Crónica de uma Morte Anunciada (mini-ficções)
01 Março 2007
Após anos de temperaturas moderadas e colheitas férteis, o maior cuidado era onde se guardavam as provisões de Inverno, não fossem as cidades atraídas pela fartura - as cidades terríveis que surgiam no horizonte sem aviso, avançando decididas sobre rodas silenciosas e potentes ou, quando ainda pequenas, de asas esticadas, e soltavam bárbaros de peles escuras e rostos metálicos que iam directamente aos depósitos e os limpavam com tubos de sucção. Não matavam, a não ser que fossem atacados. Mas não importava - não sobreviveriamos a um inverno sem comida. Mais valia seguir o destino dos nobres.
Após anos de chuvas intensas só as cidades restavam - cidades sobre estacas, ancoradas à terra contra a força dos ventos e a inclemência da água. Cidades hibernadas, mortas na aparência, sem luzes nem barulho, medusas negras no meio do mar à espera que a fúria passasse para acordarem de novo. Quando acordassem não haveria ninguém em terra, ou se calhar nem terra sequer, apenas pântano, plantas agrestes e animais famintos - mas seria terra para seu cultivo e alimentação, pois as cidades adaptavam-se a tudo.
Após anos de seca, as cidades tomavam conta dos ultimos poços de água, sobre os quais se sentavam, sedentas, de muralhas erguidas e olhos electrónicos acordados. As cidades sabiam defender-se e não perdoavam. O próprio sol as ajudava, pois viravam para ele grandes paineis e até pareciam inchar de prazer. No fim, erguiam-se sobre as rodas andarilhas, deixando terreno seco que não era capaz de humedecer os lábios de uma das nossas crianças.
Será delas o mundo, daqui a não muito tempo.



