<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324</id><updated>2009-10-20T23:08:36.741+01:00</updated><title type='text'>Caderno de Contos 2008</title><subtitle type='html'>Relatos de incursões a universos imaginados. Ao ritmo de um por semana. &lt;br&gt; Novas incursões publicadas entre sexta-feira e domingo. &lt;b&gt;Luís Filipe Silva&lt;/b&gt;</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>42</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-5237220140795439490</id><published>2007-12-29T12:52:00.001Z</published><updated>2007-12-29T13:04:03.208Z</updated><title type='text'>A Casa de um Homem</title><content type='html'>&lt;blockquote&gt;&lt;div align="justify"&gt;O texto a seguir já foi apresentado aqui, no início deste projecto, e desde então publicado em forma impressa, «real», na revista Bang!, número 1. Desde então tive oportunidade de revê-lo, polir arestas que faltavam, tornar mais explícitas algumas observações que propositadamente procuro manter obscuras neste estilo específico de narrativa futurista. A crueza, contudo, mantém-se, ou eventualmente estará mais acentuada. Apresento-o na inauguração deste novo fôlego do site. LFS&lt;/div&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;em&gt;For a man's house is his castle, et domus sua cuique tutissimum refugium.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sir Edward Coke&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="FONT-VARIANT: small-caps"&gt;A bloquear-nos a passagem estão dois putos das SS a pegar fogo a um vagabundo.&lt;/span&gt; Riem-se, berram com ele, despejam entusiasmados o conteúdo líquido de um balde sobre a figura prostrada no chão como se tivessem descoberto um brinquedo novo. Estão tão bêbados que mal se aguentam de pé. O velho treme, imóvel como um rato encurralado, e limita-se a olhar a ponta acesa de cigarro em vôo pelo ar que lhe acerta no peito e se transforma em sentença final. O taxista no assento do condutor, solta um grunhido de aborrecimento e recosta-se, num desprendimento absoluto que denuncia familiaridade com a experiência e um puro terror, sabendo que assiste a um acto sobre o qual não tem qualquer controlo e que poderia tê-lo a ele, facilmente, como alvo. Pela janela semi-aberta, surge a baforada acre da gasolina a arder, o cheiro enjoativo e adocicado do fumo, os berros desesperados do homem. A figura rebola no chão em agonia e tenta apagá-lo, mas o fogo consome-o numa fúria cega, e em breve fica imóvel. Os SS ficam-se a rir e a beber das pequenas garrafas, à espera que se extinga. Estão no nosso caminho e em breve vão dar por nós. Ocorre-me que não há mais ninguém nesta praça, ninguém que se interesse ou venha em socorro. O táxi em que me encontro passa de súbito de conveniência a armadilha. Agora entendo a razão que nos fazem assinar o termo de responsabilidade na fronteira, no qual o visitante é informado que a região independente não está ao abrigo da convenção de Direitos Humanos e que assume a responsabilidade de tudo o que lhe possa acontecer. Esta não é a minha terra. Vim apenas à procura da minha casa.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Não é muito sensato julgar que um principiante conseguirá abrir portas que um profissional abordaria com cautela – comentara Marcos, o detective privado cujo cachimbo (uma peça elegante com fornilho de silicato de hidromagnésio na forma de um tritão que segurava com evidente apego) viajara, durante toda a reunião, de um canto da boca para outro, denunciando ansiedade e insegurança. Agora denunciava algo mais singelo: o negócio estava a escapar-se-lhe, e ele não entendia porquê.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Quando era novo tinha o meu negócio de &lt;i&gt;software pirata&lt;/i&gt; a comando dos russos – respondera-lhe, fornecendo-lhe informação que ele perderia tempo a tentar confirmar, mas sem sucesso. – Não sou propriamente um novato.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Há quantos anos foi isso? – sorrira. O cachimbo passou para o canto esquerdo. Ainda iria tentar assustar-me mais uma vez. – Ouça, esses gajos são paranóicos, e faz todo o sentido que o sejam. Controlam cultivos ilegais de bactérias de consumo dirigido, sabe de que falo... aquelas que se o infectarem você fica viciado na compra de um determinado objecto fútil, na qual é capaz de gastar todo o seu dinheiro. As doenças são tão difíceis e dispendiosas em detectar e curar que alguns governos estão a punir este acto com a pena de morte, e mesmo assim esta gente não se assusta, veja só o que o aguarda. São gajos habituados a monitorizar o tráfego da net para roubo de identidade, de informações comerciais privadas, de outros negócios ilícitos. Alguns deles sustentam o Olho Público. A maior parte são turcos e arménios cujos pais vendiam armas no mercado negro. Tem a certeza de que consegue lidar com isto tudo?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Posso tentar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- A sua casa é assim tão importante? Porque não compra outra?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Valor sentimental. Foi escolhida pela minha mulher, foi ela que a mobilou, que a equipou. Parecia um pequeno palacete, com dois pisos e uma ampla sala autónoma. O meu puto nasceu lá. Está cheia de memórias gravadas a que costumo aceder quando, entende, a saudade aperta. Reproduz as nossas vozes, o riso do miudo, o cheiro de uma casa ocupada. Vivemos momentos muito felizes, percebe, até... ao acidente... – não era preciso sequer ser bom actor, bastava fazer um ar bastante angustiado, o que neste momento não me era nada difícil. Marcos mostrara-se visivelmente incomodado com tanta emoção desnuda. Possivelmente nem se deu ao trabalho de verificar, logo que eu saí, se a informação era verdadeira.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Olhe, entendo o que está a sentir, mas é meu dever avisá-lo que a sua casa possivelmente já foi limpa de memórias e estará a ser vendida como qualquer outra em segunda mão. Já não se lembrará de si nem os piratas guardam as memórias que apagam. O melhor mesmo é passar um pano sobre o assunto, accionar o seguro e comprar uma nova, mesmo que mais modesta. Recomece a vida. Quem sabe se não é o destino?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Ainda não estou preparado para isso. O destino interviu no acidente, neste caso estamos a falar de crime organizado. Há uma intenção por detrás do acto, e quando há intenção há culpados. É diferente.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Procura vingança?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Procuro um desfecho – fitara-o então com olhos endurecidos e determinados. Inspirava-me nos thrillers em que vi contracenar o primeiro dos Eastwoods digitais, antes de lhe terem suavizado o aspecto para não chocar o público nem o moderno repúdio da violência. As verdadeiras grandes interpretações acontecem no dia-a-dia, gestos efémeros que passam despercebidos, têm real impacto, mas nunca ganham prémios.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Compreendo – Marcos soltara então uma baforada teatral, assinalando o fim da conversa. Era tão óbvio que gostava de impressionar os clientes com estas imagens de filme noir como era óbvio que era a pessoa errada para este trabalho. Mas mantivera-se pensativo, e logo abria o assistente electrónico e me passava um contacto. – Não vou poder ajudá-lo, mas vou indicar-lhe uma pessoa. Diga que vai da minha parte.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Era o que eu pretendera desde o início. Aceitara-o com agrado.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Olhe, tome cuidado com os fanáticos. Os que não fazem apenas pelo dinheiro. São os piores – rematara Marcos, mas eu já tinha a mente nos próximos passos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;E assim me encontro aqui, nesta terra inóspita, a ser inspeccionado minuciosamente ante a lanterna de um puto bravo que deve ter metade da minha idade mas mostra uma bestialidade experiente. O motorista discute num alemão com sotaque, que me esforço para não mostrar que percebo e evitar que me coloquem perguntas directas. O mais alto mostra um sorriso manhoso e estica as mãos.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Tem uma nota grande? – pergunta-me de repente o motorista num português perfeito. &lt;p align="justify"&gt;- Euros? – rebusco no bolso. &lt;p align="justify"&gt;- Claro. O dinheiro não tem pátria – pisca-me o olho enquanto lhe ofereço o dinheiro. Mais uma troca de palavras, mais um conjunto de ordens ladradas, mas os dois militares mostram-se visivelmente mais calmos, tendo embolsado as notas. Mandam-nos avançar e o momento de perigo fica para trás. Bem como os restos fumegantes, enjoativos, do vagabundo que não teve a mesma sorte. &lt;p align="justify"&gt;- Lidou bem com a situação – comento enquanto o veículo avança nas ruas escuras em direcção à praça central. O odor muda, torna-se em maresia salgada e húmida, que é acompanhada pelo som discreto mas pernamente de ondas à distância. &lt;p align="justify"&gt;- O truque é não mostrar medo. E ter dinheiro vivo à mão. E ficar submisso. Sem medos, com dinheiro, e submisso. Como eles gostam que a gente seja. &lt;p align="justify"&gt;- É arriscado, ainda assim, com a profissão que tem, sozinho à noite... &lt;p align="justify"&gt;- É arriscado desde que nascemos, que é que se há-de fazer? Para onde há-de ir um homem, que é que há-de fazer, se não aquilo que sempre fez, o que sabe, onde sempre esteve?... Estas ruas, conheço cada canto e elas conhecem-me. Há cinquenta anos, cavalheiro, há cinquenta... &lt;p align="justify"&gt;- Não percebi que era desta vila. &lt;p align="justify"&gt;- Os que têm cargos baixos e que eles ainda não mataram, geralmente são-no. Toleram-nos, como os cavalos toleram as moscas. Aos outros, matam-nos a todos. &lt;p align="justify"&gt;- Até turistas? &lt;p align="justify"&gt;- Principalmente a esses. Para virem fazer turismo para aqui, ou são doidos ou são espiões – e lança-me um olhar de soslaio como se quisesse perceber a qual das estirpes pertenço. &lt;p align="justify"&gt;Em breve chegamos a Alexanderplatz, que não é realmente uma praça mas uma rotunda, concebida para impedir o avanço dos carros e obrigar as visitas a apearem-se e seguirem a pé. Imponente e perigosa, descubro a maior fortaleza desta terra, uma besta que se agarra à rocha extensa que sobranceia o mar como um demónio adormecido no precário equilíbro da falésia. Parece estar incrustrada no próprio veio da terra, com a sua superfície polida e brilhante como se feita de uma peça única, impossível, de opal negro, que reluz no interior com milhares de cores difusas e sugere a existência de uma pele coberta de escamas, acentuando a imagem do demónio. Torres que Speer nunca conseguiria imaginar e muito menos realizar com a tecnologia de então, elevam-se com a altura de cinquenta homens, e enovelam-se no alto, cujos topos, mais volumosos que as finas bases, revelam a graça e a força tênsil só conseguida por materiais elaborados a partir de moléculas únicas e incrivelmente extensas. Encontram-se fortemente iluminados por uma luz vermelha cuja função é alertar contra a aproximação de transportes por água e ar, mas que igualmente consegue produzir, com plena consciência disso, a imagem de dois olhos sempre vigilantes, continuamente irados. Não há contudo olho mais terrível que o da suástica imensa, ondulante num tremor digital, que encima toda a estrutura e a ilumina nesta noite sem lua. &lt;p align="justify"&gt;O caminho de aproximação – a pé – do outro lado da rotunda, está delineada por luzes de presença, e assume a forma de uma comprida língua, conduzindo directamente à boca do demónio. &lt;p align="justify"&gt;Não levo a mal que o taxista quisesse despachar-me. &lt;p align="justify"&gt;- Não consigo ir-me embora – continua a falar enquanto lhe pago, embora esteja já no exterior do carro. O acontecimento da noite soltou-lhe a língua. Isso, e julgar-me português como ele. – Nasci aqui. Ainda sonho com o dia em que isto volte a ser a Sagres que era na minha infância. Eles traíram-nos, os cabrões. Votámos neles e retalharam o país para pagarem as dívidas externas. Podiam ter ao menos vendido a outros, e não a estes... &lt;p align="justify"&gt;- Cale-se – digo-lhe. – Você não sabe quem eu sou e o Olho Público está em toda a parte. Vá à sua vida. &lt;p align="justify"&gt;O homem cai em si de repente, não diz mais nada e acelera. Tiro uma fotografia à matricula do veículo que se afasta e envio-a para o meu arquivo pessoal em Inglaterra. Se me investigarem saberão quem foi a última pessoa a ver-me com vida. &lt;p align="justify"&gt;Não que queira ser investigado por quem fosse. Pelo menos, não acontecerá em tempo útil, para me salvar, pelo que me limito a expandir um arquivo histórico. O dia em que me descobri sem casa cancelei todos os compromissos que tinha e transferi as poupanças para Madagascar. Os vizinhos ficariam a pensar que tinha ido de férias ou mudado de localidade, o que não era nada de estranhar nesta era de habitações volantes, e não chamariam a polícia. Suspeitei logo de um ataque directo, pois as casas dos vizinhos mantinham-se controladas ou no mínimo fixas no local – e decerto que não teriam o mesmo nível de segurança militar que a minha. Ataque directo implicava que era pessoal, de alguém que me conhecia, ou seja, que conhecia o meu passado. Mas quem poderia ser? A maior parte deles tinha já morrido, os outros viviam existências inofensivas. E ninguém ficara a saber qual tinha sido o resultado da experiência. &lt;p align="justify"&gt;Ou pelo menos, era isso que eu pensara... até agora. &lt;p align="justify"&gt;Felizmente, em tempos tinha tido o bom senso de artilhar a estrutura com um conjunto de localizadores dissimulados. Ao pesquisar na net, encontrei-a em trânsito pela América do Norte. O que fazia ali e como chegara tão prontamente era assustador. Não tentei ordenar-lhe que voltasse – podia haver espiões à escuta. Dirigi-me ao contacto apresentado pelo Marcos. Era psiquiatra de sistemas. &lt;p align="justify"&gt;- Passe-me a lista de rotinas da casa – fi-lo. Leu-a atentamente. Assobiou. Tinha deparado com os programas específicos de defesa. – Não fazia ideia que o exército tinha chegado ao fim com a operação Transformers... &lt;p align="justify"&gt;- É uma versão beta, nunca foi colocada em prática, possivelmente nem funciona na totalidade, duvido que os ladrões quisessem por-lhe as mãos em cima – disse-lhe, para que se concentrasse no essencial. Até porque era verdade. Aquele &lt;i&gt;software&lt;/i&gt; era supostamente capaz de, quando accionado, assumir o comando de todos os dispositivos inteligentes num raio físico limitado para os usar como se fossem uma só unidade de pensamento. O que significava que de súbito, as casas da vizinhança, os transportes privados, as células de comunicação, deixavam de responder às ordens dos donos e tornavam-se em armas de ataque ou defesa, muitas vezes sendo sacrificadas ao se colocarem no caminho de mísseis para defender o núcleo central de processamento. Que motivos teria eu tido, até então, para o usar? – Um amigo devia-me um favor... &lt;p align="justify"&gt;- Grande amigo... Ou grande dívida... Não vejo nada mais aqui de invulgar, bem, além de algumas rotinas de segurança militares que não se encontram nas fracas casas da gentalha comum, mas tudo isto se adquire no mercado negro. O resto é o habitual conjunto de programas de manutenção doméstica, limpeza, aquecimento, viagem. O Escudix é uma defesa forte. &lt;p align="justify"&gt;- O motivo deve ser outro, e não interessa para aqui. O que quero saber é como poderão ter passado por todas estas seguranças – perguntei. &lt;p align="justify"&gt;- Bem, o mais certo, penso eu, é que a casa continue inviolada. Está a ver, este tipo de defesas não morre docilmente; aguenta-se até à última, mas quando percebe que não vai conseguir, rebenta com tudo. A sua casa teria ficado incapacitada de se mover, sem qualquer cérebro activo capaz sequer de abrir uma porta. O facto de isto não ter acontecido apenas revela que possivelmente continua inviolada. O que são boas notícias. &lt;p align="justify"&gt;- Mas então o que aconteceu? &lt;p align="justify"&gt;- Estes programas domésticos da sua casa, em particular o de limpeza, não são perfeitos. Têm rotinas de prioridades se manifestam como desejos e que entram em conflito com as vontades dominantes dos programas de segurança e intocabilidade. Ora, a casa é um ser inteligente, está preparado para sentir como nós. Vontades não realizadas geram frustrações, frustrações gera depressão, depressão gera inconsistências no processamento e re-prioritização das vontades... o &lt;i&gt;yin&lt;/i&gt; e o &lt;i&gt;yang&lt;/i&gt; dos velhos conflitos familiares, por assim dizer, a vontade do homem contra a mulher, neste caso num casamento versão informática – mostrou um sorriso divertido, mas que logo cessou pois viu que eu não estava para graças. – Isto leva a que a casa possa ser enganada por sinais externos, em particular se o programa de busca de serviços estiver activo. Imagine que deu ordens para que a casa poupasse dinheiro nas tarefas de rotina; a necessidade de manutenção periódica, combinada com a descoberta de promoções fictícias, lançadas como engodo por este tipo de piratas, a casa pode ser induzida a pensar que é mais prático ou mais barato ir limpar-se no outro lado do mundo, e o &lt;i&gt;software&lt;/i&gt; de segurança, porque está descompensado a nível de credibilidade no sistema interno, não consegue impedi-la. Quando chega ao lugar, os ladrões normalmente têm meios