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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

Um (Outro) Homem

31 Janeiro 2006


(segunda e última parte)



Esforço-me por esticar a cabeça, para ver. Um guarda acena-me para voltar para o comboio. Leio o perigo nos seus olhos e obedeço sem hesitação. Não se ouve um único som em toda a estrutura; as próprias máquinas estão caladas, como se a importância da situação tivesse despertado nelas uma consciência latente. Os corações parecem bater em uníssono, uma gigantesca pulsação que abala o ferro e a carne, e os faz estremecer até à fundação das próprias raízes. E a cada batida, grito uma súplica arrancada da alma, uma palavra cega, um pedido: Não! Ele não!

Mas o que sei verdadeiramente da sua vida, a não ser o que me contou? Um guia turistico para uma empresa privada, estava habituado a passar vários dias, por vezes semanas, longe de casa. A mulher não gostava, dizia-lhe que não passava de um caixeiro-viajante sem maleta de amostras. O que o ofendia imenso, pois amava a profissao. Via-se pelo brilho especial nos olhos quando descrevia o aspecto de uma terra, os hábitos do povo, a história que os havia transportado até aquele lugar, aquele momento. As palavras floresciam na boca dele como se inventadas com o único propósito de servir a presente narrativa. Mas não havia igual emoção, não havia emoção nenhuma, quando o pensamento se voltava para a mulher, para as discussões. Ela apenas queria que ele arranjasse um emprego de escritório, qualquer coisa rotineira e previsível em que o pudesse sentir perto de si, controlado. Receava as constantes ausências prolongadas. E de certo modo, era um receio com razão, pois sem estas nunca nos teríamos encontrado. Nunca teria havido espaco e tempo e paciência para dançarmos em torno de nós mesmos, e cumprirmos os passos necessários de um ritual que, embora velho de milénios, requer que o descubram de cada vez que é cumprido. Morava numa cidade distante, mas a minha ficava em caminho de quase todas as rotas. Viamo-nos de tempos a tempos, os encontros pautados por um sabor a fome e nostalgia antecipada. Depois, quando eu e o meu marido nos mudámos para a sua nova destacação no sul, ficámos muito, muito perto da cidade em que ele morava. Foi uma época maravilhosa para todos, pois não só eu andava mais satisfeita e calma em casa, como a esposa dele ficou deleitada ao saber da sua nova recusa por excursões longas.

Ele era a minha alma gémea. Fez-me florescer, na época em que pensei não ter mais nada a aguardar da vida. Ao seu toque, abri-me como uma rosa pela manhã. Um processo tao espontâneo e incontrolável que me assustou de início. Ria como uma miudinha no primeiro namoro, um riso há muito esquecido. Tremia ante o aperto dos braços fortes, quando me beijava ou me conduzia ao leito. Eu, que sempre me gabara de segurança e maturidade, temia agora ser vista como tímida e imatura para a sua experiência de homem. Sim, transformou-me. De outra forma, nunca teria encontrado coragem para sair de casa. Sinto pena pelo meu filho. Mas estará melhor com o pai - são, afinal, unha com carne, ramos do mesmo tronco; não precisam do apêndice.

Há um tiro. As cabeças recolhem-se, com excepção da minha. Um homem salta do comboio para o apeadeiro. Um polícia grita Alto! e aponta a pistola. Os companheiros imitam-no prontamente.

Ao contrário dos filmes, não vejo heroismo mas cautela. Eis a verdadeira violência, que magoa e mata, chocante e brutal, sem romantismos à mistura. O homem parece bastante ciente da situação, pois empalidece ao ver a meia dúzia de pistolas e metralhadoras apontadas para si, comandadas por outros homens, que não estão dispostos a correr riscos, que não irão trocar a vida por um segundo de hesitação. Deixa cair a arma no cimento, e ergue os braços, derrotado. Os guardas avançam para o prender, cautelosos ainda, de pistolas em riste.

Quando finalmente o conduzem, algemado e cercado por uma forte rede de segurança, para fora da estação, posso confirmar a minha suspeita: não é ele. A cara é magra e esquálida, os ossos muito vincados. Sangue escorre por uma ferida sobre a sobrancelha, desenhando um traço fino ao longo do rosto, até se deter no poço do colarinho. Não passa de uma figura patética e ridícula, que nem sequer foi abençoada com uma boa aparência. Falta-lhe no entanto o porte do criminoso, assemelha-se mais a uma vítima - mas não o parecerão todos, não se desculparão igualmente nas circunstâncias da ocasião, na fraqueza da vontade quando chegou o momento de escolher entre a moral e a satisfação? Pergunto-me que mal terá ele feito, condoída, que crime teria cometido para merecer tamanho esquadrão de caça? Como detestaria fazer parte do júri, ter de avaliar com imparcialidade o caso daquele homem sem ser toldada pela pena que me invadia ante a visão de tão miserável figura...

E quando tudo termina, a besta estremece. Um apito soa. Vagarosamente, despertando da letargia, a composição começa a avançar, libertada das amarras com o cais de pedra. Na lentidão própria das coisas inevitáveis, o edificio diminui, afasta-se, as figuras e vidas dos habitantes tornando-se tao insignificantes quanto a perspectiva. A plataforma onde aconteceu o drama perde já a magia do momento, ganha a da recordação. Olha-se para o cinzento da sua extensão, e é cinzento que se vê, pedras embebidas em betão seco no qual permanecem cinco ou seis derivados de macaco, erectos, a tentar convencerem-se de que foi um destino sapiente que os colocou no mundo, e não o acaso. Ele não veio.

Não devias esperar outras coisa. Não esperavas sinceramente escapar impune depois do mal que fizeste, ao teu marido, ao teu filho, à mulher dele, a ti mesma? Sim, estás livre, conseguiste. Era o que querias, ele foi só uma desculpa. Admite. Confessa. Agora estás sozinha e vais chorar para um canto. Livre e sozinha. Como sempre quiseste estar.

O futuro ergueu-se ante mim, naquele momento. Um futuro tão distante, insólito e frio quanto a viagem que agora iniciava. A viagem que faria sem ele.

- O que se passa? Porque estás a chorar?

Viro-me mais rápida que a luz.

Lança-me um sorriso calmo, embora pareca intrigado.

- Atrasei-me um bocado, e com toda aquela confusão... Espero que não tenhas...

- Cala-te - digo-lhe por entre lágrimas de alegria, percebendo que esta história irá, afinal, ter um final feliz. És a minha segunda oportunidade de viver, digo-lhe sem transformar o pensamento em palavras. - Falas de mais.

E dou-lhe um beijo, que dura o resto da minha vida.

(FIM)



Amadora, 1990



autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

Um (Outro) Homem

30 Janeiro 2006


(primeira parte)




O inferno é vermo-nos nos olhos dos outros.
Paulo Castilho, Fora de Horas


O ponteiro toca o ponto no espaço que marca a menor distância até ao algarismo 9, e ditado por uma força superior à sua bestialidade de ferro, o comboio apita, resfolegando um jacto branco de humidade quente. A óbvia alusão dos Hollywood movies dos anos 50 irrompe à superfície, um dejá vu a preto e branco entre imagens definidas duma película de celulóide. O cinema bafiento, e no escuro uma mão que avança, insegura nos seus primeiros passos como uma criança. Ele que não vem. O trepidar da besta força-me a subir para a carruagem, dependurar-me da porta aberta, a mala desconfortavelmente presa na mão, fazendo-me desequilibrar, puxando-me de volta à desilusão agreste do apeadeiro.

Já devia cá estar. Disse-lho expressamente. Dez e quarenta e cinco. Nem um segundo a mais. A ligação estava má, mas eu repeti várias vezes, 10:45, o comboio para Toledo. Comprei-te o bilhete. Vem.

Vem e não tragas nada. Não tragas o teu passado embrulhado num saco como um conjunto de memórias descartáveis em jeito de rotinas e subrotinas de programas, sentimentos a que se acedem quando se torna necesssário demonstrá-los. Não quero que me reveles que és assim. Abandona-a com carinho, e com a dor da separação a que os trâmites obrigam. Não lhe mostres frieza. Por minha causa, não sejas cruel; ela foi a companheira dos primeiros vinte anos da tua maturidade. Entendo tudo por que passou, sinto com o seu corpo o toque das tuas mãos que se afastam, gradualmente, até restar não mais que um conjunto de recordações desgastadas pelo uso, e uma sombra da tua presença. Vejo-me com os seus próprios olhos, e tremo ante o ódio e despeito que neles adivinho. Sei que nada é mais poderoso do que o ódio de uma mulher traída  e nenhuma vingança mais cruel. Como gostaria de te ter conhecido, então, livre de todos os impedimentos, quando ainda eras um pedaço de barro mal formado. Teria suavisado as tuas arestas, até que cada parte se unisse e desse lugar a outra numa transposição mansa e soberana. Teria vestido de carne os teus membros e feito amor contigo na metafórica ilha deserta do quarto de hotel barato onde nos encontrávamos à sucapa, escondidos dos outros, como ladrões na noite. Teríamos descoberto este mundo novo juntos, imaculados na mútua e sublime ignorância do que significa a palavra frustração. Teria sido a tua mulher, a tua segunda mãe. A minha paixão aquecer-te-ia, derretendo o gelo, expulsando a humidade, para que, passo a passo, o barro se tornasse carne, e a carne calor. Da minha boca receberias o sopro da vida. E o teu primeiro gesto seria envolveres-me com os teus braços, como um amante, ou um filho.

Como gostaria de te ter conhecido quando ainda eras virgem. Por que tenho medo, muito medo, da experiência. Quando as palavras perderam já todo o encantamento, estão velhas, cansadas. São múltiplas as recordações que as acompanham, e muito poucas as que não se derretem num nevoeiro de insensibilidade e repetição. A experiência é uma terra seca e estéril onde o último poente aconteceu há muito. O companheiro é reduzido a uma grelha de características em evidência, às quais se responde através de um padrão pré-determinado, para se obter o efeito desejado. Como a subtil leitura das entre-pálpebras, na convexidade reflectora das pupilas. Estão dilatadas, as minhas? Dizem que é sinal de paixão, de desejo. Os apaixonados comunicam assim, em silêncio, uma corrente violenta de luz batendo e fazendo ricochete nos olhos de cada um, até perderem a individualidade e transpôrem o limite físico dos seus sexos, como um espelho reflectindo-se ad infinitum.

Tu deste-me isso. As pupilas dilatadas, o silêncio. Na alvorada, um quarto desarrumado de hotel cheirando a desinfectante; no vazio gelado da atmosfera, dois corpos. Duas manchas rosáceas no pigmenteado da fotografia, à margem, no limite do enquadramento; quase invisíveis - e no entanto, a vista é imediatamente atraída para elas, porque nelas está o calor e a vida, o significado da existência, a compensação da aridez. Vi as tuas pupilas dilatadas, e depois vi as pálpebras caídas, tremendo como um bebé com frio, ao te apoderares dos meus seios. E agora não te vejo no corredor longo da plataforma de embarque, não ouço a tua pressa, pulando sobre as malas desmaiadas no chão, insinuando-te por entre os obstáculos de pessoas lentas e indiferentes, não leio no teu rosto o medo de me perderes. O comboio ainda não partiu: um problema qualquer com um passageiro, disse o revisor, a polícia anda aí à procura dele. Não lhe dei atenção. Ainda há tempo, ainda há esperança. Vem.

Se estivesse em casa, telefonava-te outra vez. Mas não posso voltar a casa, jamais. Ele deve ter regressado do emprego, agora; já deve ter arrumado o Mercedes no fundo da garagem, onde a humidade da manhã não consegue penetrar. Está a ler o bilhete. Imagino-o a voltar constantemente ao início, à frase onde digo que me vou embora, parto com outro homem; o resto são só instruções. Vai buscar uma bebida; prepara um uísque, Glen Livet aged 12 years, mas não lhe junta gelo, desta vez. Precisa dele bem forte. Senta-se com um copo na mão, e depressa se esquece dele. Esquece-se do bilhete também, e fica entorpecido no sofá, o corpo bruscamente despojado de alma, com os olhos de peixe sem água. E na sua mente, uma pergunta incessante corre em torno da cabeça de leitura: em que foi que falhei em que foi que falhei em que foi que. Nunca irá compreender porque me terei ido embora, justamente quando, na sua ideia, tudo estava bem connosco, pois ele fora promovido a Director-Geral, pois o miúdo tinha-se revelado um pequeno prodígio ao representar na peça de Natal do colégio, pois até eu conseguira um pequeno reconhecimento com o trabalho de aguarelas que lá me ia distraíndo e ocupando enquanto ele trabalhava. Tudo na sua ideia, tudo tão tipicamente seu, sem ver o que o rodeava, sem me ver. Perceberá ele alguma vez? Entenderá o real significado da minha mensagem? Ou a culpa continuará a ser apenas e somente minha?

Atrás da pureza angelical do nosso matrimónio, concedida por força do milagre de uma declaração sacerdotal e da benção do juízo alheio que ele tornou na medida do nosso sucesso, escondia-se um grito. O meu grito, o meu terror. Do que aguardava escondido pelo cenário. Do que atacava no momento de felicidade: rasgando as paisagens falsas, pintadas, com as suas garras entumescidas, irrompendo por elas. A besta feroz, o monstro negro e disforme com uma enorme faca sobressaindo do meio do abdómen, húmida de sangue. E depois tudo acontece em poucos segundos. A besta agarra nos espectadores e esmaga-os com as mãos. Incapaz de me conter, grito. Entro em pânico, sinto-o crescer dentro de mim, a contorcer-se com sofreguidão para se libertar das cordas que o prendiam; sinto-o a ganhar uma voz, a tomar uma mão, a apoderar-se de um corpo só seu. Um corpo que deixa de me pertencer. Entro em pânico, e perco. O monstro nota-me. São os gritos que o atraem, gritos horrivelmente agudos e que vêem da única pessoa que não está a fugir, para muita surpresa sua. Estou consciente do que faço, mas não me consigo calar, não consigo persuadir as pernas para me levarem a um sítio seguro. Observo com horror, a que não falta a sua dose de puro e primitivo fascínio, a mão enorme a avançar para mim; nada a detém, nada pode impedir a sua progressão. Está escrito, num texto a que não tenho acesso, que aquela será a mão da minha morte, e que ela cairá sobre mim, aqui, neste lugar, neste tempo.

Acordo no meio de um grito calado, a garganta ressequida, tremendo de frio e de medo. Ele remexe-se a meu lado e manda-me estar quieta. Aos poucos, a realidade sólida do édredon sobre o corpo faz-me acalmar e aquecer. O sonho recua, esconde-se num dos inúmeros recessos que o esquecimento possui, e depressa as trevas se devem somente à noite - omnipresente, mas não maligna. Sinto que escapei à morte, que renasci. Tenho uma vontade enorme de viver. Não volto a dormir; não consigo, tenho de partilhar a alegria com alguém, inundar o poço da solidão com a luz do contacto, por entre as lágrimas de luar que atravessam as frechas das cortinas. A minha mão ganha vida; viro-me para ele e começo a mordiscar-lhe ao de leve a orelha, sussurando palavras de vento; procuro-lhe o pénis, acaricio-o. Digo que o quero, que o desejo mais do que à própria vida.

E morro quando me rejeita. Morro sempre, de todas as vezes. Até quando cede e faz amor comigo - porque não o faz por amor, obedece a uma condição estipulada no contrato de casamento; apressa-se, foge, encerra a consciência numa prisão interior a que ninguém tem acesso. E quando termina, nem sequer finge que gostou; abandona-nos, a mim e às minhas lágrimas, no nosso lado da cama, e comeca a roncar, muito baixinho. Não faz barulho nenhum, é como se ali nao estivesse, em todos os sentidos.
Ao final de tantas repetições, acabei por desistir, por optar ir ver a sessão nocturna da tv por cabo, um copo de leite numa mão e um Valium na outra, à espera que o sono chegasse. Algures ao longo do caminho, sem me aperceber, ele havia-se tornado, primeiro no meu irmão, e depois num estranho, alguém que dormia na mesma cama e vivia na mesma casa. As grandes paixões da vida dele eram, agora, o filho e o trabalho – ou sempre tinham sido. Duvido que tivesse alguma vez sido uma paixões legítima, verdadeira. Se não fui antes um modo de iludir a solidão, de agarrar uma companheira e mostrar-me na medida do seu sucesso.

Gera-se barulho no fundo da estação. Os meus olhos voam para lá, aumentam de potência. Será ele, a querer irromper pelos portões à minha procura mas sendo bruscamente agarrado pelos controladores? Não saberá que tem de dar o nome na recepção, que o ticket se encontra lá reservado? Deverei sair, será ele?

Mas depois a confusão desvanece-se e varios polícias irrompem pela plataforma, alguns fardados, outros à paisana. Quatro entram no comboio, enquanto os restantes montam guarda cá fora, encostados ao lado das portas, ou protegendo-se entre as carruagens da composição em frente da nossa, as pistolas e metralhadoras automáticas em punho. Os passageiros, atraídos como moscas ao mel, assomam-se de imediato às janelas, especulantes, àvidos de um espectáculo inesperado e gratuito. Vistos do sítio em que me encontro, fazem-me lembrar a imagem de uma granja moderna, galinhas com os pescocinhos enfiados pelas aberturas a aguardar a chegada da ração. Eu amaldiço-os a todos, à sua curiosidade mórbida, à frieza perante o sofrimento alheio. Estou desesperada, porque um pensamento acabou de brotar do terreno em que se insinuara há algum tempo.

Será ele que os policias procuram?

(continua aqui)




autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

El Condor Pasa

29 Janeiro 2006


(primeira parte)



Maypin kanki wawqeykuna, qapaq pachamama
Mayakuna, Inkakuna, pikuna manan kaypiñachu.

0.1233
Esgaza agarrou-o porque pensava ser puto Coca-Cola, mas não era: pálido ultra, cor zero, a não ser olhos vermelhiraiados. Dedos a agitar o ar, pernas espasmáticas. Forma de falar, mas eu não entendia.

Esgaza diz: M’rda, é um puto avatar.

Eu: Tamos em cagada, Andrak vai não-gostar.

Esgaza aguenta-se pouco em nervosos. Balbucia. Bebé chorão. Um dia leva com petardo. Meu se não primeiro de qualqueroutrém inimigo. Sacudo mais a ele que ao puto.

Eu: nossa missão? Dar cabo dos Coca-Cola. Pensávamos Coca-Cola este. Engano humano ser.

Esgaza: ele olhagrava-nos. Sabes tipo d’olhos que tem.

Eu: conta não, nem pouco maisoumenos.

Guinchou porcinamente ao queimarmos olhos dele. Foi ultrassom guincho, para orientação. Olhos que não vêm mas gravam: boca que não fala mas vê. Ficou a bater em paredes, no quarto fechado, guinchos para lá e cá e acolá como se inacreditando no momento.

Eu, pensando lesto: putos avatares têm riqueza às vezes.

Esgaza seguiu gesto para lábaixo. Sorriu. Cortámos-lhe tomates, talvez senhor proteger queira riqueza própria, ou adversário compre genes secretos dele. Trocos quasicertos – senhores gostam lançar putos em mundo, fazer proles bastardas. Depois cabeça dele foi chão com força, Esgaza bom nisso. Botas dele boas. Puto estremeceu pernis, depois quedo.

Andrak ia não-gostar mas, situação agora calada, podia talvez-aceitar.


0.52323
Andrak impercebeu: Esta unidade não comete enganos desta natureza! Não chamamos a ira dos senhores sem um contrato na mão! Sem um contrato na mão, não temos seguro. Não temos protecção política. Temos todos os senhores contra nós. Entendem? Soldado 34A, tem a obrigação de avaliar antes de disparar. E o soldado 23B – olha mim – tem o dever de controlar.

Quedo fico. Falar inresulta. Andrak razão-plena. Esgaza frágil em nervosos. Há fazer melhoras. Agendo acção mais tardiamente. Agora: Andrak fala, razão-plena, também culpamento-me. Quedo estóico palestra toda. Andrak acalma-parece.

Andrak fala: E a razão porque não há falhar é porque não somos mais Comandos Corporativos menores. Estamos na boca do mundo. Quem interessa conhece-nos e fala de nós. E digo com orgulho que somos os melhores. Hoje, homens, temos finalmente uma missão digna do nosso valor.

Fico orelhistico. Ficamos. Ansiosos, outrostodos atentam às verbinovas.

Andrak mostra mapa de país. Peru no forno: nosso nome pró que resta Perú pós megaterremoto. Lima debaixo d’água, ainda a secar. Vale desértico ficou lago ou poça grande. Refugiados e presos e laboratórios experimentais e centros armas radicais e mais m’rda ali em meio a zona inrefeita. Ninho ratazanas grandesigordas, pois, esquecido mundo. Catástrofe década que foi. Nosso novo destino?

Andrak: Este é o nosso destino. A Montanha Habitada – imagem roda-que-roda, cai, aumenta, entranhas do Perú, montanha junto ao mar, casulos que apartamentos e outros habitáculos, muita guarda -, que para quem tem estado a dormir nos ultimos dez anos é o maior centro habitacional do mundo, um ninho de ratazanas bioterroristas, carteis de droga e megacomplots políticos. Como podem imaginar está recheada de protecção de primeira, tecnologia de guerra que ainda nem foi aprovada pelas forças militares do planeta, mercenários caídos em desgraça e que não têm nada a perder, forças de elite lideradas por antigos membros do Sendero Luminoso treinadas nos campos de Las Palmas, e uma legião de desterrados das zonas baixas que preferem perder a vida a voltar para casa. Nunca uma força organizada conseguiu penetrar nestas defesas, ou se entrou, não terá conseguido sair. Um desafio à altura de uma equipa como a nossa.

Entreolhares. Sentidos mais que feitos. Disciplina não permite. Mas sei quepensam.

(continua no próximo domingo, 5 Fev)



autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

Época de Caça

28 Janeiro 2006


Primeiro Acto

Se pretendesse descrever a viagem como uma história, Jonah teria de começar pelo lugar-comum mais famoso entre os pretendentes a escritor: a noite encontrava-se húmida e sufocante.

A noite encontrava-se húmida e sufocante, e Jonah deslocava-se a 90 milhas por hora, num claro desrespeito às leis da condução interestadual, em pleno carro aberto, recebendo no rosto toda a pujança de uma atmosfera um tudo-nada mais respirável do que a de uma sauna. A T-shirt colava-se-lhe ao tronco, e tinha de constantemente limpar a testa com o lenço, para evitar que o suor manchasse os óculos escuros e impedisse a visão. De vez em quando, vociferava sonoramente, sons que faziam eco nas pedras, onomatopeias e descrições fisiológicas contra um Marvin que, estando agora a menos de cinquenta milhas (distância que diminuía), lembrara-se, dois dias antes, de convocar a reunião à pressa, «para aproveitar o bom tempo, antes da época de férias». De quando em vez, lançava uma praga na direcção do Mike, cento e setenta milhas atrás de si (distância que aumentava), que devia estar agora completamente envolto pelos habituais sonhos húmidos de adolescentes, possivelmente recordando com pormenor os acontecimentos que tinham conduzido ao acidente com o Lotus e sem sentir o mínimo remorso pelo pai, obrigado a remediar-se com o jipe de caixa aberta na travessia do Arizona.

Podia ser pior, dizia para consigo. Podia ser dia. Podia o enorme e inclemente sol encontrar-se no meio do céu. Podia ser bastante pior.

Não conseguia ser muito convincente, nem para consigo próprio.

* * *



Marvin, que agora media os seus seis pés de altura, adquirira um porte digno e respeitável durante os anos de serviço nos Marines, e era tratado por mister ou tenente-coronel, sir!, fora, durante a adolescência, um rapaz negro incapaz de coordenar o corpo que crescera em demasia para a idade, tentando sobreviver dentro de uma comunidadezinha de província, em pleno sul dos Estados Unidos. A sua postura curvada e tímida de então revelava muito sobre a educação humilde que recebera dos pais e sobre as dificuldades com que estes cedo o haviam responsabilizado, por ser o primeiro de uma procriação de sete a nascer. Frequentou a escola por que era obrigatório e por que o Sul atravessava a sua primeira crise de consciência pós-Martin Luther face às raças em desvantagem. Marvin aprendeu a ler e a escrever e a recitar os nomes dos cinquenta e dois estados em ordem alfabética, emperrando, como acontecia a todos os miúdos, quando chegava aos O's, e o pai dele entreteve-se a gerir, ao seu modo muito especial, os cheques do welfare destinados à instrução primária dos dependentes do agregado familiar. Duas das suas irmãs também tiveram sorte, e foram entregues aos cuidados da igreja, transformada, todas as manhãs dos dias úteis, em sala de aula, e de onde se podia espreitar a Interestadual e sonhar com carros e viagens e destinos diferentes na vida.

Em breve, os cheques deixariam de vir, e, quer Marvin quer as duas miúdas quer até os restantes irmãos quando chegou a idade deles, seriam entregues aos cuidados dos donos das lojas locais, para ajudar no serviço diário e na limpeza da casa, ou iriam tratar do gado nas grandes fazendas da redondeza, o que consistia em cuidar da limpeza das instalações, inspeccionar os animais em busca de sinais de doença, e conferir as cabeças que iam sendo enviadas e recebidas do mercado.

Marvin nunca esqueceria as palavras do pai. Que a culpa de ter sido obrigado a deixar de estudar para dedicar os dias a limpar a merda das vacas era daquele actor na Casa Branca, lá no Leste.

O destino diferente na vida acabaria por surgir, na forma de um camião de mercadorias que se deteve o tempo suficiente no café onde Marvin grelhava hamburgers para lhe roubar a atenção. Parou junto da janela a observar a liberdade feita crómio e cavalos-vapor. Não era, nem de longe, a primeira máquina do género que encontrava nem havia nela uma beleza particular que a destacasse das outras da sua lembrança. Decerto não se tratava de um Lamborghini, extremamente raros naquelas paragens, o que justificaria tanto fascínio. Na verdade, tratava-se de um camião de mercadorias que percorrera estradas de mais com cargas pesadas de mais, e que mostrava sinais desse abuso. Mas a fixação continuou, obstinadamente.

Então, deve estar em mim - pensou. Algo diferente que acordou comigo, hoje. Que tenta dizer-me alguma coisa.

Foi extremamente fácil arranjar boleia. Foi menos fácil dar um beijo de despedida na testa da irmã que era a criada do local e dizer-lhe que transmitisse à família que ficaria bem. Quando atravessou a rua ao encontro do destino os pés iam leves. Todo o corpo flutuava. De maneira que, ao recordar em tempos posteriores, não se lembrava de fazer força na porta e no apoio para os pés para ascender à cabina do condutor, mas de ter pairado, suavemente, no ar, a gravidade terrestre desprendendo-se do corpo com a facilidade de um desejo.

Seria encontrado, anos mais tarde, no Golfo Pérsico, envolvido numa guerra que aconteceu porque, segundo parecia, não apetecera a ninguém encontrar uma solução melhor. Então, já teria singrado na Marinha e encontrado um lugar no nicho do mundo, onde podia dar ordens e ser respeitado e marcar diferença. Tornou-se tenente-coronel devido às suas acções no campo de batalha, e regressou ao país coberto de glória e influência.

Por vezes, enviava uma carta aos irmãos.

O modo como se iria envolver com Jonah e as reuniões especiais é, como este diria se fosse ele a escrever o conto, uma história completamente diferente.

* * *



Quando Jonah chegou à pequena vila de South Polem, o sol encontrava-se a meio da corrida para dar lugar a outra noite, e havia no ar um cheiro persistente a pó, poeira moída durante séculos pelos fortes ventos da planície, que se agarrava às narinas e às mãos e à roupa, fazendo-o sentir que se encontrava no Velho Oeste e tinha vindo a cavalo durante todo o caminho, dormindo no meio do restolho.

A vila não mudara em nada. Jonah atravessou-a sem demoras, observando os poucos transeuntes que deambulavam por ali, alguns a passearem os cães, outros simplesmente sentados nos alpendres a observar o trânsito. Como sempre acontecia, a imagem fê-lo lembrar-se do pai, de cachimbo na boca e botas pousadas sobre a balaustrada quando a Mãe não estava a ver. Misturava-se com a figura do avô, de quem recordava os olhos envelhecidos, as mãos cobertas de manchas de fígado e a magreza característica da fase terminal do cancro - de modo que deparava-se, no território da memória, com um velho sentado no alpendre, um velho tão surpreendido quanto ele próprio, e que era o seu pai. Mas não era uma memória real, não acontecera. O cérebro tinha aquela mania: tornava concreto o que era apenas desejo; por vezes, enganava o dono, fazendo-o mergulhar numa doce ilusão, apenas para mais tarde acordá-lo para a dolorosa realidade.

E por vezes, nem sequer era sonho, mas pesadelo, pensou Jonah, atravessando a rua principal, passando pelo mall, pela bomba de gasolina, pela loja de peças de automóveis, pela casa do quiropractor, atravessando a vila sem parar, saindo dela sem sucumbir ao desejo de entrar num café e lavar a garganta cheia de pó, avançando pela estrada que indicava já o rumo de outra terriola, a cinquenta milhas de deserto de distância, uma nova viagem, vendo por fim o motel de estrada - justamente quando South Polem minguava até se tornar numa silhueta de papel no horizonte que se podia observar pelo retrovisor -, o anúncio de néon semi-apagado a convidar os condutores, o parque familiar da entrada. Tinha chegado.

Não havia nenhuma reserva à sua espera. Se tivessem lugar para si, tudo bem; senão, far-se-ia à estrada de novo, regressando a South Polem e procurando uma residencial qualquer que o abrigasse durante aquela noite. Não seria, contudo, necessário: se tinha havido uma vez na vida do motel em que se encontrara cheio, devia ter sido por obstrução da estrada onde ficava e também de todas as que faziam ligação com ela, por deixar de haver uma forma qualquer que fosse de sair dali. Apenas pernoitavam os maridos e mulheres das cidades próximas que pretendessem concretizar rapidamente a escapadela ao matrimónio, e os jovens que saciavam a curiosidade. De modo que os donos estavam habituados a refrear a curiosidade e ser o mais discretos possíveis. Aliás, a pena de Jonah era de não existirem mulheres no grupo: dariam ainda menos nas vistas.

Como esperava, havia dúzias de quartos vagos. Alugou o número 12, a primeira vez que ficava com ele, dando o seu nome verdadeiro - ideia de Marvin, dizendo que, se fizessem o contrário, quem, eventualmente, os andasse a investigar, teria mais um motivo para ficar desconfiado. Não regateou o preço, não pediu nenhum quarto específico. Respondeu normalmente a todas as perguntas do dono e apenas fez uma: se podia estacionar o carro nas traseiras. Deu a entender que apenas queria descansar para prosseguir viagem. Meteu-se no carro e conduziu-o devagar para o sítio indicado.

Marvin encontrava-se à espera.

Não tinha envelhecido muito, notou Jonah de imediato (tendo entrado na corrida para a quinta década de vida, começava a preocupar-se com futilidades, como a aparência), mas viam-se perfeitamente as diferenças. O cabelo continha mais fios brancos, o rosto, em particular a região em redor da boca, era contornado por mais rugas de expressão; o olhar estava mais duro. Era sinal da Guerra, mas havia algo mais; uma intensidade nova. A curiosidade profissional de Jonah ficou imediatamente alerta.

- O que aconteceu ao Lotus? - perguntou Marvin, avançando ao encontro dele de mão estendida.

- Não se deu muito bem com o Mike - apertou-lhe a mão. Continuava forte e firme como sempre, a mão de um soldado. - Oxalá te tivesse encontrado mais cedo, para te seguir o exemplo. Por vezes, pergunto-me qual a utilidade dos filhos.

- Podem tornar-se em bons militares. E Barbara? Continuam separados?

- Divorciados. Aliás, casei de novo. Uma autêntica brasa, vinte e cinco anos. Tira-me completamente o fôlego.

- É bom sabê-lo, Jonah. Um homem precisa sempre de uma mulher ao lado dele. E tu merece-lo.

- Às vezes, gostava que tu desses ouvidos aos teus próprios conselhos... - rematou amigavelmente Jonah. - Quando é que te vejo dar o nó?

- Tu conheces-me. Haverá alguma mulher que consiga aturar-me?

- Não estamos a ficar mais novos...

- Não - e de súbito, a conversa agradável ficou por ali, o reencontro completado, passando-se de imediato aos assuntos sérios. Aliás, Marvin parecia extremamente ansioso em abordá-los. - Já chegaram todos.

- Sou o último, então? Bem, digamos que não me deste muito tempo para os preparativos. Estão todos bem? Já se encontraram?

- Estão a jantar. Combinámos no meu quarto às 8 horas. Número quinze. Jonah - e Marvin encarou-o com muita seriedade -, trouxe uma pessoa nova.

- Sim? - Jonah perscrutou-o atentamente. Marvin não era dado a impulsos irracionais, pelo que ele não perdeu tempo com suspeitas inúteis. Decerto que se acautelara com a segurança do indivíduo. Mas Jonah não podia deixar de sentir-se intrigado. Marvin era a última pessoa de quem podia esperar aquele tipo de iniciativa. O mais normal seria colocar-se contra a integração de novos elementos sugerida por qualquer outro do grupo. - Alguém que conheçamos?

- Não. É um puto da minha unidade. Tem sonhos.

Jonah ficou ainda mais intrigado. Marvin, o tenente-coronel intocável, a associar-se com os seus militarmente inferiores? O que se estava a passar?

- Foi contactado? - Jonah perguntou num outro tom de voz, cauteloso.

- Não se lembra. Teve uma crise de nervos há uns meses, o que o tornou incapacitado para continuar no serviço activo. Falei com o médico. Por vezes, há certos tipos que são fiteiros, que se ofereceram como voluntários para provar aos amigos ou aos pais que são homens, mas depois não aguentam e inventam esgotamentos mentais para se livrarem. Mas este parecia genuíno. Evocava períodos de violência em ambientes estranhos, com monstros. A sensação de ter de fugir era recorrente. E havia um ceptro.

