Histórias Curtas para Executivos Apressados
03 Março 2007
Acordou em sobressalto, arrancado de um descanso repentino e inconveniente pela conversa de metralhadora de dois executivos de Hong Kong que ocupavam os lugares de plástico em frente ao seu; obviamente descontraídos pela protecção da própria lingua, que poucos mais falariam num lugar tão distante de casa, agitavam as mãos no ar e apontavam repetidamente para papéis e escreviam notas nas costas de cadernos, alternando à vez, num argumento interessante e cativante, embora rapidamente aborrecido pela falta de legendas. O mandarim dos falantes nativos escorria-lhes dos lábios sem espaços nem pontuação, e ele nao conseguiu manter-se atento mais do que alguns segundos, o suficiente para acordar de vez e interrogar-se onde estaria.
Certamente a aguardar o embarque. Conhecia bem de mais a zona de espera, ouvia o som familiar dos cafés a serem tirados pela máquina do McDonalds atrás de si, o chiar de malas providas de rodas no chão de mármore, as conversas abafadas de famílias ou outros grupos de viajantes, o olhar paciente dos que, como ele, embarcavam sozinhos. Aguardava o embarque e era segunda-feira ainda muito cedo. Esta outra certeza podia dever-se à tonalidade sombria do céu, própria do nascer do dia, para lá dos vidros da parede dianteira; podia dever-se à actividade do lugar, à arrumação particular dos pássaros de metal na pista, prontos a cumprir a rotina imposta que se ia manifestando nos écrãs por cima dele; podia dever-se, por fim, à familiaridade de certos rostos, o quarentão de aspecto britânico cuja Samsonite tinha um defeito ligeiro na zona da fechadura - ou o grupo de quatro jovens, ainda verdes no uso de fatos e gravatas, a trocar impressões sobre o futebol do fim-de-semana, que tinham começado a frequentar o aeroporto desde o inicio de Janeiro, as malas dos portáteis a trair a sigla da empresa como pertencendo ao ramo das telecomunicações, e eles, a uma equipa especialmente contratada a prazo, com um propósito fixo e obviamente tecnológico - ou ainda o deputado de Bruxelas que nunca se deslocava ao fim de semana, a conferenciar calmamente ao telemóvel numa lingua estrangeira (o inglês dele era competente, o francês sofrível, o italiano arranhava e do espanhol percebia pouco), vestido de forma discreta e sempre sozinho (a aliança que usava nas primeiras vezes tinha dado lugar ao sinal de uma ausência, mas até este o tempo já conseguira apagar). Havia outros viajantes - havia sempre alguém que acabava por utilizar os primeiros voos da manhã - mas as caras acabavam por ser selectas, por pertencer a um grupo cujos dias de trabalho decorriam numa terra peregrina da que utilizavam ao fim de semana. Aquele grupo viajava por causa de um trabalho que era supranacional, que era maior que um território, uma politica ou uma economia, que era afinal tão abrangente mas também tão igual nas caracteristicas básicas que as diferenças culturais e as particularidades de mentalidade se desvaneciam ante a essência de tarefas planeadas face a objectivos concretos. Uma visão intercontinental que só podia ser observada de cima, os detalhes escondendo-se no corpo das grandes linhas orientadoras, que eram iguais para todos e em toda a parte, como os contornos do terreno se desvanecem na posicao cimeira dos 11 mil pés de altitude e as linhas de fronteira não passam de ilusões políticas.
Ou pelo menos ele gostaria de pensar assim. Nunca tinha encetado conversa com nenhum daqueles personagens. Por vezes tomava o mesmo avião que o britânico da Samsonite estragada (apanhava o primeiro voo da Alitalia para Milão à segunda feira), e uma vez seguira com o grupo de rapazes para Zurique. Ele era ainda mais remoto do que todos eles: todas as segundas, um destino diferente. Um nome de aeroporto distinto no bilhete. Mas chegava sempre à mesma hora à zona de espera. Mesmo que tivesse de esperar um pouco pelo check-in. Ir-se-ia sentar no café, puxar do PDA e pôr a correspondência electrónica em dia, que todos os domingos à noite deixava a descarregar da internet. Era incrivel a quantidade de trabalho que conseguia despachar numa hora, hora e meia, embrenhado no barulho suave de um aeroporto ainda a despertar, e estando ele proprio a recuperar da inevitável resistência espiritual a uma manhã de segunda. Os emails eram automaticamente redireccionados, consoante tema ou proveniência, para pastas de prioridades diferentes, ou urgências, as quais atacava com metodo e disciplina; as mais urgentes necessitavam apenas de um Sim ou Não ou Adia Decisão, outras seriam mais complexas e ele respondia com pedidos de informação ou enderecava-os a outros; por vezes, havia aqueles emails relativamente difíceis que precisavam de uma comunicação mais cuidada ou de falar com mais alguém - deixava-os para quando estivesse a voar ou quando chegasse ao destino. Os últimos dez minutos eram passados a ler na diagonal os servicos de notícias, os memorandos internacionais, os relatórios de actividade. Ligaria então o pequeno dispositivo ao telemóvel e ficaria a informação a ser despejada, até uma mensagem de tarefa concluida se fazer anunciar.