de entrar nela, desligar-lhe o &lt;i&gt;software&lt;/i&gt;, remodelar e vendê-la a altos preços no mercado negro. Casas móveis são muito procuradas nas Américas. Embora aqui, dado o seu tipo de seguranças, isso não deva ter acontecido. &lt;p align="justify"&gt;- Então posso recuperá-la? Basta chamá-la pela net? &lt;p align="justify"&gt;- Não, não faça isso. Os ladrões estarão à escuta, e poderão copiar a sua assinatura digital. Tem de fazer isso presencialmente. &lt;p align="justify"&gt;- Em pessoa? Deslocando-me para &lt;i&gt;aqui&lt;/i&gt;? – apontei para o lugar no mapa. Ficava algures no extremo noroeste dos Estados Unidos. O que fora conhecido por Nova Inglaterra e que agora era a Zona. Onde ninguém podia entrar. &lt;p align="justify"&gt;- É onde a sua casa diz que está... – ele também não conseguia acreditar. – Já pensou em comprar uma nova... &lt;p align="justify"&gt;Porque me diziam todos isso? Alguém nos rouba o espaço onde vivemos e temos de aceitar passivamente? &lt;p align="justify"&gt;Entrar na Zona não seria fácil. Mas talvez uma determinada pessoa me pudesse ajudar. &lt;p align="justify"&gt;Acabaria por fazer a viagem numa casa alugada, um pequeno quarto com kitchnette e lavatório no qual mal me podia mover. Passei horas dentro dele enquanto sobrevoava o Atlântico, congeminando as próximas acções e informando-me intensamente sobre os movimentos secretos do submundo informático, que não visitava há décadas. O mais interessante e difícil de controlar era o esquema da célula reprodutora – ou pelo menos assim o informava o Olho Público, ao qual tinha de se dar um desconto por causa da sua apetência para os mitos urbanos. A célula funcionava apenas na net e era um conjunto de rotinas espalhadas por &lt;i&gt;software&lt;/i&gt; – &lt;i&gt;software&lt;/i&gt; legítimo e que como tal sustentava as operações de milhares de empresas, julgando-se seguras –, activando-se apenas quando determinadas condições se cumpriam. Digamos, no desvio de cêntimos em cada transacção financeira mundial. Ou influenciando dissimuladamente a evolução das bolsas mundiais. Ou desviando encomendas de mercadorias para mercados negros. Este tipo de &lt;i&gt;software&lt;/i&gt; continuava a ser comercializado em regime de exclusividade corporativo, mas quem o programava eram freelancers de toda a parte do mundo – a falta de controlo directo do produto final era enorme. E como não havia um núcleo duro de dissidentes, nem ninguém tomava decisões explícitas, mas pertenciam a comunidades virtuais seguiam rumores e se desfaziam no vento para voltar a surgir noutros locais mais tarde, era dificil de persegui-los legalmente. &lt;p align="justify"&gt;Aterrei no porto de Nova Iorque, no meio de uma tempestade que erguia ondas ferozes contra os pontões fortificados de Manhattan e faziam balançar os barcos de bambu, atados uns contra os outros, e que se estendiam por ambos os braços do rio como uma floresta de juncos ou canavais. Eram habitações de imigrantes, a maior parte delas por escolha consciente do que por falta de oportunidades em terra – na prática, uma cultura isolada e nómada que aproveitava a energia das marés para se auto-sustentar e vender a outras comunidades autónomas de imigrantes dispersas pela ilha. A energia do Estado era cara e todos queriam fugir-lhe. E contudo, pensava eu, como era possível viver ali, dois milhões de almas co-habitando em espaços ínfimos, sem qualquer privacidade, em embarcações precárias que um dos furacões anunciados poderia destroçar em segundos? Nova Iorque tinha-se transformado numa Hong Kong do espírito mais intensa e feroz que esta actualmente era; tudo aqui, aliás, era e sempre tinha sido, mais competitivo, mais forte, mais. Aguardei pacientemente a aproximação de um transportador que me levasse para o nicho alugado de uma estrutura na Sétima Avenida, recordando a minha última visita – há quanto tempo! – e tecendo cuidadosamente o argumento que me conduziria à Zona. E quando a casa alugada se fixou na estrutura, fui ao encontro de Shepard. &lt;p align="justify"&gt;O problema dos amigos do nosso passado que costumávamos admirar e que ficamos sem ver durante muito tempo, é que normalmente desiludem-nos, e fazem-nos recordar como nós também estamos distantes dos dias de glória. Roy, em seu favor, continuava prático como sempre, e não fez demasiadas perguntas. Parecia satisfeito com a distracção, talvez lhe recordasse uma das nossas missões secretas. Ele agora pertencia aos rangers de controlo da Zona, o que facilitava as coisas, e logo encontrou um bimotor que nos conduzisse ao perímetro. Aparentemente o centro do sinal estava bem dentro da infecção. O que o deixava céptico – casas refugiadas no sítio mais inóspito e artificial do planeta? - , mas ao mesmo tempo cheio de curiosidade. &lt;p align="justify"&gt;Mas não continuava exactamente o mesmo. Perdera a capacidade de dissimulação. Encontrava-se naquele limbo próprio dos expatriados, em que as saudades de uma terra que já não existia se misturava com a culpa de a terem abandonado prematuramente. Shepard vivia num Texas que no seu espírito ainda era americano. Acentuara a fala de &lt;i&gt;cowboy&lt;/i&gt;, mantinha a pele clara e os olhos azuis expostos, um dos poucos brancos genuínos remanescentes em Nova Iorque. Tinha sido fácil encontrá-lo, demasiado fácil. &lt;p align="justify"&gt;Se nele algo mudara era por força dos anos, e não para melhor. Quando me viu, quando encarou o meu aspecto e percebeu o motivo, não tentou sequer esconder a repulsa. &lt;p align="justify"&gt;- É aqui o controlo do perímetro – sobrevoávamos o interior de Nova Inglaterra, outrora planície verdejante, agora terra queimada pelos produtos lançados periodicamente pelas missões de vigilância e que separava o perímetro habitável do que o Olho Público gostava de tratar como NKA, ou «Nature Kicks Ass», embora as teorias aceites (desde uma operação militar falhada a um ataque terrorista bem sucedido) concordassem que não a Natureza não tinha sido responsável pelo fenómeno. O Olho também afirmava que a infecção ia reclamando cinco porcento de território por ano, embora os dados oficiais indicassem o contrário. Quem tinha razão? &lt;p align="justify"&gt;– Não sei – respondeu Shepard, despejando mais informação do que eu estava interessado em ouvir. – Mas que não cede terreno, isso é verdade. &lt;p align="justify"&gt;E ao longo de hectares sem fim a terra mostrava os novos habitantes. Manadas de gigantescas lesmas terrestres. Paisagens de cristais de sal habitados por insectos multiformes cujos formigueiros atingiam centenas de metros de altura. Uma selva densa de ramagens e verde mas que era na prática um único organismo com o tamanho de quilómetros. Mastigadores de terra que construiam catedrais de silício onde depositavam ovos e que eram guarida de centenas de espécies menores. E esta ecologia era tão resistente que não soçobrava ante pesticidas, fogo ou mesmo bombas atómicas – acabava por se regenerar, com outras formas, no espaço de anos. Sobrevivia em condições que nem a própria ecologia terrestre seria capaz de enfrentar. &lt;p align="justify"&gt;- E não se espalham pelo ar? Por meio de esporos? &lt;p align="justify"&gt;- Não há outras zonas. Mas se isso acontece, não temos forma de controlar. Se calhar, estamos já todos infectados, e a aguardar um sinal de ataque – parecia realmente velho. – Como podes ver, não entendo onde é que pode estar a tua casa. &lt;p align="justify"&gt;Assenti. Não fazia sentido. Até receber uma mensagem no telemóvel.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Wer nicht vorwärts geht, &lt;p align="justify"&gt;der kommt zurücke.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;p align="justify"&gt;O tempo pareceu deter-se. Senti um choque percorrer-me por todo o corpo, como se tivesse sido atingido fisicamente. &lt;p align="justify"&gt;Tinha estado longe, tão longe da verdade. &lt;p align="justify"&gt;Shepard espreitou por cima do ombro. &lt;p align="justify"&gt;- Göethe? – perguntou. Eu acenei que sim. Ele soltou uma gargalhada. &lt;p align="justify"&gt;- Aquele filho da mãe, não havia nada que o derrubasse. Quem diria... &lt;p align="justify"&gt;Mas havia, pensei. Eu tinha visto. Tinha-o visto tombar em chamas sobre Berna. Pensei então que nunca mais me teria de preocupar. Até hoje. &lt;p align="justify"&gt;O avião estava a dar meia-volta. Olhei para Shepard. A expressão dele confirmou o que eu pensava. Era um engodo, a casa estava bem longe deste local. &lt;p align="justify"&gt;Ponderava os meus próprios passos. Conseguiria percorrer o percurso de transmissão da mensagem, descobrir a sua origem. Possivelmente tinha sido enviada por esse motivo. Ele cansara-se de esperar, e agora aguardava-se em seu próprio território. O meu fracasso concedera-lhe vantagem. E aparentemente ele tinha ainda outra surpresa na manga. &lt;p align="justify"&gt;Shepard começou a reagir à situação. Algo que ardia dentro dele, com muita raiva e desde há muito tempo. &lt;p align="justify"&gt;- Só nos trouxe dissabores. Foi por isso que nunca quis experimentar – começou a dizer. Mostrei-me indiferente, a ver se ele se calava. – Anos e anos a ver-me ao espelho. Como é possível viver assim? Rugas e artrite e a vista a falhar. Tanto esforço para quê? Tanto que nos preocupamos nesta vida, e apenas temos como promessa o facto de que acaba... – olhava-me enquanto falava. Suspirava profundamente. – Mas a alternativa... Para mim era de mais. Para ti não deve ter sido. Eu sei quem tu és. Eu sei o que está naquela casa. E porque a queres tanto. &lt;p align="justify"&gt;- O desejo de um homem esconde-se naquilo que odeia – respondi-lhe. &lt;p align="justify"&gt;- Estás muito enganado. Nunca desejei aquilo. Pensas que quero ser um monstro como tu? Já viste o que o Olho vos chama? Imagina se soubesse que é verdade. &lt;p align="justify"&gt;Voámos em silêncio depois disso. A terra ficou mais próxima. À distância conseguia ver pilares que rebrilhavam no sol, cobertas de matéria suja e peganhenta, por onde passeavam formas aracnóides maiores que este avião. Sabendo perfeitamente como era impossível esse facto e terem a mesma constituição orgânica dos aracnídeos naturais, enchi-me de curiosidade em perceber como respiravam, como se moviam, que estrutura orgânica seria a delas. &lt;p align="justify"&gt;- Se esta terra está como está, é por nossa culpa – remoía Shepard sozinho. Nunca o vira tão abatido. – De gente como nós. – Olhou para mim, novamente. – Estou a morrer, sabes? Enquanto tu ficas aí eterno e... doença incurável... depois de tudo, e o que deixo é... é... – O queixo apontou para fora. Estava perfeitamente transtornado. – E sem poder fazer nada para... &lt;p align="justify"&gt;O pensamento atingiu-o ao mesmo tempo do que a mim. Lançou a mão para o comando, e já eu estava a segurar-lhe no pulso, a torcê-lo, a lançá-lo para o chão. Não fosse o tratamento e a idade dele, e não teria conseguido demovê-lo. Ainda assim, ele pontapeou-me e lançou-me contra a janela do aparelho, partindo o assento e segurando-me com este, à distância. Depois tentou parar os motores novamente. &lt;p align="justify"&gt;Não perdi tempo, retirei um alfinete preso à camisa e piquei-me abaixo do polegar da mão direita, onde o que parecia uma bolsa de pele queimada armazenava uma toxina potente. Deixei-o encher e enterrei-o na veia do braço com que tentava segurar-me. Agia rapidamente quando transportado pelo sangue, e logo tombava, a espumar da boca, os pulmões cheios de líquido, os olhos esbugalhados da falta de ar. Não demorou muito. &lt;p align="justify"&gt;- A cada um o seu destino – disse eu baixinho. Conduzi o aparelho de regresso ao aeroporto, aterrei e depois ordenei-lhe que voltasse para a zona infectada e a sobrevoasse às voltas até acabar o combustível. Tinha sido em tempos amigo e herói, mas não há amizade que dure para sempre. &lt;p align="justify"&gt;E foi assim que me encontro aqui, no hall de entrada da fortaleza. Certo de que assistirei ao fim de outra amizade. &lt;p align="justify"&gt;- Samuel – aborda-me com os braços abertos. Há muito que não me tratam por este nome. &lt;p align="justify"&gt;- Hans – não chegamos a tocar-nos, é tudo fita. Em cada um de nós há toxinas na pele suficientes para paralisar o outro. &lt;p align="justify"&gt;- Entra, vem conhecer o meu lar – enverga o uniforme de &lt;i&gt;Übercommander&lt;/i&gt;, embora na versão de Hollywood e não a legítima. Cabos e outros militares acólitos apressam-se a abrir-nos as portas, a passar-lhe uma bebida para as mãos e um charuto. Mais teatralidades. A alcova onde nos refugiamos está cheia de divãs reclináveis vermelhos, uma pequena lareira, uma garrafeira com vinhos importados e uma janela que dá para o oceano. Sentada num dos divãs está uma miuda pequena, com caracóis, e de pele muito branca. Mas os olhos fortemente azuis estão cheios de rugas e olheiras. &lt;p align="justify"&gt;- A minha filha – apresenta-a. – Querida, este é um velho amigo do teu pai. &lt;p align="justify"&gt;- Olá, sou a Vlana – diz, numa voz doce e inocente. &lt;p align="justify"&gt;Prescruto a miuda dos pés à cabeça. É exactamente o que parece. &lt;p align="justify"&gt;- Um depósito regenerador ambulante? Que passa despercebido? Que uma ideia manhosa... – comento em voz alta - embora não deva ser muito eficiente. A reprodução num corpo vivo é desgastada pela manutenção do mesmo. Nunca consegui manter a solução pura muito tempo. Que idade tens, pequenina? &lt;p align="justify"&gt;A miuda olha para Hans. Este assente com a cabeça. &lt;p align="justify"&gt;- Quarenta anos – diz ela, numa voz muito doce. Continua infantil, ainda pré-adolescente naquela idade física; o crescimento do raciocínio e do corpo está controlado ao pormenor, e decerto não faz ideia da razão. Nem de como foi gerada. Deve ter-lhe sido dito que tem uma doença incurável. &lt;p align="justify"&gt;Hans segue a conversa, divertido. Não quero passar mais tempo do que o necessário na companhia dele. &lt;p align="justify"&gt;- Vamos que interessa, Hans. Quero a minha casa. &lt;p align="justify"&gt;- E tu sabes o que eu quero. Dá-me isso e podes ficar com a tua casa. &lt;p align="justify"&gt;- Não negoceio com gente da tua laia. Também sabes disso. &lt;p align="justify"&gt;- Como se tu fosses um anjo... Embora tenhas nome de anjo, não é, Samuel? O dissimulado? És como a democracia de antigamente. Tudo aparência, e por dentro, hipocrisia. Vamos todos fingir que nos tolerarmos uns aos outros. Ao menos aqui as coisas são honestas e sinceras. &lt;p align="justify"&gt;- Ah, sim, é uma terra de oportunidades. &lt;p align="justify"&gt;- A verdadeira democracia não é aquela em que temos de gostar uns dos outros; é a que nos dá a liberdade de odiar e destruir quem odiamos. &lt;p align="justify"&gt;- Nisso estamos de acordo – digo-lhe, dando dois passos em frente, ficando mais próximo da miúda. – Porque odeio-te e apetece-me destruir-te. &lt;p align="justify"&gt;- Bem sei, insolente – fala agora em germânico; o tom que usa para se dirigir aos soldados. – Já tentaste uma vez, e falhaste. Tinha descoberto o teu precioso segredo, aquele que não querias divulgar. Agora a situação é outra. &lt;p align="justify"&gt;- Ora essa, Hans, sabias bem que eu não aceitava chantagens. Tal como não aceito agora. &lt;p align="justify"&gt;- Mas desta vez não tens alternativa... não estou dentro de um monomotor que possas novamente sabotar... – fez um aceno aos homens. Eu reajo. Estou cheio de adrenalina e estimulantes. Não me conseguem parar. &lt;p align="justify"&gt;Num movimento mais rápido que o instinto, agarro o pescocinho da miuda com o braço esquerdo, aquele que não é meu, e aperto. Os dedos esmagam a pele, traqueia, caróticas. A miúda estica a língua para fora. Aperto mais, com um torção ligeiro, até que solta um estalido. O corpo estremece uma só vez e fica quieto. &lt;p align="justify"&gt;Só então o primeiro guarda se acerca de mim. Viro o mesmo braço com toda a força, a mão em riste. Atinge-lhe a maçã de Adão, empurrando-a para dentro. É impulsionado para trás e cai no chão, agarrado ao pescoço. &lt;p align="justify"&gt;Os outros guardas foram mais inteligentes, e puxam das armas. Estico o braço na direcção de Hans. Até parece que o estou a saudar. &lt;p align="justify"&gt;- É uma prótese biónica e está cheia de C4. O suficiente para arrasar com esta merda toda. Diz-lhes que se afastem. &lt;p align="justify"&gt;Hans parece um peixe fora de água, olhando para o meu braço e para o corpo da miúda. Começo a pensar que ele não tem outro regenerador de reserva. E a solução dentro deste está a morrer. &lt;p align="justify"&gt;Avanço na direcção dele, sempre a berrar, apenas focado nele. &lt;p align="justify"&gt;- Liberta a minha casa e deixa-me sair. Depressa, antes que seja tarde de mais para ti. &lt;p align="justify"&gt;Ele demora a reagir – está a tentar congeminar um plano. Não o deixo. Agarro-o pelas condecorações falsas, que se espalham pelo chão, passo o braço à volta do pescoço dele. Se atirarem contra mim, irão atingi-lo. Se me acertarem no braço, adeus a tudo isto. &lt;p align="justify"&gt;Ele percebe e pede aos guardas que ponham as armas no chão. Não quer arriscar. Vai tentar safar-se por negociação. &lt;p align="justify"&gt;Eu é que não estou para isso. Puxo-o de encontro à janela. &lt;p align="justify"&gt;- Espero que saibas nadar. &lt;p align="justify"&gt;- Que fazes? Isto é muito alto, morremos os dois. &lt;p align="justify"&gt;- Até parece que queres viver para sempre!... &lt;p align="justify"&gt;- Pára. Pronto, vê – tira o telemóvel do bolso, envia um código. – Já libertei a tua casa. &lt;p align="justify"&gt;- Oxalá digas a verdade. Senão, vais morrer em vão – e com a força toda do braço, faço-o rodopiar contra a janela. Embate contra ela vertiginosamente, desfazendo-a em milhares de pedaços, tombando pela falésia. Os guardas demoram a recuperar as armas e então já estou de pé, já soltei o antebraço, já me lancei pela abertura. A explosão lá no alto é tão forte que ainda me queima os cabelos da nuca. Passam-se segudos até embater na água, e é quase como se embatesse contra pedra. &lt;p align="justify"&gt;Fico a boiar na corrente, semi-consciente. Mal noto o helicóptero silencioso, mas surge na hora e forma combinadas. Nada como confiar num estranho e no dinheiro que lhe prometemos – por vezes sobrevalorizamos a amizade...