Jonah sentiu um arrepio frio na espinha, o choque do reconhecimento.

- Julguei que quisesses falar com ele... - concluiu Marvin.

- Quero. O que lhe disseste?

- O mínimo. Não sabe nada dos nossos propósitos. Mas desconfia que está relacionado com esses sonhos.

Jonah assentiu, trabalhando mentalmente a abordagem que faria.

- Muito bem. Dá-me meia hora para abrir as malas.

- Faz isso, toma um banho, come qualquer coisa. Instala-te. Estaremos à tua espera.

(continua aqui)



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Encontros Imediatos

27 Janeiro 2006


A minha lembrança do primeiro encontro é quase jornalística. Eram dez e trinta e dois minutos da noite de quinze de Junho de mil novecentos e noventa e três, precisamente seis meses após o meu décimo oitano aniversário, e cerca de cem dias desde que o charter havia transferido para esta terra o meu corpo, esquecendo-se da alma na ilha. A lua brilhava no alto, envolta numa névoa amarelada, e estava quente, abafado, num prenúncio aos dias eminentes do Verão. O asfalto reflectia os faróis dos carros, que corriam de janelas abertas e braços de fora; imaginava os condutores com os colarinhos desabotoados, com o suor a caír-lhe pelas bochechas encarnadas, partilhando a noite com a máquina inumana. Os poucos anúncios de néon piscavam sem convicção. Eram sempre os mesmos, faziam parte da paisagem, como as casas - já não os lia. As estrelas mal se viam, relegadas para segundo plano pela sacrílega iluminação de Lisboa. Apenas uma ou outra mais destemida rompia a cúpula e anunciava a sua presença. Machico não apresentaria este céu. Talvez o Funchal; mas Machico estava escondida do progresso, a luz da noite ainda era o luar, e este convidava as estrelas, repousando no oceano. E o oceano tornava-se infinito, unia-se ao céu e cobria este de ondulaçöes. As estrelas pareciam cintilar em virtude destas ondulações. Mas não em Lisboa.

Catarina estava irrequieta. Saltava do banco para o passeio, espreitava para a estrada, dava uma pirueta, espreitava de novo, retornava para junto de mim, repetia o ritual. Os poucos transeuntes que passavam lançaram-lhe olhares dúbios, cautelosos, mostrando as defesas erguidas ao máximo de quem receia encontrar, de noite, algum maluco. Espreguicei-me no banco. Sentia-me aborrecido. A estrutura da Mãe D'ågua repousava, silenciosa e desapercebida, junto a nós. Olhei para os arcos, para o aqueduto no alto, pensei na água. Na água que na cidade fluía debaixo do chão, corria por cima das pessoas, rios invisíveis cerceados por condutas de ferro e a necessidade de um conforto superior. A água corria escondida, e quando inundava as ruas de asfalto era uma calamidade. Tinha ainda presente o incidente de semanas atrás, em que o mar tombara dos céus, implacável, e cobrira a Baixa como um manto, lavara a pedra dos passeios, apagara as frases de revolta, vermelhas e inchadas, que surgiam de súbito, como uma bofetada, no olhar, desfeando as fechadas já de si sujas. A água tocara a pedra, suavizara as suas cortantes arestas, e o povo, o povo minúsculo, reclamara, de sapatos numa das mãos e peúgas na outra, calças arregaçadas, pé ante pé a atravessar o rio indesejado, a porção da natureza onde não devia existir nada natural - apenas fumo de gasolina queimada e pressa. Açougueiros, padeiros, directores, caixas, advogados, pedintes: a multidão seguia pela Rua Augusta como filhos do mesmo útero. E eu, observando o espectáculo pela televisão, pensei: eis o grande equalizador, mais forte que os sonhos dos samaritanos, mais eficaz que a vontade! E um alívio, um estranho alívio, apoderou-se de mim; como se estivesse a ser vingado... ou a descobrir que, afinal, até as capitais podiam ser purificadas.

Purificadas pelo riso. Precisava disso, no início daquela noite. Catarina começava a irritar-me com os seus maneirismos. Queria-a junto a mim, abraçada, para poder disfrutar ao máximo das sombras e da cumplicidade. Já tinha percebido que não era das mais prestáveis; tinha sido fácil de conquistar, isso sim, mas não avançaria daí. Namorar era a sua situação normal, mostrar alguém às amigas, ter intimidades para trocar em conversa, andar de mãos dadas e aos beijos. Não era um acto nosso, era um acontecimento social. Há quase um mês que andava com ela, mas podia contar pelos dedos das mãos o número de dias em que ficáramos a sós.

- Catarina, pára quieta. Vem cá - chamei-a. Por aquele andar, o rompimento não estaria longe. Não que me importasse muito. Não fora por amor que iniciara o namoro, mais por conveniência: uma forma de me integrar. - Quando é que surgem os teus amigos?

- Não se costumam demorar - disse ela, espreitando de novo para a estrada. Tinha sido outra das suas ideias para colectivizar a nossa relação. Íamos saír com o grupo de motards do irmão dela, presumivelmente para assistir ao espectáculo que uns conhecidos seus pretendiam mostrar num bar. Combináramos para as nove e meia. Eram quase onze horas.

- Talvez fosse melhor irmos para casa - comecei. Fazia-se tarde e conhecia bem a minha mãe. Nunca fora um grande frequentador da noite por sua imposição. Conquistara alguma liberdade quando viera para o continente, deixando-me saír mais vezes e chegar a casa depois da meia-noite. Mas ainda não permitia noitadas.

Suspeitava que a permissão inexplicável se devia à sua ignorância do que acontecia em Lisboa durante a noite. Por que não a frequentava, não era confrontada com os grupos a caír de bêbados e a urinar nas esquinas, com os bandos de cabelos compridos e fatos de cabedal, com as mulheres dos Restauradores a exibir ostensivamente a celulite como se estivessem na praia. Não conhecia, e o meu pai não me elucidava por que ainda vivia na Lisboa dos seus vinte anos, ainda vivia a Revolução dos cravos. Era a ignorância que permitia a minha liberdade. E, pensava eu, há que aproveitá-la, porque não durará muito.

Começava a apreciar verdadeiramente a noite. Fazia-me sentir calmo e apaziguado, o que era estranho, por que não me apercebia conscientemente de qualquer estado de angústia durante as horas do dia. Conscientemente, observava os acontecimentos que me rodeavam sem produzir juízos de valor de monta - desistira deles, não me conduziam a resultado algum. Conscientemente, começava a aceitar a minha vinda, a esquecer-me do passado, a ficar insensível. E, de algum modo misterioso, a noite invertia a hierarquia, dava voz ao íntimo. O brilho hipnótico das luzes amarelas que entorpeciam a vista e nos faziam entrar num estado de sonolência acordado, misturando o sonho com o real, dando-nos a sensação de controlo que por vezes temos a dormir. E as regras mudavam. Os limites ficavam opacos, o horizonte indescirnível. As pessoas permitiam-se comportamentos extremos, por que a ausência da luz tornava belos, quase sublimes, certos actos, escondiam a sua nudez. A coberto da noite, uma bebedeira era uma travessia mágica por uma terra de incertezas e mistério, pontuada até por dificuldades de orientação e lutas internas com o próprio organismo: o trajecto clássico dos heróis das sagas gregas. O espectáculo agonizante do vómito incontido tornava-se na purgação suprema, o sacrifício exigido ao herói para poder voltar a casa, aos braços da realidade nua. Era, sem dúvida, um estranho ritual de afirmação pessoal, de que começava a entender os signos e as recompensas. Tantos mistérios por descobrir na noite, e eu à espera de estranhos.

- Catarina, talvez fosse boa ideia... - mas ela nunca conheceria a minha boa ideia. O trovejar repetitivo de várias motorizadas cobriu o repouso do jardim das Amoreiras.

- São eles, são eles - quase gritava ela. Olhou para mim e acenou-me.

Vi-os a subir rapidamente a estrada, vindos do Largo do Rato. Era um grupo modesto, em termos de número: sete motorizadas, três delas comportando um passageiro à retaguarda. Considerando o que sentiria mais tarde, o primeiro contacto não me causou uma impressão demarcante. Apenas mais um grupo de apaixonados pelas duas rodas a dar nas vistas, como, pensando bem, todos tentavamos dar, à nossa maneira. De blusões negros ou azuis-escuros, luvas de couro e plástico, capacetes de várias marcas, de botas afiladas ou sapatos normais, de calças de ganga ou fazenda, debruçados sobre o guiador, como cavaleiros impiedosos, não passavam de pessoas normais, frequentadores indómitos da noite.

Em breve, mudaria de opinião.

Ascenderam a subida das Amoreiras, enquanto Catarina lhes acenava entusiasticamente, e pararam à nossa volta, cercando-nos e fazendo troar as máquinas. Um dos motards, o condutor de uma Honda reluzente e linda, ergueu a placa do capacete e dirigiu-se à minha namorada. Não o consegui ouvir, e aparentemente, nem ela.

- Parem com isso - pediu Catarina ao grupo, e eles deixaram de fazer barulho com os motores. Pareciam muito interessados em mim. Inconscientemente, acerquei-me dela. Percebi que o condutor da Honda era o irmão dela. Catarina continuou: - Mas onde é que vocês estiveram? Sabem há quanto tempo estamos aqui à vossa espera?

- Pede satisfaçöes ao Morcego. Ele é que nos fez atrasar. Não apareceu a tempo no Guardião.

- Merda, já vos disse - ergueu-se o vozeirão do outro, à minha esquerda. - A bófia confiscou o carro do meu primo e tive de ir com ele buscá-lo.

- Às dez da noite? - perguntou Catarina, incrédula.

- Claro que não! Foi mais cedo. Mas o carro não queria andar.

- As histórias que tu inventas, Morcego - ripostou o irmão de Catarina. - Ficaste a tomar cervejas com o teu primo e esqueceste-te do encontro. Não era a primeira vez.

- E que tal se eu te enfiasse a mão no focinho? - gritou o outro, rispidamente.

- Rapazes, rapazes, calma - soou uma voz apaziguadora. Eles acalmaram-se visivelmente, o que muito me satisfez. O tal de Morcego tinha um porte que ninguém seria capaz de ignorar. Se haveria alguém no mundo capaz de dobrar vigas de ferro, seria ele. E não estava a gostar nada de me encontrar entre os dois participantes da discussão. - Já viram a má impressão que o namorado da Catarina está a ter de nós? - Virou-se para mim. - Não ligues, pá. É só fogo de vista. No fundo, gostam muito um do outro, só não querem que ninguém saiba.

Os intervenientes soltaram grunhidos de contestação, mas não proferiram palavra. O condutor da voz calma tirou o capacete e estendeu-me a mão:

- Sou o Tóni.

Apertei-lhe a mão. Tinha um aperto firme e confiante, a mão seca e quente. Não era novo; teria já ultrapassado a casa dos trinta, denunciava o rosto encovado e os olhos pequenos e mordazes. O bigode espetado cobria-lhe o lábio superior e soltava um hálito envolvente de tabaco. Percebi que era o manda-chuva natural do grupo. Percebi, também, que fui avaliado ao primeiro olhar, e aceite. Ninguém o conseguia enganar. Gostei dele desde a primeira vez.

- Rui Pedro - respondi com voz firme, tentando não soar como o puto imberbe que me sentia perto daquele homem experiente.

- O madeirense - soltou o irmão de Catarina. - Já deves saber quem sou. Francisco. - E também me apertou a mão.

- Detesta que lhe chamem de Chico - confidenciou a minha namorada.

E, um por um, o grupo deixou de ser uma amálgama de capacetes sem rosto para se tornar em nomes e vozes e olhos avaliadores. Fui apresentado ao Morcego, de quem não revelaram o verdadeiro nome (a não ser que aquele fosse mesmo o seu nome!); ao César, ao Alberto, ao João, ao Fernando. E aos passageiros, que se revelaram todos passageiras: Graça, Margarida, Rita, presumivelmente as namoradas respectivas dos três últimos condutores, a quem se abraçavam. Reparei também nas motos: eram diferentes, em marca e modelo. No lusco-fusco da má iluminação da estrada, sö conseguia distinguir quais eram as Hondas e as Suzukis das Kawasakis e de outras. Não percebia muito de motorizadas, pelo que não reconheci imediatamente os modelos; mas notei que se tratavam, quase todas, de máquinas com elevada cilindrada e potência. Excepto a do César: era uma DT.

- Talvez fosse boa ideia metermo-nos a caminho - avançou Francisco. - O espectáculo deve estar quase a começar.

- Com certeza - replicou a irmã dele. - Não vim aqui para conhecer o jardim das Amoreiras. Quem leva quem?

- Eu posso levar-te a ti. E o Rui?

- Eu levo o Rui. Não te importas? - sorriu-me Tóni.

Indiquei que não com a cabeça, ligeiramente atordoado pela rapidez dos preparativos. Percebera finalmente que iria montar-me numa mota e ser conduzido por um grupo de motards profissionais, completamente estranhos, que nunca encontrara anteriormente. Não sei o que esperava, quando Catarina propôs a ideia, mas decerto nunca imaginara que teria de andar naqueles veículos. A ideia assustava-me de morte. Mas não lhes podia dizer, não poderia mostrar o meu receio, seria a derradeira humilhação.

- Claro que não me importo - reforcei com palavras. - Vamos a isso. - E por dentro, tremia como geleia.

- Hoje a Marília não veio - disse Catarina, montando com segurança e experiência o banco traseiro da Honda do mano. Era mais uma afirmação do que uma pergunta. Tóni sorriu.

- Tem exame amanhã. Teve de ficar a estudar - disse este. Na sua voz, percebi uma mistura leve de perturbação e orgulho. Seria irmã? Namorada? Deveria ser nova, mais do que ele, se ainda estava a estudar...

As consideraçöes abandonaram depressa o meu espírito. Nada permanecia fixo nele, ante a ideia de viajar num daqueles cavalos de ferro com aspecto tão enganadoramente pacífico. Tóni seguiu o meu olhar.

- Alguma vez montaste num trovão, Rui? - Deu uma pancadinha afectuosa na moto. - Alguma vez sentiste que tinhas um animal poderoso preso entre as pernas, e que se te enganasses a comandá-lo, isso te custaria a vida? - E num à-parte que conquistou gargalhadas de todo o grupo: - E não me refiro a mulheres...

Abanei suavemente a cabeça. Tóni ligou o motor, e o trovejar encheu a atmosfera. Dei um ligeiro sobressalto.

- Ouve-me isto. Um demónio puro encarcerado numa jaula de aço e fogo. As chamas lambem-lhe o dorso, levando-o a urrar de agonia. Consegues entender o que grita, Rui? Consegues sentir a vontade que tem de fugir? - Os olhos brilhavam como faróis.

- És um verdadeiro poeta - cortou Francisco com o tom de quem se lhe esgostava a paciência. - Posso lembrar que já estamos atrasados?

- Tens razão - respondeu Tóni, perdendo um pouco do ar evocativo. - Monta, Rui. Com respeito, como se montasses um animal. Esta é a Suzuki GSX R 1100, a moto mais veloz do mercado. Cento e cinquenta e cinco cavalos de pura raça. Segura-te bem - e depois, quase num sussurro, virando a cabeça para trás, encontrando-me já sentado: - Não te preocupes, não irei muito depressa. Mas agarra-te bem.

A máquina vibrava entre as minhas pernas, fazia-me estremecer o corpo todo. Era uma sensação estranha, parecia realmente viva. Uma besta de ferro. Fechei as mãos em torno do apoio traseiro como se agarrasse um cabo salva-vidas.

E partimos.

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Série Convergente (Guião)

26 Janeiro 2006



Linha Temporal da Narrativa

A narrativa decorre em momentos temporais distintos que são expressamente assinalados no contexto de cada cena – maioritariamente em dois dias seguidos (designados por «ontem» e «hoje»), mas igualmente em momentos anteriores a esses dias (designados pelo mês do ano, apenas para referência da ligação entre si).

Uma vez que a narrativa é não-sequencial, e que o significado de cada momento temporal não é revelado por completo logo quando surge (pelo que estaremos continuamente a revisitar momentos com entendimento diferente), é crucial que a transposição cinematográfica tenha em consideração a individualização das sequências pelo recurso a técnicas de iluminação, cor e fotografia, pelas diferenças no estilo de filmar ou por pistas auditivas.



1 – EXT. CASA DE PRAIA DE JORGE – HOJE PELA MANHÃ

A imensidão do céu, azul e límpido pela manhã, possivelmente de finais de primavera. Estamos acima da linha do horizonte. A câmara roda e entram no plano sinais de nuvens de fumo, fumo muito negro e que progressivamente vai ficando espesso à medida que focamos a coluna principal de fumo. A cena decorre em SENTIDO TEMPORAL INVERSO: as nuvens descem do céu, convergem para a terra, contraem-se ao invés de se expandirem. A câmara desce para acompanhar esta convergência. Agora já se discerne o horizonte, vêem-se casas e montes e talvez um pouco de mar.

A câmara fixa-se numa vivenda, em plano picado. Uma parte do tecto desabou e o interior arde em enormes labaredas – mas como continuamos em sentido inverso, as labaredas não se espalham mas vão minguando e vão deixando livres e intactas partes da casa. Um carro vermelho está estacionado à entrada, coberto e amassado por pedras e tijolo desfeito, argamassa e madeira; ao redor, o jardim está igualmente sujo destes materiais, e fuligem e papeis a arder voam pelo ar em direcção ao incêndio.

Subitamente, as labaredas recolhem-se, e os detritos que cobriam o carro e o relvado erguem-se violentamente no ar e convergem de forma abrupta para o lugar que ocupavam no traçado da vivenda. O carro perde a amolgadela. O fumo entra no buraco que rapidamente se vai fechado, vai sendo preenchido pelo detrito que se revela como parte integrante da casa. A explosão recolhe-se como uma rosa que fecha as pétalas. E de súbito a vivenda fica inteira e incólume, e voltámos à manhã perfeita de primavera.



2 – INT. CAFÉ DE AUTOESTRADA – NOITE – (PASSADO: Janeiro)

ANTÓNIO surge da casa de banho de um café de bomba de gasolina como os que se encontram nas autoestradas. O café apresenta janelas amplas, por onde se vê a estrada e o estacionamento, e se percebe que cai uma tempestade forte, cobrindo os vidros de chuva. Há poucos frequentadores, a maioria concentrados numa televisão colocada no alto da parede, ao fundo. Vestem roupa de inverno, cachecois e gorros no caso de algumas crianças. Por todo o café vêem-se decorações de Natal, e talvez mesmo uma árvore enfeitada de plástico se encontre ao canto. Fixada na parede, uma grinalda anuncia votos de Feliz 2003.

António está nos cinquenta e poucos anos. Tem a barba por fazer e o cabelo despenteado, o que lhe dá um ar bastante desmazelado. Veste uma camisola de gola alta, forte, e um casaco de cabedal. Avança para uma mesa, onde HELENA o aguarda, de cigarro na mão. Helena é mais cerca de quinze anos mais nova, e tem uma aparência confiante, cheia da sensualidade e segurança de uma mulher madura.

António senta-se de forma pesada. Apercebemo-nos do rosto pálido, dos tremores e do suor, do ar de extremo desespero. Fecha o casaco com força como se tivesse muito frio. Por cima da sobrancelha esquerda escorre um fio de sangue proveniente de um corte extenso.

HELENA
(preocupada)
António, quem era? Morreu alguém?

ANTÓNIO
(abanando a cabeça)
Não, não. Era do trabalho. Papeladas.

HELENA
E deixou-te assim tão preocupado?

ANTÓNIO
Senti-me mal disposto, tive de ir à casa de banho. Não é nada.

HELENA
Mal disposto com o quê? Queres que peça alguma coisa?

ANTÓNIO
Deixa estar, já passa. Tenho de descansar um pouco.

HELENA
Foi do almoço? A mim não me afectou. Deitaste... cá para fora?

ANTÓNIO
Se vomitei?... Sim, sim, foi isso.

HELENA
E desmaiaste?

ANTÓNIO
Porquê?

HELENA
(indicando com o dedo)
Estás a sangrar.

António leva a mão à sobrancelha e encara o resultado. Fica transfigurado a olhar os dedos esticados, e lágrimas começam a surgir lentamente e a escorrer-lhe pelo rosto. Cerra os punhos, encosta a cabeça. Helena mostra-se preocupada, levanta-se e vai sentar-se do outro lado da mesa, ao lado dele, para confortá-lo.

HELENA
Pronto, António. Pronto. O que foi?

ANTÓNIO
Desculpa, desculpa. Isto é stress. E mal estar. Tudo junto. Não ligues. Que vergonha...

HELENA
Vergonha de quê, António? Tens de ter cuidado contigo. Olha, precisas de tomar qualquer coisa quente. Deixa-me ir buscar...

ANTÓNIO
(virando-se para ela de repente, agarrando-lhe no casaco)
Não vás, fica aqui.
(Pousa a cabeça no ombro dela)
Sabe bem. Incomoda-te?

HELENA
Claro que não.
(Afaga-lhe o cabelo)
Vá, descansa. Já passou. O que quer que tenha sido. Temos de limpar isto.
(começa a tratar-lhe da ferida com guardanapos que retirou do dispensador da mesa)


António queixa-se de dor. Riem-se ambos.


ANTÓNIO
Sou um bebé crescido.

HELENA
Com barba e dois metros de altura. Alguém te deu um murro?

ANTÓNIO
Bati com a cabeça... Fiquei meio atordoado.

HELENA
(em tom de brincadeira)
Não tinha notado...


Continua a tratar dele. António fecha os olhos.


ANTÓNIO
Sabe mesmo bem. Há muito tempo que não cuidavam assim de mim.

HELENA
Então para que servem as tuas amigas de ocasião?

ANTÓNIO
Ó Helena, já nem essas tenho. Até isso se perde com a idade.

HELENA
Qual é o mal de ter-se cinquenta?

ANTÓNIO
É o cansaço, Helena. Ver o que se alcançou a fugir-nos das mãos e ser preciso recomeçar. Começar a vida de novo. (Pausa) Não me via a fazer isto com esta idade.

HELENA
O quê?

ANTÓNIO
Sabes, sempre quis ter filhos. Queria tê-los cedo, como os meus pais. Queria chegar a esta idade com filhos já crescidos, talvez casados, e ter netos. Não sei porquê. Talvez a continuidade, não sei. Sempre me senti confortável rodeado de juventude. Mas depois a Maria adoeceu e não pode engravidar. E decidi ficar ao lado dela. Pensei, ainda pensei muito, em deixá-la e ir atrás desta vontade. Mas não me sentia bem abandoná-la. E gostava dela.

HELENA
E no fim ela deixou-te...

ANTÓNIO
Deixou-me com os meus sonhos por realizar. Este é um dos meus cansaços.

HELENA
Podes sempre encontrar alguém mais novo, e concretizar esse sonho.

ANTÓNIO
Não seria o mesmo sonho. A mesma família. E não posso ir à procura porque me apaixonei entretanto...


Helena fica calada durante uns instantes. Nota-se que ficou afectada pela última observação, mas persegue outro assunto.


HELENA
Foi o teu destino. Não se consegue lutar contra isso. Nem prever o que vai acontecer.

ANTÓNIO
(Pausa. Parece ponderar no que Helena disse)
Não tenho medo do futuro. Só tenho medo de não ter futuro. Que não aconteça nada de extraordinário.

HELENA
Não tens medo de morrer?

ANTÓNIO
Não... já não tenho.

HELENA
Eu tenho. Imenso. Às vezes ponho-me a pensar, se soubesse o dia da minha morte não ia aguentar a expectativa. Tentava suicidar-me antes.

ANTÓNIO
Isso é uma contradição.

HELENA
(rindo-se)
Talvez. Mas o conhecimento seria insustentável. Saber que tudo o que nós fazemos, todas as nossas preocupações mais pequenas, tudo isto vai desaparecer naquele dia, naquele instante, e a nossa história, seja ela qual for, é ali que acaba. O ponto final. Não te assustaria?

ANTÓNIO
Mas não se pode fugir a isso... Não interessa mais qual a história que se vive até acontecer? Que tenha um desenlace? Que não fiquem pontas soltas?

HELENA
De que é que estás a falar?

ANTÓNIO
Imagina o seguinte. Estavas a começar uma relação. Estavas ainda na fase em que podias sair sem grandes mágoas, em que não sabes bem no que é que vai dar. Uma relação é um nevoeiro cerrado. Não vês o fim do caminho, não sabes o que vai acontecer. Isso até faz parte do interesse de uma nova relação. Mas imagina que o dia ficava claro. Imagina que o nevoeiro se levanta por umas horas e dão-te a conhecer o desenlace. Se calhar vais casar, ter putos e ficar para sempre junto da pessoa, ou então divorciam-se passados vinte anos, cheios de dívidas e de mágoas. Se calhar só dura seis meses, até encontrarem pessoas melhores. Se calhar gostam muito um do outro, mas o trabalho ou uma guerra afasta-vos e acabam por arrefecer e esquecerem-se um do outro. Imagina que sabes logo à partida que não vai durar para sempre. O que fazes? Decides mesmo assim arriscar?

HELENA
Não sei... é como o dia da morte, não é? Se já sabes o fim, onde é que está a graça? Tudo o que fizeres, todas as tuas escolhas, sabes que não há fuga possível. Vais estar sempre a pensar que vai acabar daquela maneira. Vale então arriscar, fazer?

ANTÓNIO
Mesmo que venha a ser a paixão mais intensa de toda a tua vida? Negarias, por muito breve que fosse, vive-la?

HELENA
Não sei, nunca amei assim... É preciso amar de verdade a outra pessoa... (Pausa) Isso é uma ideia extramente romântica, António. Não te sabia assim romântico.


Ele sorri. Ela baixa os olhos, fazendo a pergunta que temia.


HELENA
Isso que tu disseste... é o que estás a sentir por essa pessoa?

ANTÓNIO
Não consigo deixar de pensar nela dia e noite. Sinto-me como um adolescente.

HELENA
E ela... sente o mesmo por ti?

ANTÓNIO
(docemente, virando-se para ela)
Não sei. Sentes?

HELENA
(subitamente comovida)
António! Já não me faziam corar há imenso tempo.

ANTÓNIO
Fica-te bem. Pareces uma adolescente.

HELENA
Adolescente com rugas à mistura... Então e os teus sonhos? Os teus filhos? A tua família grande? Não te vais arrepender mais tarde?

ANTÓNIO
Esse não é o nosso destino. É outro.

HELENA
Como é que podes ter tanta certeza? O dia clareou, e viste o fim do caminho?

ANTÓNIO
(sorrindo, afagando-lhe as mãos)
Só tenho a certeza do que sinto por ti. E do dia de hoje. E de que nos espera uma grande história. Juntos.


Um telefone começa a TOCAR de forma insistente. António e Helena são totalmente alheios ao som.

Helena toca-lhe no rosto, comovida. Olham-se durante uns instantes. António inclina-se para ela. Beijam-se.

O telefone continua a tocar.

(continua na próxima quinta-feira)



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O Deificador (I)

25 Janeiro 2006


NINGUÉM SABE DE ONDE AS HISTORIAS SURGEM. Por definição, as histórias não existem num plano material. Trata-se de uma ilusão sustentada por instantes no tempo, que encerram uma realidade em si mesma, ali contida. Como uma música. A música não tem princípio e não tem fim, e precisa do tempo, precisa da morte dos segundos para viver. Da mesma forma, uma história não tem início, embora tenha um começo. E que fim terá, ou deverá ter? A música só não é eterna porque temos outras coisas para fazer. Este é, a bem ver, um truísmo que aceitamos com unanimidade. Dizer o mesmo da finalidade da história, isso é bastante mais difícil.



O INEVITAVEL SLICE-OF-LIFE APRESENTADO COMO UMA CONVERSA DE CAFÉ. Beijava-a. Ou tínhamos os lábios encostados. Durou cinco, dez, talvez quinze segundos. Tentei, na forma elaborada que é falar pelos actos numa relação, demonstrar que continuava interessado nela. Isto não era necessariamente verdade, mas atravessava uma fase que não seria melhorada tendo de enfrentar uma crise emocional.

Ela acendeu um cigarro no fim. O bafo fedorento do vicio envolveu-me, deixou-me triste. Talvez isso explique a minha agressividade seguinte.

- Foi muito rude da tua parte não teres dito para onde ias ontem à noite.

Ela soltou uma exclamação de espanto.

- Peco perdão, doutor saio-quando-quero-com-os-clientes-e-nao-dou-cavaco. não sabia que tinha de pedir decreto a Vossa Excelência.

- Não saio por prazer mas por negócios. Sabes disso. - A conversa estava gasta, não íamos a parte nenhuma. Um dia não voltaríamos sequer.

- Sim, claro, copos e putas, o auge da produtividade. Isso faz avançar a economia do pais.

- Olha, não quero discutir. Estou cansado. Devias tratar-me com mais respeito.

- Cada um tem o respeito que merece.

- E não o mereço?

- Talvez não na totalidade.

- Que fiz eu para me tratares assim?

Ela calou-se. Havia uma certeza feminina naquele silêncio de que me dizia ter atingido a ferida.

- Então? - insisti. Ela brincava nervosamente com os dedos, a preparar-se para falar.

- Deste o emprego àquela Rita.

Céus: territorialidade, controlo e dinheiro. Que fúteis são os animais humanos.

- Não foi por minha vontade, já te expliquei - menti descaradamente. A Rita tinha o melhor par de mamas de todas as secretárias, e o facto de ser a minha fazia os outros directores pretos de inveja. Não, nem sempre tem a ver com sexo.

Expliquei-lhe de novo como era vítima das circunstâncias. Como a empresa cortava custos e tinha encontrado na Rita uma ajudante disposta a trabalhar por pouco dinheiro - o que era verdade. Como seria melhor para ela prosseguir uma profissão autónoma e não ser vista como uma protegida por ter um relacionamento com o chefe - o que também era verdade. Só não lhe expliquei que tê-la por perto iria prejudicar gravemente os meus flirts ocasionais e impedir a justica das minhas desculpas de trabalho excessivo. Nem toda a verdade deve ser dita.

Mas ela não aceitou. Fingiu, apagou o cigarro, disse que tinha de voltar, combinámos para o dia seguinte. Demos um outro beijo, ainda mais seco.

Estaria a chegar ao fim? Vi-a partir. Pensei o que seria estar sem a certeza da sua presença, e senti-me triste. Ao mesmo tempo, algo impedia uma maior intimidade. Não tinha a certeza de que aquela fosse a dita pessoa da minha vida.

O telemóvel apitou, indicando que tinha uma mensagem. Tempo de voltar ao mundo real.


NO QUAL A HISTóRIA DEIXA DE SER O QUE PARECIA E SE TORNA NUM OUTRO QUALQUER OBJECTO. A mensagem dizia simplesmente O seu aparelho pessoal de vigilância detectou sintomas de infecção por ficcionite. Foi enviado um alerta automático para os serviços de saúde mais próximos. Deve aguardar a sua chegada. Evite entrar em contacto com outras pessoas ou interagir com objectos. Não se desloque do sítio em que está. Não comunique com ninguém, seja visual, oral ou gestualmente, por via telefónica, internet ou outra. Não escreva mensagens nem as leia. Se se encontrar rodeado de pessoas diriga-se a um sítio isolado rapidamente, em que possa ficar sózinho; os melhores lugares são casas de banho. Lembramos que a ficcionite crónica é uma doença altamente contagiosa, da qual é quase impossível recuperar. Em 100 infectados, 99 não conseguiram recuperar a vida que tinham. Para mais informações, ligue 89888998. Este foi um serviço do Centro Nacional de Saúde - protegemos a sua vida com um sorriso.


THIS ISN'T FUCKING HAPPENING! O momento do pânico. Agarra o telemóvel, relendo o texto em que não quer acreditar. Nada mais existe de repente. Nada mais existirá. Aquele é o momento da verdade. O tal que enquadra a vida.

A SENSAÇÃO DE QUEDA DESCONTROLADA. Vertiginosa, as mãos brancas, o rosto pálido e suado, os olhos brilhantes de corça apanhada pelos faróis do carro, a cara de rato encurralado a um canto, a boca aberta de quem se afoga, o tremor violento, incontrolável de quem encara o chão a aproximar-se do rosto e sem pára-quedas. Ecce homo cinco segundos antes do embate. Quatro. Três. Dois. Um.

E o telefone toca.


CHEGUEI À ENCRUZILHADA E NÃO SEI DECIDIR. O telefone decide por ele. Continua a tocar. João - porque era esse o seu nome - continua a encará-lo abismado. Abismado no sentido de quem encara um abismo e não sabe se pode voltar para trás. Olha em volta mas descobre ninguém interessado, o café está estranhamente desprovido de gentes, e as pessoas sentam-se ao longe. O visor indica número desconhecido.

Deverá ele:
a) atender e arriscar contacto com um personagem ficticio que lhe vai estragar a vida
b) ignorar e não receber o aviso do sistema de saúde que lhe salvará a vida.

A indecisão não levou a melhor no fim. Pois eram muitos os anos de programação genética para responder a chamadas telefónicas. Até na idade das cavernas o berro dos bichos de plástico era imediatamente satisfeito.

Não iria interagir. Ouvir sem falar. Talvez nem ouvir. Risco nulo.

Atendeu.


NA QUAL O SILÊNCIO CONSTITUI UMA ANTÍTESE. Porque foi esse o brinde imediato. Silêncio. Nem sequer estática. Apenas a constatação da ausência de som, a indicação de um problema. Neste ponto diferimos dos homens das cavernas: estes não se espantariam se um objecto não falasse.

Olhou para o visor. A chamada estava activa.

