELENA
Como é que podes ter tanta certeza? O dia clareou, e viste o fim do caminho?

ANTÓNIO
(sorrindo, afagando-lhe as mãos)
Só tenho a certeza do que sinto por ti. E do dia de hoje. E de que nos espera uma grande história. Juntos.


Um telefone começa a TOCAR de forma insistente. António e Helena são totalmente alheios ao som.

Helena toca-lhe no rosto, comovida. Olham-se durante uns instantes. António inclina-se para ela. Beijam-se.

O telefone continua a tocar.

(continua na próxima quinta-feira)



autoria de Luís Filipe Silva

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