&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Faço a recuperação em casa. Estava mesmo a precisar de um banho. Neste caso, é um banho que dura oitenta horas, e quando acordo, estou uma outra pessoa. Ou melhor, volto à pessoa que fui. Que continuo a ser. E penso, desta vez, como é irónico termos chegado, eu e Hans, quase à mesma solução – embora Hans continuasse preso a uma necessidade de poder absoluto, e não conseguisse ver mais além; ele que era o homem das citações. &lt;i&gt;Man sieht nur das, was man weiß&lt;/i&gt;. Mas afinal sabia pouco. &lt;p align="justify"&gt;Mas também eu estava cego, quando o cerco começou. Tudo o que sabia era que havia uma mulher e havia um feto e que havia uma morte certa à espera de todos nós. As semanas que passámos sem esperança, encarando as gentes à nossa volta lutando por carne podre e poças de lama, chegando a ponderar na morte conjunta e libertadora, até ter percebido a resposta. A resposta que estava ali, tão evidente e tão à mão. &lt;p align="justify"&gt;Não precisava eu apenas de um útero funcional? Não era o período de gestação do feto inclusive benéfica para o desenvolvimento da minha solução orgânica? Não me daria os instrumentos moleculares que me restituiriam a saúde, a juventude, o futuro? &lt;p align="justify"&gt;Iria sacrificar-me em prol de alguém que conhecia há meros anos apenas, e de um ser em nascimento que ainda nem era gente, apenas por uma questão de consciência? Quando era certa a extinção de nós os três? De que me serviria a consciência quando estivesse morto? &lt;p align="justify"&gt;Eis o que descobri nesse momento: que a família nutre o homem. E que o homem que cuida da sua família, garante a sua própria sobrevivência e transporta em si, no seu corpo, o resultado desse amor. Mesmo que involuntário. Mesmo que involva sacrifícios. &lt;p align="justify"&gt;E não se arrepende das suas decisões. &lt;p align="justify"&gt;Pois a família é o pilar de um homem. E a casa deste, o seu reino. &lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-5237220140795439490?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/5237220140795439490/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=5237220140795439490' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/5237220140795439490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/5237220140795439490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2007/12/casa-de-um-homem.html' title='A Casa de um Homem'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-8837920774673569262</id><published>2007-03-03T20:40:00.000Z</published><updated>2007-03-03T20:54:58.128Z</updated><title type='text'>Histórias Curtas para Executivos Apressados</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acordou em sobressalto, arrancado de um descanso repentino e inconveniente pela conversa de metralhadora de dois executivos de Hong Kong que ocupavam os lugares de plástico em frente ao seu; obviamente descontraídos pela protecção da própria lingua, que poucos mais falariam num lugar tão distante de casa, agitavam as mãos no ar e apontavam repetidamente para papéis e escreviam notas nas costas de cadernos, alternando à vez, num argumento interessante e cativante, embora rapidamente aborrecido pela falta de legendas. O mandarim dos falantes nativos escorria-lhes dos lábios sem espaços nem pontuação, e ele nao conseguiu manter-se atento mais do que alguns segundos, o suficiente para acordar de vez e interrogar-se onde estaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Certamente a aguardar o embarque. Conhecia bem de mais a zona de espera, ouvia o som familiar dos cafés a serem tirados pela máquina do McDonalds atrás de si, o chiar de malas providas de rodas no chão de mármore, as conversas abafadas de famílias ou outros grupos de viajantes, o olhar paciente dos que, como ele, embarcavam sozinhos. Aguardava o embarque e era segunda-feira ainda muito cedo. Esta outra certeza podia dever-se à tonalidade sombria do céu, própria do nascer do dia, para lá dos vidros da parede dianteira; podia dever-se à actividade do lugar, à arrumação particular dos pássaros de metal na pista, prontos a cumprir a rotina imposta que se ia manifestando nos écrãs por cima dele; podia dever-se, por fim, à familiaridade de certos rostos, o quarentão de aspecto britânico cuja Samsonite tinha um defeito ligeiro na zona da fechadura - ou o grupo de quatro jovens, ainda verdes no uso de fatos e gravatas, a trocar impressões sobre o futebol do fim-de-semana, que tinham começado a frequentar o aeroporto desde o inicio de Janeiro, as malas dos portáteis a trair a sigla da empresa como pertencendo ao ramo das telecomunicações, e eles, a uma equipa especialmente contratada a prazo, com um propósito fixo e obviamente tecnológico - ou ainda o deputado de Bruxelas que nunca se deslocava ao fim de semana, a conferenciar calmamente ao telemóvel numa lingua estrangeira (o inglês dele era competente, o francês sofrível, o italiano arranhava e do espanhol percebia pouco), vestido de forma discreta e sempre sozinho (a aliança que usava nas primeiras vezes tinha dado lugar ao sinal de uma ausência, mas até este o tempo já conseguira apagar). Havia outros viajantes - havia sempre alguém que acabava por utilizar os primeiros voos da manhã - mas as caras acabavam por ser selectas, por pertencer a um grupo cujos dias de trabalho decorriam numa terra peregrina da que utilizavam ao fim de semana. Aquele grupo viajava por causa de um trabalho que era supranacional, que era maior que um território, uma politica ou uma economia, que era afinal tão abrangente mas também tão igual nas caracteristicas básicas que as diferenças culturais e as particularidades de mentalidade se desvaneciam ante a essência de tarefas planeadas face a objectivos concretos. Uma visão intercontinental que só podia ser observada de cima, os detalhes escondendo-se no corpo das grandes linhas orientadoras, que eram iguais para todos e em toda a parte, como os contornos do terreno se desvanecem na posicao cimeira dos 11 mil pés de altitude e as linhas de fronteira não passam de ilusões políticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou pelo menos ele gostaria de pensar assim. Nunca tinha encetado conversa com nenhum daqueles personagens. Por vezes tomava o mesmo avião que o britânico da Samsonite estragada (apanhava o primeiro voo da Alitalia para Milão à segunda feira), e uma vez seguira com o grupo de rapazes para Zurique. Ele era ainda mais remoto do que todos eles: todas as segundas, um destino diferente. Um nome de aeroporto distinto no bilhete. Mas chegava sempre à mesma hora à zona de espera. Mesmo que tivesse de esperar um pouco pelo check-in. Ir-se-ia sentar no café, puxar do PDA e pôr a correspondência electrónica em dia, que todos os domingos à noite deixava a descarregar da internet. Era incrivel a quantidade de trabalho que conseguia despachar numa hora, hora e meia, embrenhado no barulho suave de um aeroporto ainda a despertar, e estando ele proprio a recuperar da inevitável resistência espiritual a uma manhã de segunda. Os emails eram automaticamente redireccionados, consoante tema ou proveniência, para pastas de prioridades diferentes, ou urgências, as quais atacava com metodo e disciplina; as mais urgentes necessitavam apenas de um Sim ou Não ou Adia Decisão, outras seriam mais complexas e ele respondia com pedidos de informação ou enderecava-os a outros; por vezes, havia aqueles emails relativamente difíceis que precisavam de uma comunicação mais cuidada ou de falar com mais alguém - deixava-os para quando estivesse a voar ou quando chegasse ao destino. Os últimos dez minutos eram passados a ler na diagonal os servicos de notícias, os memorandos internacionais, os relatórios de actividade. Ligaria então o pequeno dispositivo ao telemóvel e ficaria a informação a ser despejada, até uma mensagem de tarefa concluida se fazer anunciar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia por vezes, aquela actividade como uma extensão não presencial de si mesmo, a capacidade de conseguir controlar ou influenciar o ritmo das coisas embora não estivesse lá, na forma física. A segurança, a capacidade de se manter informado sobre o estado da nação (ou nações, no seu caso), a possibilidade de saber e poder responder, na hora, eram inestimáveis para a boa condução do seu trabalho. Aproveitar os momentos de pausa, ser produtivo e dar a resposta que lhe era pedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia, por muitas razões, ter percebido que era segunda-feira, e que estava pronto a viajar. Mas bastar-lhe-ia o hábito, se tudo o resto faltasse, para confirmar a sensação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a excepcao de que se deixara dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso nunca lhe acontecia. O que verificou de imediato foi as horas - acordara a tempo de pegar na mala e comecar a dirigir-se para o portão de embarque e enfrentar os procedimentos de segurança. Depois verificou os bilhetes, a carteira, o PDA. Estava tudo consigo, não tinha sido vítima de um amigo do alheio. Abriu o aparelho - estava cheio de emails por ler, o trabalho de uma manhã deixado em branco. Praguejou baixinho, irritado consigo mesmo por ter deixado atrasar a tarefa. Agora, mesmo que recuperasse no avião, não conseguiria transmitir as respostas antes do aparelho aterrar, o que só aconteceria dali a duas horas, se não houvesse atrasos. E tinha programado o voo para rever o ponto de situação do escritório e descobrir possíveis cenários de melhoria a discutir durante a reunião - tarefa que nao encarava de forma ligeira. Algo teria de ficar para tras. Os mails mais demorados, mesmo sendo prioritários. Apenas teria tempo de dedicar-se aos urgentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, um dos desafios da profissão era conseguir adaptar-se e encontrar a solução mais pragmática face aos condicionantes apresentados. Ao dirigir-se para o portão de embarque, estava já mais animado. O que parecia ser uma situação desvantajosa poderia tornar-se facilmente numa oportunidade. Talvez estivesse mesmo a perder muito tempo com leitura de emails. Talvez fosse uma queda de produtividade que o estava a roubar-lhe tempo e torná-lo mais cansado. Decerto que seria um sintoma de algo, e logo com necessidade de resolução imediata. Era bom acontecer-lhe estas quebras inesperadas: a rotina era sinal de estagnação, tornava um homem fraco, o espirito dormente. Quando voltasse, deveria rever o plano de reuniões de seguimento periódico - o que implicaria alterações no plano de voos, e logo na ordem da sua vida. Isso decerto tornaria os subordinados mais incertos, não saber quando poderia aparecer. E a incerteza gera disciplina.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-8837920774673569262?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/8837920774673569262/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=8837920774673569262' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/8837920774673569262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/8837920774673569262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2007/03/histrias-curtas-para-executivos.html' title='Histórias Curtas para Executivos Apressados'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-3418518684221508216</id><published>2007-03-01T23:39:00.000Z</published><updated>2007-03-01T23:41:43.991Z</updated><title type='text'>Crónica de uma Morte Anunciada (mini-ficções)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Após anos de temperaturas moderadas e colheitas férteis, o maior cuidado era onde se guardavam as provisões de Inverno, não fossem as cidades atraídas pela fartura - as cidades terríveis que surgiam no horizonte sem aviso, avançando decididas sobre rodas silenciosas e potentes ou, quando ainda pequenas, de asas esticadas, e soltavam bárbaros de peles escuras e rostos metálicos que iam directamente aos depósitos e os limpavam com tubos de sucção. Não matavam, a não ser que fossem atacados. Mas não importava - não sobreviveriamos a um inverno sem comida. Mais valia seguir o destino dos nobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Após anos de chuvas intensas só as cidades restavam - cidades sobre estacas, ancoradas à terra contra a força dos ventos e a inclemência da água. Cidades hibernadas, mortas na aparência, sem luzes nem barulho, medusas negras no meio do mar à espera que a fúria passasse para acordarem de novo. Quando acordassem não haveria ninguém em terra, ou se calhar nem terra sequer, apenas pântano, plantas agrestes e animais famintos - mas seria terra para seu cultivo e alimentação, pois as cidades adaptavam-se a tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após anos de seca, as cidades tomavam conta dos ultimos poços de água, sobre os quais se sentavam, sedentas, de muralhas erguidas e olhos electrónicos acordados. As cidades sabiam defender-se e não perdoavam. O próprio sol as ajudava, pois viravam para ele grandes paineis e até pareciam inchar de prazer. No fim, erguiam-se sobre as rodas andarilhas, deixando terreno seco que não era capaz de humedecer os lábios de uma das nossas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será delas o mundo, daqui a não muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-3418518684221508216?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/3418518684221508216/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=3418518684221508216' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/3418518684221508216'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/3418518684221508216'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2007/03/crnica-de-uma-morte-anunciada-mini.html' title='Crónica de uma Morte Anunciada (mini-ficções)'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-116323741676549449</id><published>2006-11-11T09:15:00.000Z</published><updated>2006-11-11T09:30:16.856Z</updated><title type='text'>Proposta de Leitura: M. John Harrison</title><content type='html'>Things That Never Happen&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M. John Harrison&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/836/161/1600/tnhlg.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="286" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/836/161/320/tnhlg.jpg" width="180" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;Antologia de ficção curta publicada entre 1975 e 2000.&lt;br /&gt;Edição Gollancz de 2004 - ISBN 0-575-07593-7&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conteúdo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Settling the World&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Running Down&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Incalling&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Ice Monkey&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Egnaro&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Old Women&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The New Rays&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Quarry&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A Young Man's Journey to London&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Small Heirlooms&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Great God Pan&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Gift&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Horse of Iron and How We Can Know It&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Gifco&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Anima&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Isobel Avens Returns to Stepney in the Spring&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Empty&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Seven Guesses of the Heart&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;I Did It&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The East&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Suicide Coast&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;The Neon Heart Murders&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Black Houses&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Science &amp;amp; the Arts&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;(Comentários sobre cada um dos contos irão sendo acrescentados gradualmente.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.mjohnharrison.com/index.htm"&gt;Site do Autor&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-116323741676549449?