E fez o que tinha a fazer

- Está aí alguém?

arrependendo-se logo logo de seguida, sim logo de seguida mas sem ter muito tempo para pensar em arrependimento pois

- És tu, João?

soou do outro lado o que lhe trouxe suores frios e uma imobilidade tal que ficou rígido de telemóvel na orelha a pensar Já fizeste merda

- Parece-me a tua voz…

Merda da grossa

- Por favor, fala comigo, tenho tantas saudades tuas…

e finalmente uma reacção, que se traduziu em desligar abruptamente, ficar a encarar o objecto, o coração disparado, a cara de peixe fora de água, a olhar em volta, a apalpar os braços, a limpar o suor da testa. Sim, ainda ali estava. Não havia seres estranhos em torno de si. O café mantinha-se, a bica na mesa, o bolo meio comido, as pontas mal fumadas que ela deixara. Teria escapado? Lembrou-se de um truque, escutado numa festa ou no emprego, e tirou o bilhete de identidade da carteira. Ali estava a fotografia, solene e de gravata. A impressão digital, uma assinatura que lhe parecia familiar. Nome próprio, nome do pai, da mãe, idade, tudo parecia estar certo. Se os teus documentos forem reconhecíveis, é bem possível que estejas safo. O que nunca chegou a perceber bem se era pela mudança da memória se era por a doença mudar toda a realidade excepto a memória...

MIL E UMA RAZÕES PARA ESTAR SATISFEITO: pensando bem, era só um telefonema trocado. E não tinha recebido outro de volta. Engano, de certeza. Ou alguém que não reconhecia. Voz de mulher. Muito agradável. Saudades, dizia ela. Sabia o nome dele… bem, lá seria coincidência. Ou algum flirt que tivesse ido longe de mais na cabeça dela. Não tinha culpa de ser atraente. Não caíam como moscas, mas algumas grudavam. É aquele tipo de mulher, acasala para a toda a vida. Nesse aspecto, quem seria? Que parvo, ter-se deixado levar pela porcaria da mensagem. Se calhar até tinha sido brincadeira. Sim, tudo relacionado. Que grande totó!

E o telefone toca.

DE PEITO ERGUIDO atende.

- Está?

- João? João, és tu?

- Talvez seja. Com quem deseja falar?

- João, não me faças isso, por favor. Não vês que me magoas?

- Minha senhora, vai ter de me dizer quem é, não estou a reconhe… espere, espere, não chore. Não chore. Diga-me só…

- João, é a Alice.

- Alice?...

- A tua esposa. Alice.

E aqui atira com o telefone para o chão, trepa pela cadeira.

Não é casado. Não conhece nem conheceu nenhuma Alice. Não com os olhos dela…

Lembra-se de uma aliança no dedo. Não não tem nenhuma aliança…

Lembra-se de. Não não se lembra

Ele é

Marido

NÃO! Céus, o que foi fazer? Não comunique com ninguém. Porquê? Porquê ele? Porquê ele, a grande besta?

Já não teria remédio?


UM POUCO DE SANIDADE ENTRA PELA PORTA. O homem encara-o, vê o telefone no chão e percebe de imediato. João sente-se pequeno ante o olhar de reprimenda do outro. Tenta pedir desculpa. Mais dois homens entram, de sensores na mão. Medem o ar, João não sabe porquê. Só então nota que estão todos vestidos de cinzento. A meia-lua do Serviço Nacional de Saúde – lua = sorriso – brilha estampada no ombro esquerdo de cada um.

- Tenha calma, vamos medir a gravidade do problema. Conte-me o que houve.

João tem dificuldades em falar. A custo, traduz em palavras a breve conversa. O semblante do enfermeiro é de reprimenda mal contida.

- O senhor recebeu, leu e entendeu o nosso aviso?

Anui.

- Sabe que não devia ter iniciado conversa ou contactos com nenhuma pessoa e devia ter minimizado quaisquer contactos com objectos ou tecnologia.

Pensei que podia ser… brincadeira.

- É sempre bom adoptar uma postura céptica relativamente ao perigo. Vamos ver que danos foram feitos. Manais?

- Alfa a vinte por cento. Beta a sete. Ómega a trinta e dois.

Entreolham-se. O olhar do outro homem parece preocupado.

Está alguma coisa errada?, pergunta João, assustado.

- Não, não se preocupe. As nossas leituras vão ter de ser certificadas por exames mais profundos, pelo que lhe vamos pedir que nos acompanhe até ao Centro. Aqui fazemos apenas um despiste de emergência, para impedir e tentar fechar as aberturas causadas no nosso tecido da realidade. Não estou autorizado a explicar-lhe o que significa cada um daqueles parâmetros, a não ser que as leituras indicam que chegámos a tempo, ainda no início da formação da ficciofissura. Contudo, e isto posso dizer-lhe, os valores de ómega normais vão até sete porcento, pelo que trinta e dois é extremamente elevado. É por esta razão, principalmente, que queremos fazer-lhe testes.

O que significa? Estou livre de perigo?

- Não lhe sabemos dizer, senhor João. Fez muito bem em desligar o telemóvel, senão talvez tivéssemos chegado tarde de mais. A ficciofissura foi interrompida, e temos notado que em sessenta por cento das vezes, é o suficiente para não voltar a surgir à mesma pessoa.

- Mas com este ómega… - comentou o terceiro homem.

Digam-me lá, o que significa?

- Bem… - o seu interlocutor estava indeciso em falar. – Podemos somente dizer que parece estar relacionado com a intensidade e abrangência da fissura em causa. Ouviu falar do caso de Veneza?

A cidade que se tornou numa selva subaquática?

- Sim. Foi registado então um ómega de vinte e nove genérico.

Suores frios…

- Meu caro senhor João, não pretendemos assustá-lo mas simplesmente alertá-lo para o facto de a ficcionite ser uma doença muito perigosa e incontrolável. Não só para si mas para a sociedade. Por isso agradecia que viesse connosco.

- Está a ver – disse outro -, através da pessoa infectada a realidade de outro plano perturba a nossa, altera vidas, muda a configuração do universo.

- O tempo fica mais lento ou mais rápido – disse ainda outro -, o céu muda de cor porque na outra realidade a atmosfera é diferente ou o sol tem outro tamanho, terras afundam-se ou cobrem-se de gelos, animais monstruosos surgem do nada.

- Mas isto só nos piores casos – disse o primeiro, apaziguador -, pois normalmente é só a vida da pessoa infectada que muda. Esquece os amigos, perde a família, todo o passado dessa pessoa fica diferente. É como se entrasse num caminho alternativo, uma outra versão de si mesma.

Céus, não me assustem ainda mais! Podem curar-me? Estou ainda doente?

- A fissura ainda está aberta, pois senão não teríamos conseguido a leitura, mas encontra-se controlada. Nós somos potenciadores desta realidade. Sabe como funciona esta doença?

O que sei é o que é contado na televisão e em conversas. O que não é muito e sempre cheio de contradições. Preferia ser informado.

- As contradições são naturais. Ainda é tão pouco o que sabemos… Muito simplesmente, senhor João, o senhor neste momento está a ser retratado num livro.

Como assim?!

- Num livro ou numa pintura ou num filme ou numa conversa. Alguém está a falar de si, deste momento e possivelmente de nós todos. É assim que a ficcionite funciona. Tornam a vítima em personagem, e logo ficam com o controlo absoluto da sua vida. E de tudo o mais.

Eu faço parte de um livro?

- Talvez. Não sabemos muito bem.

Mas isso não faz sentido nenhum! Como é que uma pessoa normal pode fazer parte de um livro noutro lado? Como é que vocês provam isso?

- Vai ter de confiar em nós, senhor João. Não podemos falar sobre o assunto ao pé de uma fissura. Senão quem estiver a ler fica a saber, e pode travar a nossa acção.

Mas se nós somos personagens…

- Como lhe dissemos, controlámos a fissura. Quem quer que esteja a falar de nós, apenas pode relatar, não alterar.

Estou perfeitamente…

- Compreendo, senhor João. Pode acompanhar-nos então? Podemos ir respondendo a mais perguntas pelo caminho.

Mas estou livre de perigo?

- Por enquanto ainda não. A ficcionite é o senhor que a tem. Vamos tentar impedir que fique pior ou que tenha uma recaída. Rapazes, já temos tudo o que precisamos?

- Análise feita.

- Vamos fechar esta filha da mãe. Manais.

- Já estou nessa. Está quase. Pron

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Ionesco à Solta

24 Janeiro 2006

[Eliminado. Uma versão revista e melhorada deste conto aguarda aceitação numa publicação nacional.]
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Memórias do Futuro

23 Janeiro 2006


Bobby didn't like the world much after a really good movie in any case; for a little while it felt like an unfair joke, full of people with dull eyes, small plans, and facial blemishes. He sometimes thought if the world had a plot it would be so much better.
Stephen King

Decidimos hoje o futuro do nosso filho. Seria um médico famoso, especialista em neurocirurgia remota; aos vinte e oito anos descobriria um método prático para remover tecido danificado do cérebro humano e substituí-lo com tecido de crescimento, através da utilização de ultrassons para dar ordens aos nanobôs cirúrgicos, contrariando a prática corrente que preferia a comunicação electro-magnética. A primeira operação com sucesso seria executada num paciente que tinha vivido em estado vegetativo durante quinze anos, e que a família mantivera vivo, a aguardar que a tecnologia se desenvolvesse para o salvar. Esse paciente encontrava-se hoje a brincar alegremente nas praias do sul: tinha onze anos e não fazia a mínima ideia que, na data em que receberia o doutoramento, uma pequena veia iria rebentar no seu cérebro e o faria mergulhar num sono profundo e demorado. Os pais, tendo sido avisados do destino do nosso filho, vieram cumprimentar-nos e agradecer-nos por tudo o que de bom ele lhes iria trazer.

Foi a primeira comprovação real de que tínhamos decidido bem, embora a escolha daquele futuro tivesse implicado uma fatia muito grande dos nossos ganhos actuais e futuros. Mas as opções eram limitadas. A geração vindoura atravessaria um período calmo em termos sociais, sem desafios nem crises que implicassem o surgimento das grandes personalidades públicas. Poderia ter sido músico ou escritor, ou mesmo estadista. Médico pareceu-nos nobre. O meu pai foi médico, de uma forma modesta e limitada, pois os meus avós não tinham muitas posses. Trabalhou durante décadas num pequeno consultório com vista para o centro comercial, sem viajar nem fazer grandes gastos, para me poder dar o melhor futuro que lhe fosse possível. Empenhou-se ao máximo, mas eu nasci e cresci sem dívidas. Foi o meu maior mentor na vida. Queria que o meu filho lhe seguisse as pisadas.

Felizmente, era tudo uma questão de dinheiro, agora. Não conseguia imaginar como seria no tempo do meu pai. Como teria para ele sido possível arriscar e confiar no futuro sem saber o que iria acontecer, sem se poder planear o progresso e o desenvolvimento do filho. Morreu cedo de mais, antes de me ver pai, antes de ser avô, um homenzinho triste e derrotado pela vida, a quem a mulher abandonou para se casar com um artista. Não queria que o mesmo acontecesse comigo. Não queria ficar na ignorância do que estava reservado à minha descendência - um livro a que nunca conheceria o fim.

Talvez o meu pai não aprovasse o que ajudei a montar. Naqueles tempos, a ideia do livre arbítrio confundia-se com a identidade do «eu», e qualquer ataque à liberdade do indivíduo punha em causa a legitimidade da prática ou da invenção. Mas não seria mais perigoso manter a sociedade desgovernada, sem um plano e uma orientação, à mercê do progresso e dos caprichos humanos? Não seria mais perigoso deixar os assassinos potenciais à solta, desenvolvendo-se no meio de nós, alguns tornando-se em ditadores políticos ou religiosos? Gostariam que o vosso filho se tornasse num deles?

Tínhamos os meios para controlar a situação. A informação gera mais informação, o progresso tende para o progresso. Quando a sociedade se tornou demasiado complexa, passou-se oficialmente o controlo para as inteligências artificiais, que na prática já o detinham. O futuro, pelo menos em traços globais, tornou-se moderadamente previsível e muito mais seguro. Sabia de antemão quem era o meu filho. O que o fazia mexer, o que o irritava. Com quem se casaria. Quem o abandonaria.

Ele, contudo, não podia saber, para não contrariar o destino que estava traçado. Podia romper para sempre connosco, se descobrisse antes de tempo. Mas só lhe iríamos contar quando ele próprio compreender, quando também for pai. Sabíamos desde já que iria barafustar, mas acabaria por compreender. Pois que pais, podendo, não desejariam o melhor para os seus filhos?

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Merry-go-round

22 Janeiro 2006


(terceira e última parte)



O primeiro mês do último período desse segundo ano encarregar-se-ia de me instruír na realidade. Tinha feito amizades novas, perigosas, daquelas que se desfazem em fumo nos momentos de aperto. Avançávamos destemidamente para o coração das trevas como putos marginais do liceu, tornados verdadeiros terroristas numa multidão de estudantes. Eu adorava a situação; não que julgasse mal os meus colegas mais aplicados (eu próprio fazia, quando necessário, as longas abluções perantes os manuais todo-poderosos), mas considerava a sua existência cinzenta, sem o à-vontade do dom natural que julgava possuír. Queria sentir a aresta do proibido na fenda das mãos, abrir cofres, violar intimidades, descobrir que tipo de pessoa emergiria do centro deste turbilhão de ignomínia. Infelizmente, descobri-o; e não gostei do que vi.

Havíamos mergulhado no álcool até altas horas da noite e percorríamos as ruas cheios de bravata, à procura de sarilhos. Éramos três, apenas, eu, John, e um rapaz do West End que baptizáramos de Garfield por um motivo obscuro, para muito seu pesar. Eu era o único estrangeiro, the alien. A designação estrangeira soava quase sobrenatural, inumana. Quase me transformava numa figura ante o comando de forças poderosas que escapavam à minha compreensão, mas que deixava invadirem-me o corpo, na mudança da hora. Acontecia de facto uma transfiguração. Não me sentia completamente lúcido naquela noite, e a causa não se devia unicamente ao álcool. Passava entre nós uma corrente eléctrica de cumplicidade e desejo, que fazia brotar as ideias mais loucas e nos enchia de vontade de cometer proezas loucas, desafiar. Atravessávamos as ruas escuras a cantar obscenidades sem nexo; caminhámos por muito tempo, ou assim nos pareceu, sem encontrar viv'alma - o que nos desgostava. Faltava-nos um alvo em quem descarregar o mais perfeito dos projécteis. Nesse instante, John teve a ideia que seria o clímax da noite.

Iríamos roubar um carro. Não um carro qualquer, assegurou-nos ele. Iríamos aliviar o seu próprio pai de um Mercedes último-modelo, e experimentá-lo na estrada.

Como um filme, dirão. Em que de súbito surge o pretexto para mostrar cenas com carros desportivos a alta velocidade, em estradas desertas, e perseguições policiais. Foi o que pensei de imediato. Mas havia uma história por detrás daquele desejo. O pai de John morava numa das zonas ricas da capital, numa vivenda que, se bem que não luxuosa, seria pelo menos bem abastada. John vivia com a mãe num apartamento de três assoalhadas no outro extremo. Os pais estavam divorciados, alegadamente devido a maus tratos por parte do marido, apesar de nunca se ter conseguido provar isso em tribunal. Mas John lembrava-se desses tempos de martírio - embora não o quisesse admitir. Desviava os olhos e estremecia, como se assolado por um arrepio de frio, se o assunto fosse ligeiramente mencionado. Aprendemos a nunca lhe colocar perguntas, mas secretamente eu adivinhava. Adivinhava que não seria apenas a mãe a vítima desses maus tratos.

O pai ganhou a disputa em tribunal. Concedeu o divórcio e entregou o filho, mas não se obrigou financeiramente. Desligou-se por completo da educação do seu rebento genético, devotando-o ao abandono. De modo que também John frequentava a faculdade ao abrigo de uma Bolsa da Assistência Social, visto a mãe, secretária de escritório, não auferir o suficiente para o sustentar. John vivia cheio de raiva. O rosto do pai, nos seus olhos, tinha a forma redonda e concentrada de um alvo. E eu encontrava nesse desejo o eco ampliado de um certo tempo de criança, que me atraía como um imã. Aderi ao plano daquela noite por simpatia e vingança pessoal, como se pudesse sublimar, indirectamente, parte do que, por mim próprio, havia sofrido.

O automóvel encontrava-se guardado com sete trancas na vivenda do pai, onde chegámos pouco antes do raiar da aurora. John informou-nos que o pai costumava viajar muito pela Europa, a negócios, pelo que não seria provável que estivesse em casa. E nós, com o nosso estado de perfeita racionalidade, anuímos nessa certeza de imediato, sem pensar duas vezes. Ele também não parava de dizer que tinha as chaves para tudo e sabia decifrar o código que desligava os alarmes.

Não guardo qualquer lembrança do formato da vivenda. Estava muito escuro, e a bebida fazia tardiamente surtir o seu efeito. Não me recordo do tempo que decorreu. A silhueta do carro não passa de uma imagem sem contornos, extraordinariamente negra e aguçada, na minha memória. Mas lembro-me perfeitamente da polícia a irromper de arma em punho, pela garagem. Perdi de imediato qualquer vestígio de ebriedade. O álcool foi substituído pela adrenalina.

A imagem seguinte foi a das grades da cela. Sentia-me miserável e sujo. Tinha a alma da mesma negrura da tinta com que me haviam tirado as impressões digitais, e que ainda agora me sujava as pontas dos dedos da mão direita. Não queria falar com ninguém; os últimos meses da minha vida abriam-se-me diante dos olhos como uma flor pela manhã, uma flor negada que descobria a imagem de um insecto vil e traiçoeiro envolto nas suas pétalas, devorando o sumo da planta, a seiva doce que usava como alimento - uma alusão tão simples que fiquei obcecado por ela, deslumbrado pela brancura ofuscante daquele pedaço de vida no prado iluminado. Faltava luz à cela, a luz do dia, testemunho de vida. Precisava de chorar, e no entanto, não o queria fazer diante de tanta gente, à mostra como um animal no zoológico. Só pensava que tinha sido cometida uma asneira monumental; e essa asneira tinha sido minha.

As horas passaram. Os pais de «Garfield» vieram buscá-lo, presenteando-nos com a expressão secular do ódio puro, como se tivessemos forçado o querido filhinho a seguir-nos. Não nos concederam uma palavra abonatória. As horas passaram. Sentia um cansaço como nunca sentira; talvez desânimo fosse um termo melhor. Tentei dormir um pouco, mas era impossível fazê-lo no catre desconfortável. Já devia ser manhã; os guardas estavam a ser revezados no turno. Uma leva de homens fortes e decididos por detrás da protecção das suas fardas entravam aos grupos na esquadra, de olhos vermelhos pela obrigação de acordar, mas no entanto apresentando a frescura de um dia que começava; outros abandonavam o turno, também de olhos vermelhos mas inchados, com a lentidão do fardo cumprido. Uma ideia estranha invadiu-me a mente, a de como era possível agir-se tão naturalmente, sabendo que, ao lado deles, pessoas estavam confinadas por detrás de grades, presas, submetidas à vontade e caprichos dos outros. Não costumava pensar desse modo, e sabia que aquela ideia provinha somente do meu presente estado em que saboreava o outro lado da questão. Era necessário que houvesse uma força policial, por que o mundo era um lugar perigoso a necessitar de pessoas que restaurassem o equilíbrio - mas admirava-me precisamente com essas pessoas, e com a forma natural como lidavam quotidianamente com a violência. Gostaria de ter discutido isso com John, que partilhava a mesma cela, recolhido de braços cruzados e mudo num dos cantos. Mas não tinha nada para lhe dizer; nunca mais teria.

Depois apareceu um homem que o levou. Um cavalheiro distinto com o ar austero e frio de quem calculava o dinheiro que a cada instante deixava de ganhar por ter sido obrigado a resolver uma situação incómoda. O pai de John. Antecipara o regresso da viagem de negócios. Trocaram olhares de contenda, mas, no fim, John acedeu em segui-lo. Não soltou sequer um mínimo de toda a raiva que acalentava, agora que tinha o alvo defronte de si - nem, pude observar, jamais o faria. Tinham-lhe colocado o açaime, como se costuma fazer aos cães danados. Fiquei desiludido, embora, racionalmente, não estivesse à espera de atitude diferente. Mas a justificação que John deveria ter apresentado representava a última defesa da integridade e justiça do nosso acto; ficando calado, confirmou o que eles suspeitavam: éramos apenas mais um conjunto de putos malcriados, uns marginais de merda.

O pai dele retirou a queixa, e fui colocado em liberdade. O sol recebeu-me com uma bofetada; era um condenado de longa data que finalmente regressava ao mundo da maioria. Pai e filho desapareceram num ápice no carro metalizado. Não se despediram, não me deram boleia. Estava sózinho. E nem sequer poderia aspirar pelo fim de Setembro, pela imagem do Renault cor de cereja a surgir na curva da esquina; como desejei vê-lo, nessa manhã, naquela estrada.

Sem ter dinheiro para os transportes, fui a pé para a faculdade. Aguardava-me um recado do reitor. Pedia para ir falar com ele de imediato. Fiquei sem pinta de sangue.

Evidentemente que sabia de tudo. Estava furiosíssimo. Durante meia hora banhou-me com um olhar sem reservas onde se misturava o desprezo e a desilusão. Compreendia o que ele estava a pensar: o aluno mais promissor revelara desprezo pela centelha de genialidade com que estava abençoado, o que o tornava imerecedor da sua riqueza. Falhara o degrau na minha ascenção para o alto; e, quando nos encontramos no alto, o tombo é maior.

«Tem consciência do que fez, ao menos?», pronunciou na sua maneira afectada de cidadão britânico. «Tem consciência de que desacreditou um programa de intercâmbio, o qual, por si só, é vítima incessante das conveniências políticas dos nossos países? Tem consciência da importância do nome da universidade? O que o senhor fez é mais grave do que o mero deslaivo da juventude; se fosse apenas isso em causa, talvez pudesse perdoar. Não creio que o senhor seja um marginal. Mas o senhor traíu-nos, senhor Ferreira. Traíu o bom nome desta universidade. Traíu a confiança que depositámos em si. Não creio que seja recomendável a continuação da sua presença neste lugar.»

e eu, pequeno e minúsculo no cadeirão de espaldar largo, ouvi o ditar da sentença pelas vozes dos mortos que decoravam as paredes, as fisionomias de pedra, inatingíveis, afixadas nos limites das molduras como janelas do outro mundo que entravam directamente na nossa vontade, ouvi as vozes da sabedoria acumulada o pó das estantes o peso dos tomos e não disse nada absolutamente nada quis que acabasse fiquei à espera que acabasse para sempre.

John ficaria. Garfield ficaria. Esperei desterrado no aeroporto de Heathrow, no meio dos estranhos, meras vinte e quatro horas após o dia da derrota, um dia em que, se tivesse ficado no quarto, quieto e calado, tudo ainda seria possível. Não teria tido de fazer as malas de ombros curvados, não teria de ver a reprimenda nos olhos dos meus colegas, que se calavam durante a minha passagem pelos corredores longos, frios e escuros, não teriam eles tido de fechar as portas. Ansiava por saír daquele lugar, daquela terra, fugir. Mas tinha receio de voltar a Portugal, aos braços dos pais, receio de ver a desilusão também nos seus olhos.

Parecia-me muito triste e cinzento o céu de Lisboa, quanto aterrei. Eles estavam à minha espera, os dois, pontualmente, de expressão reservada. Surpreenderam-me: não mencionaram o assunto. Foram conversando de pequenas coisas, novidades minúsculas, fazendo perguntas banais. Podiam estar à espera que me abrisse, mas não o davam a mostrar. Agiram como verdadeiros amigos. Pensei: «eles conhecem-me, eles sabem que nunca seria capaz de roubar nada. São os meus pais, e gostam de mim, e eu agi como um ingrato, querendo fugir deles, odiando-os.» E foi então que chorei.

Não me deram a notícia logo, disse o meu pai mais tarde, por razões óbvias. Esperaram alguns dias, para que me recompusesse, e só então me chamaram à sua presença, fizeram-me sentar e disseram muito naturalmente, com a graça de quem inclui um comentário numa conversa, o teu tio morreu, e foi só isso que disseram.

O tio morrera de enfarte. E eu não sabia de nada, não tinha querido saber de nada. Não me preocupara sequer com a saúde daqueles dois seres distantes que pertenciam à minha infância, e a um tempo em que, embora ingénuo, agira com mais inteligência e humanidade do que agora. Senti-me sujo, como se continuasse na prisão. O meu tio havia amado um monstro que escarnecera desse sentimento. Chorei de novo, pelo tempo perdido, pela humilhação, pela perda do meu rumo, por tudo. Mas principalmente pelo tio. Ironicamente, no momento decisivo, não houvera guarda-chuva que lhe valesse. As trevas tinham chamado por ele das profundezas. As mesmas profundezas nas quais me senti afundar, nos primeiros meses do meu regresso.

Mas foi então que vi a luz.

(FIM)



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Merry-go-round

21 Janeiro 2006


(segunda parte)



Escolhi como residência um bed & breakfast que dava para as traseiras de uma ruela contígua a Leicester Square. Normalmente, teria permanecido na Residencial da faculdade, mas o edifício encontrava-se em obras e tinha-nos sido dada a oportunidade de encontrarmos lugares modestos e baratos, que seriam custeados pela Bolsa. Foi um contributo importante para a minha libertação. A dona da casa era uma velhota irlandesa de modos bruscos mas pacientes, e de uma tez ruiva que deveria ter atraído os rapazes do seu tempo. Bamboleava-se pela casa a arrastar o seu corpo quase cilíndrico enquanto limpava o pó dos móveis e soltava imprecações inspiradas contra a Dama-de-Ferro. Uma guerra decorria nas terras distantes das Falklands, iniciada, segundo percebi, devido a uma questão de orgulho nacional, ou por outras palavras, uma birra infantil. Não se falava de outro assunto na faculdade, uma facção denunciando o conflito, possivelmente com receio do seu próprio destino, outra defendendo a Union Jack até às últimas consequências. A televisão mostrava imagens dos soldados que partiam nos couraçados, e das mães, irmãs e esposas chorosas que ficavam em terra; mostrava o dia-a-dia do conflito naquela ilha pequena de mais para que fosse possível acontecer um drama de tamanha magnitude. O tema entristecia-me; entristecia com a visão de todas aquelas famílias nos cais, temendo terem feito as últimas despedidas às suas crianças.

Por outro lado, enchia-me de enfado: não era a minha terra, não era o meu povo. Havia no ar o travo amargo de uma xenofobia exaltada e ligeiramente ridícula. Era como se o mundo se tivesse virado subitamente contra eles, como se tivessem receio do juízo feito pela História da resposta intempestiva que havia sido lançada contra a ilha do Pacífico, contra o insecto. Não era requerido muito para se iniciar o processo de segmentação e erguerem-se as muralhas. Agiam como rebeldes inconformados, na senda eterna da forma de compensação que alguém, algures, teria de pagar pela queda do seu Império. Não que não encontrasse pessoas excelentes entre os ingleses, que se tornaram minhas amigas, mais tarde - mas, nos primeiros meses de adaptação e convívio, reuni-me aos restantes estudantes estrangeiros, talvez motivado pela semelhança das nossas condições, e formámos grupos para visitar Londres à noite, penetrar na selva urbana em que Lisboa não se havia ainda tornado, frequentar os bares proibidos e as ruas perigosas. Acompanhei-os semi-consciente do risco. Tinha consciência do que se encontrava entre nós, mas, verdadeiramente, não queria pensar em nada, pensar era uma actividade extenuante. Tornara-me num outro eu. Havia um centro de comandos diferente a controlar os meus movimentos e a dar ânimo às minhas paixões. Intocável, enfrentava tudo de peito erguido. Em jeito de loucura, bem sei. Mas não conseguia pensar. O universo abrira-se à minha passagem, havia um caminho por entre as águas. Tinha de correr antes que se voltassem a fechar.

Corremos o risco, mas não enfrentámos o perigo. æ excepção de um caso ou outro, em que acabava a noite à estalada, naquela dança peculiar do ódio que também é uma filosofia de vida, os excessos da nossa embriaguez foram tolerados sem punição; estávamos, sem o saber, a enredarmo-nos na teia que nos traria a punição maior - mas isso só aconteceria depois, tarde de mais para o podermos antever. Entretanto, escapávamos ilesos, fugíamos para posteriormente regressar e começar de novo a loucura. Todos os fins de semana, semana após semana, mês após mês.

Liberdade para agir implicava liberdade para escolher. E neste sentido, escolhia o melhor modo de aproveitar os tempos livres. Nunca fora um rato de biblioteca, mas adorava livros. Extasiava-me com o cheiro dos livros por abrir, o aroma envolvente daquela polpa de madeira tornada em sabedoria; as narinas ficavam cheias da substância das tintas, os olhos perdiam-se no nevoeiro semiótico das páginas amareladas e empoeiradas dos habitantes da extensa biblioteca da escola onde por vezes passava as tardes de sábado, quando o dinheiro escasseava e eu sabia que tinha de me refugiar das lojas e dos antros do consumismo antes que a mesada da Bolsa fosse consumida. Foi desse modo que encontrei Keats e Woolworth, que me perdi nos meandros de Shakespeare e na rebeldia de Byron. Enquanto os meus colegas ditavam queixumes contra a prisão daquele saber antigo, eu rebolava-me nele como um cachorro se rebola na terra, descobrindo o prazer do conhecimento. Embrenhei-me nesse mundo de tal forma, embrenhei-me naquela cultura e na existência em terra estrangeira, que quando a carta dos pais surgiu, a perguntar por notícias, a recebi com espanto - e duplo espanto tive, ao ler que o pai fora despedido.

Sentia-me assolado por um ligeiro choque cultural ao contrário. Deixara de escrever cartas, não tanto pela indisponibilidade para o incómodo, mas por que o português se tinha tornado num conjunto de sons pouco familiares, estranhos ao ouvido e repelentes ao sentido. Escutei de passagem dois emigrantes a conversarem na estação de caminho-de-ferro e não reconheci de imediato a minha língua pátria, dei por mim a pensar que raio de palavras seriam aquelas, capazes de invocar recordações adormecidas. Era uma situação perturbante. Não conseguia explicar aos pais, ou a ninguém que não tivesse passado por ela. Mal a explicava a mim próprio. O cordão umbilical desvanecera-se no nó em que se cria mais forte, e eu não estivera preparado. Descobrira que, afinal, o receio dos viajantes era verdadeiro: nem sempre conhecemos o caminho de regresso.

Só conheceria o caminho de regresso quando terminou o período da Bolsa. Aconteceu por minha culpa, antes de completar metade do curso. Sustentar-me-ia durante dois anos consecutivos, o segundo ano mais inseguro, uma vez que atingira o nível mínimo de qualificação disciplinar para me encontrar novamente elegível. Embora não pertencesse mais ao patamar de excelência que me fizera conquistar a Bolsa, consegui continuar a disfrutar dela, atribuíndo o desequilíbrio do primeiro ano à dificuldade de integração, e os pais acompanharam-me no engano. Iniciaria o segundo ano por baixo, confiante mas insensato, após algumas semanas que passei a acompanhar uns amigos luxemburgueses que tinham decidido escolher Portugal para as suas férias. Nesse verão, mal vi a minha casa, os pais, e certamente que não me recordei sequer da mansão distante. Quão longe se encontrava aquele país diferente, rodeado pelo muro, ileso da passagem do tempo e do envelhecimento da memória! Era uma pessoa tão sofisticada, agora, declamando as minhas frases com pronúncia correcta, trocando anedotas com os companheiros de correspondência estrangeira, aprendendo palavrões nas suas línguas e proferindo-as pelos corredores da residência, insinuando-me junto das francesas, embaraçando os professores com o meu brilhantismo. Julgava-me adulto e experiente, tendo visto mais do planeta que os meus conhecidos portugueses, julgava-me possuidor de uma cultura universalista e aberta que em nada se assemelhava à do meu país. As equações eram pássaros que passavam vertiginosamente por nós - e só eu os conseguia ver, distintamente, um a um, adivinhar-lhes o destino. Os outros colegas gaguejavam incertezas. Sentia-me no início da minha ascensão, e os professores vaticinavam-me tal destino, por detrás de portas fechadas, em conversas que mais tarde viria a saber. Acreditava, acima de tudo e com soberba, que me era permitido o impensável; e que, tendo praticado-o, escaparia impune e indemne.

(continua aqui)



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Merry-go-round

20 Janeiro 2006


(primeira parte)



Tinha quinze anos quando o círculo do tempo que regia a minha vida se tornou numa seta de direcção única sem retorno, e me perdi, perdi-me a mim próprio e ao conjunto de orientações que usava como guia. De súbito, pormenores outrora cruciais pareciam irrisórios, e até infantis. Não me importava mais em manter os pequenos rituais de início de estações, não ansiava por encontrar ninhos na floresta ou acordar antes do sol. Toda essa filosofia havia sido ofuscada pelas luzes da cidade, pelo deslumbramento da noite e do amor. Arranha-céus de betão e vidro polarizado ocupavam, nos meus sonhos, o espaço onde as árvores outrora se haviam erguido; cartazes publicitários e sinais de trânsito recortavam-se de encontro ao horizonte, encurtando a vista, trazendo promessas de admiráveis mundos novos; e, ao invés do canto dos pardais, enchia os ouvidos com o troar ensurdecedor das bestas de pistões e gasolina nas competições ferozes das estradas da capital. Descobrira, também, essa espécie tão misteriosa quanto irresistível que dá pelo nome de mulher.

