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Caderno de Contos 2008

Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana.
Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. Luís Filipe Silva

05 Fevereiro 2006



[Este site vai estar parado até quinta feira, dia 9, por motivos pessoais. Depois retomará a actividade normal. Obrigado. LFS]





autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 5 observações |

Época de Caça

04 Fevereiro 2006


(segunda parte)



Como a vida muda! Há três dias apenas, Jonah planeava passar o fim-de-semana calmamente com Julia, sozinhos na casa de Aurora, pois Mike decerto seria convidado para acampar ou ir para a cidade ou dormir na casa de um amigo, como costumava acontecer. O filho tinha apenas dezasseis anos e era já a estrela das redondezas, o rei dos recreios da escola. Possuía o carisma que Jonah nunca sentira em si próprio - pelo menos, durante a juventude, antes de iniciar carreira e ter de tomar responsabilidades sobre os ombros - e cuja falta ele temera, durante anos, que fosse transmissível à descendência. Receios infundados, pois Mike parecia estar no bom caminho de qualquer executivo ou político na sociedade do seu país, ou seja, ser adorado pelas pessoas. Embora, como todas as pessoas de idêntica estirpe que Jonah encontrara na vida, depressa percebesse como era uncool relacionar-se muito de perto com o pai, e daí o afastamento, apenas o procurando nos momentos de grande necessidade pessoal, ou seja, dinheiro e o carro. Por outro lado, talvez fosse uma reacção tardia ao divórcio. Pai e filho nunca tinham abordado o assunto.

Mas poucas horas depois o tocar do telefone viria mudar por completo o destino.

Não que Marvin tivesse planeado as outras reuniões com muita antecedência. O acordo tácito era de que todos compareceriam, independentemente dos seus afazeres, compromissos ou responsabilidades - excepto, como é óbvio, por motivos graves. Viriam sozinhos e sem desejo de companhia. Aqueles não eram encontros para arranjar amantes. Não se efectuavam por falta de ideias. O propósito era quase sagrado (para alguns, sabia Jonah, era-o deveras). Por essa razão, quando alguém planeava juntar o grupo, estabelecia uma data próxima. Para não haver falhas. Para ninguém poder mudar de ideias. A única diferença estava no curtíssimo prazo imposto por Marvin. E os europeus! Conseguir-se viagens aéreas naquelas condições era, na perspectiva de Jonah, uma quase impossibilidade física.

E ele aceitara de imediato. A sua boca dissera sim com facilidade. Sentindo na carne a provação de cinco anos. Na boca o sabor a pólvora queimada. No canto dos olhos o reflexo de um personagem ágil e jovem cuja existência, cujos sonhos e ódios em muito diferiam da sombra apagada em que se tornara. O tempo de espera tinha acabado.

Ninguém se lembrava mais dele, finalmente, o que era bom. O editor aguardava ansiosamente pelo novo livro, mas Jonah não o tinha ainda começado. Escrever sobre o quê? Os temas faltavam-lhe. O que havia na sua pacata rotina de consultas esporádicas e um ou outro discurso, na sua absoluta preguiça para efectuar investigação, que o inspirassem no projecto de um volume de ficção ou ensaio? Estava contente com a família que tinha, com a casa e o local onde a tinham mandado erguer. Adorava a mulher, que, como confessara a Marvin, lhe roubava a energia, levando-o a discotecas e bares nocturnos, a espectáculos de live-sex, fazendo-o manter-se acordado durante noites inteiras quando se encontrava com os seus amigos  encontros a que ele fazia questão de ir; em suma, tentando manter o mesmo ritmo de glândulas que tinham pouco mais de metade dos anos das suas mas muito mais do dobro da produtividade. Sentia-se, em parte, ridículo, um veterano quarentão metido com a malta dos vinte-e-alguns anos. Mas sabia que tinha de combater esse sentimento, de acompanhar Julia, se a quisesse manter. Mesmo que fosse uma ilusão. Tudo para não acabar sozinho.

Tinha sido mais fácil cinco anos atrás. Jonah era um espírito alado, livre dos grilhões do casamento e encarando a vida como um lago cheio de promessas aberto a mergulhadores. Começou a vestir-se mais jovialmente, mudou o aspecto e a atitude. Aos trinta e nove anos encontrava finalmente o à-vontade suficiente para encarar uma audiência de desconhecidos e fazê-los rir e aplaudir com a sua forma de ser, não por que fosse ele o professor da aula. Compareceu nos talk-shows mais famosos de então como estrela em ascensão, o eminente psiquiatra e expert amador em fenómenos insólitos que acabara de escrever o primeiro livro de ficção. As entrevistas foram, em parte, conseguidas pelo editor, mas o seu estilo agradou às câmaras, e depressa estava a comparecer em debates diferentes, a falar com personagens que tinham alguns poder no esquema das coisas. O livro foi um sucesso, e Jonah passou de «confortavelmente abastado» a «extensamente folgado», financeiramente falando. Começou, também, a interessar as mulheres, sem dúvida atraídas pela imagem de um divorciado divertido e polémico com interesses peculiares, histórias interessantes para contar e bastante dinheiro.