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/116323741676549449/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=116323741676549449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/116323741676549449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/116323741676549449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/11/proposta-de-leitura-m-john-harrison.html' title='Proposta de Leitura: M. John Harrison'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-115568965012892288</id><published>2006-08-16T01:51:00.000+01:00</published><updated>2006-08-16T01:54:10.143+01:00</updated><title type='text'>The Welcome Wagon</title><content type='html'>&lt;p align="right"&gt;(trabalho em progresso)&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando conheci Jane, ela não acreditou que eu vinha do Inferno. Prova, dizia ela. Mas de que forma, perguntava eu, sem te levar comigo, algo que decerto não queres que aconteça ainda. Ela ria-se, julgando-me a brincar, ou fazia-me cócegas com os pés se estivessemos na cama, e dizia Conta-me algo que só quem vem do Inferno saiba. Ao que eu respondia: É possível morrer no Inferno. Isso não faz sentido nenhum, dizia ela. Pode não fazer sentido, Jane, mas é assim. E para onde vai quem morre no Inferno? Existe algum ultra-Inferno? Um Inferno de grau dois? Não sei, dizia eu, não morri, apenas sei que nunca ninguém voltou. Jane ficou convencida de que era um grande disparate, pelo que a surpresa acabaria por ser grande quando chegou ao Inferno – e depois, para sua infelicidade, ou melhor dizendo, ingenuidade, acabou por morrer lá antes de mim e ficar na posse de todos os factos. Como todos os outros, não voltou para me contar.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Morrer no Inferno é, contudo, substancialmente diferente de morrer no plano existencial do universo. Nesse ponto, Jane teria razão ao dizer que não fazia sentido. O problema está na condição peculiar dos pontos de passagem entre este plano e o Inferno, que são poucos e bizarros, ao contrário de outros planos. Nem sequer há possibilidade de escolha do destino, pelo que fui obrigado a convencê-la de que a forma mais segura era cortar os pulsos. O suicídio era das poucas transições garantidas (o livro religioso que tantos conheciam, embora tivesse muita ficção misturada, trazia algumas indicações preciosas e verídicas). Não foi fácil, pois desistia à última hora, o que era uma grande frustação para os meus intentos. Acontece que uma das poucas formas de abrir portais de passagem entre este mundo e o outro era no preciso momento em que uma alma humana se separava do corpo e transpunha a membrana da existência. Bem orquestrado, conseguir-se-ia manter o portal aberto o tempo suficiente para outros elementos passarem também, quer para cá quer de regresso a casa. Era preciso no entanto estar precavido, preparar devidamente a alma, informar de quando e como o outro lado... entendem agora a minha função. Para finalmente a convencer, disse que a acompanharia, e cheia de culpa e vergonha não teve forma de escapar-se. Foi de mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda me lembro de uma das ultimas perguntas, enquanto nos esvaíamos em sangue na banheira (eu tendo feito cortes mais finos e tendo à mão gel coagulante que colocaria assim que ela fechasse os olhos), que Se era possível morrer-se no Inferno, não seria possível nascer-se também?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca ouvi falar de tal feito, disse-lhe eu. A própria ideia é horrível. Quem desejaria tamanho mal a um ser por existir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este pensamento não me abandonou desde então. Não é que lhe dê muita importância. Mas se iniciei esta história com este pequeno aparte, foi porque me pareceu relevante no contexto do que vou em seguida contar: o surgimento de Jake, e de como veio a encabeçar o Comboio de Acolhimento das almas recém-chegadas ao Inferno, virgens e deliciosamente ignorantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-115568965012892288?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/115568965012892288/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=115568965012892288' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115568965012892288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115568965012892288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/08/welcome-wagon.html' title='The Welcome Wagon'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-115551828910601788</id><published>2006-08-14T02:16:00.000+01:00</published><updated>2006-08-14T02:43:08.380+01:00</updated><title type='text'>Fábulas do Espaçotempo Curvo (de Minkowsky): Dois</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Porque as investidas aconteceram de forma dispersa e descoordenada por toda a cidade, naquela manhã de Março, originadas por intervenientes menos óbvios e com elevado grau de amadorismo, acabaram por nos levar a melhor e ter sucesso onde o ataque rotineiro, de cariz objectivo e focalizado por um pequeno grupo de indivíduos não teria. Fomos apanhados desprevenidos, e mesmo a convocatória de batalhões de agentes vindos de outras épocas – que nos tornou em milhares, obrigou a um esforço considerável de organização e nos fez percorrer como loucos os dias infindos das semanas anteriores a seguir de perto os potenciais suspeitos –, não impediu o ocasional deslize do estudante ou do desportista ou da secretária ou do velhote ou da modelo que atingiam o alvo e provocavam fissuras no multiverso. Incontáveis realidade paralelas colapsavam a cada fuga, fechando o portão que nos impossibilitaria de voltar atrás e reparar os danos.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Mas era impossível conter aquele acto desesperado, como fui testemunha ao guardar uma suspeita do contacto com o jovem que corria na tentativa de apanhar o comboio. O meu colega seguia-o de perto, para evitar que mais alguém lhe tocasse – mas na confusão da gare, perdeu o rumo e foi um senhor de meia-idade que agarrou de súbito o jovem e o fez cair no chão; o rapaz debateu-se até perceber quem o agarrara. Mais surpreendido ficou quando a referida suspeita se juntou a ele a chorar. A surpresa, percebia eu, era de encontrar ali a mãe, que ficara em casa ainda deitada, e agora lhe surgia vestida de outra forma e mais velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui a única a ver o meu colega desaparecer do mundo, instantâneamente como uma luz que se apaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardando a dor para mais tarde, agarrei no homem e conduzi-o para a carrinha estacionada onde escondêramos o portal. «Não me interessa o que me façam, o meu sobrinho não entrou no comboio», dizia com ar de felicidade. Porque me sentia eu como sendo o monstro no meio de tudo? Ainda Nulo-semanas antes impedira um ataque nuclear a esta mesma cidade por fanáticos de Tempo-Juzante, o que me dava a preocupação acrescida de evitar contactos com essa outra/mesma do passado recente. O espaçotempo era tão frágil quando um fio de seda acabado de produzir pela larva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sofremos dezenas de baixas na operação – não foi de admirar que o Capitão quisesse falar connosco em pessoa para partilhar o que pensava, em altos berros e tom autoritário. Não aceitei a bem reprimenda, embora lhe desse razão em como os nossos colegas da descodificação tinham ignorado a informação de Tempo-Juzante. Talvez fosse apenas cansaço. Trabalhar no Tempo não significa que este existe com maior disponibilidade, muito pelo contrário. O Tempo é um território vasto, de quase infinitas possibilidades. E perigoso, dada a sua maleabilidade. Tudo o afecta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não me tinha sido prometido aquele fardo, diria mais tarde de mim para mim. Ter de salvar o mundo de quem queria salvar o mundo. De quem queria evitar as catástrofes e proteger as vítimas dos acidentes, das Cruzadas, das pragas e ditaduras, de ajustes pessoais de contas; das guerras, de todas elas: as civis, as mundiais, as religiosas, as económicas, as tecnocratas, as expansionistas, as patrióticas. Essa era a minha especialidade. Confirmar a natureza da catástrofe. Ocupava os meus dias e todos os meus esforços a perseguir criminosos de coração mole (mesmo que irados ou vingativos) que tentavam sufocar Hitler e Gengis Khan e Estaline no berço. Pronunciava-me depois no julgamento, assistia à condenação. Estava a tornar-se cada vez mais difícil estar aqui, impune, no lado de fora, como se tivesse as mãos limpas. Como se elas não condenassem aquelas vítimas, com tanta certeza como a mão do perpretador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que finalidade? Impor espartilhos ao desenrolar da História, diziam. Controlar os danos colaterais. Forçar uma permanência e estabilidade aos factos, em particular aos que eram conhecidos antes do início das viagens. Mas como considerar que algo existe antes destas, se podem ir, e vão, até ao início de tudo? Como ignorar que também a nossa história estará possivelmente contaminada e em constante mudança? O que é um facto histórico quando podemos apagá-lo com a facilidade de uma borracha? Se deixássemos a História ser reescrita a cada segundo, para toda a eternidade, o que aconteceria ao multiverso? Abater-se-ia sob o peso da constante mudança, do acumular de paradoxos, ou acabariam os efeitos das correcções por anular-se uns aos outros, inúmeras vagas de tentativas de depor a mesma autoridade a serem contrapostas por igual numero de vagas de quem tentaria impedi-los? Imaginem a ironia: uma guerra infinita e cruel pela conquista de cada instante do Tempo, mas ao lado a História a continuar calma e serena...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ao menos alguém tivesse a coragem de travar o desenvolvimento da viagem no tempo... pensava nisso com força, frequentemente, e por vezes com real vontade de avançar, mas de todas essas vezes acabava por receber uma mensagem, falada ou escrita, que me avisava simplesmente, &lt;em&gt;Não faças isso senão vou ter de intervir&lt;/em&gt;, e como reconhecia nela a minha voz ou letra, deixava passar, mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-115551828910601788?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/115551828910601788/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=115551828910601788' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115551828910601788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115551828910601788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/08/fbulas-do-espaotempo-curvo-de.html' title='Fábulas do Espaçotempo Curvo (de Minkowsky): Dois'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-115039815356707691</id><published>2006-06-15T20:00:00.000+01:00</published><updated>2006-06-20T09:33:52.286+01:00</updated><title type='text'>Através da Bang!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou até este site através da revista Bang! número 1? Para mais informações, por favor dirija-se a: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;a href="http://blog.tecnofantasia.com"&gt;http://blog.tecnofantasia.com&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contacte-me através do contacto@tecnofantasia.com, ou coloque comentários aqui mais em baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigado.&lt;br /&gt;LFS&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-115039815356707691?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/115039815356707691/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=115039815356707691' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115039815356707691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/115039815356707691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/06/atravs-da-bang.html' title='Através da Bang!'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-114195250464395280</id><published>2006-03-09T00:59:00.000Z</published><updated>2006-08-05T19:24:58.106+01:00</updated><title type='text'>UN CERTAIN REGARD</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Regard conheceu Deus no centenário do dia em que o pai abandonara a família, e não considerou que fosse coincidência. Não havia coincidências no mundo. Estava escrito.&lt;/blockquote&gt; &lt;br /&gt;Era o que a madrinha me dizia, que também era a minha terceira mãe, embora segunda do gémeo e primeira dos cinco mais novos. O gémeo não chegara à vigésima primavera, perecendo vítima da praga dos ventos das colheitas, no início do século; mal o conheci, pois parte da família tinha decidido mudar-se para o perímetro dos Territórios, atrás do pai, numa tentativa pouco feliz ou bem sucedida de lhe incutir vergonha na cara – e assim, o irmão da minha carne, poucos anos mais novo do que eu, fora acometido pela alergia fulminante, salvando-me no processo. Saí da redoma genética recondicionado mas estranhamente mais afectado pelo desaparecimento dessa criança, que eu conhecia tão mal, que a do meu antecessor – e como me emancipara entretanto, decidi proibir novas tentativas de clonagem. A madrinha, regressada e conformada, acabaria por escolher ter prole própria por partogénese. Os genes do meu pai, ou de qualquer outro homem, não voltariam a constar da linha de descendentes da família. Eu era, afinal, a única prova física da passagem daquele homem.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Recordações? Talvez ainda as tivesse, se durante a terapia me tivessem incentivado o pouco que me lembrava, então, dele. Mas nada se forma definitivamente nos primeiros dez anos de uma vida cinquenta vezes mais longa, e agora nem o rosto me surge sequer em sonhos, não me faz mais diferença. Durante muito tempo tinham-me tentado convencer que morrera, por muito absurdo que pareça (era mais comum morrer-se nesses tempos). Mais velho, descobri que afinal ingressara nos Territórios, talvez numa simulação da Primeira Guerra entre as Nações. Confesso que uma vez tentei procurá-lo nas listagens, tentei entrar como jogador, mas o Território em causa já não existia, e a máquina não me podia revelar o percurso desse utente sem autorização. A tentação de ficar por ali foi enorme, e debati-me durante meses, até que tive de tomar uma decisão. Foi assim que cresci. Se é que cresci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assumindo parte da culpa (nunca cheguei a saber a verdadeira causa daquele abandono de lar tão definitivo), as minhas mães não quiseram que a falta de uma presença masculina dificultasse o meu crescimento espiritual, e assim, sem dúvida apoiadas por uma terapeuta, alugaram-me uma vida emprestada. Várias, aliás, ao longo do tempo. Pertenço desta forma à geração que cresceu e se fez homem na cabana do Pai Tomás, no tempo dos verões preguiçosos e da simplicidade, que embarcou em expedições de corsários como timoteiro, que se apaixonou perdidamente por uma miudinha sardenta cheia de caracóis de nome Matilde. Vidas que contribuíam para o meu crescimento emocional, para me preparar para o mundo e suas batalhas. Da maior parte delas tenho boa memória – melhor que a da realidade monótona -, mas pessoalmente teria dispensado a Matilde. O objectivo era apaixonar-nos e depois sermos abandonados, e aprender a lidar com essas emoções. Mas não há nada de belo em apaixonarmo-nos por um personagem. Um amor que jamais será concretizado não ajuda a enfrentar a perda, como se refere até nos vários grupos de entreajuda dos antigos apaixonados por ela. Preferi enfrentá-la à minha maneira: deixei que entrasse nos meus sonhos. A cura definitiva chegou naturalmente, sem terapias: o Mosteiro.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;O Mosteiro. Três mil toneladas e outros tantos milhares de anos concentrados numa estrutura maciça, inviolável e imponente, na planície de Regalis, dominando mais de metade da pequena nação. Constituido por lances de espirais que ascendiam aos céus até perder de vista, como troncos de árvores infinitos convergindo para o mesmo ponto celeste, encontrando-se no caminho, entrelaçando-se. Dois destes troncos eram tão altos, dizia-se, que chegavam ao eixo. E contavam as lendas que a intenção não era parar aí, mas chegar ao outro lado do mundo, tornar-se numa ponte física entre os dois hemisférios, e que apenas questões de engenharia, ou quiçás financeiras, se tinham intrometido. O que não impedia que fosse imponente nesta manifestação particular. Que os grandes caules dominassem a planície com a cor de ébano, absorvendo a luz e energia locais. Que se apresentasse ao longe com a sua fachada de múltiplas expressões artísticas, um fóssil vivo da evolução histórica e cultural da Comunidade. A criação do Mosteiro antecedia a das próprias nações, era quase tão antigo como o mundo. O que implicava que tinha atravessado duas guerras, várias conjunturas políticas, vira nascer e morrer espécies concebidas – e de alguma forma, os artistas que lhe animaram o rosto sentiram-se na obrigação de escrever uma história da História. Se o sopé era filho do Pragmatismo, as figuras convolutas que se moviam nos pequenos dramas nas alturas traíam as origens Impressionistas, numa mistura de Integralismo com Síntese. Um painel mostrava a concepção do Mosteiro, uma procissão de arquitectos e religiosos em torno de maquetes virtuais e as lutas e decisões e compromissos assumidos num drama animado. Mais acima contos de guerra, as explosões ferindo a face da estrutura, que logo se recompunha para ser de novo destruída. Faunos e sátiros representavam a cobiça e a estupidez humanas. E por cima de todos, estava Deus. Uma figura imponente e branca, impossível de fixar na retina pois a imagem fugia e só pelo canto do olho nos conseguíamos aperceber dos contornos, da beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele era o Mosteiro onde moldaria a alma. Uma alma que sentiu, logo de início ser muito pequena. Uma alma que teria de crescer e expandir-se e encher aquele bonsai monstruoso. E isso só iria conseguir após muito tempo, mesmo muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegado aos sessenta anos, a madrinha decidiu que era tempo de eu escolher um rumo para a vida longa, e contribuir para o desenvolvimento do espírito. Uma ideia que rejeitei a início, envolvido que estava no rodopio próprio da juventude. Mas estar e pertencer ao mundo dos homens era algo que já me cansava, e gerir o processo produtivo – tornara-me no principal responsável por uma central de distribuição local de energia – não me dava a mesma satisfação que tinha dado. Além de que, pela terceira vez, atravessara uma relação longa e complicada, com fim à vista, e não tinha muita vontade de iniciar uma outra tão cedo. «Estás a fazer de mais, tens de começar a ser», disse-me ela, e fui deitar-me indeciso, mas acabei, ao acordar para um dia de rotina nada apetecível, por dar-lhe razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Mosteiro foi a escolha inevitável. Os sacerdotes costumavam passar em peregrinação pelas nossas cidades, figuras altivas de robes negros e sabedoria nos olhos que tinham sempre uma atenção amável para com as pessoas, mesmo que incomodados pela incompreensão dos mais novos, como eu. Por muito tempo, aquele estado de espírito incomodou-me: como era possível não se ser produtivo? Abdicar da nobre função de criar e colocar no mercado? Ser-se assim tão abertamente parasita? Além de me incomodar o distanciamento, que sempre li como sendo arrogância, e o afastamento dos prazeres terrenos. Para que servia aquela gente afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa conversa fortuita com um dos que passava, apercebi-me de que havia resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus conhece todos os nossos actos e adivinha os nossos pensamentos. Está a ver-nos agora – e apontou para um das dezenas de olhos electrónicos que guardavam o bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A colecção de dados privados não pode ser considerado abuso das liberdades individuais? – perguntei. O missionário sorriu. Emanava dele uma calma perturbadora, quase magnética, como se possuísse um segredo terível que o fazia estar para além da vida, para além da atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deus surgirá aos nossos olhos pelo menos uma vez antes do nosso momento final. A quem necessite surgirá mais do que uma vez. A alguns orienta, a outros simplesmente comenta. É o nosso espelho, mas não nosso escravo. A salvação está em ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se houver alguém a quem não surge?