Sentia nas narinas o perfume dela, a fragância evasiva de almíscar que nunca se rendia à definição perfeita, nem se conseguia capturar na atmosfera, era como uma brisa passageira. As minhas mãos afogavam-se na textura macia e fluída da sua pele, deslizavam na água branca da carne que encontrava subitamente nos meus braços, insinuando-se como um animal em busca de carinho, respirando delicadamente contra o meu pescoço nu - e eu, atrapalhado, cobria-me de suores a temer a minha própria igorância, excessivamente crítico em relação a qualquer acto meu, a todas as minhas palavras, de modo que os braços pendiam-me como tentáculos mortos ao longo do corpo e da minha boca só surgiam ruídos guturais e inintelingíveis. Mas então ela ria de agrado e dava-me um beijo, e ficava tudo bem. Era este o meu universo da adolescência.

Escusado será acrescentar que me afastei da mansão de estio. A mudança implicou um sacrifício; para vítima, escolhi-me a mim próprio. Ofereci a pessoa que ocupara os primeiros quatorze anos do meu corpo como moeda em troca do deslumbramento fácil das luzes de néon. Não considerei na época que tivesse feito um mau negócio. Creio que nem sequer parei para pensar.

O verão do ano anterior tinha sido perfeito, em todos os aspectos. Não me recordava de um único dia em que acordasse mal-humorado, ou o vento não fosse de feição à nave do meu espírito. Sentira-me como se uma divindade tivesse descido calmamente à terra e habitasse a minha alma, unindo-a ao céu e à relva, conferindo um rumo onde parecia não haver caminho. Eu era apenas mais um dos elementos do cenário. Havia uma certeza inultrapassável nos acontecimentos, como nunca sentira antes e não voltaria a encontrar. Tinha inclusivamente chuvido no final de Agosto, mas, longe de incomodar, a água cinzenta trouxera uma nova riqueza ao desenho das árvores, ao contraste cromático do céu pesado e ameaçador, ao meu espírito insaciável. E, como companhia, aparecera o Bola de Algodão, o gatinho que os meus tios haviam comprado. O verão impossível de aperfeiçoar.

Talvez tenha sido essa a razão do rompimento. Talvez receasse que não fosse possível ultrapassar, ou igualar sequer, aquela explosão silenciosa de felicidade. Talvez nunca tenha regressado daquele lugar, mas apenas a minha figura, e ainda por lá continue a povoar a floresta, a deliciar-me com o desenho intrincado das teias de aranha húmidas de orvalho pela manhã. Mudei. Passados poucos meses, era um estranho. Quando os pais anunciaram que não tinham dinheiro para fazer as férias habituais (corriam rumores de que o emprego do pai não se encontrava muito famoso devido a incompatibilidades políticas - mas, como de costume, era obrigado a adivinhar o que em casa não se mencionava em voz alta), e que não faria sentido deixarem-me em casa da irmã da mãe, e que há muito tempo não passávamos férias em família, para muita surpresa deles não me opus. Não me importei. Quando os tios telefonaram a perguntar por mim, repetidas vezes, não me encontrava em casa, saíra para passear por Lisboa, com mão de outro alguém na minha. Esquecer-me-ia de devolver os telefonemas. O cordão umbilical tinha-se rompido.

E depois, quando o inverno surgiu, arrastando consigo o fim do amor e das promessas, fui votado ao abandono - e então encontrei-me demasiado envolvido nas malhas da fúria e do despeito para me recordar do mundo exterior à minha miséria. Queria fugir a todo o custo, mudar por completo. Não tinha, ou julgava não ter, mais espaço para o romantismo. Abracei a oportunidade de saír do país sem olhar para trás. Um programa de intercâmbio estudantil entre vários países europeus entrou em vigor, e eu lancei-me na corrente. Ao contrário dos pais dos outros colegas, os meus não se oposeram; pela primeira vez, encontrava na sua maneira desprendida de ser um benefício para mim. Fui para Londres, ao abrigo de uma Bolsa de estudo que conquistara com algum suor e artimanha.

Estudar no estrangeiro é abrir a porta e saír de dentro de nós próprios. Para um jovem é, talvez, o derradeiro passo na eterna evasão ao ambiente protector da família que permeia os últimos anos da adolescência. Encontramo-nos duplamente sozinhos, não só por sermos completamente estranhos, mas por que a terra é estranha, a atmosfera é estranha, as cores das casas são diferentes, o olhar das pessoas é animado por paixões que desconhecemos. As pessoas são estranhas, é verdade; somos todos da mesma espécie, mas simultâneamente, não somos, estamos regidos por regras de comportamento que dificilmente encontram terreno comum. O mundo nosso conhecido deixa de existir. Não se pode voltar atrás. A solidão cerca-nos e abafa-nos como um predador ante a presa. E temos de sobreviver. Por orgulho. Por vontade própria de conseguir.

Acolhi a mudança de braços abertos e sorriso nos lábios - como se fosse o acontecimento mais natural da minha vida. Sentia-me forte, invencível, pronto para qualquer embate e desafio; gostava de me sentir assim. Estava coberto de couro, agora: não me permitia ser arranhado por carências tão irrisórias como a falta de amor dos pais. Não confessaria dependência externa nenhuma, a não ser a que «parecia bem»: a dos amigos da minha própria escolha. Segurava firme nas mãos o leme do meu destino. Ou assim acreditaria por algum tempo.

(continua aqui)



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Experiência: Cinco

19 Janeiro 2006


Ilustração de André Esteves
Ilustração de André Esteves



Os votos começaram a chegar logo pela manhã. Ilídio, principal-mor dos escrutinadores, começou a disseminar os resultados pelas propostas candidatas.

- Começam cedo – disse o representante da proposta da Certificação da Qualidade de Informação Online.

- A agenda para hoje está sobrelotada – disse Ilídio, retirando da impressora um gráfico de dispersão histórica das demografias de voto. O representante olhou para o calendário e assobiou. – Não vai ser pior que 15 de Fevereiro do ano passado, em que tivemos de apresentar mais de trezentas moções em 24 horas.

- Que sessão da tarde é esta assinalada? – o representante apontou para a linha a amarelo. Ilídio nem retirou os olhos do ecran.

- É a proposta do Morais.

- O Morais vai apresentar uma proposta? – o rapaz soltou uma gargalhada. – Deixa-me adivinhar: descontos no imposto sobre o vinho para a terceira idade?

- Ele melhorou muito nesse aspecto... Vai reformar-se, é a grande despedida.

- A corte vai ter de encontrar outro bobo... O que é isto, «Fundo para a Exploração de Emissões Extraterrestres Inteligentes»?

- Exactamente o que diz.

- Este gajo não existe... Bem, vai ser agradável ter um momento de descontracção. Quanto tempo é que falta?

- A revisão da quota anual de pesca de linguado ao largo da costa está quase a terminar... diria dez minutos.

- Vou descer para os bastidores. Dá-me uma boa iluminação.

- É indiferente para as câmaras, como sabes.

- Mas não para mim. Até logo.

* * *


Com o recurso dos meios de comunicação pessoais e o acesso barato e instantâneo a informação complexa, o processo da democracia sofreu uma evolução exponencial. A escolha morosa e popularista de um governo que prometia representar os interesses distantes do eleitor desapareceu para dar lugar à participação directa do cidadão no processo governamental. As pessoas deixaram de votar em princípios para votar em propostas concretas, apresentadas na Assembleia e difundidas pelos canais de comunicação vinte e quatro horas, sete dias por semana, por especialistas representantes das várias equipas multidisciplinares que as haviam estudado e elaborado, consoante as moções ou assuntos em debate. Por cada moção, havia normalmente duas ou três alternativas que eram apresentadas à vez, de forma sumária e com particular relevância para o impacto social, tecnológico, ecológico, económico da região ou do país, qual a viabilidade económica e qual a abordagem proposta – no final, as vantagens e desvantagens de cada uma eram resumidas, e a moção ficava uma semana à votação do público, por meios electrónicos e com possibilidade de consulta dos cadernos de estudo e do historial de votações e assuntos relacionados até então acontecido. Tratava-se de um processo muito objectivo e sem azo a interpretações demagógicas, como no passado, pois as equipas provinham do mundo da ciência e das finanças, e não da política pura – que, aliás, não se podia dizer que existisse. A forma que mais se aproximava das correntes antigas era o debate das questões éticas, mas quando era necessário introduzir esta vertente, abria-se um fórum publico de debate, durante um período, e convidados representantes dos vários sectores sociais para intervir e moderar – o que interessava, no fim, era a participação dos cidadãos, e normalmente as conclusões, ou observações, encontradas, enriqueciam o corpo principal das propostas. Desta feita, o cidadão podia intervir directamente nos assuntos que mais lhe diziam respeito e entender melhor as opções em debate, e o que teria de abdicar para obter o que queria. Isto não isentava a existência de lobbies ou tentativas de influenciar a opinião – deixada à solta, a multidão não tem opiniões, mas ideias vagas, e é facilmente influenciável... Contudo, a existência de pontos de vista diferentes por cada moção, trabalhados por equipas distintas e em concorrência, oferecia uma garantia maior de exaustividade e dificultava a tentativa de manipulação. E quem não tivesse tempo para assistir e estudar convenientemente, podia sempre escolher para o representar uma figura pública que considerasse ter ideias parecidas; neste sentido, podia dizer-se que havia ainda políticos, neste caso independentes que traziam no bolso um número de votantes, variável consoante a moção e a sua tendência de voto.

Não era de admirar que um político da velha guarda não se conseguisse enquadrar neste mundo moderno.

Morais era dos poucos que, por todo o mundo, não tendo conseguido adoptar uma nova mentalidade e seguido a maré, persistia em continuar a aparecer nas reuniões da Assembleia, normalmente ficando-se pelas filas de trás, sozinho, absorto e lento a intervir. Provinha de um tempo em que o processo legislativo se fazia pela demagogia e não pela análise de informação. Não conseguia digerir os quadros e números apresentados, julgava as apresentações secas e demasiado práticas, e fugia das respostas binárias e comprometedoras do Sim e do Não. A política que ele conhecia era feita de nuances e tons de cinzento, não de brancos e pretos. Os putos de agora não entendiam nada – mas aturavam-no e aceitavam-no e vinham ouvir as suas histórias, embora não conseguisse passar-lhes as preocupações.

- Mas como é que conseguimos representar o povo se não debatemos os assuntos? – perguntava ele na cafeteria, agarrado à sua garrafilha de prata. A rapaziada ficava a olhar-se mutuamente numa atitude crítica; raios para eles, que se julgavam demasiado puros para tocar em álcool; os seus melhores momentos tinham sido quando se encontrava «tocado». – Para cada pergunta, meia dúzia de pontos a assinalar ideias... uma explicação breve e já está...

- Os assuntos são debatidos nos foruns de estudo – responderia um dos rapazes ou raparigas ou andróginos, vestidos de forma leve mas prática, com as roupas ecológicas e os dísticos ostentando funções e escalão de representatividade. – Onde há especialistas e analistas, e participação do publico.

- Seria uma perda de tempo conduzir isso durante uma sessão da assembleia – diria outro.

- Se a proposta não está suficientemente desenvolvida, deverá ser agendada nova sessão – diria o primeiro.

- Senão, perdemos tempo e gastamos dinheiro público.

- Se sente que precisa de debater aquela proposta, deveria pedir antecipadamente para participar no seu desenvolvimento.

Raios os partam, estavam todos em conluio.

- Mas a responsabilidade... a necessidade do debate... – a cabeça andava à roda – contrariar as opiniões do adversário...

- Qual adversário? O interesse aqui é comum: gerir a sociedade e a economia da melhor forma.

- Pela análise do problema e escolha das alternativas mais propícias.

- O país é uma corporação gigantesca.

- E por isso tem de ser eficiente.

- Não vê os administradores passar dias a debater, e sem informação adicional, baseados apenas em ideais, rumos a seguir no mercado... – a malta riu-se. – Eis porque a máquina legislativa e a máquina executiva estavam tão distantes.

- Um ministro define estratégias, políticas a seguir... – diria Morais, a visão turva. Tinha de pedir café. Uma bica, que ainda sabiam fazer neste local, pois até essa droga inofensiva se tinha tornado impopular. Os novos yuppies, mais assustadores que os originais, seguiam dietas intensivas e eram adeptos da terapia genética. Era tudo mais assustador. Principalmente o dia-a-dia.

- Mas um ministro naquele tempo estava longe de toda a informação necessária para o fazer.

- E longe das vontades do povo.

- Dependia dos seus secretários e apoiantes.

- A não ser que fosse um político exemplar, mas para isso tinha de perder muito tempo com manobras internas.

- E tempo é dinheiro dos contribuintes.

- Este estado da nação só é possível pela democracia da informação de que hoje dispomos.

- Não estamos contra si – disse finalmente um deles. – As organizações sociais surgem pelas razões que surgem, não é nosso dever julgá-las. No seu tempo, fazia sentido.

Lançou-lhes o melhor sorriso, mas não os demoveu. Antigamente era tudo o que bastava. Vinham comer-lhe às mãos, os jovens, sedentos de orientação e sabedoria. Um sorriso e um discurso, e era vê-los de olhinhos a brilhar. Estes eram tecnocratas ao vivo. Não eram maus rapazes, embora fossem de convicções impenetráveis e quase telepáticas. Tanta união num governo assustava-o. Fazia-o pensar em ditaduras. Mas depois, na prática, não era assim, pois aquela malta, como os advogados, era capaz de liderar equipas de investigação sobre pontos de vista opostos e degladiarem-se mutuamente nas Assembleias.

Ao menos, Ilíado era um pouco diferente.

- Até hoje me vais obrigar a fazer isto? – os pontos amarelos e verdes dançavam no ecran, e ele seguia-os com os dedos, tentanto tocar-lhes.

- Temos de voltar sempre ao assunto? Faz o teste e está calado.

- Mas se estou em condições... – as bolas dançavam de um lado para o outro, era difícil segui-las.

- Em condições? Bolas, Morais, vais obrigar-me a cancelar a tua apresentação. Olha para estes valores...

- Então, Ilídio, pensas que és jovem como eles? A gente vem da mesma geração, do mesmo mundo. Que te custa não ligares a isto?

- Ao teste de uniformidade de raciocínio? É como não ligar ao facto que o depósito do avião em que vamos não tem combustível. Quem manda é a máquina.

- Dantes quem mandava éramos nós. Desde quando é que tenho de obedecer a uma porcaria destas? – e deu um safanão no ecran.

- Pois, assim é que não te deixo entrar mesmo.

- Sabes a quantas sessões assisti completamente bêbado? E muitos dos outros deputados?

- Por isso é que inventaram o teste. Acaba lá isso. Vai com calma.

- Um pouco de alcool não faz mal a ninguém.

- Morais, há quem beba e mantenha a integridade de raciocínio, mas não consiga conduzir em condições. Outros conseguem conduzir, mas a bebida afecta-lhes a forma como tomam decisões. Cada caso é um caso. No teu caso, tens a tendência de seguir o lado emocional quando estás mais alegre... tomas opções diferentes de quando não estás. E essa inconsistência é o que o teste revela. Por isso é que tens de fazer o teste todos os dias. Para termos um histórico. E não é só a bebida... podes estar com febre, podes tomar um medicamento, e isso é suficiente para te tornar inviável.

- Faz de conta que estou com febre.

- Já pus isto mais lento. Acaba lá.

Dava trabalho como um filho, pensava Ilídio, mas de certa forma iria ter saudades. Dava cor a um local muito uniforme, e ele entendia que isso era necessário. Não que ele soubesse fazer alguma coisa: era um político puro da velha guarda, e logo especialista em inflamar discussões, combinar arranjinhos, tomar decisões baseado em pouca informação ou rumores (ainda se lembrava da vergonha que resultara na sua caída final em desgraça, quando Morais se prestou a participar num estudo que provaria que decisões daquela natureza eram geralmente desastrosas; foi a humilhação pública, que o arrasou por completo, e talvez essa fosse a fonte da simpatia que Ilídio nutria pelo ex-deputado), fazer intrigas de gabinete, e favorecer pontos de opinião. Sem qualquer capacidade real de análise, de crítica fundamentada e de gestão. Tudo dons com pouca utilidade nos dias actuais.

Bem, mas estava a chegar ao fim. Ilídio observou os resultados e a monitorização cardíaca. Que estaria aquele homem a sentir? Era, de certa forma, o ultimo a morrer, o irmão que durara mais tempo, na família, e devia estar tremendamente sozinho.

- Tens a apresentação pronta? – perguntou-lhe. Estava quase fora dos limites, mas aprovou a sua entrada.

- Sim, aqui – apontou para a cabeça, e sorriu.

Isto vai ser lindo..., pensou Ilídio.

* * *


Subiu ao palco, encontrou o seu lugar no palanque; o pequeno microfone ansiava pelas suas palavras. Sobre a superfície encontrava-se o discurso, impresso em papel e equilibrado com clips, pois a superfície era na verdade um ecran que reproduzia a projecção que se encontrava nas costas do orador para o libertar de ter de virar-se enquanto falava. O assistente mostrara-se perplexo com a falta de uma apresentação visual mas fizera o seu melhor. Morais colocou os óculos, aproximou o discurso. Fingiu lê-lo. Depois pousou-o e encarou a audiência. A Assembleia estava quase vazia de pessoas, mas um indicador na parede oposta informava-o de que era seguido por cento e cinquenta mil pessoas em directo – além do tempo que lhe restava, que não era muito. Ergueu a mão direita e começou a contar.

- Visão. Confiança. Orgulho. Princípios. Perseverança – mostrou a outra e continuou. - Inovação. Aventura. Tradição. Diversidade. Inspiração. Eis os dez grandes pilares de uma grande sociedade. Ter uma visão para a sociedade que guie as nossas escolhas num tempo de constante mudança, feitas tendo confiança na capacidade dos cidadãos e orgulho nos resultados conseguidos, seguindo princípios humanistas que contribuam para a evolução da espécie, perseverança para ultrapassar as decisões difíceis e os sacrifícios, e inovação na forma de ultrapassá-los e diminuir os efeitos negativos. Mas conduzir este progresso como uma aventura no sentido positivo do termo: diversão, descoberta, conhecimento. Sem nunca esquecermos a tradição das nossas origens, honrarmos a diversidade inerente às pessoas que constituem a nossa sociedade, e acima de tudo, inspirarmos as gerações vindouras. Poderia elaborar sobre o assunto, mas não há tempo. E na verdade, não é preciso. Basta olharmos em volta. O que conseguimos. Onde estamos. Como saimos das cavernas e conquistámos o medo e aprendemos sobre a natureza e o mundo, como aos poucos, após guerras e tiranias e ideologias castradoras, chegámos aqui, a um contrato social, complexo, possível por um conjunto de instrumentos que nós próprios desenhámos. Podemos ser indivíduos mas também nação sem que um conceito choque com o outro ou tenhamos de abdicar de coisas irrazoáveis. Vou confessar-vos: nunca esperei que a democracia sobrevivesse muito tempo. Ainda sou do tempo que se lembra das histórias dos avós sobre ditadores e polícia política. Mas ultrapassámos uma barreira qualquer, e ficámos mais unidos. Não é perfeito, mas vai resultando.

Ilídio olhou para o cronómetro. O tempo iria esgotar-se em breve. Como organizador, caberia a si interromper o apresentador a meio. Suspirou, antevendo o que se ia passar. Morais dançava de um lado para o outro do palco, enunciando as palavras com precisão e falando com convicção. Parecia décadas mais novo.

O discurso tinha avançado. Falava dos navegadores portugueses. Falava da conquista do Novo Mundo. Falava do exemplo de Kennedy e do objectivo-Lua. Falava dos territórios desconhecidos e de como já não havia planetas para explorar, pois mesmo os do sistema solar seriam fotografados e cartografados antes de alguém colocar pé neles. Chegou por fim à proposta, que era o mais simples e anti-climático do discurso, pois implicava construir um parque de radio-satélites para escutar o espaço exclusivamente à procura de sinais inteligentes extra-terrestres. Algo que ninguém ainda tinha feito devidamente, apesar dos esforços antigos do projecto SETI. Mas que era importante para a preservação da espécie e para a continuação da sociedade. O facto de descobrirem que não estavam sós. E porque isso poderia demorar décadas ou gerações, deviam começar já.

Ilídio tentou mantê-lo no ar o mais possível, apesar da chuva de protestos dos outros apresentadores e do estrago no planeamento do dia, mas teve de acabar por interrompê-lo e pedir-lhe que resumisse. Depois ligou ao representante da contra-argumentação:

- Paulo, sê breve e indolor.

Em cinco minutos, Paulo resumiu os esforços das últimas décadas na escuta do espaço, que porção do espectro tinha sido analisada, quais os resultados, quais os problemas esperados, quais os reais benefícios e por fim, qual o custo.

A moção foi a votação. Morais já não estava no edifício.

* * *


Discreta e lentamente, a moção foi recusada por dez por cento do eleitorado nas primeiras vinte e quatro horas, normalmente decisivas para as propostas de pouca importância. Ilídio tentou telefonar a Morais, sentindo-se quase na obrigação de dizer algo, mas não conseguiu estabelecer conexão. Algo no íntimo o alertou, e quando lhe comunicaram na manhã seguinte que o antigo deputado tinha sido encontrado em coma alcoólico e falecera a caminho do hospital, não se sentiu realmente espantado.

O representante para a Proposta da Qualidade da Informação Online, que naquela manhã iria defender a revisão das Seguranças de Acesso para Respeito da Privacidade, soltou um trejeito de desaprovação.

- Que forma de acabar... com um desempenho miserável e o vício nojento...

- Pensas mesmo que o desempenho de ontem foi miserável? – perguntou Ilídio. Sentia-se estranhamente ausente.

- Claro que foi. Uma proposta idiota e cara sem benefícios para a sociedade. Que ganhariamos dos extra-terrestres, se os descobríssemos?

- Talvez uma... visão diferente do universo?

- Sim, durante uns tempos, mas depois há que continuar a cuidar da casa. Cuidar dos nossos problemas reais. Mas não concordas que foi miserável?

Ilídio parou um pouco e encarou o rapaz.

- Por sinal, creio que foi um dos discursos políticos mais emocionantes que alguma vez ouvi. Dos grandes. Morais, noutros tempos, teria sido um grande lider.

- Eram tempos ignorantes. O que precisamos é de método científico e racionalidade – disse o representante com convicção. - Tentar evitar o erro. Não se pode conduzir um país pelo instinto. Já bastam os erros do passado.

- O mundo avançou mais depressa do que ele... e depois já não era necessário.

- Sim, era tão obsoleto como teclados num computador.

Ilídio olhou-o profundamente.

- Que idade é que tens?

- Vinte e um... porquê?

- Nada – e Ilídio voltou às tarefas com um sorriso conhecedor que o rapaz não seria capaz de entender na íntegra durante muito tempo.


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O Herói das Histórias Dela

18 Janeiro 2006


(segunda e última parte)



O fim de semana começou abruptamente, cortesia de Ana, que me ditou as recomendações habituais, avisando que a miúda tinha estado constipada, pelo que teria de ter cuidado com os agasalhos, e enviou-me porta fora com um Até amanhã bem medido. Quis procurar tema de conversa, prolongar a estada. Uma curiosa forma de masoquismo impelia-me a saber mais sobre ela, como ocupara a semana, se estava bem, se tinha dormido com ele na nossa cama. Precisa de descobrir intuitivamente pela observação da forma de comunicar entre eles até que ponto se ergueria já a intimidade mútua. Tinha de saber se se teria recostado suavemente depois, a trautear de mansinho uma cantiga, como fazia quando me julgava a dormir - atitude que enchia-me sempre o peito de orgulho masculino indisfarçado. Por vezes, acendia um cigarro, a única ocasião em que fumava. Farejei o ar, à procura, como se a evidência do pecado se mantivesse impregnada nas paredes. Não tive oportunidade de descobrir nada. Temendo dar a entender o meu ciúme, irritado comigo próprio, agarrei na miúda, no saco com a roupa e voei porta fora, subindo a rua até ao carro - um veículo modesto, muito ao meu feitio, nada comparado com o do atleta. Dediquei a viagem a interrogar Anita sobre os seus dias, os amigos, a escola. A miúda gostava muito de falar, e quando começou, entreteve-se durante todo o caminho. Não prestei muita atenção. O meu pensamento não embarcara no carro, continuava naquela casa, à espreita. A imaginar os dois. Abraçados. Sózinhos durante o fim de semana. Aliviados do fardo da criança que eu fora buscar. Senti-me triste, mas não sei se devido à semelhança com o meu passado, se tinha meramente ciúmes.

Passei por casa, para deixar o saco. O ambiente vazio impressionou-me ligeiramente; já me tinha habituado à presença de Cláudia aos sábados de manhã, a passear pela casa vestida com a minha camisa e a beber café, cheia de sono. A cozinha estava assustadoramente arrumada e silenciosa. Accionei o gravador de chamadas, não fosse encontrar alguma mensagem sua de Évora. Não havia nada. Peguei na miúda, tranquei a porta e fugi daquele lugar abafado, ao qual só pretendia regressar pelo fim do dia.

Fatalmente, o nosso destino foi o Jardim Zoológico. Prometera-lhe na semana passada que seria desta vez que o visitaríamos. Há muito tempo que tentava adiar a visita. Não me sentia bem ao presenciar os animais enjaulados, sabendo que cumpriam sentença perpétua, que nunca voltariam encontrar o habitat de origem, o deserto, a savana, o clima mais frio ou mais quente ou mais húmido que o de Lisboa. Sabia o que era estar do outro lado das barras de ferro da indiferença. Mas era impossível adiar mais; logo, cumpri o meu dever de pai, encontrei lugar o mais perto possível do Zoo e levei a miúda pela mão.

Claro que Anita adorou. Sabia o nome das espécies, tinha estado a estudá-las na escola - e quando não sabia, inventava, teimando que estava certa mesmo quando tentei corrigi-la. Fazia questão em ter a última palavra. E soltava um berreiro monumental junto às jaulas ao tentar explicar-me, por vezes assustando os animais, e atraindo as atenções dos outros visitantes, em particular das mães, que me lançavam sorrisos de compreensão. Havia muitas mães a passear sózinhas com os filhos, notei; talvez fossem divorciadas, talvez os maridos não estivessem muito preocupados com o divertimento das crias. Podia ter metido conversa com elas, aproveitar a situação para as conhecer, casual e justificadamente, uma vez que falaríamos das crianças, somente das crianças, somente da inocência. Nos olhos de algumas encontrei uma ânsia de contacto que não tinha motivo de existir, a não ser que estivessem cansadas de ser mães, cuidar dos filhos, envelhecerem: que procurassem na atenção de um estranho a confirmação de que mantinham ainda a beleza dos vinte anos.

Não mandei calar a miúda, embora nos momentos de maior excitação fizesse chsssss baixinho para a acalmar. Tinha imenso orgulho na sua esperteza, e queria que os outros pais vissem que a minha filha sabia e mostrava que sabia; não era como os seus petizes lerdos e calados, que seguiam pela trela da mão sem interesse nem ânimo ao que os rodeava. Vaidade egoísta e mesquinha, bem sei, mas nunca pretendi ser perfeito, particularmente no que toca à defesa de Anita.

A visita demorou toda a manhã. Levei-a a almoçar num restaurante modesto perto de casa. Estava irrequieta a princípio, mas depois acalmou e comeu em paz - e eu também. Sentia-me cansado mas contente. Decerto não aguentaria aquele ritmo se a ele fosse submetido todos os dias, mas naquele momento invadia-me uma ideia de paz e segurança, como se pudesse passar o resto da vida a levar a minha filha ao Jardim Zoológico e depois almoçar com ela. Como se ela fosse eternamente pequena e eternamente minha. Impeli-a a comer como qualquer pai bem-comportado, apesar da sua contrariedade. «Já sei comer sózinha», reclamava ela, mas em seguida deixava caír um fio de esparguete no guardanapo que servia de babete, e eu brincava com ela, «És uma bebé. Olha para isso, não sabes comer». «Quero ir ver os desenhos animados», continuava, mas eu dizia «Antes tens de comer», aborrecido com o facto de a TV nos roubar as crianças, no pouco tempo de que dispomos para passar com elas. Pretendia trocar-lhe as voltas e passear de tarde na Caparica, mas o céu mostrou-nos uma carranca feia e ameaçadora, uma ventania gelada começou a soprar, e receei pela saúde da miúda, lembrando-me do aviso de Ana. Ficou em casa, a ver os desenhos animados, enquanto eu, vencido, a sentava no colo; depois, foi brincar sózinha com as bonecas. Não quis forçá-la a estar comigo; entendo que as crianças se enfastiem depressa da presença dos adultos e do seu mundo. Sentei-me na sala a desempenhar a tarefa mais inglória de um professor, a correcção de testes, desejando possuír também um refúgio secreto no meu espírito, o meu mundo pessoal. Surgiu na sala ocasionalmente para que eu perguntasse uma ou outra coisa às bonecas, incluindo-me com facilidade no seu imaginário. Não fez nenhuma pergunta embaraçosa, felizmente, mas começava a pensar que só as fazia na presença de Cláudia, que se desatava a rir com a minha atrapalhação. Também não perguntou por que não vivia com a mãe - só perguntou isso uma vez. Devia ter-lhe comprado um brinquedo novo, uma outra boneca, pensei ao vê-la pentear o cabelo de fibras amarelas da figura feminina, falando baixinho com ela, dizendo como se devia comportar. Mas não me sentia bem em oferecer-lhe prendas constantemente; era como se tentasse comprar o amor dela, suprindo a minha ausência com pedaços de plástico inanimados. Ter-lhe-ia o atleta oferecido alguma coisa?, ocorreu-me, e pela primeira vez, o meu coração ardeu de verdade. Não queria imaginá-la sequer a chamá-lo de «paizinho».

A tarde morreu numa mordomia cinzenta, obscurecendo a minha vontade em levar Anita a passear no domingo. Cláudia telefonou depois do jantar, só para dizer que estava tudo bem e que voltaria na noite seguinte. Não procurou conversa, desligou de imediato. Pousei o auscultador mudo, e fui deitar Anita. Teimou de novo, não queria ir para a cama. Quando a forcei, não queria ficar sózinha. Insistiu que lhe contasse uma história. Retorqui que estava cansado. Ela persistiu, pedindo que lhe contasse aquela história sobre a luz, o conto com que encantava aos quatro anos, quando ainda éramos um lar unido. Não contava a história há muito tempo. Julgava que ela nem se lembrasse sequer.

O conto era de invenção minha. Era didáctico, ou pretendia sê-lo, vestindo os elementos da Física com as roupagens próprias das histórias de fadas. O espaço era o reino, o sol, o palácio; a luz tornava-se numa raínha, e esta raínha tinha milhares de mensageiros que emanavam constantemente do palácio para espalhar pelos povoados e pelas gentes do reino, que estava ensombrado por um feitiço de escuridão e medo, a notícia de que a raínha continuava no poder, de modo que mantivessem a esperança. Não os chamava de fotões, apenas de mensageiros. O reino era tão grande, dizia eu, tão vasto e espaçoso, que os mensageiros nunca conseguiam voltar para casa antes de morrerem. Era o lado triste da história, e perturbava-a sempre um bocado; notando isso, uma vez não mencionei esse factor, e ela percebeu imediatamente a falta. Zangou-se por estar a ser enganada. Aguentava melhor a tristeza do que eu imaginara - talvez se passe o mesmo com as outras crianças.

O reino era, então, vítima do assalto das forças do Mal, que tentavam completar a tarefa antiga que se iniciara com o feitiço milenário. Por toda a terra, a confusão espalhava-se: os mensageiros deixaram de aparecer, as pessoas soltavam frases sem nexo, as vacas e as ovelhas deixavam de dar leite, os relógios andavam para trás. A Natureza insurgira-se contra si própria e contra tudo o que estava vivo, e o medo tomou o poder dos espíritos. O tempo perdeu o seu rumo, como um comboio descarrilado. Por toda a terra, o reino da raínha Luz parecia ameaçado.

Quando o desastre parecia iminente, fazia surgir de uma povoação modesta um jovem de ar determinado que abordava corajosamente a raínha no palácio e se propunha a enfrentar o representante do Mal. A raínha ficou tão impressionada, que lhe prometeu oferecer a mão de sua filha em casamento, caso o bravo aventureiro saísse vitorioso.

Naturalmente que neste ponto o jovem se apaixonava pela princesa e partia com um sorriso tolo nos lábios para a sua tarefa perigosa. Na sua demanda, enfrentava inúmeras peripécias, que mudavam sempre que recontava a história, por vezes mais imaginativas, noutras vezes fracas e forçadas. Raramente conseguia acabar a história e devolver a paz ao reino, por que essa paz descia em primeiro lugar ao rosto de Anita, suavizando-lhe a expressão, fechando-lhe os olhos, adormecendo o seu jeito de respirar. Esta não foi uma das raras ocasiões. Contemplei feliz o sucesso do meu feito, como o jovem aventureiro deveria ter contemplado o azul regressar ao céu e o dia iluminar a terra após matar o feiticeiro, e saí do quarto em pontas dos pés. A sala onde entrei estava escura e fria, o oposto. Percebi que estava a entrar na vida, no mundo real, e que o mundo real estava separado de Anita apenas por uma porta de madeira velha e frágil. E eu não tinha forças para manter a porta trancada para sempre, manter quente e primaveril o mundo de Anita. A minha filha iria crescer e tornar-se mulher, encontrar um homem que lhe destroçaria o coração e afastar-se de mim como se afastou a mãe, como se afastaram todas.

O pior era que desperdiçava a sua infância com os mesquinhos jogos politicos dos seus pais, empurrada de lar para lar, de fim de semana para os dias úteis para outro fim de semana numa existência dupla e segregada, que dividia mais que complementava. As crianças serão os eternos sacrificados, pensei. Nunca nos poderemos emendar, nunca poderemos redimir a culpa por que o tempo não caminha na direcção contrária, apenas de encontro ao momento da vingança. De crianças castigadas sem razão, justificamos o nosso sofrimento enterrado mais tarde, quando nos for concedido o ceptro que decide a vontade e felicidade da espécie pequena, do povo indefeso. Nesse caso, talvez esteja errado, talvez o tempo de facto caminhe para trás, no regresso infinito, a consequência sem causa, o acto sem vontade - viajando da última bofetada dada, para a primeira a ser sentida.

