UN CERTAIN REGARD
09 Março 2006
Regard conheceu Deus no centenário do dia em que o pai abandonara a família, e não considerou que fosse coincidência. Não havia coincidências no mundo. Estava escrito.
Era o que a madrinha me dizia, que também era a minha terceira mãe, embora segunda do gémeo e primeira dos cinco mais novos. O gémeo não chegara à vigésima primavera, perecendo vítima da praga dos ventos das colheitas, no início do século; mal o conheci, pois parte da família tinha decidido mudar-se para o perímetro dos Territórios, atrás do pai, numa tentativa pouco feliz ou bem sucedida de lhe incutir vergonha na cara – e assim, o irmão da minha carne, poucos anos mais novo do que eu, fora acometido pela alergia fulminante, salvando-me no processo. Saí da redoma genética recondicionado mas estranhamente mais afectado pelo desaparecimento dessa criança, que eu conhecia tão mal, que a do meu antecessor – e como me emancipara entretanto, decidi proibir novas tentativas de clonagem. A madrinha, regressada e conformada, acabaria por escolher ter prole própria por partogénese. Os genes do meu pai, ou de qualquer outro homem, não voltariam a constar da linha de descendentes da família. Eu era, afinal, a única prova física da passagem daquele homem.
Recordações? Talvez ainda as tivesse, se durante a terapia me tivessem incentivado o pouco que me lembrava, então, dele. Mas nada se forma definitivamente nos primeiros dez anos de uma vida cinquenta vezes mais longa, e agora nem o rosto me surge sequer em sonhos, não me faz mais diferença. Durante muito tempo tinham-me tentado convencer que morrera, por muito absurdo que pareça (era mais comum morrer-se nesses tempos). Mais velho, descobri que afinal ingressara nos Territórios, talvez numa simulação da Primeira Guerra entre as Nações. Confesso que uma vez tentei procurá-lo nas listagens, tentei entrar como jogador, mas o Território em causa já não existia, e a máquina não me podia revelar o percurso desse utente sem autorização. A tentação de ficar por ali foi enorme, e debati-me durante meses, até que tive de tomar uma decisão. Foi assim que cresci. Se é que cresci.
Assumindo parte da culpa (nunca cheguei a saber a verdadeira causa daquele abandono de lar tão definitivo), as minhas mães não quiseram que a falta de uma presença masculina dificultasse o meu crescimento espiritual, e assim, sem dúvida apoiadas por uma terapeuta, alugaram-me uma vida emprestada. Várias, aliás, ao longo do tempo. Pertenço desta forma à geração que cresceu e se fez homem na cabana do Pai Tomás, no tempo dos verões preguiçosos e da simplicidade, que embarcou em expedições de corsários como timoteiro, que se apaixonou perdidamente por uma miudinha sardenta cheia de caracóis de nome Matilde. Vidas que contribuíam para o meu crescimento emocional, para me preparar para o mundo e suas batalhas. Da maior parte delas tenho boa memória – melhor que a da realidade monótona -, mas pessoalmente teria dispensado a Matilde. O objectivo era apaixonar-nos e depois sermos abandonados, e aprender a lidar com essas emoções. Mas não há nada de belo em apaixonarmo-nos por um personagem. Um amor que jamais será concretizado não ajuda a enfrentar a perda, como se refere até nos vários grupos de entreajuda dos antigos apaixonados por ela. Preferi enfrentá-la à minha maneira: deixei que entrasse nos meus sonhos. A cura definitiva chegou naturalmente, sem terapias: o Mosteiro.
O Mosteiro. Três mil toneladas e outros tantos milhares de anos concentrados numa estrutura maciça, inviolável e imponente, na planície de Regalis, dominando mais de metade da pequena nação. Constituido por lances de espirais que ascendiam aos céus até perder de vista, como troncos de árvores infinitos convergindo para o mesmo ponto celeste, encontrando-se no caminho, entrelaçando-se. Dois destes troncos eram tão altos, dizia-se, que chegavam ao eixo. E contavam as lendas que a intenção não era parar aí, mas chegar ao outro lado do mundo, tornar-se numa ponte física entre os dois hemisférios, e que apenas questões de engenharia, ou quiçás financeiras, se tinham intrometido. O que não impedia que fosse imponente nesta manifestação particular. Que os grandes caules dominassem a planície com a cor de ébano, absorvendo a luz e energia locais. Que se apresentasse ao longe com a sua fachada de múltiplas expressões artísticas, um fóssil vivo da evolução histórica e cultural da Comunidade. A criação do Mosteiro antecedia a das próprias nações, era quase tão antigo como o mundo. O que implicava que tinha atravessado duas guerras, várias conjunturas políticas, vira nascer e morrer espécies concebidas – e de alguma forma, os artistas que lhe animaram o rosto sentiram-se na obrigação de escrever uma história da História. Se o sopé era filho do Pragmatismo, as figuras convolutas que se moviam nos pequenos dramas nas alturas traíam as origens Impressionistas, numa mistura de Integralismo com Síntese. Um painel mostrava a concepção do Mosteiro, uma procissão de arquitectos e religiosos em torno de maquetes virtuais e as lutas e decisões e compromissos assumidos num drama animado. Mais acima contos de guerra, as explosões ferindo a face da estrutura, que logo se recompunha para ser de novo destruída. Faunos e sátiros representavam a cobiça e a estupidez humanas. E por cima de todos, estava Deus. Uma figura imponente e branca, impossível de fixar na retina pois a imagem fugia e só pelo canto do olho nos conseguíamos aperceber dos contornos, da beleza.