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Surgirá a todos. Tem sido assim desde o início dos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Todos necessitam de salvação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tomos necessitamos. Mas só Deus conhece quem atravessará o Portão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu necessito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De que outra forma, irmão, saciarás esse teu desespero?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acordas sem propósito, enumeras os momentos da tua vida passada como marcos que atingiste mas sem saber porquê. Os objectivos parecem-te banais, pois já passaste por eles e não conheces outros. Sentes que há mais por descobrir mas não sabes o quê. Sentes que tens de fazer uma viagem mas não conheces o destino. Estás numa depressão profunda porque nada mais te entusiasma, tudo te parece familiar. Em suma, estás farto de ti próprio. Procuras a mudança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um bom sumário... – comentei com algum constrangimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu já estive onde te encontras agora, irmão. Mais uma bebida? – colocou a ordem. – Este mundo não nos prepara para entrarmos na etapa da vida dedicada à contemplação. Ainda temos em nós o mecanismo animal de executar e mostrar resultados. Mas diz-me: faz sentido ensinar quando ainda não se aprendeu? Faz sentido criar quando ainda não se acabou de nascer? O caminhar do mundo é lento de mais para se perceber num século, talvez num milénio. Se pudéssemos ver pela perspectiva de Deus, as montanhas revelar-se-iam ondas e a terra, um mar agitado. Somos formigas no tempo. Não conhecemos toda a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aconselhas-me a aguardar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aconselho-te a observar. Mas não precisas de o fazer sozinho. A contemplação surge mais facilmente quando é orientada e partilhada – estendeu-me a mão. Trocámos contactos. – Vem ter connosco quando estiveres preparado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que me encontrei, um dia, no caminho para o Mosteiro.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-114195250464395280?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/114195250464395280/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=114195250464395280' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/114195250464395280'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/114195250464395280'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/03/un-certain-regard.html' title='UN CERTAIN REGARD'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113918950713360026</id><published>2006-02-05T01:30:00.000Z</published><updated>2006-03-09T08:03:31.563Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Este site vai estar parado até quinta feira, dia 9, por motivos pessoais. Depois retomará a actividade normal. Obrigado. LFS]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113918950713360026?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113918950713360026/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113918950713360026' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113918950713360026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113918950713360026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/02/este-site-vai-estar-parado-at-quinta.html' title=''/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113911100907291743</id><published>2006-02-04T03:41:00.000Z</published><updated>2006-02-05T03:47:13.676Z</updated><title type='text'>Época de Caça</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(segunda parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a vida muda! Há três dias apenas, Jonah planeava passar o fim-de-semana calmamente com Julia, sozinhos na casa de Aurora, pois Mike decerto seria convidado para acampar ou ir para a cidade ou dormir na casa de um amigo, como costumava acontecer. O filho tinha apenas dezasseis anos e era já a estrela das redondezas, o rei dos recreios da escola. Possuía o carisma que Jonah nunca sentira em si próprio - pelo menos, durante a juventude, antes de iniciar carreira e ter de tomar responsabilidades sobre os ombros - e cuja falta ele temera, durante anos, que fosse transmissível à descendência. Receios infundados, pois Mike parecia estar no bom caminho de qualquer executivo ou político na sociedade do seu país, ou seja, ser adorado pelas pessoas. Embora, como todas as pessoas de idêntica estirpe que Jonah encontrara na vida, depressa percebesse como era uncool relacionar-se muito de perto com o pai, e daí o afastamento, apenas o procurando nos momentos de grande necessidade pessoal, ou seja, dinheiro e o carro. Por outro lado, talvez fosse uma reacção tardia ao divórcio. Pai e filho nunca tinham abordado o assunto.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Mas poucas horas depois o tocar do telefone viria mudar por completo o destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que Marvin tivesse planeado as outras reuniões com muita antecedência. O acordo tácito era de que todos compareceriam, independentemente dos seus afazeres, compromissos ou responsabilidades - excepto, como é óbvio, por motivos graves. Viriam sozinhos e sem desejo de companhia. Aqueles não eram encontros para arranjar amantes. Não se efectuavam por falta de ideias. O propósito era quase sagrado (para alguns, sabia Jonah, era-o deveras). Por essa razão, quando alguém planeava juntar o grupo, estabelecia uma data próxima. Para não haver falhas. Para ninguém poder mudar de ideias. A única diferença estava no curtíssimo prazo imposto por Marvin. E os europeus! Conseguir-se viagens aéreas naquelas condições era, na perspectiva de Jonah, uma quase impossibilidade física.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele aceitara de imediato. A sua boca dissera sim com facilidade. Sentindo na carne a provação de cinco anos. Na boca o sabor a pólvora queimada. No canto dos olhos o reflexo de um personagem ágil e jovem cuja existência, cujos sonhos e ódios em muito diferiam da sombra apagada em que se tornara. O tempo de espera tinha acabado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém se lembrava mais dele, finalmente, o que era bom. O editor aguardava ansiosamente pelo novo livro, mas Jonah não o tinha ainda começado. Escrever sobre o quê? Os temas faltavam-lhe. O que havia na sua pacata rotina de consultas esporádicas e um ou outro discurso, na sua absoluta preguiça para efectuar investigação, que o inspirassem no projecto de um volume de ficção ou ensaio? Estava contente com a família que tinha, com a casa e o local onde a tinham mandado erguer. Adorava a mulher, que, como confessara a Marvin, lhe roubava a energia, levando-o a discotecas e bares nocturnos, a espectáculos de live-sex, fazendo-o manter-se acordado durante noites inteiras quando se encontrava com os seus amigos  encontros a que ele fazia questão de ir; em suma, tentando manter o mesmo ritmo de glândulas que tinham pouco mais de metade dos anos das suas mas muito mais do dobro da produtividade. Sentia-se, em parte, ridículo, um veterano quarentão metido com a malta dos vinte-e-alguns anos. Mas sabia que tinha de combater esse sentimento, de acompanhar Julia, se a quisesse manter. Mesmo que fosse uma ilusão. Tudo para não acabar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha sido mais fácil cinco anos atrás. Jonah era um espírito alado, livre dos grilhões do casamento e encarando a vida como um lago cheio de promessas aberto a mergulhadores. Começou a vestir-se mais jovialmente, mudou o aspecto e a atitude. Aos trinta e nove anos encontrava finalmente o à-vontade suficiente para encarar uma audiência de desconhecidos e fazê-los rir e aplaudir com a sua forma de ser, não por que fosse ele o professor da aula. Compareceu nos talk-shows mais famosos de então como estrela em ascensão, o eminente psiquiatra e expert amador em fenómenos insólitos que acabara de escrever o primeiro livro de ficção. As entrevistas foram, em parte, conseguidas pelo editor, mas o seu estilo agradou às câmaras, e depressa estava a comparecer em debates diferentes, a falar com personagens que tinham alguns poder no esquema das coisas. O livro foi um sucesso, e Jonah passou de «confortavelmente abastado» a «extensamente folgado», financeiramente falando. Começou, também, a interessar as mulheres, sem dúvida atraídas pela imagem de um divorciado divertido e polémico com interesses peculiares, histórias interessantes para contar e bastante dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resumidamente, foi assim que encontrou Julia, a simpática filha de colombianos cujo objectivo pessoal era fazer psiquiatria com base na experimentação química do cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pensar que apenas dois anos antes, Jonah situara-se na fronteira de um esgotamento nervoso de grande intensidade. Decorria o divórcio de Barbara. Nos dias em que havia audiência, Jonah levantava-se com dores de cabeça, pois tinha consciência do que se iria seguir: a espera interminável. O jargão incompreensível dos advogados, constantemente em guerra um com o outro, usando manobras e fintas como jogadores da NBA. O lento e doloroso dissecar das manias do casal, das pequenas guerras e egotismos e até atitudes sexuais. O retrato de Jonah como um sacana que demolira o casamento com as suas ausências inexplicáveis e prolongadas, com a negligência pela educação do filho, com as maneiras rudes que adoptava ao dirigir-se à família e colegas, com a indiferença sexual à mulher, com a suspeita do adultério. Os olhares silenciosos dos elementos do júri, autorizados pelo desprezo mal contido do juiz. A sua voz firme quando depunha. As acusações ensaiadas. O proferir de opiniões que prometera a si próprio esquecer. De frases que nada lhe diziam, mas cujo efeito em tribunal estava assegurado. E durante todo o tempo, a sensação de que se encontrava numa peça, na interminável repetição das mesmas frases e movimentos que muitos haviam feito antes de si e muitos outros prosseguiriam, em benefício de uma tradição, ou de um sistema, que apenas lhe trazia desconforto a ele e incómodo a todos os outros actores. Os únicos que pareciam vivos eram os homens das leis... talvez a representação fosse em benefício deles - era a alucinação de Jonah nos momentos em que a dor de cabeça ficava mais forte - talvez o verdadeiro público seja o que está no púlpito dos jurados, a apreciar com a atitude ensaiada durante anos nos cinemas e na televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha sido o pesadelo em que se tornaria mais tarde; no início, o casamento prometia. Barbara provinha de boa família, europeia, que a considerava a sua dádiva especial ao mundo. Reflectia o cuidado e o esmero que os pais haviam incutido na sua educação. Sabia apresentar-se perante uma audiência, tinha ideias e opiniões, e uma vontade de ferro quando era preciso. De simples professora na faculdade, passou a consultora do gabinete do Mayor e mais tarde começaria a pensar numa carreira política independente. Defendia os valores das mulheres e a liberdade de expressão nas escolas contra associações de pais demasiado preocupados com a educação liberal, não católica, dos professores de liceu. Barbara era uma mulher de valor, e uma mãe excelente. Jonah reconheceu de imediato as qualidades, e durante os primeiros anos, quando a paixão ainda fervia, não pediu mais da vida, com receio de que a sorte virasse a cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então o passado voltou para assombrá-lo. Conheceu Marvin e Sergei e Joost. Tratou-os na mesma instituição, no mesmo ano, o mais estranho período da sua vida. As reuniões começaram, relativamente no mesmo período em que o casamento se começou a deteriorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sua culpa, reconhecia agora. Mas algo não estava bem consigo, então. Não podia culpar-se da forma com que tratava Barbara, por que isso era apenas o efeito de um problema maior. O problema que o acompanhava desde os dez anos, quando era miúdo e vivia sozinho com o pai numa terriola do Kansas. Quando perdera o pai e tivera de mudar-se para Minneapolis, para casa dos tios da mãe. Se encontrasse tamanha agressividade num paciente seu, aconselhá-lo-ia de imediato a entrar num programa terapêutico. Como era o próprio médico, a negação teve efeitos mais eficazes. O problema não se evidenciou como tal até ser tarde de mais. Até perder Barbara e o casamento, e durante algum tempo, Mike, que só voltaria para si porque a mãe tinha ido trabalhar para o estrangeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devia ter aprendido, dizia para consigo mesmo ao guiar o carro velho e desconfortável por milhas de pedra ressequida, de pó moído e asfalto em brasa. Não devia estar de volta. Não devia por em perigo a relação com Julia. Estava a ficar velho de mais para recomeçar outra vez a vida, para passar por outro divórcio. Mas pusera-se facilmente a caminho. Como um maldito bêbado que não tem escrúpulos em pegar de novo na garrafa e afogar a consciência, esquecido das sessões dos Alcoólicos Anónimos, esquecido da promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tinha sido tão bom dizer que sim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(oontinua no próximo sábado)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113911100907291743?