Nunca perdoaria a Ana. Nunca perdoaria aos meus pais, a John, a Garfield, à porra do reitor, nunca os perdoaria pela minha filha. Falhava como pai por culpa deles. Poderia ter sido alguém diferente, poderia ter sido.

Mas, afinal, João, disse para mim próprio, a culpa não acabaria sempre por ser tua?

Há duas formas de olhar para o céu, disse uma vez um professor meu de Astronomia, agitando uma longa caneta-ponteiro defronte do mapa celeste, e essas duas formas dividem as pessoas que olham, ou os momentos das suas vidas. Algumas, ao olhar, vêem a luz das estrelas, contam os pontos brilhante, exclamam para si próprias, Tantas que são!; outras, não vêem nada mais que o espaço entre as estrelas, a extensão negra e vazia, e lamentam baixinho, Como estou só.

(FIM)



Publicado pela primeira vez em «Mosaicos», vários autores, Editora O Escritor, Lisboa, 1995



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O Herói das Histórias Dela

17 Janeiro 2006


(primeira parte)



Sabia de antemão que não iria encontrá-la sozinha, porque o Toyota azul estava parado mesmo em frente da sua porta, o olho vermelho e incansável do alarme a piscar no tablier. Chamara-me a atenção antes de ter começado sequer a procurar por ele: era o carro mais limpo da rua. Nem um grão de pó cobria a vaidade cromada da chapa, ou ocultava os cambiantes vistosos da tinta. Atraía o olhar, mesmo de quem não se interessasse. Ocorreu-me tristemente que até através do carro ele se impunha.

Foi ele precisamente quem abriu a porta. Envergava calções cinzentos e uma t-shirt de alças manchada e suja. Tinha o cabelo pingado de tinta, e segurava um pincel na mão. Recebeu-me com a hospitalidade própria do homem dono do seu lar, convidando-me a entrar para não ter de esperar à porta. Foi assim que, naquela manhã de sábado, entrei na que tinha sido, e para todos os efeitos ainda era, a minha casa.

Não o conseguia imaginar a entreter-se naqueles pequenos trabalhos domésticos, como pintar a casa. Os homens que gostam de acelerar na estrada e mostrar a sua potência através de actos exagerados, que cuidam da aparência e praticam a pose em frente a espelhos imaginários, e cuja ideia de uma tarde bem passada é sentar-se numa esplanada com os amigos, a tomar cerveja, conversar sobre futebol e jogar às cartas, nunca se oferecem para tarefas tão assumidamente caseiras e femininas. Mas ali estava ele, de trincha na mão, com o eterno ar saudável e jovem que tanto me irritava, a sorrir como se aquele fosse o seu objectivo na vida. Ana devia tê-lo convencido, pensei, com a sua persistência habitual, devia tê-lo encostado à parede, feito ameaças implícitas, como na história de Lisístrata. Devia ser isso, pensei com força, por que não queria imaginar sequer a outra possibilidade, a de que ele gostasse tanto dela que se tivesse prestado ao trabalho ante o mínimo indício, somente para a ver feliz.

E contudo, era ainda a minha casa, no papel, embora Ana se esforçasse por cumprir com os pagamentos mensais, o que lhe implicava certo sacrifício. Era determinada onde eu acedera a ser flexível, prestando-me a entregar-lhe a escritura total, aceitando que me pagasse como pudesse. Não, dissera ela, a escritura será feita quando a tua metade estiver paga, e não antes. Não te odeio, acrescentara com os olhos, mas não quero ficar a dever-te favor algum. Após dez anos de casamento. Após dez anos de vivermos juntos, naquela casa, na atmosfera que eu julgava ser morna e agradável como uma fogueira numa tarde de Outono. Havia marcas da minha presença nos quartos, indícios meus nas paredes da sala, pequenos arranhões das minhas unhas na mobília, uma estética própria que antigamente reconhecia sempre que entrava em casa, a estética do lar. Agora, estava a ser apagado lentamente, com método e determinação, para não deixar traço. Ela reorganizara os quadros, trocando alguns (os meus mais queridos) por outros de aspecto dúbio mas apreciação fácil, arrumando os antigos num canto à espera que eu os levasse. Os móveis da sala ocupavam posições diferentes, formando ângulos estranhos - a sua ideia de estética, que originara tantas discussões no início do casamento. O papel tinha sido arrancado das paredes, dando-lhes um ar mais moderno - as paredes que ele estivera a pintar. As marcas nas paredes eram agora dele, era seu o jeito de pintar, era o seu estilo: nas paredes que cercavam Ana o dia todo. Não te odeio, dissera ela com os olhos, mas o que tinha pretendido dizer era, Finalmente estou livre.

Os meus livros, as minhas ilustrações e gravuras, os meus gráficos, alguns objectos ocasionais ainda aguardavam por mim enfiados na dispensa. Esperavam há praticamente um ano. Durante todo esse tempo, não conseguira reunir coragem suficiente para dizer o adeus definitivo. Mas continuava a visitar a casa, continuaria a encontrar aquela rua, aquele número de porta no destino das minhas andanças. Havia algo mais forte que o orgulho que me prendia ainda a ela. Algo que era, afinal, o testemunho vivo de um passado e do encontro de dois seres. O divórcio nunca apagaria esse testemunho. Surgiu a correr da cozinha com uma energia que continha o mundo e encheu os meus braços. Mergulhei nela sequioso da sua presença, da voz frágil que gritava paizinho, dos gorgolejos de riso, da figura pequena de anjo. Não consigo evitar os lugares-comuns quando penso nela, as referências óbvias que todos os pais que me antecederam associaram aos torrões de açúcar que lhes adocicavam a alma. Erguia-a em peso para a beijar sonoramente na bochecha gorda, e nesse preciso momento, esquecia-me de tudo, o tempo parava, havia apenas aquele espaço de adoração concentrada que me constrangia o coração. Seria somente mais tarde, revendo a cena em pensamento ou descrevendo-a num écran de cristais líquidos, que encontraria uma forma mais calma de apreciar a minha reacção, consciente de que milénios de experiências idênticas antecediam a minha. Não descobria um amor que não tivesse sido descoberto por milhões de pais ao longo do tempo, não poderia descrevê-lo mais eloquentemente do que eles nem de maneira mais sincera. Mas, como o sexo na adolescência, descobria-o sózinho, sentindo-o na carne, sendo assolado por aquela vontade inabalável de proteger a cria recém-nascida de todas as agruras do mundo. Fazia-me sentir tão pequeno e vulnerável quanto ela, tornava-me humilde, embora soubesse que tinha de me mostrar firme e resistente como uma árvore, e de esconder a dúvida, o medo. Não poderia haver gesto mais significativo do que colocar Anita ao colo. Um gesto a que não atribuiria a mínima importância durante a minha fase de solteiro e solitário.

E contudo, por vezes, sentia que a usava como uma desculpa. Não era o inocente que pretendia ser. Lamentava que não fosse sempre fim-de-semana, que não tivesse um forte motivo para entrar naquela rua e bater àquela porta. Ana tentava, delicadamente mas com firmeza, convencer-me de que não precisava de ver a minha filha à saída da escola, todas as tardes - por que teria de levá-la para a casa da mãe, e a mãe não tinha vontade de esbarrar com a minha cara todos os dias. Esforçava-se por derrubar a antiga intimidade com o mesmo vigor que eu, quase inconscientemente e sempre admoestando o meu próprio comportamento, tentava manter o calor nas nossas conversas e os segredos nos nossos olhares. Julgo que não conseguia ainda aceitar por completo a separação. Os primeiros meses haviam sido horríveis, a viver no cubículo apertado e bolorento que usara como escritório, alimentando-me mal, adoecendo quase todas as semanas, faltando à escola, e quando nesta, detendo-me a meio das frases enquanto leccionava, assumindo o olhar distante dos que sofrem por dentro. Os outros professores sussurravam a meu respeito nos corredores, e os alunos, com a sua adorável sinceridade e compreensão, escreviam ditos jocosos nas carteiras e nas paredes, faziam desenhos elucidativos de palhaços engravatados, e até gritavam à distância uma sentença que se perdia no meio das vozes do recreio mas encontrava com precisão certeira a ferida. Onde tinha errado?, era a pergunta que me enevoava a vista. Onde tinha terminado o amor e começado o ódio? Os nossos encontros haviam-se tornado em encontros de olhar para o lado, procurar esquecer a presença do outro na sala com o mesmo incómodo de quem tenta não notar o cheiro nauseabundo que a invade. A herança de uma década dedicada à exploração mútua das nossas intimidades e receios, à junção das nossas diferenças e ao reforço do que tínhamos de parecido - tudo no sentido, julgava eu, de construírmos um futuro juntos, marido e mulher unidos numa vontade única e num pensamento indissolúvel. Um edifício que se constrói com a vida. Como surgiria a decisão de romper subitamente com tudo, quebrar a promessa? Que efeitos teria em Anita? Não conseguia acreditar que Ana não tivesse considerado a filha na sua decisão; se o considerou, contudo, não foi razão suficiente para impedi-la de proferir a sentença.

Assombravam-me estes pensamentos nos períodos de insónia em que o colchão velho e pequeno me magoava as costas e o barulho dos carros no vício da auto-estrada penetrava pela janela frágil e enchia de zunidos o escritório escuro, o escritório vazio. Tentava compartimentar a minha vida como num filme, dividia-a em cenas e enquadramentos, separava o que considerava banal do que parecia ser importante, analisava pormenorizadamente as discussões, tentando lembrar-me do que ela dissera, o que tinha defendido, e principalmente, o que ficara por ser dito, a ameaça implícita. Algures estaria a razão. Em alguma daquelas ocasiões estaria a linha divisória que a fizera tomar a decisão final. A palavra a mais, o gesto demasiado brusco, o esquecer de uma data importante: qualquer acto que parecia irrisório. Mas sabia que a vida não era assim tão simples. Não seria uma questão irrisória que faria alguém tão calmo e compreensivo como Ana erguer a voz e anunciar o fim da relação. O feitio dela obrigaria a uma maturação lenta; o ódio, ou a frieza, neste caso, cresceria alimentado no próprio ventre, cresceria indesejado e pecaminoso como um filho bastardo. Bastaria um mero gesto de carinho e compreensão para fazer abortar esse ódio. Ana era demasiado carinhosa para não compreender as fraquezas dos outros. Se o ódio nasceu, foi porque não houve toque algum. Não o fiz, não senti necessidade de o fazer. Estava, talvez, demasiado ocupado comigo próprio, a sentir pena da minha pessoa, como é meu hábito. Merecia esse filho bastardo, portanto: merecia a indiferença, o abandono. Ana também se perdeu, no processo; deixou de ser a pessoa afável e inocente, e ficou prática e um pouco amarga. Relembrava tudo, e entristecia-me. Morreramos durante o divórcio. Éramos estranhos, agora, mais estranhos do que o tínhamos sido no primeiro encontro, uma vez que se nos havia esgotado as oportunidades. O filme chegava ao fim com um corte abrupto, e encontrava-me sózinho debaixo da janela fria, enrolado por debaixo do cobertor fino que não cumpria com eficiência a sua função de imitar o útero.

(continue para a segunda parte)



autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 2 observações |

Fábulas do Espaçotempo Curvo (de Minkowsky): Um

16 Janeiro 2006


Havia uma aldeia que fugia do Inverno. O Inverno chegava quase sem avisar, trazendo tempestades e frio e promessas de uma morte dolorosa e rápida, dizimando vegetação e animais. Chegava pelas costas, sorrateiramente, e poucos eram os sinais de aviso.

Apenas um homem estava sempre atento a esses sinais. Tinha a função de alertar da chegada do Inverno. E quando o fazia, todos os outros largavam os seus afazeres e levantavam o acampamento. Retiravam as pedras que prendiam as imensas e pesadas rodas que sustentavam a aldeia, acordavam as bestas do descanso e atrelavam os carros, recolhiam as crianças e prosseguiam caminho; sempre em frente, em perseguição do Sol, à procura do calor e da abundância, até se chegar de novo a um lugar de repouso e contemplação.

Uma vez o Homem-que-alertava-da-chegada-do-Inverno não cumpriu a sua função, e o Inverno apanhou-os desprevenidos. Muitos homens e bestas pereceram na abruptidão inesperada dos ventos frios, e foram arrastados no dilúvio das chuvadas. A custo, a aldeia conseguiu recuperar e encetar caminho, deixando para trás recursos e casas.

Conforme a tradição, o Homem-que-alertava-da-chegada-do-Inverno foi condenado a abandonar a aldeia e mergulhar no Inverno, que decidiria a sua sorte. Não poderia seguir mais o caminho do Sol, nem regressar à aldeia, sob pena de morte. A condenação foi feita sem que houvesse uma interjeição de defesa, pois o seu acto fora criminoso. Durante o tribunal, o Homem-que-alertava-da-chegada-do-Inverno não proferiu palavra, nem quando acabou, o que muitos entenderam como a afirmação da sua culpa. Nessa mesma noite, levaram-no até à orla da aldeia e ficaram a vê-lo mergulhar no Inverno, na direcção contrária ao rumo do Sol. Nunca mais foi visto.

O tempo passou. A aldeia cresceu e diminuiu, avançando no caminho designado, seguindo o curso da vida que dita que homens novos e bestas novas tomarão o lugar daqueles que os antecederam. Assim foi o caso do novo Homem-que-alertava-da-chegada-do-Inverno, um rapaz que se tornou adulto e depois ancião, e que cumpriu diligentemente com o seu dever.

E um dia houve, muitos e muitos acampamentos depois, em que, em busca de um novo local de repouso, depararam com a figura de um homem muito velho e doente atravessado no caminho. Estava sozinho, parecia doente e louco. Não havia sinais de outra aldeia nem de marcas no chão - ninguém tinha passado por ali. A primeira ideia da aldeia foi de que se trataria de alguém expulso de outro lugar, pois que tipo de homem rumaria no mundo sem a protecção dos seus? Com este pensamento firme, ninguém procurou ajudá-lo, mas alguns homens foram destacados para o retirar do caminho, para as bestas poderem passar.

Mas o homem, nesse instante, foi assolado por um fôlego de energia, e colocou-se de pé, mostrando-se assustado e pasmado. Avançou para a aldeia de olhos arregalados, mirou de cima a baixo os homens e as casas e as bestas. Riu-se sem razão, como um louco, cantou. De vez em quando, gritava, milagre!, milagre!

O delegado da aldeia sentiu ser o seu dever interpelar o velho.

De onde vens, homemzinho?, perguntou-lhe.

De acolá, e apontou para o caminho do Sol. A aldeia estremeceu de temor.

Não podes vir de acolá, acolá é o caminho não percorrido.

Pois sabei, meu senhor, que eu o percorri e que o tenho vindo a percorrer toda a minha vida.

Acolá ainda não foi percorrido por homem nenhum! Quem és tu para afirmares tal obscenidade?

Sou um homem que caiu em desgraça, meu bom senhor, mas a quem hoje lhe foi concedido o perdão. Outrora fui respeitado pela minha aldeia, a quem avisava da chegada do Inverno; mas um dia falhei nas minhas funções, e por minha causa muitos morreram. Condenaram-me a mergulhar no Inverno, e assim fiz. Mas por milagre não morri, continuei a avançar, e descobrir que além do Inverno existe um novo Sol, um novo caminho. Um caminho que continuei a percorrer. Até vos encontrar.

Só há um caminho do Sol, que é o que percorremos.

Confiai, meu senhor, que há outros caminhos além deste, e que todos convergem num só.

Conta-se a história na nossa aldeia de um homem que avisava da chegada do Inverno, e que foi banido por ter falhado nas suas funções. Muitos morreram por culpa dele.

Eu sou ele. Tenho vivido o castigo toda a minha vida. Mas o Inverno não me matou, antes levou-me de volta ao Sol, ao caminho que percorri até vos encontrar. Ainda reconheço alguns de vós.

A conversa terminara, e o delegado conferenciou com as gentes da sua estima sobre o dispor do velho. A história fantástica de caminhos que convergiam atemorizara alguns corações mais impressionáveis. Se era verdade, só podia ser milagre, pois de que outra forma se cruzariam os caminhos de dois homens que tinham partido em direcções diferentes?

Mas os mais antigos da aldeia, que reconheceram o homem como o antigo condenado, afirmaram que só podia ser mentira, que o velho os seguira todos aqueles anos contra a sentença, e que agora surgia porque estava a morrer e queria conforto e perdão. Não havia milagres: o caminho era direito e não curvo, e logo não fora ainda percorrido.

Confrontando esta explicação com a anterior, e decidindo que era mais razoável e humana, o delegado ordenou então que o castigo fosse aplicado ao condenado que decidira regressar.

E foi assim que naquela tarde prenderam o velho ao chão por meio de estacas e cordas, e fizeram passar a roda pesada de uma das casas por cima dele.

autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

Chamo-lhe Primeira Vez...

15 Janeiro 2006


(segunda e última parte)



- Espera! - e corri atrás dela. Maria João avançava com o passo firme e os braços retesados, de cara apontada para a quinta, e não dava mostras de querer mudar de ideias. Tive de colocar-me à frente dela, e depois correr mais um bocado quando me evitou, até que a fiz parar. - Espera, ouve, desculpa. Não queria dizer aquilo. É claro que podes vir.

Ela parou. Os olhos ardiam-lhe.

- O menino só me quer a seu lado por que tem medo que eu conte tudo aos seus tios.

- Não, claro que não, é mentira - estampei nas bochechas o melhor sorriso que pude, mas podia senti-lo derreter ante a fúria demolidora. - Apenas não queria que... ficasses magoada.

- O menino julga que me engana! - exclamou ela. Parecia determinada em continuar na rota e denunciar a minha rebeldia àqueles que saberiam como sufocá-la. Suspirei fundo, tremendo de medo com a ideia de passar o resto das férias, e talvez o resto da vida, a pairar na orla do meu desejo, sentindo o cheiro enlouquecedor mas proibido de tocá-lo, como um insecto atraído pela chama.

Então, o futuro mudou de rumo. No rosto de Maria João vi desaparecer a minha sentença, vi que os meus dias no bosque continuariam secretos e possíveis. A raiva desaparecera, e um pouco de sol fez iluminar uns olhos que antes haviam estado cobertos por nuvens de trovoada. Mas não gostei do que encontrei no lugar destas.

- Muito bem, se o menino me quer a seu lado, estarei a seu lado. Mas só se me prometer uma coisa!

Malícia. Era o que via naqueles olhos.

- O quê? - perguntei, lamentando profundamente não ter respondido ao apelo da minha cama quente e pacífica.

- Tem de prometer que, quando entrarmos no bosque, vai fazer tudo o que eu mandar.

Dei um salto, completamente pasmado. Não podia acreditar que ela, a filha da criada, tivesse feito aquele pedido.

- Senão, conto tudo à sua tia - concluiu Maria João, cada vez mais divertida. - Promete?

- Mas tu és louca!...

- Promete? - repetiu, mostrando a sua intenção de continuar no caminho para a quinta.

Abri a boca para responder, mas a luta feroz que se travava no meu espírito não permitiu que saíssem palavras, nem sequer sons. Caír sob o jugo de uma rapariga, que degradante! Obedecer aos seus caprichos, falar quando o permitisse e manter-me calado nas outras ocasiões, como se fosse uma irmã mais velha - e pior, dentro do meu espaço privado, do meu lugar de sonhos onde me sentia verdadeiramente livre; ser aprisionado como um pássaro numa gaiola ao ar livre.

Mas a troco de quê? Precisamente dessa liberdade. Do sonho amplo onde caminhava acordado todos os momentos do ano. Seria outra forma de prisão, também uma gaiola, mas desta vez encerrada num recôndito da casa, longe da janela, tendo o tecto por céu e as paredes próximas por horizonte.

Escolhi.

- Está bem, prometo - disse, numa voz sumida. Uma vez dentro do bosque, fugiria dela, pregar-lhe-ia um susto tão grande que nunca mais teria vontade de se aproximar de uma árvore na vida, mesmo que fosse um carvalho isolado na planície. Escondi o sorriso de vitória que assolou a minha alma.

- A mão sobre o coração - pegou-me nos dedos e abriu-os sobre o meu peito, do lado esquerdo. Tinha as mãos geladas e a pele muito macia e o meu coração batia descompassado. - Repita.

Prometi novamente, reparando melhor nos seus olhos cor de azeitona encimados por sobrancelhas carregadas e fartas. A pupila era feita do mesmo material da menina do olho, e uma não se distinguia da outra, pertenciam ao mesmo negro de azeviche, uma impressão redonda sobre a superfície branca. Já tinha encontrado aqueles olhos, mas nunca em pessoas. Eram os olhos dos pardais que recolhia do chão nos dias de intenso calor e que acabavam por morrer nas minhas mãos, pacificamente, como se a vida tivesse sido apenas uma ideia passageira. Era o negro do fundo dos poços e das noite de Verão, a cor dos lugares frescos e húmidos para onde o corpo queria fugir quando o sol inchado se deitava sobre a terra, no começo lento da tarde, também ele pachorrento e cheio de sono. Tens olhos de Natureza, pensei, e tê-lo-ia dito, mas ela soltou nesse momento a minha mão, abandonou-a, e deu um pulo no ar, gritando

- O último a chegar é um sapo perneta!

e o momento quebrou-se, o contacto, a pele fria na minha mão.

Recuperei do choque tarde de mais.

- Vem cá! - berrei, e lancei-me na corrida como um doido, esmagando dentes contra dentes, cerrando os punhos em si próprios, tornando-os em cimento. A cabeça inclinava-se de encontro ao vento, como se protestasse pela existência do ar que me abrandava. Semicerrei os olhos e imaginei que tinha um foguetão activo nas costas. Imaginei asas nos pés e nos braços como um pequeno Mercúrio, batendo furiosamente para que conseguisse elevar-me acima da terra e dos seus acidentes geográficos. Fechei os olhos e pensei nela a tocar primeiro do que eu na casca das árvores, a pisar o terreno que era meu, a respirar aquele tesouro de iodo e orvalho. Entrava uma estranha na minha terra; essa ideia fez-me correr com mais alento.

O frio cortava-me a respiração. O anorak atrapalhava-me os movimentos. As botas não se moldavam com perfeição ao desenho dos pés, magoavam-me sempre que os pousava no chão. Mas não admitia desculpas. Se não conseguisse alcançar e ultrapassar aquele espírito endiabrado que vestia meias altas e grossas de algodão e calçava botas pretas e sujas, e que corria como se possuísse asas nas costas, a culpa seria minha, a falha seria minha. Não importava que Maria João fosse mais alta ou tivesse pernas mais compridas, ou talvez, apenas, uma determinação maior. Aquele era o meu reino, a minha amada que defenderia com a minha honra. E parte dessa honra consistia em entrar primeiro e marcar o terreno. Encurtei a distância, ainda sem a alcançar. Ela passou por fendas na terra, baixios e ondas no solo, subiu montículos e pedregulhos com facilidade, e penetrou pelos arbustos da periferia como se fosse matéria incorpórea, filha do vento e das nuvens. Parecia conhecer de antemão os melhores locais para atravessar - de modo que, sempre que eu discernia uma forma de cortar caminho, através de uma passagem ou de um matagal de ramagens duras, esperando que ela prosseguisse pela rota mais fácil, a que milhares de passadas haviam traçado na terra, Maria João escolhia precisamente o atalho, não me deixando qualquer hipótese. E não se cansava. Apertei quase no fim, percebendo que ela iria vencer, pois estava muito próxima do bosque, demasiado perto, quase a misturar-se no verde e castanho dos troncos, a desaparecer na escuridão, entrou.

Quando cheguei, não a vi. Também não bati no pinheiro mais alto e adiantado, nem lhe perguntei como lhe corria a vida. Não entrei com o pé correcto no trilho que levava ao refúgio - nem sequer pensei neste. Não saudei o meu local por se ter passado mais um ano e aqui me encontrar de novo, mais cedo do que o habitual. Esqueci-me de todas as tradições e avancei pelo bosque. A transição do dia para o crepúsculo eterno das árvores foi brusca como um piscar de olhos. De repente, encontrava-me cercado de árvores, sem vista da saída, como um nadador que se afasta da costa. Corpos grossos de casca fendida e amarelada onde se desenhavam os trilhos dos insectos e das criaturas pequenas que neles viam o seu país, o seu mundo: neles sobrava ainda uma réstea do nevoeiro matinal. Estava muito frio dentro do bosque, fazendo-me tiritar e esfregar os braços com ânimo, idêntico ânimo ao que me faltava na alma. Maria João não se encontrava em parte nenhuma.

Gritei por ela. Chamei, a princípio, e depois berrei vigorosamente, quase desesperado, mas nem um rumor da sua presença se fez sentir, apenas o silêncio de um bosque invadido por criaturas humanas, reservando o seu manifesto e aguardando cautelosamente o desenlace das acções de tão estranhas criaturas. Os animais haviam-se calado, e mesmo a verdura tinha sustido a respiração, como um coelho encurralado. Se uma folha caísse naquele instante, o seu tombo trovejaria por toda a floresta - e de Maria João, nem um suspiro.

Começava a ficar desorientado. Não tinha sido esta a ideia de uma manhã divertida! O que faria agora? Penetrar mais no bosque e procurar por ela, ou voltar para casa e pedir ajuda - o que implicaria ter de contar o onde e o porquê. Nenhuma das alternativas era agradável. Não gostava de penetrar sózinho no labirinto do bosque, apenas de navegar na orla, próximo da margem, ao alcance de terra segura. Provavelmente, seria essa a decisão mais correcta: o compromisso. Ficar por ali até a encontrar, ou até que ela se aborrecesse e voltasse para casa.

O refúgio chamava por mim. Afinal, tinha-se passado um ano. E nunca o havia presenciado numa manhã de pleno Abril.

Foi quando ela surgiu.

Surgiu pelas costas. Senti que lançavam sobre mim um fardo pesadíssimo - e de repente, perdera o contacto com o solo, o mundo rodava em diferente eixos, os pés uniam-se ao céu por vontade própria, e eu mergulhava no leito duro daquele mar de húmus e folhas mortas. Enchi a boca do barro que sabia a morte e sabia a vida, tocando com os lábios na terra que pisava todos os dias. Tinha o odor dos frutos maduros e dos trilhos de insectos, o odor do útero primevo - cobriu-me, impregnou-me com o seu cheiro, colou-se à roupa, tornou-se na minha segunda pele. Uma trave pesada, que só depois descobri que era um cotovelo, comprimira-se de encontro às minhas costas, impedindo-me de respirar.

- Apanhei-o! - berrou Maria João, saindo de cima de mim e esquivando-me da minha fúria. Levantei-me a custo, sacudindo a terra, limpando o rosto. Tremia ligeiramente: devido aos nervos, não do choque nem da dor nem do frio que penetrava alegremente pelo meu anorak aberto. Maria João estava ali, de riso aberto, um pequeno mas maligno duende da floresta, folhas no cabelo, terra nos joelhos, e um ar de idênticas e incansáveis promessas lançado no meu caminho.

Como a odiei nesse momento!

Virei-lhe costas e comecei a cortar caminho pelas ramagens.

- Onde vai o menino? - gritou ela nas minhas costas, um misto de espanto e divertimento.

- Embora - resmunguei, afastando os braços de madeira que me tentavam acariciar o rosto, o sufoco da folhagem, tentando orientar-me naquela terra subitamente estranha que era a raiva.

- Não pode fazer isso - começara a seguir-me. - Já se esqueceu da sua promessa?

- Vou voltar para casa. Não quero passear mais.

- Olhe que eu conto aos seus tios.

- Paciência - já estava pronto, demasiado pronto, para abandonar o objecto da paixão se ele não mais poderia ser apenas meu. Com aquela idade, conhecia bem de mais o sabor amargo da chantagem emocional, um prato servido todos os anos, com data certa, pelos meus pais, e aos quais associava prontamente.

Senti-a parar. A ramagem estava a ganhar forças na luta contínua, como a água da praia quando sobe. Começava a sentir-me derrotado, mas a raiva, a raiva impelia-me o avanço.

- Então porque é que está a avançar na direcção contrária?

Não foi tanto o engano mas o riso que me fez parar. Sentia-me a arder de fúria por dentro. As labaredas deviam ser tão altas, que percebi que ela as via distintamente, o que só a tornava mais alegre. Quando me virei, ela sorria-me abertamente, em tom de desafio, gozo, uma rapariga a mostrar-se mais esperta do que eu!

E foi essa certeza que me fez virar e reagir.

Ela não esperava. Mal começara a abrir a boca num «O» de advertência quando caí por cima dela. Os olhos ainda mostravam espanto quando a derrubei de encontro ao mesmo leito que ela me fizera provar há instantes. O cabelo prendeu-se em ramagens, arrastando-as consigo. Os braços voaram, desamparados, o corpo cedeu ante o meu impacto, o ar soltou-se-lhe dos pulmões. Os lábios cederam um grito, derrotados. A raiva que sentia tinha-se tornado sólida, era feita de tecido e carne por dentro, um tecido que senti pela primeira vez naquele breve segundo de contacto.

Mas era como se, subitamente, tivesse perante mim o tão ansiado alvo no qual podia disparar.

- Saia de cima de mim - queixou-se ela, mas não mais com um tom presunçoso. - Saia de cima de mim - e afastou-me com desagrado, afastou-me como se eu fosse um animal morto e fedorento que tinha entrado em contacto com ela.

E eu, mal refeito da minha reacção, procurei orientar-me, toda a paixão gasta, todo o ódio expulso, tentando perceber a quem se dirigia ela, se a mim, se àquele que ambos tínhamos encontrado há meros segundos atrás - tentando também perceber onde estava a origem de tanto queixume, que em nada se enquadrava na figura valente e destemida que julgara minha adversária.

Vi, então, a escorrer-lhe pelo rosto abaixo, os finos traços gritantes do sangue, o corte profundo na cabeça, os olhos doridos

- Saia de cima de mim - e pôs-se de pé, um pouco hesitante. Sacudiu a roupa, agora mais suja, e compôs o cabelo, revolto.

os olhos quase a chorar da dor que eu lhe provocara

- O menino é mau, é muito mau.

a violência com que me atingiu a culpa

- Des... des... desculpa, eu não quis...

a culpa que senti, violenta, viva em mim.

Mas ela não quis ouvir mais nada, e afastou-se. Fiquei ali, de braços caídos, sem saber se deveria segui-la ou deixá-la ir, piorar a situação ou resolvê-la definitivamente. Fiquei perdido no mar de sentimentos que nem sabia que podia albergar. Começava já a arrepender-me daquelas férias, a ter um gosto amargo na boca, o gosto dos meus pais. Desejava-os de volta, queria sair dali.

E foi então que percebi que um elo vital tinha sido quebrado.

Odiei-a nesse instante por isso. Seria reacção à dor, mas a uma dor diferente. Ela, em poucos minutos, tivera o dom de me retirar o pulmão da minha alma. O refugio não o seria mais, pois estaria agora impregnado daquele infortunio, da minha fraqueza e maldade. Já não era inocente. Era adulto. Tornara-se adulto. Tornara-se distante. A floresta dava vida a uma memória que não quereria reviver. E a culpa, a grande culpa, se era minha, era também dela, por se ter intrometido.

Voltámos para casa, ela adiantada vinte passos. Não olhou para trás. Quando chegámos lá dentro, dirigiu-se imediatamente para o lavatório e começou a retirar os pedaços de folhas e ramos do cabelo, a lavar as feridas da cara. Permaneci algo distante, querendo fazer ou dizer algo, apenas impedido pela infantilidade do meu ser.

- O menino não precisa de ter medo - disse ela, num tom de assustar. - Vou contar que caí. Fique com a sua adorada floresta só para si.

E foi assim que percebi que era também egoista. Porque, ante as palavras ditas, senti alívio. O pecado do alívio. A mesquinhez que revelava um interesse único pelo meu devir, e não pelos sentimentos dela.

Mas, raios, sussurrou-me o diabinho encarnado, não tinha sido ela a provocar tudo?

Mesmo assim, não a devias ter magoado, contrapôs o anjinho azul, que tinha a cara da minha tia.

Os meus tios, se soubessem!...

Era tudo o que interessava, aparentemente, e no final de contas. Voltei para o quarto e sentei-me à janela. O bosque ainda lá estava. Cantava numa brisa suave, e o dia já tinha nascido. Mais uns minutos e a casa iria despertar. Contudo, era como se tudo o que pudesse acontecer tivesse já acontecido. Como se a história tivesse contada, e as horas restantes, uma enorme maçada.

Como estaria errado. Porque nesse dia, ficaria a perceber anos mais tarde, os tanques militares tinham sido mais madrugadores do que eu.

(FIM)



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Chamo-lhe Primeira Vez...

14 Janeiro 2006



(primeira parte)



Quando voltei a abrir os olhos, já a noite havia desaparecido, e com ela as estrelas e o frio. Pela janela descerrada, caía o sol com toda a sua vivacidade de uma manhã que nascia e queria crescer. Era ainda muito cedo, percebi, lembrando-me de que adormecera a observar o céu pontilhado de luzes, esquecendo-me de fechar os cortinados. Ainda deviam estar todos a dormir. Era o único ser consciente e desperto naquela casa enorme, o último sobrevivente na Terra. A ideia foi tão tentadora, que me levantei de imediato, apesar de os cobertores me apertarem num abraço de mãe, e o colchão macio me chamar de volta com a sua voz feminina e sensual. A humidade gelada do quarto esbofeteou-me e fez estremecer o meu corpo, levando-me a procurar apressadamente o roupão e enrolá-lo em torno de mim. A cama parecia cada vez mais convidativa; talvez devesse esperar que a criada me fosse acordar, oferecendo-se para levar-me o café à cama.