Resumidamente, foi assim que encontrou Julia, a simpática filha de colombianos cujo objectivo pessoal era fazer psiquiatria com base na experimentação química do cérebro.

E pensar que apenas dois anos antes, Jonah situara-se na fronteira de um esgotamento nervoso de grande intensidade. Decorria o divórcio de Barbara. Nos dias em que havia audiência, Jonah levantava-se com dores de cabeça, pois tinha consciência do que se iria seguir: a espera interminável. O jargão incompreensível dos advogados, constantemente em guerra um com o outro, usando manobras e fintas como jogadores da NBA. O lento e doloroso dissecar das manias do casal, das pequenas guerras e egotismos e até atitudes sexuais. O retrato de Jonah como um sacana que demolira o casamento com as suas ausências inexplicáveis e prolongadas, com a negligência pela educação do filho, com as maneiras rudes que adoptava ao dirigir-se à família e colegas, com a indiferença sexual à mulher, com a suspeita do adultério. Os olhares silenciosos dos elementos do júri, autorizados pelo desprezo mal contido do juiz. A sua voz firme quando depunha. As acusações ensaiadas. O proferir de opiniões que prometera a si próprio esquecer. De frases que nada lhe diziam, mas cujo efeito em tribunal estava assegurado. E durante todo o tempo, a sensação de que se encontrava numa peça, na interminável repetição das mesmas frases e movimentos que muitos haviam feito antes de si e muitos outros prosseguiriam, em benefício de uma tradição, ou de um sistema, que apenas lhe trazia desconforto a ele e incómodo a todos os outros actores. Os únicos que pareciam vivos eram os homens das leis... talvez a representação fosse em benefício deles - era a alucinação de Jonah nos momentos em que a dor de cabeça ficava mais forte - talvez o verdadeiro público seja o que está no púlpito dos jurados, a apreciar com a atitude ensaiada durante anos nos cinemas e na televisão.

Não tinha sido o pesadelo em que se tornaria mais tarde; no início, o casamento prometia. Barbara provinha de boa família, europeia, que a considerava a sua dádiva especial ao mundo. Reflectia o cuidado e o esmero que os pais haviam incutido na sua educação. Sabia apresentar-se perante uma audiência, tinha ideias e opiniões, e uma vontade de ferro quando era preciso. De simples professora na faculdade, passou a consultora do gabinete do Mayor e mais tarde começaria a pensar numa carreira política independente. Defendia os valores das mulheres e a liberdade de expressão nas escolas contra associações de pais demasiado preocupados com a educação liberal, não católica, dos professores de liceu. Barbara era uma mulher de valor, e uma mãe excelente. Jonah reconheceu de imediato as qualidades, e durante os primeiros anos, quando a paixão ainda fervia, não pediu mais da vida, com receio de que a sorte virasse a cara.

Mas então o passado voltou para assombrá-lo. Conheceu Marvin e Sergei e Joost. Tratou-os na mesma instituição, no mesmo ano, o mais estranho período da sua vida. As reuniões começaram, relativamente no mesmo período em que o casamento se começou a deteriorar.

Por sua culpa, reconhecia agora. Mas algo não estava bem consigo, então. Não podia culpar-se da forma com que tratava Barbara, por que isso era apenas o efeito de um problema maior. O problema que o acompanhava desde os dez anos, quando era miúdo e vivia sozinho com o pai numa terriola do Kansas. Quando perdera o pai e tivera de mudar-se para Minneapolis, para casa dos tios da mãe. Se encontrasse tamanha agressividade num paciente seu, aconselhá-lo-ia de imediato a entrar num programa terapêutico. Como era o próprio médico, a negação teve efeitos mais eficazes. O problema não se evidenciou como tal até ser tarde de mais. Até perder Barbara e o casamento, e durante algum tempo, Mike, que só voltaria para si porque a mãe tinha ido trabalhar para o estrangeiro.

Devia ter aprendido, dizia para consigo mesmo ao guiar o carro velho e desconfortável por milhas de pedra ressequida, de pó moído e asfalto em brasa. Não devia estar de volta. Não devia por em perigo a relação com Julia. Estava a ficar velho de mais para recomeçar outra vez a vida, para passar por outro divórcio. Mas pusera-se facilmente a caminho. Como um maldito bêbado que não tem escrúpulos em pegar de novo na garrafa e afogar a consciência, esquecido das sessões dos Alcoólicos Anónimos, esquecido da promessa.