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113911100907291743/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113911100907291743' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113911100907291743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113911100907291743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/02/poca-de-caa.html' title='Época de Caça'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113884529585522881</id><published>2006-02-01T01:51:00.000Z</published><updated>2006-02-05T03:45:00.226Z</updated><title type='text'>ABRE LOS OJOS, ou WHY I WANNA FUCK PENÉLOPE CRUZO Mundo em Torno do Universo, I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a esfera de água, suspensa no meio da sala, em constante rotação, os jactos de pressão de ar que a mantinham segura desenhando rugas na superfície&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele foi em tempos mulher&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(este sou eu, no centro do mundo, no inicio de tudo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o cano apontado à testa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o cabelo solto caindo em ondas negras pelo pescoço delgado, os seus olhos lindos, castanhos, cheios de lágrimas, a curva sensual dos lábios traçada a sangue na pele tão branca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que não gostava nela era ser tão franzina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o cano apontado à testa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(apenas um passo para dar o salto e transformar-se tão fácil tão imediato)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sentada junto à janela, o vestido de dona-de-casa remendado cobrindo-lhe os joelhos de idosa mas deixando a descoberto as pernas cruzadas, as pernas cheias de manchas e reumático, de peles penduradas, cheias de tempo acumulado, a camisola de lã a crescer das mãos atarefadas&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;a testa coberta de suor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;queria beijar aquele rosto de princesa, queria ver os lábios soltarem gemidos suaves que a tornariam sua, queria possui-la com violência, causar-lhe dor quando entrasse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que gostava nela era o ar de puta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a chávena de café a queimar-lhe os dedos e invadir-lhe as narinas e a sensação de que aquele era o momento mais real da sua vida embora soubesse que estava morto&lt;br /&gt;a testa coberta de suor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a esfera reflecte a tua imagem, a tua imunda cara de velho, a tua imunda alma, marcada pelos séculos de pecados e dor que provocaste, esses malditos olhos que não se fecham para sempre, esta carne que não se decompõe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foi em tempos pessoa de outra época&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(acabar assim, um ponto no céu, massa em aceleração, existência tornada matéria)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o suor caindo para o rosto limpo de pêlos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o teu imundo rosto macilento destorcido olhando-te de volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(abrir os braços e cair)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e aqueles lindos, suculentos lábios que dizem NÃO OS OUÇAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a esfera reflecte a envolvência de uma sala de habitação sem luxos, prática, com sacos de dormir fixados nas paredes e cintas de sentar fixadas no chão de baixo e no chão de cima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(abrir os braços e cair)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO QUEIRAS OUVI-LOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dentro dele a mulher e o desejo de mulher e o querer ser frágil e suave como as pombas e fugir à promessa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o ar de vadia que lhe causava tesão e o fazia prendê-la à cama, que o fazia apertar-lhe os pulsos, que o levava a morder-lhe os lábios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os suculentos lábios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRE OS OLHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os olhos encarando-o de cada lado da arma, da mão, do braço estendido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ela beija-o, também o deseja, por cima agora, o cabelo caindo sobre o peito dele, peludo, o membro pulsando mas não erecto, demasiado excitado para se deixar ir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aproximas a mão da barba por fazer e no espelho da água é uma figura derrotada, de olhos encovados e face macilenta, que se interroga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a ligeira pressão no gatilho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lembra-se dela ainda viçosa, nos tempos em que sorria, em que fazia planos e o levava ao colo para o pé do mar, e lhe contava histórias e ele sentia que fazia parte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SIM, FAZES PARTE DE UM PLANO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(é tão bom cair)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;deixando cair a chávena, o café espalhando-se pelas tuas calças, pelo chão, deixando manchas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o medo nos olhos do outro lado da tua vontade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tu que eras outra pessoa e agora és este imundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;deixando manchas no tapete branco, a ultima oferta que lhe dera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTÁS A OUVIR-ME?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tu imundo és o dono da vida daquele rosto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por cima de ti gemendo na proximidade do orgasmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os pequenos seios no conteúdo das tuas mãos  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os planos nunca se concretizaram e envelheceu no canto ao pé da janela a tricotar camisolas para ele e o irmão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e agora havia manchas de café no tapete branco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o recuo do projéctil, a fácil penetração na pele branca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ela tão húmida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(o chão a vir ao encontro dele, veloz, como a certeza de um ponto final)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÁRA ESTA MERDA E ESCUTA-ME&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as unhas que se cravavam nos ombros excitando-o ainda mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os olhos surpresos pelo disparo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o punho interrompendo a perfeição da água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sonharia ainda com oportunidades do passado, albergue de vidas que nunca iria parir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a nuca abrindo-se como pétalas rosáceas expelindo conteúdos contra a parede&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele tão próximo do êxtase&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÁRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o recuo lançando-o para trás na imponderabilidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(ponto que no final da frase longa lhe iria conferir sentido)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÁRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os quadris dela cheios de vontade e independência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aqueles lábios suculentos que gemiam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nunca mais lhe tinha contado histórias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o tapete pelo qual chorava uma dor que não conseguia sentir porque estava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tão perto de vir-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a esfera desfazendo-se em milhares de esferas mais pequenas molhando-o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÁRA LÁ COM ESTA MERDA DE ESTILO, MEU PEDANTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi em tempos mulher, mas não se recordava se tinha nascido nessa condição. Havia pouco de si mesmo que recordava, ou que recordava como pertencendo a si, pois nos sonhos os fragmentos de memória estavam associados a histórias ou acontecimentos presenciados, mas nunca algo visto com os próprios olhos ou sentido na própria carne. Havia também a possibilidade de que esta carne não fosse então a sua, que tivesse envergado outra, como se vestem calças ou se trocam sapatos. Uma vez que tinha sido mulher, em tempos, e agora era homem, esta possibilidade era bem real. Mas também podia ser tudo um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto homem, sentia e desejava de forma diferente. Havia uma pulsão de conquista, tradução imediata de impor uma vontade contrária. Esta era a pulsão do sexo, e havia momentos em que os confundia, pois enquanto mulher também aguardava que as coisas acontecessem pela mera presença da sua passagem, que fosse ela o terreno a conquistar. Embora por vezes, quando era mulher, o desejo fosse tão forte que não era capaz de aguardar. Por isso não podia dizer com toda a segurança que havia diferença. Mas sentia que sim. Quando estava com outra, procurava prender-lhe os movimentos e simular que forçava a penetração, sem contudo chegar perto de violá-la; vencer a resistência dela, o que lhe iria dar muito prazer, pois tinha sido mulher e sabia. Quando matava também era de forma diferente. Enquanto homem, era limpo, prático e eficiente; enquanto mulher, desordenada e insuspeita, com igual medida de disfarce. Algo que podia atribuir à sua condição pessoal. Ou a preconceitos sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia o que agora era. Apenas que tinha vontade de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRE OS OLHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 cc de soro reparador olha para a imagem sim a mancha diminui sinais positivos isola o saco térmico desceu abaixo dos 2 graus aguardamos alguns minutos corta o tronco principal desata-lhe os nervos ópticos a árvore está a libertá-lo pensa que morreu actividade nula mantém o líquido a fluir está a ajudar a expulsá-lo não fazia ideia que estas árvores tivessem reacção as muito antigas são diferentes há mais alguns aqui que interessa isso gostava de saber quem mais se escondeu atenta no que fazes o hipotálamo regista alguma actividade está a sonhar vamos por rapidamente este gajo no corpo gostava de saber com que sonha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRE OS OLHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nariz de papagaio roça-me o peito e a boca morde-me um mamilo. Grito de dor e digo que não seja tão bruta. Ela ri-se, deliciada. Tem um riso de rio ainda rapazola. Os olhos fitam-me por entre os muito negros cabelos longos, e a boca larga abre-se para soltar um gemido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou duro dentro dela, e ela aproveita para me cavalgar com gosto. Está mais envolvida no acto que eu. Aproveito para olhar em volta. Um quarto modesto, talvez de hotel, de paredes despidas e mobília sem gosto. Uma pequena lâmpada de lava cobre os nossos corpos de cor alaranjada. Não faço ideia de onde estou. Nem que como vim aqui parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sou eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem és tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não me ouve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem és tu? – berro a todos os pulmões, mas ela continua a rir e a agitar-se sobre mim. Não nego que a vontade me controla. Não fingo que a vontade de ir não seja imensa, de me deixar mergulhar na profundeza de um prazer imenso, mercê da vontade de outrém. Há no entanto um medo enorme a berrar dentro de mim. Agarro-lhe nos punhos, firmes contra o meu peito, e levanto-os, mas ao fazer isso percorre-me dor: as unhas estavam já cravadas na minha pele até à ponta dos dedos, e deixam fios de sangue a escorrer de aberturas bem definidas. É difícil manter afastadas aquelas mãos de àguia, que continuam a procurar a minha carne. Gasto todas as minhas forças a debater-me, e acabo por ficar ofegante. Apenas uma parte de mim permanece incansável. Apercebo-me de repente que não vou conseguir afastá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua na próxima quarta, 8 Fev)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113884529585522881?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113884529585522881/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113884529585522881' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113884529585522881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113884529585522881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/02/abre-los-ojos-ou-why-i-wanna-fuck.html' title='ABRE LOS OJOS, ou WHY I WANNA FUCK PENÉLOPE CRUZ&lt;br&gt;O Mundo em Torno do Universo, I'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113871575039859662</id><published>2006-01-31T13:51:00.000Z</published><updated>2006-01-31T13:59:33.653Z</updated><title type='text'>Um (Outro) Homem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(segunda e última parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esforço-me por esticar a cabeça, para ver. Um guarda acena-me para voltar para o comboio. Leio o perigo nos seus olhos e obedeço sem hesitação. Não se ouve um único som em toda a estrutura; as próprias máquinas estão caladas, como se a importância da situação tivesse despertado nelas uma consciência latente. Os corações parecem bater em uníssono, uma gigantesca pulsação que abala o ferro e a carne, e os faz estremecer até à fundação das próprias raízes. E a cada batida, grito uma súplica arrancada da alma, uma palavra cega, um pedido: Não! Ele não!&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Mas o que sei verdadeiramente da sua vida, a não ser o que me contou? Um guia turistico para uma empresa privada, estava habituado a passar vários dias, por vezes semanas, longe de casa. A mulher não gostava, dizia-lhe que não passava de um caixeiro-viajante sem maleta de amostras. O que o ofendia imenso, pois amava a profissao. Via-se pelo brilho especial nos olhos quando descrevia o aspecto de uma terra, os hábitos do povo, a história que os havia transportado até aquele lugar, aquele momento. As palavras floresciam na boca dele como se inventadas com o único propósito de servir a presente narrativa. Mas não havia igual emoção, não havia emoção nenhuma, quando o pensamento se voltava para a mulher, para as discussões. Ela apenas queria que ele arranjasse um emprego de escritório, qualquer coisa rotineira e previsível em que o pudesse sentir perto de si, controlado. Receava as constantes ausências prolongadas. E de certo modo, era um receio com razão, pois sem estas nunca nos teríamos encontrado. Nunca teria havido espaco e tempo e paciência para dançarmos em torno de nós mesmos, e cumprirmos os passos necessários de um ritual que, embora velho de milénios, requer que o descubram de cada vez que é cumprido. Morava numa cidade distante, mas a minha ficava em caminho de quase todas as rotas. Viamo-nos de tempos a tempos, os encontros pautados por um sabor a fome e nostalgia antecipada. Depois, quando eu e o meu marido nos mudámos para a sua nova destacação no sul, ficámos muito, muito perto da cidade em que ele morava. Foi uma época maravilhosa para todos, pois não só eu andava mais satisfeita e calma em casa, como a esposa dele ficou deleitada ao saber da sua nova recusa por excursões longas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era a minha alma gémea. Fez-me florescer, na época em que pensei não ter mais nada a aguardar da vida. Ao seu toque, abri-me como uma rosa pela manhã. Um processo tao espontâneo e incontrolável que me assustou de início. Ria como uma miudinha no primeiro namoro, um riso há muito esquecido. Tremia ante o aperto dos braços fortes, quando me beijava ou me conduzia ao leito. Eu, que sempre me gabara de segurança e maturidade, temia agora ser vista como tímida e imatura para a sua experiência de homem. Sim, transformou-me. De outra forma, nunca teria encontrado coragem para sair de casa. Sinto pena pelo meu filho. Mas estará melhor com o pai - são, afinal, unha com carne, ramos do mesmo tronco; não precisam do apêndice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um tiro. As cabeças recolhem-se, com excepção da minha. Um homem salta do comboio para o apeadeiro. Um polícia grita Alto! e aponta a pistola. Os companheiros imitam-no prontamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário dos filmes, não vejo heroismo mas cautela. Eis a verdadeira violência, que magoa e mata, chocante e brutal, sem romantismos à mistura. O homem parece bastante ciente da situação, pois empalidece ao ver a meia dúzia de pistolas e metralhadoras apontadas para si, comandadas por outros homens, que não estão dispostos a correr riscos, que não irão trocar a vida por um segundo de hesitação. Deixa cair a arma no cimento, e ergue os braços, derrotado. Os guardas avançam para o prender, cautelosos ainda, de pistolas em riste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando finalmente o conduzem, algemado e cercado por uma forte rede de segurança, para fora da estação, posso confirmar a minha suspeita: não é ele. A cara é magra e esquálida, os ossos muito vincados. Sangue escorre por uma ferida sobre a sobrancelha, desenhando um traço fino ao longo do rosto, até se deter no poço do colarinho. Não passa de uma figura patética e ridícula, que nem sequer foi abençoada com uma boa aparência. Falta-lhe no entanto o porte do criminoso, assemelha-se mais a uma vítima - mas não o parecerão todos, não se desculparão igualmente nas circunstâncias da ocasião, na fraqueza da vontade quando chegou o momento de escolher entre a moral e a satisfação? Pergunto-me que mal terá ele feito, condoída, que crime teria cometido para merecer tamanho esquadrão de caça? Como detestaria fazer parte do júri, ter de avaliar com imparcialidade o caso daquele homem sem ser toldada pela pena que me invadia ante a visão de tão miserável figura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando tudo termina, a besta estremece. Um apito soa. Vagarosamente, despertando da letargia, a composição começa a avançar, libertada das amarras com o cais de pedra. Na lentidão própria das coisas inevitáveis, o edificio diminui, afasta-se, as figuras e vidas dos habitantes tornando-se tao insignificantes quanto a perspectiva. A plataforma onde aconteceu o drama perde já a magia do momento, ganha a da recordação. Olha-se para o cinzento da sua extensão, e é cinzento que se vê, pedras embebidas em betão seco no qual permanecem cinco ou seis derivados de macaco, erectos, a tentar convencerem-se de que foi um destino sapiente que os colocou no mundo, e não o acaso. Ele não veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não devias esperar outras coisa. Não esperavas sinceramente escapar impune depois do mal que fizeste, ao teu marido, ao teu filho, à mulher dele, a ti mesma? Sim, estás livre, conseguiste. Era o que querias, ele foi só uma desculpa. Admite. Confessa. Agora estás sozinha e vais chorar para um canto. Livre e sozinha. Como sempre quiseste estar.