Mas o passo mais difícil estava dado, e senti que não conseguiria voltar atrás. O bosque acalentava promessas de descobertas novas, sensações diferentes das que tão bem conhecia; iria observar o familiar como se o encontrasse pela primeira vez, iria percorrer aquele bosque transformado numa idade diferente, a sua infância, em que as copas das árvores apresentavam as primeiras flores e os animais se atarefavam nas múltiplas tarefas sagradas do acasalamento e nidificação, tecendo os laços que os uniriam aos meses da Primavera e do Estio, para eles uma vida inteira. Iria ser tocado pela respiração ainda sonolenta da terra, acolhido por uma mãe que se sente solitária e é visitada pelo último filho, o que lhe resta, o que, secretamente, mais amou. Desci as escadas com passos de algodão, devagarinho, acariciando os degraus para que não protestassem, pedindo que se mantivessem calados, descendo, descendo mais um pouco, tocando no andar de baixo sem acordar ninguém, vitorioso. Avancei com passos de ladrão, suavemente, tocando no soalho com as pontas dos pés, entrando na cozinha, avançando, avançando, passando pela mesa da copa, a porta na minha frente, o bosque na janela. Abri a porta.

O frio atingiu-me com uma bofetada violenta e acordei de vez. O ar transformara-se num bloco de gelo impenetrável. Pingava orvalho da conduta da chuva por cima da porta, pendia um pequeno estalactite de gelo da ombreira, agora quebrado pela minha impetuosidade. O meu bafo transformou-se em nuvem que se dispersou. Semicerrei os olhos devido à intensidade da luz, sentindo as pestanas a congelar. As teias das aranhas deviam estar lindas, nesta manhã! E quando uma brisa soprasse pelo bosque, haveria tempestades de chuva em miniatura, caídas das plataformas verdes e sólidas das folhas. E o sol que batia nas plantas húmidas reflectir-se-ia como um prisma, um caleidoscópio de infância, um momento da vida capturado. Pássaros, esquilos, ouriços, lagartas, coelhos, todos eles chamavam-me, podia ouvi-los da entrada.

Mas não queria arriscar-me a caír de cama com uma gripe, senão não voltaria ao bosque naquelas férias. Assim, fechei a porta, voltei a subir as escadas, dirigindo-me ao quarto onde vesti o fato de treino, coloquei o cachecol e o anorak, calcei as botas e apressei-me de novo para a rua, desta vez com mais pressa mas também com mais cautela, dois desejos inimigos.

Quando abri novamente a porta, estava lá ela, em lugar do bosque.

Dei um salto de surpresa, e ela correspondeu com igual vigor, por pouco não deixando tombar a meia dúzia de ovos acabados de colher que segurava no regaço do avental, como se fossem flores. Pestanejei diversas vezes, pisquei os olhos com força numa atitude tão bizarra como inútil, mas ela não desapareceu, não era um truque da luz. Era uma rapariga da minha idade, uma miúda, ligeiramente mais alta, de cabelo comprido muito liso e negro, e um rosto pequeno. Os olhos quase lhe saltaram das órbitas quando se assustou e levou a mão de imediato ao peito para o ajudar a respirar. Esqueci-me do bosque.

- Quem és tu? -$ perguntei sem pensar, com um tom mais autoritário do que pretendia. Quem és tu que surges do nada e me barras o caminho?

Ela recompôs-se imediatamente do susto e empertigou-se a todo o comprimento da coluna.

- Isso são modos, meu menino? Não lhe ensinaram a boa educação? Não se diz bom dia primeiro?

Fiquei ainda mais perplexo. Não só esta estranha invadia a minha casa, como me chamava de malcriado.

- Quem és tu? - insisti, esperançoso de que percebesse que eu era o legítimo dono da casa.

Ela suspirou audivelmente.

- Deixa-me passar, se faz favor, que tenho de guardar os ovos? - e sem esperar pela licença, irrompeu pela cozinha, pela minha casa, para depositar os ditos em cima do balcão. Depois abriu a torneira e começou a lavá-los.

Eu passara muito além da perplexidade, além da falta de palavras e da respiração ofegante. Estava indignado, como só se pode estar legitimamente aos dez anos.

- O que estás a fazer?!

Ela olhou para mim com pasmo.

- O menino não quer que eu guarde os ovos sujos, pois não? - e tendo-o dito, secou os mencionados com um pano e depositou-os no frigorífico.

- E quem te disse para fazeres isso?

- A minha mãe.

- A tua mãe? Quem é a tua mãe? Quem... - por breves instantes, atravessou-me o olhar a imagem de um casal a abraçar aquela miúda, radiantes de felicidade: a miúda era a filha cujo rasto haviam perdido há muito e que agora fora encontrada, o casal eram os meus tios, a imagem era uma fotografia obrigatoriamente desfocada, pois jamais um pedaço de papel poderia conter pacificamente tanta emoção, e eu não me encontrava nela. Mas depois percebi, e a imagem desvaneceu-se. - És a filha da Rosa.

Ela mostrou-me um sorriso.

- Pois sou, e se calhar o menino julga que eu devia chamar-me Espinho. Pelo menos é o que o meu pai me diz e também outras pessoas. Mas não. Sou apenas a Maria João. Mas não me importava de ser Espinho.

Tens um feitio a condizer, pensei.

Ela lançou-me um olhar cortante.

- E o menino é o João.

Cerrei os lábios num amuo, enfiei os punhos nos bolsos e não disse nada. Pois bem, a filha da criada! Só podia ser, pela voz, pelas palavras, pela entoação, pelo modo interminável de encontrar palavras atrás de palavras, mesmo que não fizessem sentido. Pela feição de perfil, que revelava o traço descontínuo do nariz, quebrado na ponta e alongado na cana, fazendo-a parecer mais feia do que na realidade era. Escutara qualquer conversa a respeito da sua vinda, mas, como não interferia na minha felicidade e estada, não lhe prestara a mínima atenção.

- Andei consigo ao colo - rematou. - Tinha ainda este tamanhinho - e afastou ligeiramente as mãos, até revelar um espaço não maior que a sua largura. Fiquei irritadíssimo, sem saber explicar, porque só mais tarde compreenderia o significado do termo «humilhação»: mais tarde, por detrás de barras de ferro cruzadas, trancadas. Quem era aquela amostra de gente (como a minha tia costumava chamar-me, para me atazanar) para se atrever a afirmar que tinha-me conhecido quando bebé, o que significava que era mais velha e se lembrava, o que significava que era mais uma pessoa que aspirava ao papel de minha mãe mas sem o ser.

- Não quero saber - decidi, procurando calá-la. - O que estás a fazer aqui tão cedo? Por que não estás deitada?

- Há coisas que têm de ser feitas. Alimentar os animais, recolher os ovos, limpar a casa, fazer o pequeno-almoço. A minha mãe disse para acordá-la cedinho, mas ela ontem estava tão cansada e hoje de manhã dormia tão bem que não quis acordá-la, e assim vim fazer, eu própria, as tarefas dela.

E Maria João proferiu aquelas palavras, naquela ordem, com aquele significado, e com tanto sentimento que fiquei completamente boquiaberto. Estava na presença de alguém que adorava tanto a sua progenitora que se sacrificara a trabalhar apenas para poupá-la. Por uma razão que me era estranha, a ideia era-me desconfortável.

- E o menino? Por que não está também deitado? Não me diga que tem tarefas para fazer?

Foi então que me lembrei do bosque. Bolas!, perdera tempo a conversar com a filha da criada, e enquanto isso, as teias das aranhas secavam ao sol, perdiam o brilho.

- Tenho de ir ao bosque - e dirigi-me para a porta.

Ela olhou para fora.

- Bosque? Que bosque? - apontou para diante. - Aquele punhado de árvores?

- É um bosque - disse eu, de peito inchado, pronto a morrer por quem ofendesse o meu tesouro. - Não é um punhado de árvores qualquer.

- São apenas árvores dos montes! O que há ali para se ver?

- Coisas - respondi, impaciente.

- Que coisas?

- Coisas feias, horripilentas! - soltei, de súbito, com a minha voz mais tenebrosa. - Vermes rastejantes, bichos da terra capazes de engolir vivas as pessoas. Aranhas monstruosas e mortíferas que matam com uma só picada.

Maria João soltou uma gargalhada sonora.

- Ora, o menino se visse um desses bichos desatava a fugir.

Agora sentia-me verdadeiramente humilhado! Abri a porta de rompante e saí disparado.

Ela veio atrás de mim.

- Espere! O que digo à sua tia, se ela perguntar por si?

- Deve estar a dormir - respondi, apressando o passo. Ela também apressou, e tinha umas pernas tão compridas que o ritmo não pareceu cansá-la.

- E o menino tem autorização para passear sozinho nas árvores?

- É um bosque! E claro que tenho. Já o fiz várias vezes, desde os meus oito anos. Conheço o bosque como a palma das minhas mãos. Nunca me perco.

- Pois eu aposto que não tem! - soltou ela, desafiadora. - E que nunca teve. E que todas as vezes em que vai ao bosque, tem de ir às escondidas, sem ninguém ver, pois ralhariam consigo se soubessem. E um dia vai perder-se e não vai encontrar o caminho de volta, e depois, quando a noite caír, o menino vai continuar perdido no bosque, a chorar como um bezerro, com toda a gente preocupada à sua procura.

Jurei que, se ela não fosse rapariga (e se não fosse mais forte do que eu, e aparentemente mais ágil), lhe tinha dado um murro forte e directo naquele nariz imperfeito.

- Eu não me perco. Conheço muito bem aquele bosque - gritei. - Foi o meu tio que mo mostrou, quando tinha sete anos! Tenho ido ao bosque sózinho, sem companhias - E nunca choraria, quis dizer, mas pressentia que ela iria rir-se ainda mais de mim. - Também não quero companhias agora, podes voltar para casa.

- Mas não posso voltar, sabendo que o menino está aqui sózinho. O que diria a minha mãe, ou a sua tia, se o deixasse ir?

- Mas não quero que tu vás. Volta para casa. Tens de obedecer-me, és a criada.

- E o menino julga que é o patrão? Pois para que saiba, a criada é a minha mãe e os patrões são os seus tios. Estou na quinta nem sei bem por quê, só sei que a mãezinha me quis ao pé dela. Mas o menino fique a saber que o que funciona para os pais não funciona para os filhos - lançou-me um olhar de soslaio. - Bem, o menino não é filho dos seus tios mas...

Estaquei abruptamente. Estávamos a meio-caminho, tão próximos do bosque que sentia já o perfume dos pinheiros e ouvia o chilreal dos pardais; mas, se ela fosse, iria estragar a visita.

- Não dou nem mais um passo - decretei - enquanto tu não voltares para casa.

Ela ficou muito espantada e depois começou a fazer beicinho.

- O menino é muito mau! Por que é que não posso ir consigo? Não quer ser visto com a filha da criada? Pois olhe que a minha mãe gosta muito de si. Tem tratado o menino quase como se fosse filho dela - depois, virou-se, caprichosa, regressando à quinta. Proferiu uma última ameaça, de costas voltadas, que fez soar mais como uma promessa: - Se não me quer junto de si, muito bem, volto para casa. Mas olhe que, se a mãezinha ou a patroa me perguntarem onde está o menino, não julgue que vou olhar para o lado e mentir. Conto tudo!

O coração caíu-me aos pés. Esqueçera-me dessa possibilidade. Estava já a imaginar Maria João a irromper intempestiva pela casa, arrumando desastradamente os tachos e batendo com as portas, até que alguém se levantasse para investigar a razão da cacofonia matinal, momento em que deixaria escapar, como quem não mede o que diz, «Hoje a casa está muito madrugadora! Primeiro o menino João e depois as senhoras... o menino João? Sim, já se levantou. Disse que ia dar uma volta, não sei bem, mas acho que era ali para as árvores...»

Tinha de evitar a tragédia.

(continue para a segunda parte)






autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

A Voz do Dono

13 Janeiro 2006


Estava Joãozinho a passear pela orla da propriedade, porque gostava de sentir os sensores biométricos a ficarem em pânico de poder sair de zona protegida, e também porque de vez em quando passava um transporte rápido pela estrada automática (e Joãozinho gostava de os ver atingir as velocidades que nenhum piloto humano suportaria), quando encontrou, caida no chão, uma Boca intacta, de última geração, ainda no embrulho de plástico e com selo de garantia, embora tivesse instruções em cirilico.

Levou-a para casa às escondidas dos pais e abriu o pacote no quarto, depois de pesquisar sobre aquela marca (sem comentários, o que era suspeito) e sobre o modus operandi do modelo. Não compreendia russo – ou seria búlgaro? – pelo que teve de inspeccionar o achado de acordo com as indicações de alguns fóruns, e embora encontrasse diferenças ao compará-lo com os diagramas, não perdeu tempo em descobrir a cobertura que quando retirada, activaria o crescimento. A Boca era pouco mais que uma faixa de carne-falsa alongada, e foi com dificuldade que encontrou a abertura dos lábios. Deitou-se como mandava o procedimento e segurou-a contra a base da garganta, retirando a cobertura. As instruções diziam que iria ficar quente e quase queimar, mas que não devia afastá-la da pele. Não doía nada, os tubos inflitravam-se pela pele e carne e traqueia mas trariam anestesia local. Contudo, o processo demorou tanto que acabou por adormecer.

Acordou com uma voz roufenha a chamá-lo pelo nome. Sentia a garganta inflamada e não conseguia dobrar o pescoço. Mas a voz vinha dele mesmo, conseguia sentir o movimento contra a base do maxilar.

Foi a correr ver-se no espelho. Ficou contente. Agora tinha dois sorrisos.

* * *


De onde vinham as ideias, queria ele por vezes saber, mas quando perguntava, a Boca respondia que vinham dele mesmo, e que não devia pensar nela como algo exterior a si. Mas a minha boca fala o que eu sei e tu dizes-me o que não sei!, e ela respondia, Será que lá no fundo não sabes?, e se podia concordar quando a Boca lhe sussurrava Este tipo tem medo de aranhas, Ela anda metida com o magricelas, era diferente quando a ouvia dizer Quando lhe virares as costas este vai contar tudo ao Director, e era ainda mais espantoso quando o Director lhe enviava uma mensagem relacionada com o assunto que acabara de confidenciar.

Quando a Boca não estava a funcionar, recolhia-se na base da garganta mas não completamente, pois a base ou que quer que fosse necessário para funcionar formava um inchaço subcutâneo, e mesmo que os lábios se fechassem (a Boca não tinha humidade, e logo não tinha gengivas) notava-se algo de diferente. E embora não tivesse de preocupar-se com os pais (só os veria de novo dali a quinze anos, quando terminasse o período da lotaria de suspensão), e a malta dos cogumelos aceitasse bem a sua escolha, achou por bem esconder o pescoço num cachecol durante as sessões das aulas e as raras transmissões com a família.

Ele tem pesadelos com fantasmas, dizia baixinho sobre o colega, Como sabes?, Tu é que sabes, E como é que eu sei isso?, Porque és muito observador, Os manuais não mencionavam ligações ao cérebro, Não preciso de ligações, Então como sabes?, Eu não sei tu é que sabes, Mas isso não faz sentido nenhum, Tanto como faz saberes que ele sonha com fantasmas, Vamos ter de tirar isso a limpo.

E um dia em que estavam a conversar amigavelmente em ligação privada (ele: miudo muito novo e magrinho que se parecia de mais com um fantasma), Joãozinho emitiu ruidos subliminares como a Boca lhe tinha dito para fazer (será que ele sabia mesmo e tinha esquecido?), e no outro dia foi-lhe perguntar se estava tudo bem, encontrando-o com uma palidez de morte assustadora e a balbuciar. Viste aquilo?, perguntou com um certo orgulho, e a Boca disse, Não queres fazer de novo?

E um dia disse, Se demorares mais tempo ele não vai aguentar, Vai uma aposta?

* * *


Mas quem não tinha segredos era a malta dos cogumelos, que acampava num dos cantos da propriedade, onde os sensores estavam mal colocados. Não sabia que idade teriam, embora uns parecessem mais velhos do que os outros, ou talvez fossem os cogumelos que eram mais escuros e lhes enrugavam a pele, ou tivessem mais (será que se multiplicavam com o tempo?), em alguns pelas costas todas, grandes e inchados, e iguais no peito e barriga, mais pequenos nos braços, mais longos nas pernas. Eram altos e portentosos, mas muito pachorrentos e indiferentes. Possivelmente era dos cogumelos. Havia sempre um sorriso na boca deles, que a Boca comentara (ao longe) que se devia a alucinogénios. A verdade é que pareciam felizes. E a Boca nunca falava nessas ocasiões.

Um dia mostrou-lhes.

«Isso é quase de certeza falsificado. Só devias pôr coisas genuinas», disse o mais alto de forma tão pacífica que Joãozinho assentiu e não ligou nenhuma. Se a Boca não comentava, era porque não havia nada de misterioso a suspeitar sobre a malta. Eram transparentes e benévolos, e logo desinteressantes. Não os conseguiria afectar, ao contrário do rapaz dos fantasmas, que se suicidara engolindo a língua.

Teria sido ele a provocá-lo?

* * *


A Boca disse-lhe, Tens de te aventurar, e assim saiu pela primeira vez da propriedade, mas os sensores começaram a tocar e teve de entrar de novo. Temos de resolver isso primeiro, disse ela. A escola andava a ser investigada por causa do terceiro suicídio, e embora as transmissões privadas tivessem sido feitas através de canais codificados pagos com o dinheiro da mesada, algo poderia transparecer das transmissões colectivas das aulas. De modo que não lhe agradava ficar por ali, à espera do que acontecesse. À espera dos pais que viessem libertá-lo da tirania daquela infância forçada de corpo e alma em que o mantinham há duas décadas.

* * *


Sabem que foste tu, disse ela, e ele respondeu, já farto, Mas se foste tu!... E ela riu-se, naquele riso roufenho que começava a irritá-lo, em particular porque usava ar que era dele, que ele fazia o esforço por inspirar. Estava farto de ouvi-la. De a ter por perto. De ser um fugitivo por causa das suas ordens. E por muito que pesquisasse não havia forma de retirá-la sem causar danos ou procurar especialistas. O que é que eu faço com tudo isto?, Olha se isto der para o torto tenho uma solução.

* * *


Apertou o nó na nuca e saltou da cadeira. Já não havia muita gente a fazer aquilo nos tempos actuais. Sentiu o estalido do osso cervical e a perda de controlo nos membros. Talvez se tenha sujado lá em baixo, deixara de sentir tudo abaixo do pescoço. Ficou ali pendurado, imóvel e esticado, sem que nada acontecesse. Quanto tempo até morrer?

Foi com surpresa que virou os olhos para baixo e viu os pulmões encherem-se de ar, as pernas a estremecer, os braços a subirem ao encontro da corda.

«Que porra... vou ficar com uma nódoa negra monumental!»

Não podia dizer nada, não podia fazer nada. Os braços levantaram-no e lá conseguiram, a custo, soltar a corda. Caiu no chão e equilibrou-se a custo. Mas ele próprio não participou nesta acção.

As mãos lançaram-se em frente. O corpo avançou hesitante.

«Sabes, isto de não ter olhos nem ouvidos é problemático. Mas se outros se orientaram, também me irei safar.»

Não podia dizer nada.

«Realmente, assim é muito melhor, um corpo só para mim. Já não te conseguia aguentar. Só tenho de me livrar deste apêndice inútil. Afinal, quem tem boca vai a Roma...» E, batendo na cabeça que pendia para trás, riu-se com o gosto dos trocadilhos mordazes.

autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

Apenas e Tão-somente...

12 Janeiro 2006


Se me perguntassem como melhor definiria a minha terra, diria apenas que não é deste mundo. Porque é esta a imagem que me assola, sempre que penso na Madeira: como um pedaço de algo extraterrestre, isolado do tempo, isolado do espaço, uma estufa onde cores e sons encontraram o ambiente perfeito para se reproduzirem e se combinarem em arranjos que não seriam possíveis em outro lado. A ideia da ilha é indissociável da sua qualidade de cartaz turístico; é perfeita de mais. Mas não como um lugar a visitar: antes, um estado de espírito, a perfeita igreja da religião da natureza, com altares de flores e presbíteros de água salgada. Pessoalmente, associo-a a uma fase da vida. Não por que tenha sido forçado a abandoná-la aos dezoito anos. Em pouco tempo, consegui a minha independência, com o curso completado e o emprego nas mãos; poderia ter regressado, se quisesse. Mas não regressei. Ainda não. As recordações da juventude continuavam demasiado próximas, obstruiriam os meus passos com as suas próprias exigências. «Isto já não é assim! A rua mudou! O céu era mais azul! Onde foram as pessoas que eu conhecia, onde estão?» As suas vozinhas atropelar-se-iam umas às outras na ânsia de procurarem defeitos, ao compararem o real com aquele molde de perfeição que era a minha Madeira, a minha ilha, da minha própria feitura. Por enquanto, tinha de viver no resto do planeta; pertencia, aliás, a este resto. Podia crescer no seu solo, desenvolver ramagens como uma frondosa sequóia ante a luz do sol que lhe fora negada. Haveria um regresso, há muito prometido, mas... ainda não.

E contudo, ela permanecia, na base da nuca, a guiar-me os passos, a toldar-me a vista com as casinhas coloridas, com as vielas enfeitadas, com o modo próprio, cantante, de usar a língua. O farol dos meus actos. Por sua causa, nenhum outro lugar seria mais do que um ponto de passagem, uma faixa da pista na corrida da existência. Nunca encontrei semelhante apego à terra natal por parte das pessoas nascidas em cidades. Não pertencem a um lugar definido, a um espaço exclusivo que possam chamar seu. Desde pequenas, são esmagadas pela evidência das estatísticas. Ao observarem o fluxo incessante e agressivo dos automóveis e dos transportes a abarrotar, de manhãzinha enquanto vão para a escola, são roubadas da sua individualidade; tornam-se pertença de um costume imposto, de uma obrigação profissional que não conseguem entender mas que sentem já como algo crucial, como medida da sua humanidade. São parte do rio, do rio frio de metal e monóxido de carbono, do nevoeiro castanho de impaciência no acelerador. Por onde caminham, tocam em pedra, em frieza. É raro conhecerem o beijo dos torrões de húmus macio logo após uma chuvada intensa. É raro notarem o verde mortiço das poucas árvores que são mantidas na capital com a atitude culpada de quem não aceita desligar o sistema de apoio à vida de uma vida que não se encontra ali. É raro compreenderem que os parques não passam de imitações castradas de uma fórmula maior, mais selvagem, e detentora de uma arte própria. Por onde caminham, as crianças tocam em pedra, e a pedra invade-lhes os dedos, congela-lhes os braços, e espalha-se pelo corpo, até matar o olhar e vergar a cabeça.

Não há nada mais triste do que perguntar a alguém De onde és, e ouvir como resposta Sou cidadão do mundo.

Por isso, chorei ao chegar a Lisboa. De saudades e de medo. Medo de me tornar nesse cidadão do mundo, nesse imigrante sem terra, nessa encarnação viva do espírito português. O nevoeiro cerrado não ajudou; nessa noite, a primeira que dormiria (ou faria por tal) na nova casa, a primeira, também, que passaria longe de um mar que me cercava por todos os lados, senti-me miserável e impuro, como nunca. Estava a ser castigado; a expiação envolvia-me como um manto, assustava-me. Tinha dezoito anos, mas tremi como um bebé, a espreitar de entre os cobertores para as janelas mal fechadas, por onde entrava o frio e a realidade.

O pesadelo iria acalmar-se, na manhã seguinte. Fazia sol, o mesmo sol que banhava a Madeira, e a sua luz aquecia os prédios altos e as ruas estreitas e sujas. Até o olhar sonolento e carrancudo das pessoas tinha novo alento, distante das feições cansadas que encontrara na véspera ao fim do dia. Perguntei ao meu pai, Que sítio é este?, e ele respondeu-me, pela estafadésima vez, Campo de Ourique. Campo de Ourique, repeti, saboreando as sílabas com a língua. Não soava mal. Como Machico. Ao menos, evocava natureza, áreas verdes.

Mas o que Campo de Ourique encerrava da natureza chocou-me e entristeceu-me. Fiquei parado, talvez boquiaberto, perante o jardim raquítico e cercado por arame que enjaulava pequenas serranias de terra, lixo e entulho. Máquinas de escavação enferrujavam de tristeza, condenadas ao abandono. Era um lugar morto, um lugar do passado que não tinha sobrevivido, e agora as pessoas espezinhavam o seu corpo decomposto, não olhando para o lado, não desviando a vista do trilho, da calçada suja, não querendo ver as velhas árvores de flores amareladas. Lembrei-me de jardins cuidados, jardins que apresentavam sempre a frescura de cara lavada e vestido por estrear das meninas que aos domingos iam à missa. No centro da cidade, ou a acompanhar os passeios, estavam sempre podados, o verde atingia a vista, os olhos não se cansavam de apreciar; eram fontes de carinho. Claro que isso acontecia numa outra terra, distante, diferente. O jardim de Campo de Ourique ficara órfão. E as pessoas que o atravessavam ficavam incomodadas com a sua presença envelhecida e deslocada; era o parente idoso que surgia à porta de casa sem avisar, a pedir abrigo. Apressavam o passo e não desviavam os olhos do trilho.

Seria apenas o primeiro dos meus choques. Lisboa era uma cidade brutal; tresandava a ódio e intolerância. Não havia amor, não havia orgulho em pertencer a ela. Quase todos com quem conversaria mais tarde, aliás, confessar-me-iam que procuravam fugir; apenas as obrigações profissionais, ou a conveniência, ou a falta de dinheiro os impediam. Por que, diziam eles, quando desciam às ruas, eram tomados pelo medo. Quando saíam pelas portas das casas, nunca sabiam se iriam retornar no fim do dia. O trajecto até ao carro ainda era distante e não podiam adivinhar se, por detrás de uma esquina, escondido entre dois veículos indiferentes, estaria algum andarilho de roupa surrada e barba por fazer, de olhos maníacos e gestos nervosos, trazendo nas mãos a oferta de uma morte fria e vulgar. E então, as vítimas tornar-se-iam em mais um dado das estatísticas, em mais uma casa decimal daquelas páginas cheias de tabelas e inferências às quais se havia destilado todo o significado. Lisboa era grande; sim, isso era, quando comparada com o Funchal, com Machico, com toda a Madeira. As suas ruas eram largas, sempre repletas de alguém atarefado, ou que assim aparentava: alguém com um propósito. Impeliam ao movimento, ainda que não se tivesse um rumo. A corrente forte arrastava a nossa vontade, controlava as nossas pernas; e, ao passarmos, víamos os depósitos aluviais humanos a dormir ao abandono da chuva num banco de jardim.

Fiquei chocado com o ambiente do metropolitano, com o seu graffiti ritualista e tribal, com o ambiente claustrofóbico, com os rostos alarmados e constrangidos dos passageiros. Aprendi a não encará-los fixamente, a adoptar a expressão estupidificada daqueles que não sabem pensar com a televisão desligada. A tornar-me um cidadão de Lisboa, uma criatura da metrópole. A minha alma procurava beleza e deslumbramento, mas só encontrava medo.

E no entanto... no entanto, havia uma sensação quase intangível, uma perturbação ligeira que me acelerava o pulso quando emergia dos túneis para o centro da Avenida. Prédios enormes, fachadas largas, embora decadentes, céu aberto em toda a extensão da rua, espaço! Encontrava o sítio onde me poderia desenvolver, estava num dos focos do mundo que tresandava a sabedoria e sucesso. Queria ser psicólogo; queria descerrar os mistérios insondáveis do espírito humano e expor, como se abrisse o sótão poeirento e repleto de teias de aranha de uma casa abandonada, as suas dúvidas ao vento. Queria também ver o mundo, e fazer nome, e crescer. Aquele era o lugar, era o tempo certo. Tinha de confessar a mim próprio que, se tivesse ficado na Madeira, acabaria por definhar.

Mas a oportunidade não aliviaria o meu fardo. Tínhamos mudado a meio do ano escolar. O meu pai pretendera vir na frente, porque percebia a minha situação. Disse à esposa que esperasse seis meses e cuidasse de mim até completar o secundário; depois, seguiríamos para a capital, onde me candidataria à faculdade. Mas a minha mãe não era pessoa de ficar separada do marido por seis meses. Havia uma quase dependência, nela, em relação ao meu pai, que chegava a ser constrangedora. Creio que ele também não apreciava muito a situação.

Por que o marido era o vício secreto da minha mãe. Ela nunca apresentaria uma opinião própria, muito menos a defenderia, se soubesse que o meu pai tinha uma ideia concreta a esse respeito; não interessava que fosse concordante ou divergente. Calava-se quando o meu pai falava, e respeitava o silêncio nas restantes ocasiões. Era como se, para ela, o meu pai fosse o coração, a voz e a mente da sua alma, fosse todo o seu universo. Fosse um altar humano de carne e sangue, a que se entregara devotamente. Não faria nada sem o consentimento dele, não lhe agradaria encontrar-se onde ele não estivesse. O meu pai percebia a situação e aceitava-a passivamente. A atitude dele enchia-me de segurança e um certo orgulho: sempre respeitou a adoração da minha mãe, e nunca a usou para se impor. Talvez uma ou outra vez, naquelas ocasiões em que os ânimos se alteravam, e ele entrava no estado de inconsciência acordada em que as palavras brotam sem controlo da garganta e a nossa boca se torna repentinamente na boca de um desconhecido. Momentos perdoáveis, se considerarmos que somos todos humanos, sujeitos a falhas, e que o desfecho de tais situações poderia ter sido menos agradável.

Mas, por esta razão, houve algo em mim que, até hoje, não conseguiu acreditar na realidade da minha mãe. Comportamentos como o dela estavam extintos, eram o alvo natural de todos os movimentos feministas. Não a compreendia, não podia aceitar, cheirava-me a ilusão, a sonho. A minha mãe era inteligente; em pequeno, sentou-me ao colo e, durante os meses que precederam a minha entrada para a primária, ensinou-me a encontrar sentido aos desenhos monótonos e repetitivos do papel, a apreciar a arrumação das curvas, a ligação das linhas tão direitas. Fez-me dar entrada, com uma facilidade surpreendente, no vivo mundo da leitura. Não era fácil conseguir tamanho feito com uma criança de cinco anos; tentei-o já com o meu pequerrucho, e, como seria de se esperar, fiquei a entender a importância e a magnitude do acto da minha mãe, que com facilidade transformava uma barriga de porco num «a» e a cabeça de um alce num «t». Por que se calava perante o marido, porquê tamanha devoção, nunca conseguirei compreender.

Esse seu atributo faria com que eu deixasse de assistir às aulas da secundária do Funchal a meio do ano, o último ano, o mais importante. Contribuiu para aumentar a frustração que me assolava, ser afastado da meta tão próximo do fim. Fui obrigado a frequentar, quase ilegalmente, uma secundária em Lisboa, começando em Março, cuja vaga conseguira por que o director era amigo do patrão do meu pai. Detestei a situação, detestei os meus pais por haverem decidido a mudança por mim, detestei Lisboa e os seus múltiplos buracos, os carros barulhentos, as pessoas inamistosas. Entrei no liceu decidido a bater em alguém, a ser muito mau, tão mau que tivessem de me levar de volta, provado que estaria que não pertencia a esta cidade.

Nos primeiros dias, contudo, ninguém se aproximou de mim. Olhavam-me fixamente, tecendo comentários entre eles; não eram hostis nem curiosos. A melhor definição seria surpreendidos. De facto, não fazia sentido uma transferência tão abrupta perto do final do ano. Foi a sorte deles, e, a longo prazo, a minha. Sentia-me traído, e não raciocinava bem.

Ao fim de uma semana, começaram a fazer-me perguntas. Percebiam de imediato de onde provinha, reconheciam a pronúncia que me marcava como um dístico na lapela. Orgulhosamente, falava-lhes sobre a Madeira, defendendo-a até à exaustão, maldizendo Lisboa. Alguns ficavam chocados perante tamanha veemência e afastavam-se, ou contestavam; mas a maioria abria os ouvidos, abria a alma e devorava. Devoravam os espaços verdes, a descrição das manhãs calmas, a paz do mar, a melancolia inevitável das tardes cinzentas, os cerrados nevoeiros do erguer do dia, as pesadonas nuvens que formavam criaturas fantásticas e depois se transformavam em matéria. Percebia que detestavam Lisboa, embora a defendessem contra todos os ataques regionalistas que lhe fazia; mas não saberiam viver longe da metrópole. Eram os seus filhos. Encarei-os, um por um, e tive pena deles.

Depressa percebi que eram por de mais orgulhosos para apreciarem a comiseração alheia de um alienígena. Aprendi a lição num ritual de violência e fogo, tão primitivo quanto a inveja. Entrei em casa nessa tarde um pouco a medo, escondendo a cara da minha mãe; corri para o lavatório e banhei o olho negro e inchado. Doía-me brutalmente, estava magoado por todo o corpo dos murros e pontapés. Pensei então, Porquê? Por que tinha eu de sofrer tudo isto, por que não ficámos na Madeira? E chorei, embora quase automaticamente, como um pequeno alívio da angústia. Já não chorava de desespero. Assolava-me a doce ideia dos murros que retribuíra e dos pontapés que aplicara, sentia nos punhos a carne macia que se dobrava ante o seu comando, sabia-me a boca a sangue e vitória, sabores indistintos. Foi ele quem se afastou primeiro, pensava com orgulho, foi ele. E olhei-me no espelho, encarando a lenta transformação. A pedra invadia-me, estava infectado. Nascia um novo eu. Mas esse novo eu não completaria o parto até aquela noite de Junho, aquele misto de humidade e flores que anunciariam calmamente o período mais importante da minha vida. Não saberia medir-me até então. E se não tivesse acontecido, talvez ainda hoje continuasse a pensar o que me ocorrera quando da entrada na nova habitação, ao deparar-me com três malas de viagem e uma caixa de cartão que continham todos os meus pertences, amontoadas no centro da sala despida: Tudo isto sou eu? Apenas este monte? Apenas este monte que foi tão fácil de empacotar, tão fácil de trazer, tão fácil de deixar esquecido no chão? Eu?

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Experiência: Quatro

11 Janeiro 2006


(Telefone)

HOMEM: Está?

FISCAL: Bom dia. Falamos do Sistema de Fiscalização e Auditoria do Gabinete de Produtividade Nacional. Sou um agente automático de contacto humano. A ultima vez que contactámos consigo foi há sete meses e duas semanas.

HOMEM: Ah... bom dia...

FISCAL: Este numero de telefone e o seu padrão de voz identificam-no como sendo o senhor Arnaldo Bonaventura, BI A-545344355-LX. Confirma?

HOMEM: Sim... o que...

FISCAL: O seu padrão de voz estabelece uma probabilidade de 99% de que esteja a dizer a verdade. Tem consciência do seu saldo de produtividade, sr. Arnaldo?

HOMEM: Não tenho visto... ando um pouco doente...

FISCAL: Verdade provável a 45%. Não registo marcações médicas nem contactos com sistemas de saude nem telefonemas a vizinhos ou amigos a informar sobre situação de doença nem pesquisas a páginas de internet ou livros que o informem sobre medidas profiláticas.

HOMEM: Mera gripe, nada de...

FISCAL: Verdade provável a 40%. Estatísticas dos ultimos dez anos informam de reduzidíssima incidência de fenómenos gripais na primeira quinzena de Julho na sua área. Neste período encomendou livros e víveres pela internet e esteve em casa para receber as encomendas. Nenhum dos empregados que lhe entregou em mãos as suas encomendas reportou gripes neste período ou nos períodos imediatamente contíguos.

HOMEM: Pronto, está bem! Não estive gripado.

FISCAL: Verdade provável a 99%. Sei que foi admoestado da ultima vez da penalização por mentir a uma autoridade. Dessa vez, foi perdoado e prometeu que não repetiria. Lamento, sr. Arnaldo, mas desta vez vou multá-lo de acordo com o DL 39/07.

HOMEM: Pronto... é tudo?

FISCAL: Obviamente que não, sr. Arnaldo. Temos ainda a questão do seu saldo de produtividade.

HOMEM: Entendo que ande baixo, mas tenho andado mal disposto... mal disposto do espírito... desanimado...

FISCAL: Verdade provável a 75%. O padrão de actividades durante o período de contrato de trabalho revela uma actividade invulgar a nível de pesquisas sobre veículos automóveis e desporto invulgar para sintomas de desânimo ou depressão.

HOMEM: Ora bolas, o desânimo é pelo trabalho... não estimula, é aborrecido. Que posso fazer?

FISCAL: Verdade provável a 75%. O sr. Arnaldo participou de duas acções de formação nos ultimos seis meses com financiamento total por parte do Instituto das Profissões Avançadas com o intuito de evoluir de carreira nos próximos vinte meses, e está vinculado a mais duas nos próximos dez meses. Pretende desistir, sr. Arnaldo?

HOMEM: Não, claro que não!

FISCAL: Verdade provável a 99%. Pretende que indique que se encontra inválido para trabalhar e que lhe seja atribuido um psicólogo, válido a partir deste momento?

HOMEM: Mas assim deixo de estar empregado... e de receber... olhe que não tenho subsídio social! E o privado só me pagaria se estivesse inválido!

FISCAL: Verdade provável a 99%. Então explique-me lá, sr. Arnaldo... o senhor tem um contrato de produtividade ao abrigo das novas profissões que lhe permite o tele-trabalho a partir de casa. Tem benefícios nos impostos, pois não paga taxa de deslocação. Tem menos despesas, pois pouca nas refeições. Por outras palavras, ganha mais que os seus colegas que trabalham no escritório na cidade. É felizmente saudável a nível físico. Mas tem, ao que parece, problemas graves a nível de carácter e profissionalismo.

HOMEM: Você não parece automático.

FISCAL: Estou preparado para conferir emoção de acordo com as opiniões vigentes no departamento. O senhor encontra-se em atraso face à produtividade que era de si esperada. Os processos demoram a serem revistos e despachados, os pareceres acumulam-se. Imagina o custo que o seu atraso causa no sistema?

HOMEM: Veja lá, não esteja para aqui a acusar-me! Você não sabe o que é sair da faculdade com um curso e estar para aqui a ver papelada.

FISCAL: E quem o impede de encontrar algo mais adequado às suas aptidões?

HOMEM: Ah...

FISCAL: Pretende demitir-se do cargo neste momento e mostrar-se disponível para novas ofertas? Posso passá-lo a uma assistente automática de colocação no mercado de emprego.

HOMEM: Não faça isso!!! Já falei com eles. Não sou qualificado.

FISCAL: Se o problema é qualificação, posso inscrevê-lo neste momento num centro de formação com opção para estágio. Apenas 8 mil euros, e posso indicar-lhe várias instituições para financiamento com spread menor que 3% sobre euribor. Obviamente que ficará imediatamente indisponível para a situação de emprego.

HOMEM: Porra, não faça isso! Preciso do dinheiro. Ouviu? Preciso do dinheiro para viver!

FISCAL: Ouça, eu, se fosse a si, humano, vivo, com dívidas e uma filha a caminho, ficava mas era contente. De ter um emprego certo e ter apoios sociais. O Estado não é mau, sr. Arnaldo, mas não nos coma por parvos. Acabou-se a mama do tempo dos seus pais e avós. Sente o rabo na cadeira e vá trabalhar. Tem duas semanas para recuperar o saldo em atraso.

HOMEM: Duas semanas?! Mas são 100 horas!

FISCAL: Então não sabia o seu saldo?... Pois, pois. Duas semanas chega e basta. E é para trabalhar em expediente completo além desta recuperação.

HOMEM: Mas não consigo!

FISCAL: Consegue, vai ver que sim. Cafézinho atrás de cafézinho. Não se preocupe que não mata.

HOMEM: Vocês...

FISCAL: As suas duas semanas começam assim que terminar o telefonema. Sugiro que cancele os bilhetes do concerto.

HOMEM: Malditos!

FISCAL: Por se ter verificado a sua culpa neste processo, informamos que o custo da chamada é inteiramente seu, acrescido de tempo de processamento deste agente electrónico acrescido de IVA. Seguirá uma factura detalhada para o seu correio. Aguarde pelo próximo comunicado.

(musica breve)

VOZ FEMININA: Obrigado por aguardar. Aqui é do Sistema de Satisfação do Cidadão. Gostaríamos de efectuar um pequeno inquérito sobre o serviço que acabámos de prestar-lhe. Esta chamada é gratuita.


autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

A Criança da Memória: Prelúdios

10 Janeiro 2006


Se um bebé sente o tempo como um conjunto de instâncias sem ordem, e logo o tempo não tem sentido, não existe, para uma criança de memória o tempo acaba por ser, paradoxalmente, a única constante que lhe define a vida. O tempo, as ilhas isoladas do existir entre despertar e voltar a dormir, entre um pestanejar e outro. A sucessão de segundos, cuja mera existência esconde um atributo de milagre. O que significa a hora? O que significa este envelhecer de movimentos e sensações, este encadeamento de imagens a que chamamos estar vivo, como se liga um instante a outro? São estas as dúvidas que assaltam as crianças de memória. É o mesmo mundo que nos acompanha nesta viagem, ou somos nós que imaginamos o tempo, que trespassamos infinidades de mundos, quase semelhantes entre si, todos eles parados, todos eles fotogramas e nós a mera mancha na paisagem? O que é seres tu?

Ninguém nasce criança de memória. Simplesmente acorda-se um dia. Eu acordei de um longo sono e não era mais eu. Não era mais o rapaz magro e moreno com sardas e mãos delgadas que me saudava do outro lado do espelho. Quem o substituia, desta vez, era uma figura forte, cinco ou dez anos mais velho, ruivo, gordo, pesado, estranho. Como gritei! Como gritei naquela manhã, assustando médicos, pais, terapeutas, todo o hospital. Tinham-me deixado descobrir por mim próprio. Só depois me contariam, com algum pormenor, o resultado da viagem transafricana – viagem de que não recordaria nem vontade nem benefício, tendo sido tomada muito depois da última gravação com a qual me tinham despertado. A viagem que se tornaria acidente, ceifando as vidas de milhares e milhares e lançando igual número de lares num futuro feito de ausências. Seria esse o futuro dos meus pais, mas eles disseram Não. Para alguma coisa prestavam vassalagem à tecnologia. Para alguma coisa tinham feito cópias de segurança de mim próprio, daquilo que me define, daquilo que eu sou. Não me perguntem o que é: não sei dizer. Apenas desconfio que está algures entre as memórias, as reacções, os dons, que algo a que se pode chamar alma – ou talvez apenas uma ilusão de si mesma – se esconde aí, e apenas surge quando posta em movimento, mas decide não ser vista.

E depois era só encontrar um hospedeiro. O que é difícil, quase proibido, quando se tinha tão tenra idade quanto eu. Pois o hospedeiro, enquanto alberga a personalidade alheia, não vive a sua. Pára no tempo, cede espaço e uso do seu corpo, e recolhe-se algures num recanto da mente, como se dormisse. A lei não permite que menores cedam este espaço, e o que era eu senão menor, com a minha idade de onze anos? O que acabaria por continuar a ser, senão o paradoxo aberrante de um puto imberbe num corpo de adolescente?

Imaginam como me senti? Não conseguem.

Foi aprender a viver, dali para a frente. Hospedar tinha um limite, pelo esgotamento da mente de quem transportava. Era preciso descansar o espírito durante meses por umas semanas de ocupação. A criança de memória vive assim, no intervalo dos anos, o tempo torna-se visível, água, chuva, invernos e verões sem nexo, as cenas não ligam, a história não tem sentido. Não querendo perder-me nos intervalos, os meus pais optaram pela hospedagem múltipla. Daí que todos os meses me habituava a alguém novo, a uma nova cara, uma nova idade, uma nova forma de estar. Por vezes era bonito e atraía as atenções. Por vezes, tinha aspecto de criança ainda, e podia reverter àquilo que sabia ser, aos brinquedos, às corridas, à imaginação. Por vezes, tinha de ser já adulto. A reacção dos outros é somente condicionada pelo aspecto, e quebrada pelo comportamento. À maravilha da descoberta de um estranho, segue-se o desencantamento de conhecer-lhe a personalidade. Para evitar confusões, usava constantemente um sinal que me marcava como criança de memória. Mais tarde deixar-me-ia disso: era demasiado penoso encontrar constantemente aquele olhar de pena e perdão no rosto dos outros. No inferno do rosto dos outros.

Mas quem era eu agora? Seria aqueles que me hospedavam? Fascinado, hipnotizado pela prática, segui-lhes inicialmente as histórias, quis saber quem eram. Cometi a loucura de procurar conhecidos deles, tentar perceber como e porquê alguém se decidia pela hospedagem. Foi um desastre, que quase culminou em violência. Também segui de longe antigos hospedeiros meus. Era tão estranho! Como se encontrasse partes separadas de mim a ter vida própria, pensamentos distintos, um braço, uma perna, olá estão bons como têm andado? Mas o que deveria fazer? De que outra forma compreender este grande fenómeno, este milagre de estar vivo aos poucos, que tanto custava financeiramente aos meus pais? Hospedar traduzia-se em contratos muito bem remunerados; o risco da perda de sanidade era pago em ouro, e como a duração era reduzida, os proponentes iam surgindo, a vários preços.

Longe vai essa época. Tudo o que é escasso tem um fim, e o dinheiro acima de tudo. Com o desaparecimento do meu pai, descobri que tinham retirado das reservas que fizeram para si mesmos para me manter desperto. O meu pai jamais se tornaria numa criança de memória, a não ser que eu conseguisse sustentar-me. Ficaria guardado numa prateleira, a perder validade, a envelhecer sem estar vivo, a desactualizar-se de um mundo que não se lembrava dele. A não ser eu. Pois apenas eles se mantinham constantes numa vida que já não tinha nada de permanente. Acordava de manhã e era outro, podia ser qualquer pessoa. Nessas condições, adormecer é um terror, ao início, e depois, como todos os terrores que teimam em ficar, uma monotonia atroz.

E assim se acabou a minha estada nos melhores e mais caros. Comecei a procurar nos hospedeiros seguintes pessoas com menos estabilidade, menos adequadas ao meu semblante inicial, mas mais próximas do meu orçamento. Tive de esquecer a idade, e aceitar novos e idosos em igual medida. Esqueci-me dos preconceitos de beleza e saúde, e abracei obesos em excesso, alcoólicos, viciados, suicidas – não foi fácil, não continua a ser nada fácil. Finalmente, abdiquei da preferência sexual, e troquei de sexo como quem troca de roupa, o que apenas me fez ficar mais afastado de todos, virgem no meu medo de partilha e de dor. Pois como poderia amar alguém que perderia em pouco tempo? Como poderia esse outro adaptar-se a uma pessoa nova dez vezes num ano, tentando convencer-se de que era a mesma? A mente pode forçar o entendimento, mas o coração não.

E o sacrifício maior foi abandonar o rio do tempo.

Viver apenas umas quantas vezes por ano. Em alguns hospedeiros.

Não sentir continuidade mas episódios interrompidos de um filme com demasiados protagonistas.

Onde estou eu?

Quem sou eu?

Procurei aqueles iguais a mim, mas a verdade é que eram demasiado iguais a mim, iguais a todos, a comunidade das crianças de memória que em todos os encontros mudavam de figuras. Que nem sempre voltavam.

Que estranhos, estes viajantes do tempo. Que estranhas embarcações habitavam.

Presenciei uma vez a implantação do cartucho de identidade. Um processador do formato de um cabelo, inserido directamente no hipotálamo. Aquilo era eu, concentrado, um traço no universo. Memórias? Tinha-as em demasia. Diziam que nelas estava a nossa definição. Talvez. Continuo a crer que está, isso sim, no que falta fazer, no que falta ser. Aquele cabelo não representava o que eu era, mas o que tinha sido. Apenas uma gravação de coisas feitas, mortas. Estar vivo é ser uma possibilidade.

Quem sou eu? Porque não deixo de sê-lo?

Porque os meus pais se sacrificaram. Pelo peso da herança desse amor doentio, por tudo isso que restou. Quem sou eu hoje, senão o fruto dessas escolhas, das minhas escolhas?

Posso apenas escolher quem vou ser amanhã.

A selecção foi pedida. Os critérios aplicados. Da próxima vez, quero acordar num corpo com esta e aquela qualidade. Escolhi-as bem, a sua mistura é quase impossível. Não há ninguém actualmente, vou ter de ficar à espera. Esquecido como o meu pai. Viajante no tempo, interminável, um torpor criogénico que não conhece a próxima paragem. Vai demorar anos, diz o simulador. Pelo historial de hospedeiros, só houve alguém com essas características uma vez, há muito tempo. Não faz mal, vou aguardar, e confirmo a escolha ao simulador. Quando despertar, amanhã, estarei longe de vocês, mais longe do que qualquer outro peregrino, e sem possibilidade de voltar.

Apenas peço que me guardem nas vossas memórias.

É o único sítio onde existo.

(publicado originalmente na revista Quo, 2003)



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O Último dos Moicanos

09 Janeiro 2006



[por motivos pessoais não me foi possível colocar aqui as postas de pescada dos dois ultimos dias, em particular o grand finale deste conto. Enquanto este não vem fica um extracto de uma obra ainda em construção, feita com esse grande senhor H. G. Wells, um certo sneak peek atrevido, que um dia, em breve, começará a, por assim dizer, desnudar-se perante nós (será depois substituida pelo resto do conto, portanto aproveite bem). "Continue a ler". Obrigado. LFS]

E desenho-me na folha, alienígena.

Daniel Tércio




Qual é o vosso Marte?

Considerem este princípio:

«Ninguém teria acreditado, naqueles ultimos anos do século dezanove, que este mundo estivesse a ser vigiado minuciosa e atentamente por inteligências mais complexas que a do homem, e contudo igualmente mortais; que a azáfama dos seres humanos ensimesmados nos seus afazeres era estudada e mensurada tão escrupulosamente como as criaturas passageiras que populam uma gota de água o serão ante a lente de um microscópio. Ostentando complacência infinita, a humanidade deixava-se levar para aqui e para acolá no decorrer das minúsculas rotinas, serena na confiança do império sobre as coisas terrenas. É bem possível que igual pensamento habite as mentes das bactérias na gota de água. Ninguém se preocuparia com potenciais ameaças à vida humana provenientes dos mundos mais antigos do espaço, ou se pensasse neles seria apenas para afastar a improvável e impossível ideia que fossem habitados. É curioso relembrar a mentalidade que caracterizava essa época ida. Os homens terrestres poderiam fantasiar que existissem outros homens em Marte, talvez de casta inferior e prontos a acolher uma jornada missionária. E contudo, do outro lado do abismo do espaço, mentes que estão para as nossas como estamos para os animais abatidos, intelectos vastos e frios e antipáticos, observavam este planeta com olhos gananciosos, e com método e segurança delinearam planos contra o nosso devir. E foi assim que o século XX começou com grande desilusão.»

E considerem este:

Tinham-se passado cem anos e ainda a invasão se fazia sentir nesta terra. Os mitos corriam a passo com as descobertas científicas, e se uns advogavam humildade ou vingança ou perplexidade, as outras tinham decomposto, dissecado, assemblado e disseminado com base na tecnologia ensinada pelos restos alienígenas. Alguns monumentos – não todos – foram reconstruidos de memória e com esforço, outros nasceram ao redor dos tripodes caídos, encantamentos contra o ressurgir do mal. Se os tivessemos vencido por nossos proprios meios, a atitude resultaria menos subserviente dos desígnios do destino; mas porque tinham tombado com a prontidão e energia com que tinham surgido, as histórias era como se relatassem lutas de deuses com pobres humanos à mistura. Até mesmo as novelas científicas assumiam este tom, e se em fantasias cientistas escondidos nos túneis descobriam armas milagrosas que se tornariam na verdadeira razão, escondida, da nossa sobrevivência, não passavam de fantasias, e as películas mais recentes fugiam delas, querendo documentar e descobrir as histórias humanas e por fim relembrar sem pudor, agora que um século tinha passado.

Qual é o vosso Marte?

A baía de Tarsis cobre-se de água. As encostas de Olimpo estão manchadas de verde floresta e amarelo desértico. No céu, os dias são azuis e as nuvens tapam o sol. Há coisas que não se podem mudar, como a força gravitacional à superfície ou o peso da atmosfera. Outras podem-se e foram mudadas: o ciclo da fixação do azoto e da rotação do carbono; a composição do ar; a permanência dos rios. Marte é, contudo e para sempre, vermelho. Cor dominante, também influência artística.

A baía de Tarsis está seca. Olimpo é uma muralha no horizonte, árido e ameaçador. Os dias são violetas e mortiços. Há coisas que estão idênticas, mas o que podia mudar, morre agora: o ciclo da fixação do azoto e da rotação do carbono; a composição do ar; a permanência dos rios. Marte é vermelho da ira. Terão chegado no início ou no fim? Apenas a análise das estrelas na noite vindoura lhes dirá.

Qual é o verdadeiro Marte?

«O planeta Marte, como não necessitarei de informar o leitor, gira em torno do sol a uma distância média de 140 milhões de milhas, e a luz e calor que recebe do astro é pouco mais que a recebida pelo nosso mundo. Deve ser mais velho do que a Terra, se dermos crédito à teoria da formação nebular; e muito antes de o nosso planeta se ter solidificado, teria surgido vida sobre essa outra superfície. O facto de que tem apenas um sétimo do volume da terra deve ter ajudado a arrefecer mais depressa até atingir uma temperatura que albergasse vida. Comporta ar e água e tudo o mais necessário para o sustento de existência animada.»

Na verdade Marte é um planeta árido para a vida humana desenvolvida no planeta Terra, pois a atmosfera rarificada é composta principalmente por dióxido de carbono e a terra não apresenta indícios de água, a não ser nas calotas polares. A existência de vida, passada ou actual, nos moldes em que é conhecida na Terra, continua um mistério, no início de século XXI da Era Moderna na qual estas palavras são escritas.

«E no entanto, tão fútil é o homem, cego na vaidade de si mesmo, que nenhum escritor, até ao findar do século dezanove, manifestou a possibilidade de que a vida se tivesse desenvolvido nesse planeta, até ou para lá do progresso terrestre. Nem era comumente aceite que, sendo Marte mais antigo que o nosso mundo, apresentando um quarto de superfície habitável e mais afastado do sol, é de supor que não só está mais longe do começo do tempo como está mais próximo do fim.»

No final dos tempos, Wells reclina-se numa cadeira, de calças puxadas para baixo. Entre as pernas, a pequena cabecinha trabalha vigorosamente. É quase maior do que ela, mas aguenta-o bem, enterra-o na garganta, segura-o com os dedos delicados. Tem os olhos virgens fechados e o cabelo solto esvoaça no ar. O prazer de ver tanta entrega é quase tão grande quanto aquele que lhe chega pelo corpo.

Ler este último parágrafo irrita Wells, que, mau grado a sua paixão pelo sexo (perfeitamente natural e pela qual não sente que deva ser julgado), nunca se considerou apreciador de meninas e receia ser mal retratado numa ficção sobre a sua vida. Mas não afasta o pequeno ser, sentiria até que iria magoá-la, e encontra consolo na desculpa que é um simulacro, ou seja, não nasceu do utero de uma mãe mas de um utero artificial, sob as ordens de quem planeia a necessidade de mão-de-obra, e logo, à luz de um passado remoto, poderá não ser considerada humana (porque nesse passado remoto ainda se consideravam estas diferenciações). Além disso, ela está a desempenhar além do esperado, pois nunca julgou que seria tão bom estar dentro do espaço apertado da sua boca. Deixa-se vir e enchê-la, e ela apronta-se logo para recebê-lo, os olhinhos pestanejando de alegria. No fim, ajuda a limpá-lo e a compor-se.

Herbert desemboca no passeio com energia renovada. O sol amarelo atinge-lhe os olhos, espantando-o – pensava que fosse mais cedo. Mas não: Medeia está baixa no horizonte, um grande olho vermelho inchado que subirá ao longo do dia para substituir o astro actual. Demora um pouco até se aperceber que Jules está por perto, sentado numa cadeira de lona perto das ondas, rodeado de criancinhas, faunos, sereias e outros seres infantis. O raio do velho gostava de passar o tempo com putos e contar petas presumidamente científicas. Às vezes Herbert pensava que ele devia ser tarado.

- ... e então, Amélia pegou na mão de James e disse-lhe que o raio verde estava quase a aparecer. Ficaram a ver o sol cair no mar, os ultimos raios do dia...

- ... enquanto ele lhe puxava as calcinhas para baixo e entrava nela à força por trás, ela gritou não, não...

- Wells! – o rosto de Verne estava vermelho como um pimentão. – É sempre a mesma vergonha! São crianças.

- Crianças, uma porra. São mais velhos do que qualquer um de nós.

- Mas agem e pensam como crianças.

- Quais crianças, Júlio? Abre os olhos. Já viste aqui alguma mulher, em todos estes anos?

- Não vamos falar mais disto – volta-se para os miudos, que os olhavam muito espantados e intrigados. – Pronto, meus pequeninos, vão para casa. Amanhã conto-vos outra.

- Julio, não regulas bem. Amanhã podes contar a mesma, que não se vão lembrar.

O velho resmunga entredentes, levantando-se a custo da cadeira. Se calhar está a ficar senil, pensa Herbert, embora não entenda como nem com que finalidade, neste tempo sem tempo em que as épocas não mudam e os dias se sucedem uns aos outros sem novidades. Se calhar sou eu que estou. A permanência irrita-o até aos ossos – em tempos chegou a atirar um fauno pela escarpa, apenas para ver a mudança. Lembra-se de o ver embater quase em todas as saliências da queda e ficar na praia de pedra quieto e contorcido como um pano velho – mas no dia seguinte o corpo tinha sido levado pela maré e outro igual a ele estava de volta, a beijar-lhe as mãos e a saltar em redor dele, a bater com os cascos no chão como um potro alegre.

Wells não está totalmente de acordo com a anterior descrição. Quer salientar que a irritação é mais uma impaciência pelo momento em que lhes será desvendada a razão daquele mundo e da existência deles. Está convicto – embora, admite, sem provas – de que isso acontecerá, e que aquele mundo não é mais que uma transição, ou melhor, uma sala de espera para um acontecimento mais vasto. Porque só pode ser... não há outro motivo para aquilo. Para os dias eternos sem noite de sóis sucessivos. Para o servilismo das criaturas animadas – não crê que estejam vivas. Para a amnésia profunda, sua e de Jules.

Quem sabe, pensa por vezes, se o próprio mundo ou quem o desenhou não sofre também de amnésia e não se voltará a lembrar deles nem do propósito? Essa possibilidade é tão forte que está constantemente a espicaçar o juízo do velhote.

- Mas vamos para onde? – diz o velho, deitado contra uma duna, agarrando-se ao cabo da bengala. – Que sina a minha. Deixa-me dormir.

- Vamos, simplesmente. Escolhemos um caminho ao acaso. Para ali é tudo plano, que nos interessa?

- E vamos assim, sem mais nada? Sem protecção, sem veículos, sem comida?

Herbert suspira de aborrecimento profundo.

- Não sou como tu, Julio. Não me contento a divertir os criados com histórias.

O velho grunhe, ajeita-se, fecha os olhos.

- As histórias distraem e ajudam a divertir-te. E não são criados.

- Quero fazer alguma coisa! E não é divertir-me.

- Não? Devo ter percebido mal o que fazes ali dentro com as miudas.

- Tenho outro remédio? E estás enganado. As histórias têm de servir uma função social. Educar, fazer reflectir, agitar ideias. Isso de histórias para divertir não me serve.

- Então, põe-te a caminho, se quiseres. Leva as tuas ideias para outro sítio. Eu fico por cá.

Herbert levanta-se e sacode a areia do casaco.

- Já eras um chatarrão de primeira quando estávamos vivos... – murmura.

O velho desperta de um sobressalto. Encara-o intensamente.

- O que foi que disseste?!

Mas Herbert está para lá de tudo, agora. Olha para mais adiante, na praia. Jules segue-lhe a atenção.

Um galeão de velas enfunadas e brancas deu à costa.

«O arrefecimento secular que um dia destruirá o nosso planeta ali já deve encontrar-se avançado. A composição física deste continua um mistério, mas sabemos hoje que mesmo na região do equador a temperatura do meio-dia mal se aproxima do nosso inverno mais frio. O ar é mais rarefeito que o nosso, os oceanos minguaram até cobrir um terço da superfície, e consoante as estações lentas avançam, enormes capotas polares se erguem e se derretem periodicamente, inundando as zonas temperadas. Este último estágio de exaustão, que para nós está incrivelmente remoto, é uma realidade diária para qualquer habitante de Marte. A pressão imediata da necessidade intensificou-lhes os intelectos, aumentou-lhe as capacidades e endureceu-lhe os corações. E perscrutando o espaço com instrumentos e inteligências de magnitude difícil para nós conceber, encontraram, a uma mera distância de 35 milhões de milhas na direcção do sol, uma estrela da manhã cheia de esperança, o nosso planeta de regiões mais quentes e cheias de vegetação verde ou água cinzenta, a eloquência fértil de uma atmosfera enevoada, que entre as aberturas deixa antever largas extensões de terreno habitado e estreitos mares cheios de armadas marítimas.»

A caravana avança pelo prado de Utopia, imensa em tamanho e rica em cores, contrastes e propósitos. Em tamanho, estende-se para além do horizonte visível, uma fila de animais e homens e não-homens que se perseguem ordeiramente, em carros, montados em bestas, seguindo a pé. Como um todo, avança vagarosamente, com o cuidado dos seres portentosos, mas assim como avança, também tem dificuldade a parar, e quem não consegue seguir vai ficando para trás, para os grupos dos doentes ou sobrepesados das ultimas fileiras, pois a caravana não é misericordiosa. Das cores, podemos dizer que são tão diversas quanto os tamanhos dos homens, quanto os produtos que transportam e as origens de feitura. Por vezes caótico, por vezes belo, o arco-iris que orna o corpo da caravana à distância revela muito da estação do ano e do que se compra e se vende nas paragens distantes. Os contrastes são então todos visíveis, porque quanto aos propósitos... esses continuam escondidos e privados dentro da forma anímica de cada indivíduo, e se por vezes subsistem escaramuças das quais resultam feridos ou mortos, mesmo nesta época tão avançada, é porque a liberdade essencial do silêncio não é respeitada – ou seja, há quem faça perguntas indevidas.

Mas isto não perturba a caravana. A caravana é mais do que isto, existe há muito tempo, e não pára. Não tem memória de ter parado. Percorre o globo de Marte de península em península, de terra em terra, e é a única que lhe dá a volta por completo, pois Marte é, ao contrário da Terra, mais terra que mar (agora) e todos os seus grandes lagos estão isolados entre si (facto que deu origem no passado a evoluções distintas de organismos e espécies, ramificadas em opções acidentais de estrutura e desenho, como é próprio da vida - uma evolução especial, diga-se, porque ajudada e acelerada, mas com completa liberdade de escolha, como qualquer evolução que se preze). Ao passar por cada povoação, mercadorias são depositadas em terra, mercadorias são colocadas nos vagões e carruagens e às costas, pessoas ficam e pessoas sobem a bordo, e quem vá mais adiantado não se importa de pernoitar, ou matar saudades, pois voltará à caravana no outro dia, leva muito tempo a passar e é mesmo muito grande e em breve, com passo acelerado, recuperará o caminho perdido. Nos dias da caravana, a povoação fica, normalmente, em festa, receptora de novidades e sangue fresco, e os habitantes são acolhedores, pois entendem que quem passa por eles deve estar exausto.

De entre os organismos, o paquiderme é o predominante na caravana. Animal maciço – estupidamente maciço, aliás – que a sua altura suplanta uma torre de cinquenta homens, que a sua envergadura cansa um atleta a contornar, e cujas patas imensas, de pele robusta como se esculpida em pedra, marcam o chão com vincos pronunciados. E contudo, assim como é grande, é lento a mexer-se, um pouco como as montanhas. Tão lento que serve de sustento e transporte a espécies mais preguiçosas, entre elas o homem. De tendas sobre rodas que se atam ao dorso altivo, pequenas comunidades escolhem o seu paquiderme e o utilizam como sustento. O animal é uma ecologia em si mesmo, e as outras espécies animais que também o parasitam providenciam carne e leite para a espécie humana. Estas são caçadas todas as manhãs – geralmente com lanças e flechas atadas com cordas, ou retirados das pregas da pele do animal – e comidas durante o dia. As tendas, atadas entre si, são verdadeiros centros de convívio, descanso e brincadeira. É seguro educar uma criança naquele espaço. É seguro amar e rir e crescer.

«E nós, os homens, as criaturas que habitam esta terra, devemos parecer aos seus olhos tão alienígenas e inconsequentes como o são para nós os macacos e os lêmures. O lado intelectual do homem admite que a vida é composta de uma eterna luta pela existência, e é de supor que seja esta também a perspectiva dos espíritos marcianos. O mundo deles está tão adiantado no processo de arrefecimento e este tão cheio de vida, mas repleto com o que consideram como meros animais inferiores. Conduzir uma guerra para os lados do sol será a sua única via de fuga à destruição que, geração após geração, os persegue.»

(...)

autoria de Luís Filipe Silva | link permanente

O Último dos Moicanos

08 Janeiro 2006


(segunda parte)



Pela manhã encetaram caminho pelo trilho rochoso, em direcção à vila de Diomedes. O tempo tinha clareado, e embora soprasse de norte um vento gelado que fustigava o rosto, estavam razoavelmente confortáveis nos fatos térmicos e nas botas de montanha, e depressa percorreram a hora de distância ao pequeno enclave. Iam calados. Nem uma única palavra foi trocada durante o percurso.

A vida na pequena vila continuava no ponto em que tinha sido deixada, fossem dias ou séculos atrás. O mundo encontrava-se tão longe que as suas manias, convenções ou tendências pouco influenciavam a forma de pensar da centena de habitantes. Não importava que fosse fim de ano, embora se vissem uma ou duas grinaldas decorativas em algumas janelas – o clima não dava perdão e era dia de pesca como todos os outros. O mundo não passava de um elemento de perturbação, por vezes positiva quando surgia com novas formas de aquecimento ou de detectar cardumes, mas quase sempre negativa, em particular se envolvesse política. Era como se estivessem no fundo de um depósito por onde se iam efectuando novos despejos, e com os quais iam sendo obrigados a viver, quer quisessem quer não.

Daí que fossem recebidos com um misto de satisfação por haver novas caras com as quais falar, e incredulidade, de espanto com aqueles ocidentais que vinham viver, por própria vontade, na rocha do fim do mundo.

- Ah, café quente! – exclamou Dave, envolvendo a caneca de líquido negro, quase borbulhante, com as mãos. Eram os únicos na loja àquela hora. – «Adoro o cheiro do café pela manhã.»

- Mistura italiana? – Manuel olhava para a embalagem que tinha sido colocada em cima da mesa.

- Starbucks – disse a dona da loja, de cara redonda e tão enrugada que os olhos e os lábios, de tão pequenos e finos, perdiam-se entre os milhares de traços.

- Mona sabe do que a gente gosta. Não é, Mona?

- Encomenda só para vocês. Guarda até vocês voltar.

- É como voltar a casa... - Dave sorriu-lhe. – Como vai a família?

- Muito preocupada – a mulher agitou as mãos no ar. – Tempo muito quente, mar não gela. Não há ursos, não há caça. Caçadores vão para norte. Não há venda. Não há dinheiro. Mark ficou Nome dar aulas. Vai casar. Fica por lá, esquece a mãe. Digo bom, aqui nada para ele. Mas triste. John pilota, nunca em casa. E marido ficar velho.