Sentia por vezes, aquela actividade como uma extensão não presencial de si mesmo, a capacidade de conseguir controlar ou influenciar o ritmo das coisas embora não estivesse lá, na forma física. A segurança, a capacidade de se manter informado sobre o estado da nação (ou nações, no seu caso), a possibilidade de saber e poder responder, na hora, eram inestimáveis para a boa condução do seu trabalho. Aproveitar os momentos de pausa, ser produtivo e dar a resposta que lhe era pedida.
Podia, por muitas razões, ter percebido que era segunda-feira, e que estava pronto a viajar. Mas bastar-lhe-ia o hábito, se tudo o resto faltasse, para confirmar a sensação.
Com a excepcao de que se deixara dormir.
Isso nunca lhe acontecia. O que verificou de imediato foi as horas - acordara a tempo de pegar na mala e comecar a dirigir-se para o portão de embarque e enfrentar os procedimentos de segurança. Depois verificou os bilhetes, a carteira, o PDA. Estava tudo consigo, não tinha sido vítima de um amigo do alheio. Abriu o aparelho - estava cheio de emails por ler, o trabalho de uma manhã deixado em branco. Praguejou baixinho, irritado consigo mesmo por ter deixado atrasar a tarefa. Agora, mesmo que recuperasse no avião, não conseguiria transmitir as respostas antes do aparelho aterrar, o que só aconteceria dali a duas horas, se não houvesse atrasos. E tinha programado o voo para rever o ponto de situação do escritório e descobrir possíveis cenários de melhoria a discutir durante a reunião - tarefa que nao encarava de forma ligeira. Algo teria de ficar para tras. Os mails mais demorados, mesmo sendo prioritários. Apenas teria tempo de dedicar-se aos urgentes.
No entanto, um dos desafios da profissão era conseguir adaptar-se e encontrar a solução mais pragmática face aos condicionantes apresentados. Ao dirigir-se para o portão de embarque, estava já mais animado. O que parecia ser uma situação desvantajosa poderia tornar-se facilmente numa oportunidade. Talvez estivesse mesmo a perder muito tempo com leitura de emails. Talvez fosse uma queda de produtividade que o estava a roubar-lhe tempo e torná-lo mais cansado. Decerto que seria um sintoma de algo, e logo com necessidade de resolução imediata. Era bom acontecer-lhe estas quebras inesperadas: a rotina era sinal de estagnação, tornava um homem fraco, o espirito dormente. Quando voltasse, deveria rever o plano de reuniões de seguimento periódico - o que implicaria alterações no plano de voos, e logo na ordem da sua vida. Isso decerto tornaria os subordinados mais incertos, não saber quando poderia aparecer. E a incerteza gera disciplina.
Crónica de uma Morte Anunciada (mini-ficções)
01 Março 2007
Após anos de temperaturas moderadas e colheitas férteis, o maior cuidado era onde se guardavam as provisões de Inverno, não fossem as cidades atraídas pela fartura - as cidades terríveis que surgiam no horizonte sem aviso, avançando decididas sobre rodas silenciosas e potentes ou, quando ainda pequenas, de asas esticadas, e soltavam bárbaros de peles escuras e rostos metálicos que iam directamente aos depósitos e os limpavam com tubos de sucção. Não matavam, a não ser que fossem atacados. Mas não importava - não sobreviveriamos a um inverno sem comida. Mais valia seguir o destino dos nobres.
Após anos de chuvas intensas só as cidades restavam - cidades sobre estacas, ancoradas à terra contra a força dos ventos e a inclemência da água. Cidades hibernadas, mortas na aparência, sem luzes nem barulho, medusas negras no meio do mar à espera que a fúria passasse para acordarem de novo. Quando acordassem não haveria ninguém em terra, ou se calhar nem terra sequer, apenas pântano, plantas agrestes e animais famintos - mas seria terra para seu cultivo e alimentação, pois as cidades adaptavam-se a tudo.
Após anos de seca, as cidades tomavam conta dos ultimos poços de água, sobre os quais se sentavam, sedentas, de muralhas erguidas e olhos electrónicos acordados. As cidades sabiam defender-se e não perdoavam. O próprio sol as ajudava, pois viravam para ele grandes paineis e até pareciam inchar de prazer. No fim, erguiam-se sobre as rodas andarilhas, deixando terreno seco que não era capaz de humedecer os lábios de uma das nossas crianças.
Será delas o mundo, daqui a não muito tempo.



