The Welcome Wagon
16 Agosto 2006
(trabalho em progresso)
Quando conheci Jane, ela não acreditou que eu vinha do Inferno. Prova, dizia ela. Mas de que forma, perguntava eu, sem te levar comigo, algo que decerto não queres que aconteça ainda. Ela ria-se, julgando-me a brincar, ou fazia-me cócegas com os pés se estivessemos na cama, e dizia Conta-me algo que só quem vem do Inferno saiba. Ao que eu respondia: É possível morrer no Inferno. Isso não faz sentido nenhum, dizia ela. Pode não fazer sentido, Jane, mas é assim. E para onde vai quem morre no Inferno? Existe algum ultra-Inferno? Um Inferno de grau dois? Não sei, dizia eu, não morri, apenas sei que nunca ninguém voltou. Jane ficou convencida de que era um grande disparate, pelo que a surpresa acabaria por ser grande quando chegou ao Inferno – e depois, para sua infelicidade, ou melhor dizendo, ingenuidade, acabou por morrer lá antes de mim e ficar na posse de todos os factos. Como todos os outros, não voltou para me contar.
Morrer no Inferno é, contudo, substancialmente diferente de morrer no plano existencial do universo. Nesse ponto, Jane teria razão ao dizer que não fazia sentido. O problema está na condição peculiar dos pontos de passagem entre este plano e o Inferno, que são poucos e bizarros, ao contrário de outros planos. Nem sequer há possibilidade de escolha do destino, pelo que fui obrigado a convencê-la de que a forma mais segura era cortar os pulsos. O suicídio era das poucas transições garantidas (o livro religioso que tantos conheciam, embora tivesse muita ficção misturada, trazia algumas indicações preciosas e verídicas). Não foi fácil, pois desistia à última hora, o que era uma grande frustação para os meus intentos. Acontece que uma das poucas formas de abrir portais de passagem entre este mundo e o outro era no preciso momento em que uma alma humana se separava do corpo e transpunha a membrana da existência. Bem orquestrado, conseguir-se-ia manter o portal aberto o tempo suficiente para outros elementos passarem também, quer para cá quer de regresso a casa. Era preciso no entanto estar precavido, preparar devidamente a alma, informar de quando e como o outro lado... entendem agora a minha função. Para finalmente a convencer, disse que a acompanharia, e cheia de culpa e vergonha não teve forma de escapar-se. Foi de mestre.
Ainda me lembro de uma das ultimas perguntas, enquanto nos esvaíamos em sangue na banheira (eu tendo feito cortes mais finos e tendo à mão gel coagulante que colocaria assim que ela fechasse os olhos), que Se era possível morrer-se no Inferno, não seria possível nascer-se também?
Nunca ouvi falar de tal feito, disse-lhe eu. A própria ideia é horrível. Quem desejaria tamanho mal a um ser por existir?
Mas este pensamento não me abandonou desde então. Não é que lhe dê muita importância. Mas se iniciei esta história com este pequeno aparte, foi porque me pareceu relevante no contexto do que vou em seguida contar: o surgimento de Jake, e de como veio a encabeçar o Comboio de Acolhimento das almas recém-chegadas ao Inferno, virgens e deliciosamente ignorantes.
(...)
Fábulas do Espaçotempo Curvo (de Minkowsky): Dois
14 Agosto 2006
Porque as investidas aconteceram de forma dispersa e descoordenada por toda a cidade, naquela manhã de Março, originadas por intervenientes menos óbvios e com elevado grau de amadorismo, acabaram por nos levar a melhor e ter sucesso onde o ataque rotineiro, de cariz objectivo e focalizado por um pequeno grupo de indivíduos não teria. Fomos apanhados desprevenidos, e mesmo a convocatória de batalhões de agentes vindos de outras épocas – que nos tornou em milhares, obrigou a um esforço considerável de organização e nos fez percorrer como loucos os dias infindos das semanas anteriores a seguir de perto os potenciais suspeitos –, não impediu o ocasional deslize do estudante ou do desportista ou da secretária ou do velhote ou da modelo que atingiam o alvo e provocavam fissuras no multiverso. Incontáveis realidade paralelas colapsavam a cada fuga, fechando o portão que nos impossibilitaria de voltar atrás e reparar os danos.