Aquele era o Mosteiro onde moldaria a alma. Uma alma que sentiu, logo de início ser muito pequena. Uma alma que teria de crescer e expandir-se e encher aquele bonsai monstruoso. E isso só iria conseguir após muito tempo, mesmo muito tempo.
Chegado aos sessenta anos, a madrinha decidiu que era tempo de eu escolher um rumo para a vida longa, e contribuir para o desenvolvimento do espírito. Uma ideia que rejeitei a início, envolvido que estava no rodopio próprio da juventude. Mas estar e pertencer ao mundo dos homens era algo que já me cansava, e gerir o processo produtivo – tornara-me no principal responsável por uma central de distribuição local de energia – não me dava a mesma satisfação que tinha dado. Além de que, pela terceira vez, atravessara uma relação longa e complicada, com fim à vista, e não tinha muita vontade de iniciar uma outra tão cedo. «Estás a fazer de mais, tens de começar a ser», disse-me ela, e fui deitar-me indeciso, mas acabei, ao acordar para um dia de rotina nada apetecível, por dar-lhe razão.
O Mosteiro foi a escolha inevitável. Os sacerdotes costumavam passar em peregrinação pelas nossas cidades, figuras altivas de robes negros e sabedoria nos olhos que tinham sempre uma atenção amável para com as pessoas, mesmo que incomodados pela incompreensão dos mais novos, como eu. Por muito tempo, aquele estado de espírito incomodou-me: como era possível não se ser produtivo? Abdicar da nobre função de criar e colocar no mercado? Ser-se assim tão abertamente parasita? Além de me incomodar o distanciamento, que sempre li como sendo arrogância, e o afastamento dos prazeres terrenos. Para que servia aquela gente afinal?
Numa conversa fortuita com um dos que passava, apercebi-me de que havia resposta.
- Deus conhece todos os nossos actos e adivinha os nossos pensamentos. Está a ver-nos agora – e apontou para um das dezenas de olhos electrónicos que guardavam o bar.
- A colecção de dados privados não pode ser considerado abuso das liberdades individuais? – perguntei. O missionário sorriu. Emanava dele uma calma perturbadora, quase magnética, como se possuísse um segredo terível que o fazia estar para além da vida, para além da atenção.
- Deus surgirá aos nossos olhos pelo menos uma vez antes do nosso momento final. A quem necessite surgirá mais do que uma vez. A alguns orienta, a outros simplesmente comenta. É o nosso espelho, mas não nosso escravo. A salvação está em ti.
- E se houver alguém a quem não surge?
- Surgirá a todos. Tem sido assim desde o início dos tempos.
- Todos necessitam de salvação?
- Tomos necessitamos. Mas só Deus conhece quem atravessará o Portão.
- Eu necessito?
- De que outra forma, irmão, saciarás esse teu desespero?
Estremeci.
- Acordas sem propósito, enumeras os momentos da tua vida passada como marcos que atingiste mas sem saber porquê. Os objectivos parecem-te banais, pois já passaste por eles e não conheces outros. Sentes que há mais por descobrir mas não sabes o quê. Sentes que tens de fazer uma viagem mas não conheces o destino. Estás numa depressão profunda porque nada mais te entusiasma, tudo te parece familiar. Em suma, estás farto de ti próprio. Procuras a mudança
- É um bom sumário... – comentei com algum constrangimento.
- Eu já estive onde te encontras agora, irmão. Mais uma bebida? – colocou a ordem. – Este mundo não nos prepara para entrarmos na etapa da vida dedicada à contemplação. Ainda temos em nós o mecanismo animal de executar e mostrar resultados. Mas diz-me: faz sentido ensinar quando ainda não se aprendeu? Faz sentido criar quando ainda não se acabou de nascer? O caminhar do mundo é lento de mais para se perceber num século, talvez num milénio. Se pudéssemos ver pela perspectiva de Deus, as montanhas revelar-se-iam ondas e a terra, um mar agitado. Somos formigas no tempo. Não conhecemos toda a verdade.
- Aconselhas-me a aguardar.
- Aconselho-te a observar. Mas não precisas de o fazer sozinho. A contemplação surge mais facilmente quando é orientada e partilhada – estendeu-me a mão. Trocámos contactos. – Vem ter connosco quando estiveres preparado.
Foi assim que me encontrei, um dia, no caminho para o Mosteiro.
3 Observações:
observação de
lotusazul, 1:34 AM
lotusazul, 1:34 AM
Teu conto e tuas palavras, deixaram-me sentindo quanto sou infantil em minhas historias e contos.Enriqueceu-me, porem senti-me vasia de intencoes.M"ANNA.
observação de , 7:24 PM
Obrigado pelo comentário, mas não deve sentir-se assim. A melhor forma de aprender a escrever e melhorar a escrita é observar o exemplo dos mestres: Umberto Eco, João de Melo, etc. E viver - viver muito e intensamente. Escrever sobre o quê e com que autoridade, se ainda não foi vivido? Boas escritas.





E parece que valeu a pena esperar.
Que continues a partilhar connosco, os ávidos das palavras, os teus contos. Bem hajas!