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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

The Welcome Wagon

16 Agosto 2006

(trabalho em progresso)



Quando conheci Jane, ela não acreditou que eu vinha do Inferno. Prova, dizia ela. Mas de que forma, perguntava eu, sem te levar comigo, algo que decerto não queres que aconteça ainda. Ela ria-se, julgando-me a brincar, ou fazia-me cócegas com os pés se estivessemos na cama, e dizia Conta-me algo que só quem vem do Inferno saiba. Ao que eu respondia: É possível morrer no Inferno. Isso não faz sentido nenhum, dizia ela. Pode não fazer sentido, Jane, mas é assim. E para onde vai quem morre no Inferno? Existe algum ultra-Inferno? Um Inferno de grau dois? Não sei, dizia eu, não morri, apenas sei que nunca ninguém voltou. Jane ficou convencida de que era um grande disparate, pelo que a surpresa acabaria por ser grande quando chegou ao Inferno – e depois, para sua infelicidade, ou melhor dizendo, ingenuidade, acabou por morrer lá antes de mim e ficar na posse de todos os factos. Como todos os outros, não voltou para me contar.

Morrer no Inferno é, contudo, substancialmente diferente de morrer no plano existencial do universo. Nesse ponto, Jane teria razão ao dizer que não fazia sentido. O problema está na condição peculiar dos pontos de passagem entre este plano e o Inferno, que são poucos e bizarros, ao contrário de outros planos. Nem sequer há possibilidade de escolha do destino, pelo que fui obrigado a convencê-la de que a forma mais segura era cortar os pulsos. O suicídio era das poucas transições garantidas (o livro religioso que tantos conheciam, embora tivesse muita ficção misturada, trazia algumas indicações preciosas e verídicas). Não foi fácil, pois desistia à última hora, o que era uma grande frustação para os meus intentos. Acontece que uma das poucas formas de abrir portais de passagem entre este mundo e o outro era no preciso momento em que uma alma humana se separava do corpo e transpunha a membrana da existência. Bem orquestrado, conseguir-se-ia manter o portal aberto o tempo suficiente para outros elementos passarem também, quer para cá quer de regresso a casa. Era preciso no entanto estar precavido, preparar devidamente a alma, informar de quando e como o outro lado... entendem agora a minha função. Para finalmente a convencer, disse que a acompanharia, e cheia de culpa e vergonha não teve forma de escapar-se. Foi de mestre.

Ainda me lembro de uma das ultimas perguntas, enquanto nos esvaíamos em sangue na banheira (eu tendo feito cortes mais finos e tendo à mão gel coagulante que colocaria assim que ela fechasse os olhos), que Se era possível morrer-se no Inferno, não seria possível nascer-se também?

Nunca ouvi falar de tal feito, disse-lhe eu. A própria ideia é horrível. Quem desejaria tamanho mal a um ser por existir?

Mas este pensamento não me abandonou desde então. Não é que lhe dê muita importância. Mas se iniciei esta história com este pequeno aparte, foi porque me pareceu relevante no contexto do que vou em seguida contar: o surgimento de Jake, e de como veio a encabeçar o Comboio de Acolhimento das almas recém-chegadas ao Inferno, virgens e deliciosamente ignorantes.

(...)
autoria de Luís Filipe Silva

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