Mas era impossível conter aquele acto desesperado, como fui testemunha ao guardar uma suspeita do contacto com o jovem que corria na tentativa de apanhar o comboio. O meu colega seguia-o de perto, para evitar que mais alguém lhe tocasse – mas na confusão da gare, perdeu o rumo e foi um senhor de meia-idade que agarrou de súbito o jovem e o fez cair no chão; o rapaz debateu-se até perceber quem o agarrara. Mais surpreendido ficou quando a referida suspeita se juntou a ele a chorar. A surpresa, percebia eu, era de encontrar ali a mãe, que ficara em casa ainda deitada, e agora lhe surgia vestida de outra forma e mais velha.
Fui a única a ver o meu colega desaparecer do mundo, instantâneamente como uma luz que se apaga.
Guardando a dor para mais tarde, agarrei no homem e conduzi-o para a carrinha estacionada onde escondêramos o portal. «Não me interessa o que me façam, o meu sobrinho não entrou no comboio», dizia com ar de felicidade. Porque me sentia eu como sendo o monstro no meio de tudo? Ainda Nulo-semanas antes impedira um ataque nuclear a esta mesma cidade por fanáticos de Tempo-Juzante, o que me dava a preocupação acrescida de evitar contactos com essa outra/mesma do passado recente. O espaçotempo era tão frágil quando um fio de seda acabado de produzir pela larva.
Sofremos dezenas de baixas na operação – não foi de admirar que o Capitão quisesse falar connosco em pessoa para partilhar o que pensava, em altos berros e tom autoritário. Não aceitei a bem reprimenda, embora lhe desse razão em como os nossos colegas da descodificação tinham ignorado a informação de Tempo-Juzante. Talvez fosse apenas cansaço. Trabalhar no Tempo não significa que este existe com maior disponibilidade, muito pelo contrário. O Tempo é um território vasto, de quase infinitas possibilidades. E perigoso, dada a sua maleabilidade. Tudo o afecta.
Mas não me tinha sido prometido aquele fardo, diria mais tarde de mim para mim. Ter de salvar o mundo de quem queria salvar o mundo. De quem queria evitar as catástrofes e proteger as vítimas dos acidentes, das Cruzadas, das pragas e ditaduras, de ajustes pessoais de contas; das guerras, de todas elas: as civis, as mundiais, as religiosas, as económicas, as tecnocratas, as expansionistas, as patrióticas. Essa era a minha especialidade. Confirmar a natureza da catástrofe. Ocupava os meus dias e todos os meus esforços a perseguir criminosos de coração mole (mesmo que irados ou vingativos) que tentavam sufocar Hitler e Gengis Khan e Estaline no berço. Pronunciava-me depois no julgamento, assistia à condenação. Estava a tornar-se cada vez mais difícil estar aqui, impune, no lado de fora, como se tivesse as mãos limpas. Como se elas não condenassem aquelas vítimas, com tanta certeza como a mão do perpretador.
Com que finalidade? Impor espartilhos ao desenrolar da História, diziam. Controlar os danos colaterais. Forçar uma permanência e estabilidade aos factos, em particular aos que eram conhecidos antes do início das viagens. Mas como considerar que algo existe antes destas, se podem ir, e vão, até ao início de tudo? Como ignorar que também a nossa história estará possivelmente contaminada e em constante mudança? O que é um facto histórico quando podemos apagá-lo com a facilidade de uma borracha? Se deixássemos a História ser reescrita a cada segundo, para toda a eternidade, o que aconteceria ao multiverso? Abater-se-ia sob o peso da constante mudança, do acumular de paradoxos, ou acabariam os efeitos das correcções por anular-se uns aos outros, inúmeras vagas de tentativas de depor a mesma autoridade a serem contrapostas por igual numero de vagas de quem tentaria impedi-los? Imaginem a ironia: uma guerra infinita e cruel pela conquista de cada instante do Tempo, mas ao lado a História a continuar calma e serena...
Se ao menos alguém tivesse a coragem de travar o desenvolvimento da viagem no tempo... pensava nisso com força, frequentemente, e por vezes com real vontade de avançar, mas de todas essas vezes acabava por receber uma mensagem, falada ou escrita, que me avisava simplesmente, Não faças isso senão vou ter de intervir, e como reconhecia nela a minha voz ou letra, deixava passar, mais uma vez.