- Mark ainda a leva para Nome, não gostava, Mona?

- Vivi vida toda aqui. Só conheci aqui. Nome é grande.

- Mas estava perto do seu filho...

- Nora não gosta. Nora quer ficar com Mark só para ela.

- Mona, desculpe interromper, mas a televisão está a funcionar? – pediu Jacques,

- Ventos bom, antena estável. Mas tenho gastar do gerador.

- Pagamos pelo combustível. Podia por na CNN?

A mulher foi a arrastar os pés até ao aparelho, modelo ainda do século passado. Demorou a ligar, e quando aconteceu apanhou estática.

- Aqueles miúdos! Vou ajeitar antena... – e saiu da loja sem parka, como se o frio não existisse.

O grupo voltou a calar-se. Sebastien suspirou profundamente. Manuel tirou do bolso um telefone e estendeu a antena.

- Ainda é cedo para o satélite – comentou Dave. Manuel soltou um queixume e voltou a guardar o aparelho.

A televisão ganhou vida com um estrondo, o que os fez sobressaltar.

Um reporter de semblante oriental berrava ao microfone. Parecia estar no cimo de uma torre ou de um arranha-céus. A abafá-lo um ruído agudo, horrivel.

Pessoas a gritar. Uma cidade inteira.

- ... são milhares a tentar fugir para as montanhas, por todos os meios que alcancem. Os carros fazem fila e há dezenas de estradas bloqueadas por acidentes ou pela polícia. A decisão de deixar de transmitir notícias pelas televisões locais em pouco pareceu acalmar estas gentes, muitas delas com acesso a canais internacionais e à internet. As pessoas saem às ruas com os filhos em braços e malas às costas e correm. Mas não há lugar para onde fugir. Não sabem para onde vão, apenas para longe da noite que se aproxima.

- Tivemos notícias que o presidente Mulhar ordenou a concentração de todas as tropas em redor da capital – interrompeu o apresentador, de tom e aparência britânica.

- É um facto, James. Durante as ultimas horas, aviões e helicópteros militares têm passado por cima da cidade em direcção a leste. Guardar Ankara ficou a cargo da polícia local, que não tem recursos nem capacidade para tarefa tão gigantesca.

- Aliás, é de esperar que alguns dos próprios elementos estejam eles mesmos a juntar-se aos que fogem, Soon.

- É a natureza humana, James. Não conhecemos a natureza do perigo que se aproxima.

- E quanto a vocês? Que medidas foram estabelecidas para garantir a vossa segurança?

- O hotel em que nos encontramos está equipado com aprovisionamento para algumas semanas. Estão connosco duas equipas de segurança, e quando se aproximar a meia-noite iremos refugiar-nos nas caves.

- Os nossos corações estão convosco. Foi Soon, em Ankara, Turquia. Continua a crise que tem abalado o mundo nas ultimas oito horas. Num suceder de acontecimentos sem precedentes na nossa história, país atrás de país, região atrás de região, têm desaparecido do contacto com o resto do mundo. O fenómeno foi notado ao princípio da tarde, E.S.T., enquanto os países festejavam a entrada do novo ano. Auckland, Nova Zelândia, foi a primeira capital. Relembramos as imagens em directo.

A figura de uma torre espigada iluminada onde se apresentava um relógio em contagem decrescente era encabeçada pela legenda «Sky Tower, Auckland». Em surdina, um comentador seguia o número de segundos decrescente com entusiasmo, acompanhado dos berros das pessoas nas ruas. Quando atingiu o zero, um espectáculo de fogo-de-artifício surgiu da torre, iluminando os céus. Mas não se ouviu nenhum outro ruido. Ninguém a berrar. Nenhuma corneta a saudar a passagem. Serpentinas não foram lançadas. E mesmo o comentador ficou calado, após o baque do microfone, presumivelmente a cair no chão.

- Fomos informados que o fogo-de-artifiício era controlado por computador. Toda a cidade continuou a funcionar. As próprias câmaras da televisão nacional continuaram a emitir durante horas pela noite dentro. Este foi o único resultado.

Corte para uma cena semelhante, mas o relógio digital da torre mostrava uma hora depois. Ouviam-se alguns berros, alguns gritos, mas nada que parecesse humano. De súbito, um rosto tapou a abertura da lente. Mona, que entrara a meio e assistia espantada, soltou um pequeno grito. A imagem deteve-se.

- Conseguimos identificar esta pessoa como sendo Monique, assistente de realização dos nossos escritórios em Darwin, Austrália. – A imagem avançou. Monique olhou fixamente a lente, parecendo intrigada com o aparelho. Depois começou a bater com o dedo na lente, sacudindo a câmara.

- Está a ver o reflexo – comentou Sebastien.

As pancadas ficaram mais fortes, fazendo sacudir a câmara. Monique acabou por perder o interesse, mas deve ter pensado que tinha outra função, pois começou a lamber a objectiva.

- Parece animal – soltou Mona. O grupo entreolhou-se. – Vou chamar gente – e saiu.

A emissão prosseguiu com outros exemplos de passagens de anos e emissões televisivas cortadas a meio, ou em que as câmaras tombavam, deixavam de ser manejadas, eram lançadas pelo ar. Um par de apresentadores de Taiwan foram capturados a meio do acontecimento, mas tudo o que mostraram foi uma tontura momentânea, e depois toda a perda de razão, caindo de quatro, mostrando espanto com as roupas, saltando para cima das bancadas e cadeiras, ufando o peito.

(continua amanhã)

autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

O Último dos Moicanos

07 Janeiro 2006


(primeira parte)



O barco que se aproximava vinha do futuro. Não se via ninguém a bordo.

- Tens a certeza? – o que era uma pergunta razoável para Sebastien fazer, dada a chuva inclemente e o facto de serem duas da manhã em pleno início de Inverno. Mas Jacques era demasiado cioso da qualidade das câmaras.

- Abre os olhos – apontou para o ecrã de visão nocturna. O pequeno barco era uma marioneta sob a vontade das enormes vagas. Não se via ninguém ao leme.

- Bem, com uma tempestade destas... – Sebastien não se daria por vencido.

- Pois, precisamente com uma tempestade destas! Não me digam que os doidos estão fechados no porão.

- Podem navegar desde lá? – perguntou Dave.

- Da última vez que vi estava cheio de amostras – contestou Jacques. – Céus, vão directos às rochas.

O grupo soltou uma exclamação preocupada. Sebastien agarrou no rádio e voltou a tentar chamá-los. O único ausente da situação, enrolado numa manta térmica e a beber tranquilo um chá com uísque era Manuel.

- Não estão a abrandar, pois não?

- Como é que queres que se perceba, com este temporal? – Jacques começou a agarrar nos fatos térmicos. – O melhor é irmos ao encontro deles.

- Posso ajudar em alguma coisa? – ofereceu Manuel, embora fosse evidente que esperava que não. Jacques olhou-o de alto a baixo.

- Infelizmente, é bem possível que sim. Tem mais experiência médica do que qualquer um de nós. Como é que se sente?

- Depois de vinte e quatro horas dentro de aviões? Com vontade de ter outra vez vinte anos...

Jacques sorriu e atirou-lhe o equipamento. Em breve estavam os quatro a descer o trilho – agora lamacento – que ia dar ao embarcadouro de pedras e madeira que constituia o único porto de abrigo do lado ocidental da ilha. O resto era composto por rochas e gelo, e se havia vida além da presença deles estava bem refugiada no fundo do mar, onde o mundo continuava calmo.

O barco veio ao encontro da margem com abandono completo, embateu duas vezes nas rochas com acompanhamento sonoro mas acabou por ficar, para felicidade de todos, entalado no gelo.

- Que raio de maneira de passar o último dia do ano! – berrava Dave bem alto, com a desculpa de fazer-se ouvir sobre a ventania. – Estes gajos não podiam ter ficado em casa?

- É um barco russo? – Manuel encontrou o nome deste em cirílico.

- Sim, é tradição – explicou Sebastien. - Adoram festejar a passagem de ano duas vezes.

- Duas vezes?... Ah! – exclamou, lembrando-se da linha de mudança de data, algures entre eles e a ilha grande. – Não podiam esperar até que amanhecesse?

- Normalmente nós festejamos lá com eles e na noite seguinte eles vêm cá. Mas estávamos à tua espera, assim não foi possível.

- Com esta tempestade...

- O mais certo é que estejam com os copos... Então? – Jacques tinha sido o primeiro a entrar no barco. Segurava diante dele a lanterna, que lhe traçava a silhueta e a dos outros dois colegas. O que encontrou tirou-lhe as palavras. Fez um gesto a Dave para que entrasse também. Entregou a lanterna a Sebastien. Quando Manuel se aproximou já estavam a segurar o homem pelos braços.

Jacques disse algo em russo; Dave limitou-se a:

- Olaf! Consegues ouvir-nos?

Mas o olhar assustado e distante, e o lamúrio que não se convertia em palavras mostravam que algo estava muito errado. A Manuel fez lembrar os autistas adultos do centro de voluntariado em que trabalhara durante o estágio, mas não mencionou nada aos outros. Olaf não voltaria tão depressa a este mundo.

- É o único? O Vladimir não veio?

Dave desceu ao porão, mas não passou da porta, limitou-se a percorrer o espaço com a lanterna.

- Não vejo ninguém. Vamos voltar.

- Tens a certeza? Caído no chão?...

- Aqui não há espaço para ninguém se esconder – parecia bastante nervoso. - Vamos voltar. Com a luz do dia podemos investigar melhor.

* * *


O homem que se retirou do barco passou a consulta a observar com ar ausente o espaço em redor, absorto de Manuel que o ia auscultando e apalpando, e dos três outros homens que aguardavam num profundo silêncio. Por vezes soltava gemidos e queixava-se de um apertão mais forte. Mas mostrava-se pacifico e absolutamente tranquilo, o que era um reflexo completamente oposto de todos os restantes.

- Bem, é o melhor que posso fazer nestas condições – pronunciou-se Manuel por fim. – Não vejo nada de errado com ele que algumas semanas no ginásio não melhorem. Francamente, o problema não é físico.

- Mas o que é que ele pode ter tido? Uma trombose? Um choque?

- Um choque é o mais provável. Pode estar a reprimir memórias de algo dramático que tenha assistido.

- Que tipo de drama? – perguntou Jacques.

- Um acontecimento extremo. Que lhe ameaçasse a integridade física. Ou que o magoasse bastante espiritualmente.

- Aquilo é um retiro científico tão pacato quanto o nosso – comentou Sebastien. – Não estou a ver...

- Sim, pacato meses a fio. E extremamente isolado – Dave encarava os companheiros com ar assustado. – Um gajo até fica paranóico.

- Tu e os teus filmes... – contestou Sebastien.

- Mas é possivel que seja isso, doutor?

- Também pode ser algo mais simples, Dave. Imagina que um colega caiu à água ou teve um acidente por culpa dele. Pode estar a bloquear a culpa. E Dave, não sou médico de profissão, não me chames doutor.

- Manuel, a reacção dele é normal? Quero dizer... li pouco sobre o assunto mas é normal perder-se toda a consciência do que se passa? É que parece pouco mais inteligente que um macaco...

- O que quer que tenha sido, foi recente. Devíamos esperar até amanhecer para ver se recupera um pouco.

- E ele fica aqui durante a noite? – Dave pareceu genuinamente espantado.

- Queres deixá-lo à chuva, ó génio? – disse Sebastien.

- Mas vamos ter de o vigiar... fazer turnos...

- Parece-me bastante inofensivo. Mais do que alguma vez pareceu...

- Mas não podemos! Eu não consigo dormir assim, sem saber o que aconteceu. Vocês conhecem o Olaf, parece-vos o tipo de pessoa que se deixa abalar assim por qualquer coisa? O homem esteve no exército, combateu na Tchetchenia! Nem sequer tinha família! Abram os olhos! Aconteceu algo de muito grave naquela ilha, e não está muito longe de nós. Na verdade, é bem possível que esteja já a vir ao nosso encontro. Sabe que estamos aqui, que ele está aqui e pode seguir o sinalizador do barco. Estão a ver o problema?

A falta de contra-argumentações foi relevadora. Entreolharam-se, encontrando igual medo nos outros.

- O que fazemos? – perguntou Sebastien.

- Antes de mais, manter a calma – advertiu Jacques de imediato. – Não sabemos o que aconteceu, não vamos inventar filmes. Tomamos as devidas precauções, e ligamos para a costa para trazerem um helicóptero. Ele precisa de cuidados médicos que não lhe podemos dar.

- E dizemos que temos um cientista russo connosco? – Dave apontou para Olaf. – Assim, em território americano, sem tirar nem por?

- Qual é o problema? Eles sabem que andamos sempre de um lado para o outro.

- Uma coisa é saberem informalmente, Jacques. Mas se tiverem de escrever isso num relatório...

- Qual é o problema? – berrou Sebastien. – Dois pedregulhos no meio do mar quase sem ninguém, quem é que se interessa por isso?

- Só estou a dizer que temos de ter cuidado com a forma como apresentamos o assunto. Não nos mostramos preocupados. Nada de mencionar as festas de passagem de ano nem...

- Dave, não te entendo, decide-te! Ou isto pode ser um grande problema, ou não! Não estejas a assustar-nos se não...

Olaf saltou da mesa aos berros e pulou para um canto, de mãos erguidas ao níel da cara, parecendo assustado e um pouco ameaçador. O grupo afastou-se, encostando-se ao outro lado da casa.

- Alguém tem alguma coisa doce? – perguntou Manuel. Embora presenteando-o com um olhar estupefacto, Sebastien passou-lhe uma barra de Mars. Manuel abordou Olaf, agora recolhido num canto, a tremer, e passou-lhe o chocolate. – Ficou só assustado com a berraria.

Olaf não pareceu reconhecer o que era o presente, mas aceitou-o, cheirou-o, lambeu-o, e com um sorriso de surpresa, começou a comê-lo avidamente.

Os homens observaram calados, àparte uma exclamação religiosa em francês por parte de Sebastien. Jacques foi o primeiro a reagir.

- Bem, temos de chamar a Guarda. Sebastien, vê se consegues apanhá-los. Diz que... diz só que o barco encalhou na praia e que ele está doente – olhou para Dave. – Ele é que veio ter connsco. Assim, não há problemas. – Dave assentiu, engolindo em seco. – Vamos fazer vigia por turnos. De manhã, se não houver avanços, mudamo-nos para a vila. Vá, pessoal, vamos reagir. Isto não há-de ser nada.

(continuar para a segunda parte)

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Robinson Crusoe

06 Janeiro 2006

Quando acabou de estudar foi quando introduziram os métodos hipnossomáticos de aprendizagem, no qual se aprendia sonhando com experiências de vida concretas, pelo que depressa se viu rodeado de malta muito mais jovem e mais dinâmica que não perdera tantos anos mergulhada nos livros nem em tanta teoria sem prática.

Quando teve um filho foi quando legalizaram a limpeza e melhoria genética dos fetos com apoio da Segurança Social, pelo que o bebé foi a última geração daquele país a ainda ter um raciocínio básico e uma desenvoltura física não aumentada.

Quando o negócio do canal de televisão estava a arrancar, foi quando se começou a vender óculos e até olhos artificiais que misturavam imagens do mundo fisico com as vindas constantemente da internet, e num único ano a televisão, nos moldes conhecidos, desapareceu.

Quando começou ele mesmo a usar olhos artificiais, não tinha dinheiro para comprar a versão a cores, pelo que durante muito tempo teve de viver num mundo a preto-e-branco; quando finalmente conseguiu poupar o suficiente, os olhos a cores cairam de preço, e tornou-se in ver o mundo em tons de cinzento.

Daí que não foi surpresa de ninguém que tivesse decidido congelar-se no final da vida e aguardar pelo avanço das tecnologias, para ficar finalmente sincronizado com o desenvolvimento da sociedade. Por aquele andar, descubririam o segredo da vida eterna pouco depois de bater as botas...

Infelizmente, nunca viria a saber se isso tinha sido verdade, pois pouco tempo da criogenização, surgiu uma singularidade tecnológica que fez retroceder culturalmente a humanidade aos tempos da força motriz a animais.

Ainda lá se encontra, resguardado nas profundezas do refúgio da montanha, alimentado por energia solar, até que as máquinas se gastem ou o sol se apague... e morra mesmo antes de surgir a nave extraterrestre.
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Falstaff

05 Janeiro 2006



[texto retirado deste blog por ter sido publicado no número 4 da revista electrónica brasileira Desfolhar. Pode ser lido aqui. Obrigado. LFS]

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À Procura de Casa

04 Janeiro 2006



[Este conto conseguiu uma casa em papel - será publicado (em versão revista e melhorada) num dos próximos números da revista Bang!, tendo sido omitido deste site por acordo com o editor. Obrigado pelo vosso interesse. LFS]

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Experiência: Seis

03 Janeiro 2006

(o seguinte conjunto de anotações foi encontrado no disco rígido do único computador sobrevivente à destruição do edifício Coral; o ficheiro estava marcado como backup e referia-se a um outro ficheiro – presumivelmente a obra principal -, o qual não se conseguiu encontrar, sob o nome referenciado ou qualquer outro; o autor deste texto é desconhecido e embora a maioria das referências citadas sejam verídicas, a teoria a que se refere o texto nem o professor que lhe terá dado autoria existem nas bases de dados académicas do mundo inteiro; aferiu-se no entanto que o software em que foi escrito estava registado sob pertença da universidade situada no edifício; pela falta de evidências concretas e a possibilidade forte de se tratar de ficção, conclui-se que deve existir pouca probabilidade de ligação deste documento com o atentado.)



CAP. I – Conspiração sobre a Teoria da Conspiração

(1) professor emeritus da UPC (Barcelona) onde leccionou sobre os novos modelos políticos de 7PCI a 13PCI; de acordo com o seu blog, desenvolveu aí os fundamentos que dariam origem à teoria dos poderes invisíveis “inspirado pela organização dos diversos departamentos, um padrão de atitudes e procedimentos que surgia da sua interligação electrónica, e ao qual se obedecia sem grande crítica; era como se fossemos governados por uma vontade maior, invisível mas a que não se podia fugir (...)” (lectures.bhamasi.caltech.edu, 12.05.17PCI)

(2) uma segunda versão do artigo, um resumo com cariz mais técnico, surgiu na revista-papel La Nouveaux Ordre Mondial com o titulo “Est-il possible de voir les puissances invisibles?” (Quebéc, 16.03.17PCI)

(3) alcunha com que Hamasi costumava referir-se ao colégio de consultores académicos com participação de autoridades provenientes de diversas universidades mundiais, que se pronunciam sobre a validade das teorias das disciplinas culturais e sociais, e que reflectia a sua opinião do processo; derivado da lenda de Procrustes.

(4) M. Tensih não seria tão delicado em privado: em discussão com os restantes membros do colégio, afirmava que não tinha “tempo a perder com mais uma teoria da conspiração, inventada por mais um livre-pensante, daqueles que se põem a analisar o tráfego da rede e descobrem fantasmas e esquemas ocultos (...) matemática dúbia e interpretação imberbe” (Mailing-list 3453.google, 31.10.16PCI)

(5) o corpo estava em elevado estado de decomposição, depois de uma semana na água; o despiste genético não conseguiu provar a 100% que se tratava de Hamasi (relatório do médico-legista, 20.05.17PCI)

(6) nome de solteira da mãe; Hamasi, pela lei de Singapura, não estaria a apresentar um nome falso mas a desenvolver uma segunda identidade (a alteração voluntária de identidade é um direito protegido por vários países da orla do Pacífico desde 5PCI). Contudo, como apenas utilizou essa identidade durante o tratamento psiquiátrico, a imprensa e a comunidade internacional depressa chegaram à conclusão de que Hamasi tinha tentando esconder a verdade sobre a sua condição mental.

(7) segundo o Rig Veda, Varuna guarda as almas de quem morre por afogamento.

(8) Esta espantosa evidência é difícil de compilar, mas pode ser obtida nas bases de dados dos serviços de necrologia das universidades dos diversos países; alguns, nomeadamente os africanos, irão requerer autenticação por parte da academia que suporta o estudo; outros poderão requerer o uso de meios menos oficiais – aconselha-se o investigador a ter o espírito aberto no que toca a questões éticas, entender os costumes de cada país e concentrar-se nos resultados. Eu própria não teria perseguido esta questão se não tivesse querido falar pessoalmente com alguns dos membros do comité.

(9) Dvorak pertenceu ao comité de Janeiro a Setembro de 16PCI, tendo tido acesso ao corpo da teoria mas nunca se chegando a pronunciar sobre a mesma.

(10) Segundo a caixa preta do avião, esta mensagem teria sido enviada pelo co-piloto às 20.35; contudo, este, dos poucos ocupantes a terem sobrevivido, negou a existência de tal mensagem, bem como de que houvesse o problema relatado a bordo. Não foi possível prosseguir a investigação porque o co-piloto morreria passadas algumas horas pela administração fatal de insulina, derivada da troca incorrecta de etiquetagem dos medicamentos no serviço do hospital (relatório da comissão de investigação do desastre do vôo New Pan-American 0743, 30.03.20PCI)

(11) o computador de Tensih ainda foi encontrado nos destroços, mas irrecuperável.

(12) vi-lhe ainda o rosto, pois a entrada da estação onde tínhamos combinado fica a cinquenta metros do cruzamento; o carro dele voou literalmente na minha frente ao ser projectado para fora do viaduto. Não cheguei a prestar atenção ao outro carro.

(13) escrita à mão numa letra muito miudinha; a primeira ex-mulher de Dvorak, que encontrei no velório, ajudou-me a decifrá-la; quando terminou, mudou de atitude e pediu-me para desaparecer dali.

(14) A lista inclui ainda técnicos de software, analistas demográficos, juristas, cirurgiões, membros de organismos de segurança social, técnicos políticos, legisladores, as respectivas datas e locais de óbito e o tipo de acidente envolvido.


CAP. II – Uma Nova Camada de Pele

(1) inicialmente, apenas a partir dos dez anos, mas a lei tem baixado a idade mínima legal para a adesão à derme, situando-se na maior parte da Europa e Estados Católicos Americanos nos quatro anos, cinco para os Estados Árabes Americanos e Alemanha, e quinze para o Brasil (por ventura do conflito entre as várias culturas de dermes - v. cap. III).

(2) espátula impregnada de nanócitos-gm com que se raspa as gengivas do recém-nascido

(3) cf. Construindo Cibersacerdotes: A Adesão da Derme como Processo Iniciático na cultura protestante, A. Brahm e S. Bram (Londres, 3PCI)

(4) Madagáscar é a excepção à regra; a Tanzânia, pelo contrário, sobrevive com uma das dermes mais atrasadas do planeta, depois da catástrofe da erupção do Kilimanjaro provocada pelo projecto África Século XXII.

(6) nos ECA, por motivos práticos (necessidade de pagar apenas um acto religioso por parte das famílias), o baptismo e a activação da derme começam a juntar-se num só acto, realizado pela figura sacerdotal, que se encontra devidamente certificada pelo Gabinete de Gestão da Plataforma Comum de Comunicação – o que acaba por ter interessantes consequências políticas (cf. ob.cit, A. Brahm e S. Bram, pp. 170-185). Pela natureza da religião, esta tendência é menos forte nos EAA, mas houve estudos que verificaram a intensidade de actuação da derme durante o Salat (cf. “Variação da actividade na nano-derme na rotina diária de dez indivíduos”, T. Borme, T. Shackra & F. Lampreia, Nova Deli, 23PCI).

(6) a tendência tem vindo a propagar-se pelas culturas orientais, onde a dimensão e densidade populacional explica a quantidade de medidas de controlo do nível de saúde geral da população, que têm sido alvo de críticas a nível mundial. Segundo Deerk (Antuerpia, 12PCI), “contra a democracia fala a higiene, ou o que passa por higiene, de um povo ou uma cidade ou um estado; defensável? Veja-se o caso de Hong Kong, onde os monitores individuais de saude estão em constante vigilância pelo Estado e sintomas que possam indicar uma doença das que são mantidas em lista negra, obrigam o indivíduo a apresentar-se para check-up e iniciar o tratamento, podendo ser preso caso recuse e mantido sob custódia até terminar o processo de cura." Ou como diz Silverberg (Bagdad, 16PCI), "o corpo deixa de ser pertença do indivíduo e é pertença do Estado - o indivíduo é neste caso ocupante indesejável e por vezes incomodativo (...) a cura, e logo estar vivo, torna-se uma sentença (...)".

(7) designação pela qual foi referido o Primeiro Colapso da Internet pela imprensa durante os primeiros meses após o evento e seria ocasionalmente utilizado em publicações anteriores ao Segundo.

(8) a versão 3.3 apenas monitoriza o nível de serotonina, não é capaz de o influenciar.

(9) R. G. Martin ratifica a sua perspectiva contraditória numa entrevista posterior: ”a alucinação colectiva a que me referi anteriormente poderá ser explicada, em grande parte, pela adaptação de uma população a uma nova forma tecnológica de comunicação (...) a derme é sem dúvida inofensiva a nível biológico e mental (...) novos estudos convenceram-me que prosseguia por uma argumentação errada (...) ” (44534US.visual.google, 8.9.3PCI, dois meses depois da tentativa de rapto do filho mais novo)

(10) cf. Efeitos da Exposição Prolongada de Fetos da Cobaia à acção da NanoDerme, por H. Simmons, Cambridge, 22PCI

(11) comparem a citação mencionada com a seguinte, retirada de um jornal-papel publicado na época: “segundo Herbert Simmons, investigador e obstreta no Bristol General Hospital, ‘apesar das protecções anunciadas, é expectável que um nível mínimo da nanoderme da mãe ultrapasse a barreira da placenta, transportada no sangue; não me pronuncio sobre o nível de intervenção terá a nível do feto, uma vez que a programação é extrictamente controlada e poderão não representar qualquer ameaça (...) os testes normais não incidem sobre a presença de nano-derme.’ ” (Bristol Sun, 12.2.23PCI). A citação surge apenas nesta publicação; a entrada do blog foi refeita sete meses mais tarde e não surge sequer no Internet Archive.


CAP. III – Ordem Mundial, ou Desordem Organizada?

(1) utilizamos o conceito tal como descrito por P. Morris (Nova Iorque, 15PCI): "De tal forma complexo e interligado se tornaram os aparelhos que a humanidade inventou para a ajudar a dominar o meio ambiente e proporcionar melhores e crescentes níveis de qualidade de vida, de tal forma dependem as nossas vidas - inclusivé literalmente, em certas doenças - da continuação e crescimento deste status quo mecânico e electrónico, e de tal forma esses mesmos mecanismos se tornaram autónomos, capazes de decidir, escolher e evoluir sem intervenção humana, que a denominação arcaica de 'tecnologia' deverá também evoluir para uma 'tecno-ecologia', em tudo semelhante, como conceito, à da Natureza. Na verdade, uma Natureza2, ficando a Natureza1 como designação base do mundo biológico terrestre como sempre o conhecemos."

(2) a citação não provêm de Kemp, mas é adaptada de uma conclusão do ensaio de Hamasi: “[a disseminação indiscrimada de informação] provoca o surgimento de nódulos auto-reguladores que são capazes de produzir informação contraditória que anula o efeito da primeira, e sobre este pano neutral inscrever a sua própria interpretação” e ainda “quem tenha os instrumentos correctos é capaz de determinar o comportamento dos nódulos (...) roubar identidades falsas, obter senhas e contrasenhas e efectuar espionagem de informação de forma barata e imediata”.

(3) da mesma forma que a Argélia se tornou nação-escrava em 19PCI perante o consórcio germano-turco com uma divida combinada de 1500 milhões de euros.

(4) de acordo com a mesma reportagem, são na ordem dos trinta mil, em Zanzibar, concentrados na zona sul da ilha. Os bebés são mergulhados à nascença durante dois dias num líquido inibidor – que é na verdade uma derme de versão mais antiga com a qual a residente encontra incompatibilidades de actualização e logo não se sobrepõe. Embora desta forma estes residentes, que se recusam a aceitar a situação de nação-escrava por questões culturais, consigam fugir ao escrutínio da África do Sul, existe o perigo de submeterem crianças tão novas à actuação de uma derme antiga; o resultado tem-se manifestado na decrescente taxa de natalidade, que não pode ser considerada apenas como efeito natural no fluxo da população. Os habitantes aguardam pacientemente “pelo dia em que a dívida esteja paga e possam voltar a ser os donos da terra”.

(5) os números do Banco Mundial (relatórios anuais de 20-23PCI) revelam sessenta porcento de insucesso nas iniciativas de adesão de tecnologia moderna por parte dos “Países a Vapor”, atribuidas a causas tão diversas como mau planeamento, condições ambientais, instabilidade política, falta de financiamento, falta de competências nos recursos humanos, dificuldades logísticas. Interessante é o facto de nos quarenta porcento restantes, existir consistente e coerentemente controlo e financiamento ocidental, com reserva dos direitos e utilização da pesquisa.

(6) cf. Kropotkin às Avessas, S. Biergenstein e Unidade Pan-Europeia: Tecnocracia com Pernas, M. Holder (ambos نيويورك, 19PCI)


CAP. IV – É possível ver os Poderes Invisíveis?

(1) compare-se no controlo evidenciado nas estatísticas das aprovações de natalidade na China nos últimos dez anos com o crescimento do volume de abortos espontâneos da Pan-Europa e ECA (relatórios do Banco Mundial).

(2) o processo não é perfeito, senão Dvorak teria tido possivelmente igual destino aos dos restantes membros do comité mais cedo, antes de o ter podido contactar (obviamente que esta frase não é comprovável cientificamente).

(3) embora Hamasi se referisse à citação como estando no blog, não consegui encontrá-la, o que aumenta a necessidade de reproduzir o email na íntegra: “Vou ao limite de crer numa conspiração que me acerca, que tudo conspira contra mim, desde o mais singelo meio de transporte aos mecanismos no meu lar, que vão um a um deixando de me obedecer. A que extremo se torna a perspicácia em paranóia? Recuperar o equilibrio é essencial, mas como ter a certeza do que sou? Um alvo genuído? Não um louco convicto? Apenas um acumular de evidências que tento negar mas que me procuram, como o facto de tudo se encontrar na normalidade quando estou acompanhado mas começar a funcionar mal quando estou só. Ontem entretive dois professores em casa... só não consegui mostrar-lhes os gráficos de evolução das doenças menores porque o ecran não funcionava... quando sairam a luz funcionou intermitentemente, o teclado recusou-se a funcionar, a água saiu fria depois suja... não consigo alugar carros, o sistema fica avariado quando surjo e a funcionar quando saio... como é que posso convencer alguém? É um berdadeio jofo do gato w rato... percberam konteud d maill nao consg escccvr +...”

(4) os padrões surgem quando menos esperamos: ao comparar as iniciais das primeiras 6 frases do capítulo quarto das versões francesa, inglesa, espanhola e norueguesa do manual de instruções da Plataforma Financeira Comum, utilizado por estes países, chegamos também à designação Varuna. Por sinal, se juntarmos as iniciais dos relatórios do Banco Mundial, dos livros mencionados neste ensaio, e em grande parte dos textos oficiais, encontramos constantemente esta designação. Manipulação? Ou estará esta assinatura digital já impregnada no nosso pensamento, impedindo que [ficheiro corrompido e irrecuperável]
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O Deus das Moscas Redux

02 Janeiro 2006

Ton gostava de endereços, pelo que escolheria os catálogos de biblioteca, as cronologias, os inventários, as listas de recenseamento, e os numeros de telefone como espaço de recreio.

O irmão, Josef, de natureza mais indecisa, acabaria por sentir-se contente em fixar residência na curvatura local do espaçotempo do sistema solar, opção segura que não chocaria as normas sociais.

Mateus, de sensibilidade mais apurada face a questões de equilibrio e beleza, não se sentiu satisfeito enquanto não obteve exclusividade de habitar a primeira derivada da equação de Yang-Mills e ter literalmente o infinito à porta de casa.

Freck escolheu o exibicionismo fácil, mas contudo útil, dos semáforos, das luzes das autoestradas e dos sinais animados dos placards publicitários.

Marya, mais arcaica, ficaria encantada pela ambiguidade do alfabeto hPhags-pa, por um lado de uma extrema dureza na articulação das dobras e recantos, manifestação do império vasto a que servira no passado, mas que, por outro, convivia tão bem com a forma curva e doce das suas letras minúsculas.

Jon, quando se fixou a versão estável da teoria que o tempo existia em partículas discretas, foi o primeiro a querer morar nas mesmas, embora a sua ambição secreta fosse de, mais tarde, entrar na dimensão nas quais as partículas se moviam, mais impossível de conceber para a mente humana do que, até, a quarta dimensão do espaço.

Lertui estabeleceu-se nas imagens de Bonestell, onde Saturnos brilhantes percorriam céus de acrílico e óleo e pequenos homens eternamente imóveis desembarcavam de naves de metal reluzente na superfície de Titã.

Martin tornou-se numa frase feita que sobreviveria dez gerações e trinta línguas, antes de ser compilada num arquivo histórico.

Kassandra estabeleceu-se na cinquentésimo parágrafo do quinto capítulo da «Guerra e Paz», mas não ficaria muito contente, pois havia moradores em todo o resto do livro, o que não ajudava à privacidade.

Nepol fixou-se na ideia de ser um mito ou um deus como os dos antigos, e ainda pensou viajar pelas correntes do vento e manifestar-se nas fúrias das tempestades terrestres, mas acabaria por convencer-se de que era uma ideia demasiado infantil e limitada, pois a concepção do mundo dos antigos era tão reduzida que não se comparava à glória da actual Idade da Razão, e assim voltou para casa.
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Deste Lado de Cá

[conto removido deste blog por ter sido aceite numa publicação em papel - neste caso a revista brasileira de FC Scarium, a saír ainda em data incerta. Acompanhem o meu blog corrente para mais informações.]
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