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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

Um (Outro) Homem

30 Janeiro 2006


(primeira parte)




O inferno é vermo-nos nos olhos dos outros.
Paulo Castilho, Fora de Horas


O ponteiro toca o ponto no espaço que marca a menor distância até ao algarismo 9, e ditado por uma força superior à sua bestialidade de ferro, o comboio apita, resfolegando um jacto branco de humidade quente. A óbvia alusão dos Hollywood movies dos anos 50 irrompe à superfície, um dejá vu a preto e branco entre imagens definidas duma película de celulóide. O cinema bafiento, e no escuro uma mão que avança, insegura nos seus primeiros passos como uma criança. Ele que não vem. O trepidar da besta força-me a subir para a carruagem, dependurar-me da porta aberta, a mala desconfortavelmente presa na mão, fazendo-me desequilibrar, puxando-me de volta à desilusão agreste do apeadeiro.

Já devia cá estar. Disse-lho expressamente. Dez e quarenta e cinco. Nem um segundo a mais. A ligação estava má, mas eu repeti várias vezes, 10:45, o comboio para Toledo. Comprei-te o bilhete. Vem.

Vem e não tragas nada. Não tragas o teu passado embrulhado num saco como um conjunto de memórias descartáveis em jeito de rotinas e subrotinas de programas, sentimentos a que se acedem quando se torna necesssário demonstrá-los. Não quero que me reveles que és assim. Abandona-a com carinho, e com a dor da separação a que os trâmites obrigam. Não lhe mostres frieza. Por minha causa, não sejas cruel; ela foi a companheira dos primeiros vinte anos da tua maturidade. Entendo tudo por que passou, sinto com o seu corpo o toque das tuas mãos que se afastam, gradualmente, até restar não mais que um conjunto de recordações desgastadas pelo uso, e uma sombra da tua presença. Vejo-me com os seus próprios olhos, e tremo ante o ódio e despeito que neles adivinho. Sei que nada é mais poderoso do que o ódio de uma mulher traída  e nenhuma vingança mais cruel. Como gostaria de te ter conhecido, então, livre de todos os impedimentos, quando ainda eras um pedaço de barro mal formado. Teria suavisado as tuas arestas, até que cada parte se unisse e desse lugar a outra numa transposição mansa e soberana. Teria vestido de carne os teus membros e feito amor contigo na metafórica ilha deserta do quarto de hotel barato onde nos encontrávamos à sucapa, escondidos dos outros, como ladrões na noite. Teríamos descoberto este mundo novo juntos, imaculados na mútua e sublime ignorância do que significa a palavra frustração. Teria sido a tua mulher, a tua segunda mãe. A minha paixão aquecer-te-ia, derretendo o gelo, expulsando a humidade, para que, passo a passo, o barro se tornasse carne, e a carne calor. Da minha boca receberias o sopro da vida. E o teu primeiro gesto seria envolveres-me com os teus braços, como um amante, ou um filho.

Como gostaria de te ter conhecido quando ainda eras virgem. Por que tenho medo, muito medo, da experiência. Quando as palavras perderam já todo o encantamento, estão velhas, cansadas. São múltiplas as recordações que as acompanham, e muito poucas as que não se derretem num nevoeiro de insensibilidade e repetição. A experiência é uma terra seca e estéril onde o último poente aconteceu há muito. O companheiro é reduzido a uma grelha de características em evidência, às quais se responde através de um padrão pré-determinado, para se obter o efeito desejado. Como a subtil leitura das entre-pálpebras, na convexidade reflectora das pupilas. Estão dilatadas, as minhas? Dizem que é sinal de paixão, de desejo. Os apaixonados comunicam assim, em silêncio, uma corrente violenta de luz batendo e fazendo ricochete nos olhos de cada um, até perderem a individualidade e transpôrem o limite físico dos seus sexos, como um espelho reflectindo-se ad infinitum.

Tu deste-me isso. As pupilas dilatadas, o silêncio. Na alvorada, um quarto desarrumado de hotel cheirando a desinfectante; no vazio gelado da atmosfera, dois corpos. Duas manchas rosáceas no pigmenteado da fotografia, à margem, no limite do enquadramento; quase invisíveis - e no entanto, a vista é imediatamente atraída para elas, porque nelas está o calor e a vida, o significado da existência, a compensação da aridez. Vi as tuas pupilas dilatadas, e depois vi as pálpebras caídas, tremendo como um bebé com frio, ao te apoderares dos meus seios. E agora não te vejo no corredor longo da plataforma de embarque, não ouço a tua pressa, pulando sobre as malas desmaiadas no chão, insinuando-te por entre os obstáculos de pessoas lentas e indiferentes, não leio no teu rosto o medo de me perderes. O comboio ainda não partiu: um problema qualquer com um passageiro, disse o revisor, a polícia anda aí à procura dele. Não lhe dei atenção. Ainda há tempo, ainda há esperança. Vem.

Se estivesse em casa, telefonava-te outra vez. Mas não posso voltar a casa, jamais. Ele deve ter regressado do emprego, agora; já deve ter arrumado o Mercedes no fundo da garagem, onde a humidade da manhã não consegue penetrar. Está a ler o bilhete. Imagino-o a voltar constantemente ao início, à frase onde digo que me vou embora, parto com outro homem; o resto são só instruções. Vai buscar uma bebida; prepara um uísque, Glen Livet aged 12 years, mas não lhe junta gelo, desta vez. Precisa dele bem forte. Senta-se com um copo na mão, e depressa se esquece dele. Esquece-se do bilhete também, e fica entorpecido no sofá, o corpo bruscamente despojado de alma, com os olhos de peixe sem água. E na sua mente, uma pergunta incessante corre em torno da cabeça de leitura: em que foi que falhei em que foi que falhei em que foi que. Nunca irá compreender porque me terei ido embora, justamente quando, na sua ideia, tudo estava bem connosco, pois ele fora promovido a Director-Geral, pois o miúdo tinha-se revelado um pequeno prodígio ao representar na peça de Natal do colégio, pois até eu conseguira um pequeno reconhecimento com o trabalho de aguarelas que lá me ia distraíndo e ocupando enquanto ele trabalhava. Tudo na sua ideia, tudo tão tipicamente seu, sem ver o que o rodeava, sem me ver. Perceberá ele alguma vez? Entenderá o real significado da minha mensagem? Ou a culpa continuará a ser apenas e somente minha?

Atrás da pureza angelical do nosso matrimónio, concedida por força do milagre de uma declaração sacerdotal e da benção do juízo alheio que ele tornou na medida do nosso sucesso, escondia-se um grito. O meu grito, o meu terror. Do que aguardava escondido pelo cenário. Do que atacava no momento de felicidade: rasgando as paisagens falsas, pintadas, com as suas garras entumescidas, irrompendo por elas. A besta feroz, o monstro negro e disforme com uma enorme faca sobressaindo do meio do abdómen, húmida de sangue. E depois tudo acontece em poucos segundos. A besta agarra nos espectadores e esmaga-os com as mãos. Incapaz de me conter, grito. Entro em pânico, sinto-o crescer dentro de mim, a contorcer-se com sofreguidão para se libertar das cordas que o prendiam; sinto-o a ganhar uma voz, a tomar uma mão, a apoderar-se de um corpo só seu. Um corpo que deixa de me pertencer. Entro em pânico, e perco. O monstro nota-me. São os gritos que o atraem, gritos horrivelmente agudos e que vêem da única pessoa que não está a fugir, para muita surpresa sua. Estou consciente do que faço, mas não me consigo calar, não consigo persuadir as pernas para me levarem a um sítio seguro. Observo com horror, a que não falta a sua dose de puro e primitivo fascínio, a mão enorme a avançar para mim; nada a detém, nada pode impedir a sua progressão. Está escrito, num texto a que não tenho acesso, que aquela será a mão da minha morte, e que ela cairá sobre mim, aqui, neste lugar, neste tempo.

Acordo no meio de um grito calado, a garganta ressequida, tremendo de frio e de medo. Ele remexe-se a meu lado e manda-me estar quieta. Aos poucos, a realidade sólida do édredon sobre o corpo faz-me acalmar e aquecer. O sonho recua, esconde-se num dos inúmeros recessos que o esquecimento possui, e depressa as trevas se devem somente à noite - omnipresente, mas não maligna. Sinto que escapei à morte, que renasci. Tenho uma vontade enorme de viver. Não volto a dormir; não consigo, tenho de partilhar a alegria com alguém, inundar o poço da solidão com a luz do contacto, por entre as lágrimas de luar que atravessam as frechas das cortinas. A minha mão ganha vida; viro-me para ele e começo a mordiscar-lhe ao de leve a orelha, sussurando palavras de vento; procuro-lhe o pénis, acaricio-o. Digo que o quero, que o desejo mais do que à própria vida.

E morro quando me rejeita. Morro sempre, de todas as vezes. Até quando cede e faz amor comigo - porque não o faz por amor, obedece a uma condição estipulada no contrato de casamento; apressa-se, foge, encerra a consciência numa prisão interior a que ninguém tem acesso. E quando termina, nem sequer finge que gostou; abandona-nos, a mim e às minhas lágrimas, no nosso lado da cama, e comeca a roncar, muito baixinho. Não faz barulho nenhum, é como se ali nao estivesse, em todos os sentidos.
Ao final de tantas repetições, acabei por desistir, por optar ir ver a sessão nocturna da tv por cabo, um copo de leite numa mão e um Valium na outra, à espera que o sono chegasse. Algures ao longo do caminho, sem me aperceber, ele havia-se tornado, primeiro no meu irmão, e depois num estranho, alguém que dormia na mesma cama e vivia na mesma casa. As grandes paixões da vida dele eram, agora, o filho e o trabalho – ou sempre tinham sido. Duvido que tivesse alguma vez sido uma paixões legítima, verdadeira. Se não fui antes um modo de iludir a solidão, de agarrar uma companheira e mostrar-me na medida do seu sucesso.

Gera-se barulho no fundo da estação. Os meus olhos voam para lá, aumentam de potência. Será ele, a querer irromper pelos portões à minha procura mas sendo bruscamente agarrado pelos controladores? Não saberá que tem de dar o nome na recepção, que o ticket se encontra lá reservado? Deverei sair, será ele?

Mas depois a confusão desvanece-se e varios polícias irrompem pela plataforma, alguns fardados, outros à paisana. Quatro entram no comboio, enquanto os restantes montam guarda cá fora, encostados ao lado das portas, ou protegendo-se entre as carruagens da composição em frente da nossa, as pistolas e metralhadoras automáticas em punho. Os passageiros, atraídos como moscas ao mel, assomam-se de imediato às janelas, especulantes, àvidos de um espectáculo inesperado e gratuito. Vistos do sítio em que me encontro, fazem-me lembrar a imagem de uma granja moderna, galinhas com os pescocinhos enfiados pelas aberturas a aguardar a chegada da ração. Eu amaldiço-os a todos, à sua curiosidade mórbida, à frieza perante o sofrimento alheio. Estou desesperada, porque um pensamento acabou de brotar do terreno em que se insinuara há algum tempo.

Será ele que os policias procuram?

(continua aqui)




autoria de Luís Filipe Silva

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