Mas tinha sido tão bom dizer que sim...

(oontinua no próximo sábado)



autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |

ABRE LOS OJOS, ou WHY I WANNA FUCK PENÉLOPE CRUZ
O Mundo em Torno do Universo, I

01 Fevereiro 2006



a esfera de água, suspensa no meio da sala, em constante rotação, os jactos de pressão de ar que a mantinham segura desenhando rugas na superfície

ele foi em tempos mulher

(este sou eu, no centro do mundo, no inicio de tudo)

o cano apontado à testa

o cabelo solto caindo em ondas negras pelo pescoço delgado, os seus olhos lindos, castanhos, cheios de lágrimas, a curva sensual dos lábios traçada a sangue na pele tão branca

o que não gostava nela era ser tão franzina

o cano apontado à testa

(apenas um passo para dar o salto e transformar-se tão fácil tão imediato)

sentada junto à janela, o vestido de dona-de-casa remendado cobrindo-lhe os joelhos de idosa mas deixando a descoberto as pernas cruzadas, as pernas cheias de manchas e reumático, de peles penduradas, cheias de tempo acumulado, a camisola de lã a crescer das mãos atarefadas

a testa coberta de suor

queria beijar aquele rosto de princesa, queria ver os lábios soltarem gemidos suaves que a tornariam sua, queria possui-la com violência, causar-lhe dor quando entrasse

o que gostava nela era o ar de puta

a chávena de café a queimar-lhe os dedos e invadir-lhe as narinas e a sensação de que aquele era o momento mais real da sua vida embora soubesse que estava morto
a testa coberta de suor

a esfera reflecte a tua imagem, a tua imunda cara de velho, a tua imunda alma, marcada pelos séculos de pecados e dor que provocaste, esses malditos olhos que não se fecham para sempre, esta carne que não se decompõe

foi em tempos pessoa de outra época

(acabar assim, um ponto no céu, massa em aceleração, existência tornada matéria)

o suor caindo para o rosto limpo de pêlos

o teu imundo rosto macilento destorcido olhando-te de volta

(abrir os braços e cair)

e aqueles lindos, suculentos lábios que dizem NÃO OS OUÇAS

a esfera reflecte a envolvência de uma sala de habitação sem luxos, prática, com sacos de dormir fixados nas paredes e cintas de sentar fixadas no chão de baixo e no chão de cima

(abrir os braços e cair)

NÃO QUEIRAS OUVI-LOS

dentro dele a mulher e o desejo de mulher e o querer ser frágil e suave como as pombas e fugir à promessa

o ar de vadia que lhe causava tesão e o fazia prendê-la à cama, que o fazia apertar-lhe os pulsos, que o levava a morder-lhe os lábios

os suculentos lábios

ABRE OS OLHOS

os olhos encarando-o de cada lado da arma, da mão, do braço estendido

ela beija-o, também o deseja, por cima agora, o cabelo caindo sobre o peito dele, peludo, o membro pulsando mas não erecto, demasiado excitado para se deixar ir

aproximas a mão da barba por fazer e no espelho da água é uma figura derrotada, de olhos encovados e face macilenta, que se interroga

a ligeira pressão no gatilho

lembra-se dela ainda viçosa, nos tempos em que sorria, em que fazia planos e o levava ao colo para o pé do mar, e lhe contava histórias e ele sentia que fazia parte

SIM, FAZES PARTE DE UM PLANO

(é tão bom cair)

deixando cair a chávena, o café espalhando-se pelas tuas calças, pelo chão, deixando manchas

o medo nos olhos do outro lado da tua vontade

tu que eras outra pessoa e agora és este imundo

deixando manchas no tapete branco, a ultima oferta que lhe dera

ESTÁS A OUVIR-ME?

tu imundo és o dono da vida daquele rosto

por cima de ti gemendo na proximidade do orgasmo

os pequenos seios no conteúdo das tuas mãos

os planos nunca se concretizaram e envelheceu no canto ao pé da janela a tricotar camisolas para ele e o irmão

e agora havia manchas de café no tapete branco

o recuo do projéctil, a fácil penetração na pele branca

ela tão húmida

(o chão a vir ao encontro dele, veloz, como a certeza de um ponto final)

PÁRA ESTA MERDA E ESCUTA-ME

as unhas que se cravavam nos ombros excitando-o ainda mais

os olhos surpresos pelo disparo

o punho interrompendo a perfeição da água

sonharia ainda com oportunidades do passado, albergue de vidas que nunca iria parir

a nuca abrindo-se como pétalas rosáceas expelindo conteúdos contra a parede

ele tão próximo do êxtase

PÁRA

o recuo lançando-o para trás na imponderabilidade

(ponto que no final da frase longa lhe iria conferir sentido)