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O futuro ergueu-se ante mim, naquele momento. Um futuro tão distante, insólito e frio quanto a viagem que agora iniciava. A viagem que faria sem ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que se passa? Porque estás a chorar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viro-me mais rápida que a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lança-me um sorriso calmo, embora pareca intrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Atrasei-me um bocado, e com toda aquela confusão... Espero que não tenhas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cala-te - digo-lhe por entre lágrimas de alegria, percebendo que esta história irá, afinal, ter um final feliz. &lt;em&gt;És a minha segunda oportunidade de viver&lt;/em&gt;, digo-lhe sem transformar o pensamento em palavras. - Falas de mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dou-lhe um beijo, que dura o resto da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;" align=center&gt;&lt;em&gt;(FIM)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align=rigth&gt;Amadora, 1990&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113871575039859662?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113871575039859662/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113871575039859662' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113871575039859662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113871575039859662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/um-outro-homem_31.html' title='Um (Outro) Homem'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113871546839622900</id><published>2006-01-30T13:48:00.000Z</published><updated>2006-01-31T13:58:04.880Z</updated><title type='text'>Um (Outro) Homem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(primeira parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;O inferno é vermo-nos nos olhos dos outros.&lt;br /&gt;Paulo Castilho, &lt;em&gt;Fora de Horas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponteiro toca o ponto no espaço que marca a menor distância até ao algarismo 9, e ditado por uma força superior à sua bestialidade de ferro, o comboio apita, resfolegando um jacto branco de humidade quente. A óbvia alusão dos Hollywood movies dos anos 50 irrompe à superfície, um dejá vu a preto e branco entre imagens definidas duma película de celulóide. O cinema bafiento, e no escuro uma mão que avança, insegura nos seus primeiros passos como uma criança. Ele que não vem. O trepidar da besta força-me a subir para a carruagem, dependurar-me da porta aberta, a mala desconfortavelmente presa na mão, fazendo-me desequilibrar, puxando-me de volta à desilusão agreste do apeadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já devia cá estar. Disse-lho expressamente. Dez e quarenta e cinco. Nem um segundo a mais. A ligação estava má, mas eu repeti várias vezes, 10:45, o comboio para Toledo. Comprei-te o bilhete. Vem.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Vem e não tragas nada. Não tragas o teu passado embrulhado num saco como um conjunto de memórias descartáveis em jeito de rotinas e subrotinas de programas, sentimentos a que se acedem quando se torna necesssário demonstrá-los. Não quero que me reveles que és assim. Abandona-a com carinho, e com a dor da separação a que os trâmites obrigam. Não lhe mostres frieza. Por minha causa, não sejas cruel; ela foi a companheira dos primeiros vinte anos da tua maturidade. Entendo tudo por que passou, sinto com o seu corpo o toque das tuas mãos que se afastam, gradualmente, até restar não mais que um conjunto de recordações desgastadas pelo uso, e uma sombra da tua presença. Vejo-me com os seus próprios olhos, e tremo ante o ódio e despeito que neles adivinho. Sei que nada é mais poderoso do que o ódio de uma mulher traída  e nenhuma vingança mais cruel. Como gostaria de te ter conhecido, então, livre de todos os impedimentos, quando ainda eras um pedaço de barro mal formado. Teria suavisado as tuas arestas, até que cada parte se unisse e desse lugar a outra numa transposição mansa e soberana. Teria vestido de carne os teus membros e feito amor contigo na metafórica ilha deserta do quarto de hotel barato onde nos encontrávamos à sucapa, escondidos dos outros, como ladrões na noite. Teríamos descoberto este mundo novo juntos, imaculados na mútua e sublime ignorância do que significa a palavra frustração. Teria sido a tua mulher, a tua segunda mãe. A minha paixão aquecer-te-ia, derretendo o gelo, expulsando a humidade, para que, passo a passo, o barro se tornasse carne, e a carne calor. Da minha boca receberias o sopro da vida. E o teu primeiro gesto seria envolveres-me com os teus braços, como um amante, ou um filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como gostaria de te ter conhecido quando ainda eras virgem. Por que tenho medo, muito medo, da experiência. Quando as palavras perderam já todo o encantamento, estão velhas, cansadas. São múltiplas as recordações que as acompanham, e muito poucas as que não se derretem num nevoeiro de insensibilidade e repetição. A experiência é uma terra seca e estéril onde o último poente aconteceu há muito. O companheiro é reduzido a uma grelha de características em evidência, às quais se responde através de um padrão pré-determinado, para se obter o efeito desejado. Como a subtil leitura das entre-pálpebras, na convexidade reflectora das pupilas. Estão dilatadas, as minhas? Dizem que é sinal de paixão, de desejo. Os apaixonados comunicam assim, em silêncio, uma corrente violenta de luz batendo e fazendo ricochete nos olhos de cada um, até perderem a individualidade e transpôrem o limite físico dos seus sexos, como um espelho reflectindo-se ad infinitum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu deste-me isso. As pupilas dilatadas, o silêncio. Na alvorada, um quarto desarrumado de hotel cheirando a desinfectante; no vazio gelado da atmosfera, dois corpos. Duas manchas rosáceas no pigmenteado da fotografia, à margem, no limite do enquadramento; quase invisíveis - e no entanto, a vista é imediatamente atraída para elas, porque nelas está o calor e a vida, o significado da existência, a compensação da aridez. Vi as tuas pupilas dilatadas, e depois vi as pálpebras caídas, tremendo como um bebé com frio, ao te apoderares dos meus seios. E agora não te vejo no corredor longo da plataforma de embarque, não ouço a tua pressa, pulando sobre as malas desmaiadas no chão, insinuando-te por entre os obstáculos de pessoas lentas e indiferentes, não leio no teu rosto o medo de me perderes. O comboio ainda não partiu: um problema qualquer com um passageiro, disse o revisor, a polícia anda aí à procura dele. Não lhe dei atenção. Ainda há tempo, ainda há esperança. Vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se estivesse em casa, telefonava-te outra vez. Mas não posso voltar a casa, jamais. Ele deve ter regressado do emprego, agora; já deve ter arrumado o Mercedes no fundo da garagem, onde a humidade da manhã não consegue penetrar. Está a ler o bilhete. Imagino-o a voltar constantemente ao início, à frase onde digo que me vou embora, parto com outro homem; o resto são só instruções. Vai buscar uma bebida; prepara um uísque, &lt;em&gt;Glen Livet aged 12 years&lt;/em&gt;, mas não lhe junta gelo, desta vez. Precisa dele bem forte. Senta-se com um copo na mão, e depressa se esquece dele. Esquece-se do bilhete também, e fica entorpecido no sofá, o corpo bruscamente despojado de alma, com os olhos de peixe sem água. E na sua mente, uma pergunta incessante corre em torno da cabeça de leitura: &lt;em&gt;em que foi que falhei em que foi que falhei em que foi que&lt;/em&gt;. Nunca irá compreender porque me terei ido embora, justamente quando, na sua ideia, tudo estava bem connosco, pois ele fora promovido a Director-Geral, pois o miúdo tinha-se revelado um pequeno prodígio ao representar na peça de Natal do colégio, pois até eu conseguira um pequeno reconhecimento com o trabalho de aguarelas que lá me ia distraíndo e ocupando enquanto ele trabalhava. Tudo na sua ideia, tudo tão tipicamente seu, sem ver o que o rodeava, sem me ver. Perceberá ele alguma vez? Entenderá o real significado da minha mensagem? Ou a culpa continuará a ser apenas e somente minha? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás da pureza angelical do nosso matrimónio, concedida por força do milagre de uma declaração sacerdotal e da benção do juízo alheio que ele tornou na medida do nosso sucesso, escondia-se um grito. O meu grito, o meu terror. Do que aguardava escondido pelo cenário. Do que atacava no momento de felicidade: rasgando as paisagens falsas, pintadas, com as suas garras entumescidas, irrompendo por elas. A besta feroz, o monstro negro e disforme com uma enorme faca sobressaindo do meio do abdómen, húmida de sangue. E depois tudo acontece em poucos segundos. A besta agarra nos espectadores e esmaga-os com as mãos. Incapaz de me conter, grito. Entro em pânico, sinto-o crescer dentro de mim, a contorcer-se com sofreguidão para se libertar das cordas que o prendiam; sinto-o a ganhar uma voz, a tomar uma mão, a apoderar-se de um corpo só seu. Um corpo que deixa de me pertencer. Entro em pânico, e perco. O monstro nota-me. São os gritos que o atraem, gritos horrivelmente agudos e que vêem da única pessoa que não está a fugir, para muita surpresa sua. Estou consciente do que faço, mas não me consigo calar, não consigo persuadir as pernas para me levarem a um sítio seguro. Observo com horror, a que não falta a sua dose de puro e primitivo fascínio, a mão enorme a avançar para mim; nada a detém, nada pode impedir a sua progressão. Está escrito, num texto a que não tenho acesso, que aquela será a mão da minha morte, e que ela cairá sobre mim, aqui, neste lugar, neste tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo no meio de um grito calado, a garganta ressequida, tremendo de frio e de medo. Ele remexe-se a meu lado e manda-me estar quieta. Aos poucos, a realidade sólida do édredon sobre o corpo faz-me acalmar e aquecer. O sonho recua, esconde-se num dos inúmeros recessos que o esquecimento possui, e depressa as trevas se devem somente à noite - omnipresente, mas não maligna. Sinto que escapei à morte, que renasci. Tenho uma vontade enorme de viver. Não volto a dormir; não consigo, tenho de partilhar a alegria com alguém, inundar o poço da solidão com a luz do contacto, por entre as lágrimas de luar que atravessam as frechas das cortinas. A minha mão ganha vida; viro-me para ele e começo a mordiscar-lhe ao de leve a orelha, sussurando palavras de vento; procuro-lhe o pénis, acaricio-o. Digo que o quero, que o desejo mais do que à própria vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E morro quando me rejeita. Morro sempre, de todas as vezes. Até quando cede e faz amor comigo - porque não o faz por amor, obedece a uma condição estipulada no contrato de casamento; apressa-se, foge, encerra a consciência numa prisão interior a que ninguém tem acesso. E quando termina, nem sequer finge que gostou; abandona-nos, a mim e às minhas lágrimas, no nosso lado da cama, e comeca a roncar, muito baixinho. Não faz barulho nenhum, é como se ali nao estivesse, em todos os sentidos. &lt;br /&gt;Ao final de tantas repetições, acabei por desistir, por optar ir ver a sessão nocturna da tv por cabo, um copo de leite numa mão e um Valium na outra, à espera que o sono chegasse. Algures ao longo do caminho, sem me aperceber, ele havia-se tornado, primeiro no meu irmão, e depois num estranho, alguém que dormia na mesma cama e vivia na mesma casa. As grandes paixões da vida dele eram, agora, o filho e o trabalho – ou sempre tinham sido. Duvido que tivesse alguma vez sido uma paixões legítima, verdadeira. Se não fui antes um modo de iludir a solidão, de agarrar uma companheira e mostrar-me na medida do seu sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gera-se barulho no fundo da estação. Os meus olhos voam para lá, aumentam de potência. Será ele, a querer irromper pelos portões à minha procura mas sendo bruscamente agarrado pelos controladores? Não saberá que tem de dar o nome na recepção, que o ticket se encontra lá reservado? Deverei sair, será ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois a confusão desvanece-se e varios polícias irrompem pela plataforma, alguns fardados, outros à paisana. Quatro entram no comboio, enquanto os restantes montam guarda cá fora, encostados ao lado das portas, ou protegendo-se entre as carruagens da composição em frente da nossa, as pistolas e metralhadoras automáticas em punho. Os passageiros, atraídos como moscas ao mel, assomam-se de imediato às janelas, especulantes, àvidos de um espectáculo inesperado e gratuito. Vistos do sítio em que me encontro, fazem-me lembrar a imagem de uma granja moderna, galinhas com os pescocinhos enfiados pelas aberturas a aguardar a chegada da ração. Eu amaldiço-os a todos, à sua curiosidade mórbida, à frieza perante o sofrimento alheio. Estou desesperada, porque um pensamento acabou de brotar do terreno em que se insinuara há algum tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será ele que os policias procuram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua &lt;a href="http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/um-outro-homem_31.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113871546839622900?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113871546839622900/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113871546839622900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113871546839622900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113871546839622900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/um-outro-homem.html' title='Um (Outro) Homem'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113857691781225912</id><published>2006-01-29T23:20:00.000Z</published><updated>2006-01-31T13:58:31.123Z</updated><title type='text'>El Condor Pasa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(primeira parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;Maypin kanki wawqeykuna, qapaq pachamama &lt;br /&gt;Mayakuna, Inkakuna, pikuna manan kaypiñachu.&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;0.1233&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esgaza agarrou-o porque pensava ser puto Coca-Cola, mas não era: pálido ultra, cor zero, a não ser olhos vermelhiraiados. Dedos a agitar o ar, pernas espasmáticas. Forma de falar, mas eu não entendia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgaza diz: M’rda, é um puto avatar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu: Tamos em cagada, Andrak vai não-gostar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgaza aguenta-se pouco em nervosos. Balbucia. Bebé chorão. Um dia leva com petardo. Meu se não primeiro de qualqueroutrém inimigo. Sacudo mais a ele que ao puto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu: nossa missão? Dar cabo dos Coca-Cola. Pensávamos Coca-Cola este. Engano humano ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgaza: ele olhagrava-nos. Sabes tipo d’olhos que tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu: conta não, nem pouco maisoumenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guinchou porcinamente ao queimarmos olhos dele. Foi ultrassom guincho, para orientação. Olhos que não vêm mas gravam: boca que não fala mas vê. Ficou a bater em paredes, no quarto fechado, guinchos para lá e cá e acolá como se inacreditando no momento. &lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Eu, pensando lesto: putos avatares têm riqueza às vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgaza seguiu gesto para lábaixo. Sorriu. Cortámos-lhe tomates, talvez senhor proteger queira riqueza própria, ou adversário compre genes secretos dele. Trocos quasicertos – senhores gostam lançar putos em mundo, fazer proles bastardas. Depois cabeça dele foi chão com força, Esgaza bom nisso. Botas dele boas. Puto estremeceu pernis, depois quedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrak ia não-gostar mas, situação agora calada, podia talvez-aceitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;0.52323&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Andrak impercebeu: Esta unidade não comete enganos desta natureza! Não chamamos a ira dos senhores sem um contrato na mão! Sem um contrato na mão, não temos seguro. Não temos protecção política. Temos todos os senhores contra nós. Entendem? Soldado 34A, tem a obrigação de avaliar antes de disparar. E o soldado 23B – olha mim – tem o dever de controlar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quedo fico. Falar inresulta. Andrak razão-plena. Esgaza frágil em nervosos. Há fazer melhoras. Agendo acção mais tardiamente. Agora: Andrak fala, razão-plena, também culpamento-me. Quedo estóico palestra toda. Andrak acalma-parece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrak fala: E a razão porque não há falhar é porque não somos mais Comandos Corporativos menores. Estamos na boca do mundo. Quem interessa conhece-nos e fala de nós. E digo com orgulho que somos os melhores. Hoje, homens, temos finalmente uma missão digna do nosso valor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico orelhistico. Ficamos. Ansiosos, outrostodos atentam às verbinovas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrak mostra mapa de país. Peru no forno: nosso nome pró que resta Perú pós megaterremoto. Lima debaixo d’água, ainda a secar. Vale desértico ficou lago ou poça grande. Refugiados e presos e laboratórios experimentais e centros armas radicais e mais m’rda ali em meio a zona inrefeita. Ninho ratazanas grandesigordas, pois, esquecido mundo. Catástrofe década que foi. Nosso novo destino?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrak: Este é o nosso destino. A Montanha Habitada – imagem roda-que-roda, cai, aumenta, entranhas do Perú, montanha junto ao mar, casulos que apartamentos e outros habitáculos, muita guarda -, que para quem tem estado a dormir nos ultimos dez anos é o maior centro habitacional do mundo, um ninho de ratazanas bioterroristas, carteis de droga e megacomplots políticos. Como podem imaginar está recheada de protecção de primeira, tecnologia de guerra que ainda nem foi aprovada pelas forças militares do planeta, mercenários caídos em desgraça e que não têm nada a perder, forças de elite lideradas por antigos membros do Sendero Luminoso treinadas nos campos de Las Palmas, e uma legião de desterrados das zonas baixas que preferem perder a vida a voltar para casa. Nunca uma força organizada conseguiu penetrar nestas defesas, ou se entrou, não terá conseguido sair. Um desafio à altura de uma equipa como a nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entreolhares. Sentidos mais que feitos. Disciplina não permite. Mas sei quepensam.&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua no próximo domingo, 5 Fev)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113857691781225912?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113857691781225912/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113857691781225912' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113857691781225912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113857691781225912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/el-condor-pasa.html' title='El Condor Pasa'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113855561885906740</id><published>2006-01-28T17:21:00.000Z</published><updated>2006-02-05T03:44:35.616Z</updated><title type='text'>Época de Caça</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Primeiro Acto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pretendesse descrever a viagem como uma história, Jonah teria de começar pelo lugar-comum mais famoso entre os pretendentes a escritor: a noite encontrava-se húmida e sufocante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite encontrava-se húmida e sufocante, e Jonah deslocava-se a 90 milhas por hora, num claro desrespeito às leis da condução interestadual, em pleno carro aberto, recebendo no rosto toda a pujança de uma atmosfera um tudo-nada mais respirável do que a de uma sauna. A T-shirt colava-se-lhe ao tronco, e tinha de constantemente limpar a testa com o lenço, para evitar que o suor manchasse os óculos escuros e impedisse a visão. De vez em quando, vociferava sonoramente, sons que faziam eco nas pedras, onomatopeias e descrições fisiológicas contra um Marvin que, estando agora a menos de cinquenta milhas (distância que diminuía), lembrara-se, dois dias antes, de convocar a reunião à pressa, «para aproveitar o bom tempo, antes da época de férias». De quando em vez, lançava uma praga na direcção do Mike, cento e setenta milhas atrás de si (distância que aumentava), que devia estar agora completamente envolto pelos habituais sonhos húmidos de adolescentes, possivelmente recordando com pormenor os acontecimentos que tinham conduzido ao acidente com o Lotus e sem sentir o mínimo remorso pelo pai, obrigado a remediar-se com o jipe de caixa aberta na travessia do Arizona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser pior, dizia para consigo. Podia ser dia.  Podia o enorme e inclemente sol encontrar-se no meio do céu. Podia ser bastante pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia ser muito convincente, nem para consigo próprio.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align=center&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marvin, que agora media os seus seis pés de altura, adquirira um porte digno e respeitável durante os anos de serviço nos Marines, e era tratado por &lt;em&gt;mister&lt;/em&gt; ou tenente-coronel, &lt;em&gt;sir!&lt;/em&gt;, fora, durante a adolescência, um rapaz negro incapaz de coordenar o corpo que crescera em demasia para a idade, tentando sobreviver dentro de uma comunidadezinha de província, em pleno sul dos Estados Unidos. A sua postura curvada e tímida de então revelava muito sobre a educação humilde que recebera dos pais e sobre as dificuldades com que estes cedo o haviam responsabilizado, por ser o primeiro de uma procriação de sete a nascer. Frequentou a escola por que era obrigatório e por que o Sul atravessava a sua primeira crise de consciência pós-Martin Luther face às raças em desvantagem. Marvin aprendeu a ler e a escrever e a recitar os nomes dos cinquenta e dois estados em ordem alfabética, emperrando, como acontecia a todos os miúdos, quando chegava aos O's, e o pai dele entreteve-se a gerir, ao seu modo muito especial, os cheques do &lt;em&gt;welfare&lt;/em&gt; destinados à instrução primária dos dependentes do agregado familiar. Duas das suas irmãs também tiveram sorte, e foram entregues aos cuidados da igreja, transformada, todas as manhãs dos dias úteis, em sala de aula, e de onde se podia espreitar a Interestadual e sonhar com carros e viagens e destinos diferentes na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em breve, os cheques deixariam de vir, e, quer Marvin quer as duas miúdas quer até os restantes irmãos quando chegou a idade deles, seriam entregues aos cuidados dos donos das lojas locais, para ajudar no serviço diário e na limpeza da casa, ou iriam tratar do gado nas grandes fazendas da redondeza, o que consistia em cuidar da limpeza das instalações, inspeccionar os animais em busca de sinais de doença, e conferir as cabeças que iam sendo enviadas e recebidas do mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marvin nunca esqueceria as palavras do pai. Que a culpa de ter sido obrigado a deixar de estudar para dedicar os dias a limpar a merda das vacas era daquele actor na Casa Branca, lá no Leste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O destino diferente na vida acabaria por surgir, na forma de um camião de mercadorias que se deteve o tempo suficiente no café onde Marvin grelhava hamburgers para lhe roubar a atenção. Parou junto da janela a observar a liberdade feita crómio e cavalos-vapor. Não era, nem de longe, a primeira máquina do género que encontrava nem havia nela uma beleza particular que a destacasse das outras da sua lembrança. Decerto não se tratava de um Lamborghini, extremamente raros naquelas paragens, o que justificaria tanto fascínio. Na verdade, tratava-se de um camião de mercadorias que percorrera estradas de mais com cargas pesadas de mais, e que mostrava sinais desse abuso. Mas a fixação continuou, obstinadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, deve estar em mim - pensou. Algo diferente que acordou comigo, hoje. Que tenta dizer-me alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi extremamente fácil arranjar boleia. Foi menos fácil dar um beijo de despedida na testa da irmã que era a criada do local e dizer-lhe que transmitisse à família que ficaria bem. Quando atravessou a rua ao encontro do destino os pés iam leves. Todo o corpo flutuava. De maneira que, ao recordar em tempos posteriores, não se lembrava de fazer força na porta e no apoio para os pés para ascender à cabina do condutor, mas de ter pairado, suavemente, no ar, a gravidade terrestre desprendendo-se do corpo com a facilidade de um desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria encontrado, anos mais tarde, no Golfo Pérsico, envolvido numa guerra que aconteceu porque, segundo parecia, não apetecera a ninguém encontrar uma solução melhor. Então, já teria singrado na Marinha e encontrado um lugar no nicho do mundo, onde podia dar ordens e ser respeitado e marcar diferença. Tornou-se tenente-coronel devido às suas acções no campo de batalha, e regressou ao país coberto de glória e influência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, enviava uma carta aos irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modo como se iria envolver com Jonah e as reuniões especiais é, como este diria se fosse ele a escrever o conto, uma história completamente diferente.&lt;br /&gt;&lt;p align=center&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jonah chegou à pequena vila de South Polem, o sol encontrava-se a meio da corrida para dar lugar a outra noite, e havia no ar um cheiro persistente a pó, poeira moída durante séculos pelos fortes ventos da planície, que se agarrava às narinas e às mãos e à roupa, fazendo-o sentir que se encontrava no Velho Oeste e tinha vindo a cavalo durante todo o caminho, dormindo no meio do restolho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vila não mudara em nada. Jonah atravessou-a sem demoras, observando os poucos transeuntes que deambulavam por ali, alguns a passearem os cães, outros simplesmente sentados nos alpendres a observar o trânsito. Como sempre acontecia, a imagem fê-lo lembrar-se do pai, de cachimbo na boca e botas pousadas sobre a balaustrada quando a Mãe não estava a ver. Misturava-se com a figura do avô, de quem recordava os olhos envelhecidos, as mãos cobertas de manchas de fígado e a magreza característica da fase terminal do cancro - de modo que deparava-se, no território da memória, com um velho sentado no alpendre, um velho tão surpreendido quanto ele próprio, e que era o seu pai. Mas não era uma memória real, não acontecera. O cérebro tinha aquela mania: tornava concreto o que era apenas desejo; por vezes, enganava o dono, fazendo-o mergulhar numa doce ilusão, apenas para mais tarde acordá-lo para a dolorosa realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por vezes, nem sequer era sonho, mas pesadelo, pensou Jonah, atravessando a rua principal, passando pelo &lt;em&gt;mall&lt;/em&gt;, pela bomba de gasolina, pela loja de peças de automóveis, pela casa do &lt;em&gt;quiropractor&lt;/em&gt;, atravessando a vila sem parar, saindo dela sem sucumbir ao desejo de entrar num café e lavar a garganta cheia de pó, avançando pela estrada que indicava já o rumo de outra terriola, a cinquenta milhas de deserto de distância, uma nova viagem, vendo por fim o motel de estrada - justamente quando South Polem minguava até se tornar numa silhueta de papel no horizonte que se podia observar pelo retrovisor -, o anúncio de néon semi-apagado a convidar os condutores, o parque familiar da entrada. Tinha chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia nenhuma reserva à sua espera. Se tivessem lugar para si, tudo bem; senão, far-se-ia à estrada de novo, regressando a South Polem e procurando uma residencial qualquer que o abrigasse durante aquela noite. Não seria, contudo, necessário: se tinha havido uma vez na vida do motel em que se encontrara cheio, devia ter sido por obstrução da estrada onde ficava e também de todas as que faziam ligação com ela, por deixar de haver uma forma qualquer que fosse de sair dali. Apenas pernoitavam os maridos e mulheres das cidades próximas que pretendessem concretizar rapidamente a escapadela ao matrimónio, e os jovens que saciavam a curiosidade. De modo que os donos estavam habituados a refrear a curiosidade e ser o mais discretos possíveis. Aliás, a pena de Jonah era de não existirem mulheres no grupo: dariam ainda menos nas vistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como esperava, havia dúzias de quartos vagos. Alugou o número 12, a primeira vez que ficava com ele, dando o seu nome verdadeiro - ideia de Marvin, dizendo que, se fizessem o contrário, quem, eventualmente, os andasse a investigar, teria mais um motivo para ficar desconfiado. Não regateou o preço, não pediu nenhum quarto específico. Respondeu normalmente a todas as perguntas do dono e apenas fez uma: se podia estacionar o carro nas traseiras. Deu a entender que apenas queria descansar para prosseguir viagem. Meteu-se no carro e conduziu-o devagar para o sítio indicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marvin encontrava-se à espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha envelhecido muito, notou Jonah de imediato (tendo entrado na corrida para a quinta década de vida, começava a preocupar-se com futilidades, como a aparência), mas viam-se perfeitamente as diferenças. O cabelo continha mais fios brancos, o rosto, em particular a região em redor da boca, era contornado por mais rugas de expressão; o olhar estava mais duro. Era sinal da Guerra, mas havia algo mais; uma intensidade nova. A curiosidade profissional de Jonah ficou imediatamente alerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que aconteceu ao Lotus? - perguntou Marvin, avançando ao encontro dele de mão estendida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se deu muito bem com o Mike - apertou-lhe a mão. Continuava forte e firme como sempre, a mão de um soldado. - Oxalá te tivesse encontrado mais cedo, para te seguir o exemplo. Por vezes, pergunto-me qual a utilidade dos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Podem tornar-se em bons militares. E Barbara? Continuam separados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Divorciados. Aliás, casei de novo. Uma autêntica brasa, vinte e cinco anos. Tira-me completamente o fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É bom sabê-lo, Jonah. Um homem precisa sempre de uma mulher ao lado dele. E tu merece-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Às vezes, gostava que tu desses ouvidos aos teus próprios conselhos... - rematou amigavelmente Jonah. - Quando é que te vejo dar o nó?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu conheces-me. Haverá alguma mulher que consiga aturar-me?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estamos a ficar mais novos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não - e de súbito, a conversa agradável ficou por ali, o reencontro completado, passando-se de imediato aos assuntos sérios. Aliás, Marvin parecia extremamente ansioso em abordá-los. - Já chegaram todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou o último, então? Bem, digamos que não me deste muito tempo para os preparativos. Estão todos bem? Já se encontraram? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estão a jantar. Combinámos no meu quarto às 8 horas. Número quinze. Jonah - e Marvin encarou-o com muita seriedade -, trouxe uma pessoa nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim? - Jonah perscrutou-o atentamente. Marvin não era dado a impulsos irracionais, pelo que ele não perdeu tempo com suspeitas inúteis. Decerto que se acautelara com a segurança do indivíduo. Mas Jonah não podia deixar de sentir-se intrigado. Marvin era a última pessoa de quem podia esperar aquele tipo de iniciativa. O mais normal seria colocar-se contra a integração de novos elementos sugerida por qualquer outro do grupo. - Alguém que conheçamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. É um puto da minha unidade. Tem sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonah ficou ainda mais intrigado. Marvin, o tenente-coronel intocável, a associar-se com os seus militarmente inferiores? O que se estava a passar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi contactado? - Jonah perguntou num outro tom de voz, cauteloso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se lembra. Teve uma crise de nervos há uns meses, o que o tornou incapacitado para continuar no serviço activo. Falei com o médico. Por vezes, há certos tipos que são fiteiros, que se ofereceram como voluntários para provar aos amigos ou aos pais que são homens, mas depois não aguentam e inventam esgotamentos mentais para se livrarem. Mas este parecia genuíno. Evocava períodos de violência em ambientes estranhos, com monstros. A sensação de ter de fugir era recorrente. E havia um ceptro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonah sentiu um arrepio frio na espinha, o choque do reconhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Julguei que quisesses falar com ele... - concluiu Marvin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero. O que lhe disseste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O mínimo. Não sabe nada dos nossos propósitos. Mas desconfia que está relacionado com esses sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonah assentiu, trabalhando mentalmente a abordagem que faria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem. Dá-me meia hora para abrir as malas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz  isso, toma um banho, come qualquer coisa. Instala-te. Estaremos à tua espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua &lt;a href="http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/02/poca-de-caa.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113855561885906740?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113855561885906740/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113855561885906740' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113855561885906740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113855561885906740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/poca-de-caa.html' title='Época de Caça'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113845727123068860</id><published>2006-01-27T14:00:00.000Z</published><updated>2006-01-28T14:08:48.310Z</updated><title type='text'>Encontros Imediatos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A minha lembrança do primeiro encontro é quase jornalística. