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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

Época de Caça

04 Fevereiro 2006


(segunda parte)



Como a vida muda! Há três dias apenas, Jonah planeava passar o fim-de-semana calmamente com Julia, sozinhos na casa de Aurora, pois Mike decerto seria convidado para acampar ou ir para a cidade ou dormir na casa de um amigo, como costumava acontecer. O filho tinha apenas dezasseis anos e era já a estrela das redondezas, o rei dos recreios da escola. Possuía o carisma que Jonah nunca sentira em si próprio - pelo menos, durante a juventude, antes de iniciar carreira e ter de tomar responsabilidades sobre os ombros - e cuja falta ele temera, durante anos, que fosse transmissível à descendência. Receios infundados, pois Mike parecia estar no bom caminho de qualquer executivo ou político na sociedade do seu país, ou seja, ser adorado pelas pessoas. Embora, como todas as pessoas de idêntica estirpe que Jonah encontrara na vida, depressa percebesse como era uncool relacionar-se muito de perto com o pai, e daí o afastamento, apenas o procurando nos momentos de grande necessidade pessoal, ou seja, dinheiro e o carro. Por outro lado, talvez fosse uma reacção tardia ao divórcio. Pai e filho nunca tinham abordado o assunto.

Mas poucas horas depois o tocar do telefone viria mudar por completo o destino.

Não que Marvin tivesse planeado as outras reuniões com muita antecedência. O acordo tácito era de que todos compareceriam, independentemente dos seus afazeres, compromissos ou responsabilidades - excepto, como é óbvio, por motivos graves. Viriam sozinhos e sem desejo de companhia. Aqueles não eram encontros para arranjar amantes. Não se efectuavam por falta de ideias. O propósito era quase sagrado (para alguns, sabia Jonah, era-o deveras). Por essa razão, quando alguém planeava juntar o grupo, estabelecia uma data próxima. Para não haver falhas. Para ninguém poder mudar de ideias. A única diferença estava no curtíssimo prazo imposto por Marvin. E os europeus! Conseguir-se viagens aéreas naquelas condições era, na perspectiva de Jonah, uma quase impossibilidade física.

E ele aceitara de imediato. A sua boca dissera sim com facilidade. Sentindo na carne a provação de cinco anos. Na boca o sabor a pólvora queimada. No canto dos olhos o reflexo de um personagem ágil e jovem cuja existência, cujos sonhos e ódios em muito diferiam da sombra apagada em que se tornara. O tempo de espera tinha acabado.

Ninguém se lembrava mais dele, finalmente, o que era bom. O editor aguardava ansiosamente pelo novo livro, mas Jonah não o tinha ainda começado. Escrever sobre o quê? Os temas faltavam-lhe. O que havia na sua pacata rotina de consultas esporádicas e um ou outro discurso, na sua absoluta preguiça para efectuar investigação, que o inspirassem no projecto de um volume de ficção ou ensaio? Estava contente com a família que tinha, com a casa e o local onde a tinham mandado erguer. Adorava a mulher, que, como confessara a Marvin, lhe roubava a energia, levando-o a discotecas e bares nocturnos, a espectáculos de live-sex, fazendo-o manter-se acordado durante noites inteiras quando se encontrava com os seus amigos  encontros a que ele fazia questão de ir; em suma, tentando manter o mesmo ritmo de glândulas que tinham pouco mais de metade dos anos das suas mas muito mais do dobro da produtividade. Sentia-se, em parte, ridículo, um veterano quarentão metido com a malta dos vinte-e-alguns anos. Mas sabia que tinha de combater esse sentimento, de acompanhar Julia, se a quisesse manter. Mesmo que fosse uma ilusão. Tudo para não acabar sozinho.

Tinha sido mais fácil cinco anos atrás. Jonah era um espírito alado, livre dos grilhões do casamento e encarando a vida como um lago cheio de promessas aberto a mergulhadores. Começou a vestir-se mais jovialmente, mudou o aspecto e a atitude. Aos trinta e nove anos encontrava finalmente o à-vontade suficiente para encarar uma audiência de desconhecidos e fazê-los rir e aplaudir com a sua forma de ser, não por que fosse ele o professor da aula. Compareceu nos talk-shows mais famosos de então como estrela em ascensão, o eminente psiquiatra e expert amador em fenómenos insólitos que acabara de escrever o primeiro livro de ficção. As entrevistas foram, em parte, conseguidas pelo editor, mas o seu estilo agradou às câmaras, e depressa estava a comparecer em debates diferentes, a falar com personagens que tinham alguns poder no esquema das coisas. O livro foi um sucesso, e Jonah passou de «confortavelmente abastado» a «extensamente folgado», financeiramente falando. Começou, também, a interessar as mulheres, sem dúvida atraídas pela imagem de um divorciado divertido e polémico com interesses peculiares, histórias interessantes para contar e bastante dinheiro.

Resumidamente, foi assim que encontrou Julia, a simpática filha de colombianos cujo objectivo pessoal era fazer psiquiatria com base na experimentação química do cérebro.

E pensar que apenas dois anos antes, Jonah situara-se na fronteira de um esgotamento nervoso de grande intensidade. Decorria o divórcio de Barbara. Nos dias em que havia audiência, Jonah levantava-se com dores de cabeça, pois tinha consciência do que se iria seguir: a espera interminável. O jargão incompreensível dos advogados, constantemente em guerra um com o outro, usando manobras e fintas como jogadores da NBA. O lento e doloroso dissecar das manias do casal, das pequenas guerras e egotismos e até atitudes sexuais. O retrato de Jonah como um sacana que demolira o casamento com as suas ausências inexplicáveis e prolongadas, com a negligência pela educação do filho, com as maneiras rudes que adoptava ao dirigir-se à família e colegas, com a indiferença sexual à mulher, com a suspeita do adultério. Os olhares silenciosos dos elementos do júri, autorizados pelo desprezo mal contido do juiz. A sua voz firme quando depunha. As acusações ensaiadas. O proferir de opiniões que prometera a si próprio esquecer. De frases que nada lhe diziam, mas cujo efeito em tribunal estava assegurado. E durante todo o tempo, a sensação de que se encontrava numa peça, na interminável repetição das mesmas frases e movimentos que muitos haviam feito antes de si e muitos outros prosseguiriam, em benefício de uma tradição, ou de um sistema, que apenas lhe trazia desconforto a ele e incómodo a todos os outros actores. Os únicos que pareciam vivos eram os homens das leis... talvez a representação fosse em benefício deles - era a alucinação de Jonah nos momentos em que a dor de cabeça ficava mais forte - talvez o verdadeiro público seja o que está no púlpito dos jurados, a apreciar com a atitude ensaiada durante anos nos cinemas e na televisão.

Não tinha sido o pesadelo em que se tornaria mais tarde; no início, o casamento prometia. Barbara provinha de boa família, europeia, que a considerava a sua dádiva especial ao mundo. Reflectia o cuidado e o esmero que os pais haviam incutido na sua educação. Sabia apresentar-se perante uma audiência, tinha ideias e opiniões, e uma vontade de ferro quando era preciso. De simples professora na faculdade, passou a consultora do gabinete do Mayor e mais tarde começaria a pensar numa carreira política independente. Defendia os valores das mulheres e a liberdade de expressão nas escolas contra associações de pais demasiado preocupados com a educação liberal, não católica, dos professores de liceu. Barbara era uma mulher de valor, e uma mãe excelente. Jonah reconheceu de imediato as qualidades, e durante os primeiros anos, quando a paixão ainda fervia, não pediu mais da vida, com receio de que a sorte virasse a cara.

Mas então o passado voltou para assombrá-lo. Conheceu Marvin e Sergei e Joost. Tratou-os na mesma instituição, no mesmo ano, o mais estranho período da sua vida. As reuniões começaram, relativamente no mesmo período em que o casamento se começou a deteriorar.

Por sua culpa, reconhecia agora. Mas algo não estava bem consigo, então. Não podia culpar-se da forma com que tratava Barbara, por que isso era apenas o efeito de um problema maior. O problema que o acompanhava desde os dez anos, quando era miúdo e vivia sozinho com o pai numa terriola do Kansas. Quando perdera o pai e tivera de mudar-se para Minneapolis, para casa dos tios da mãe. Se encontrasse tamanha agressividade num paciente seu, aconselhá-lo-ia de imediato a entrar num programa terapêutico. Como era o próprio médico, a negação teve efeitos mais eficazes. O problema não se evidenciou como tal até ser tarde de mais. Até perder Barbara e o casamento, e durante algum tempo, Mike, que só voltaria para si porque a mãe tinha ido trabalhar para o estrangeiro.

Devia ter aprendido, dizia para consigo mesmo ao guiar o carro velho e desconfortável por milhas de pedra ressequida, de pó moído e asfalto em brasa. Não devia estar de volta. Não devia por em perigo a relação com Julia. Estava a ficar velho de mais para recomeçar outra vez a vida, para passar por outro divórcio. Mas pusera-se facilmente a caminho. Como um maldito bêbado que não tem escrúpulos em pegar de novo na garrafa e afogar a consciência, esquecido das sessões dos Alcoólicos Anónimos, esquecido da promessa.

Mas tinha sido tão bom dizer que sim...

(oontinua no próximo sábado)



autoria de Luís Filipe Silva

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