PÁRA

os quadris dela cheios de vontade e independência

aqueles lábios suculentos que gemiam

nunca mais lhe tinha contado histórias

o tapete pelo qual chorava uma dor que não conseguia sentir porque estava

tão perto de vir-se

a esfera desfazendo-se em milhares de esferas mais pequenas molhando-o

PÁRA LÁ COM ESTA MERDA DE ESTILO, MEU PEDANTE

Ele foi em tempos mulher, mas não se recordava se tinha nascido nessa condição. Havia pouco de si mesmo que recordava, ou que recordava como pertencendo a si, pois nos sonhos os fragmentos de memória estavam associados a histórias ou acontecimentos presenciados, mas nunca algo visto com os próprios olhos ou sentido na própria carne. Havia também a possibilidade de que esta carne não fosse então a sua, que tivesse envergado outra, como se vestem calças ou se trocam sapatos. Uma vez que tinha sido mulher, em tempos, e agora era homem, esta possibilidade era bem real. Mas também podia ser tudo um sonho.

Enquanto homem, sentia e desejava de forma diferente. Havia uma pulsão de conquista, tradução imediata de impor uma vontade contrária. Esta era a pulsão do sexo, e havia momentos em que os confundia, pois enquanto mulher também aguardava que as coisas acontecessem pela mera presença da sua passagem, que fosse ela o terreno a conquistar. Embora por vezes, quando era mulher, o desejo fosse tão forte que não era capaz de aguardar. Por isso não podia dizer com toda a segurança que havia diferença. Mas sentia que sim. Quando estava com outra, procurava prender-lhe os movimentos e simular que forçava a penetração, sem contudo chegar perto de violá-la; vencer a resistência dela, o que lhe iria dar muito prazer, pois tinha sido mulher e sabia. Quando matava também era de forma diferente. Enquanto homem, era limpo, prático e eficiente; enquanto mulher, desordenada e insuspeita, com igual medida de disfarce. Algo que podia atribuir à sua condição pessoal. Ou a preconceitos sociais.

Não sabia o que agora era. Apenas que tinha vontade de

ABRE OS OLHOS

15 cc de soro reparador olha para a imagem sim a mancha diminui sinais positivos isola o saco térmico desceu abaixo dos 2 graus aguardamos alguns minutos corta o tronco principal desata-lhe os nervos ópticos a árvore está a libertá-lo pensa que morreu actividade nula mantém o líquido a fluir está a ajudar a expulsá-lo não fazia ideia que estas árvores tivessem reacção as muito antigas são diferentes há mais alguns aqui que interessa isso gostava de saber quem mais se escondeu atenta no que fazes o hipotálamo regista alguma actividade está a sonhar vamos por rapidamente este gajo no corpo gostava de saber com que sonha

ABRE OS OLHOS

O nariz de papagaio roça-me o peito e a boca morde-me um mamilo. Grito de dor e digo que não seja tão bruta. Ela ri-se, deliciada. Tem um riso de rio ainda rapazola. Os olhos fitam-me por entre os muito negros cabelos longos, e a boca larga abre-se para soltar um gemido.

Estou duro dentro dela, e ela aproveita para me cavalgar com gosto. Está mais envolvida no acto que eu. Aproveito para olhar em volta. Um quarto modesto, talvez de hotel, de paredes despidas e mobília sem gosto. Uma pequena lâmpada de lava cobre os nossos corpos de cor alaranjada. Não faço ideia de onde estou. Nem que como vim aqui parar.

Quem sou eu?

- Quem és tu?

Ela não me ouve.

- Quem és tu? – berro a todos os pulmões, mas ela continua a rir e a agitar-se sobre mim. Não nego que a vontade me controla. Não fingo que a vontade de ir não seja imensa, de me deixar mergulhar na profundeza de um prazer imenso, mercê da vontade de outrém. Há no entanto um medo enorme a berrar dentro de mim. Agarro-lhe nos punhos, firmes contra o meu peito, e levanto-os, mas ao fazer isso percorre-me dor: as unhas estavam já cravadas na minha pele até à ponta dos dedos, e deixam fios de sangue a escorrer de aberturas bem definidas. É difícil manter afastadas aquelas mãos de àguia, que continuam a procurar a minha carne. Gasto todas as minhas forças a debater-me, e acabo por ficar ofegante. Apenas uma parte de mim permanece incansável. Apercebo-me de repente que não vou conseguir afastá-la.

(continua na próxima quarta, 8 Fev)



autoria de Luís Filipe Silva | link permanente | 0 observações |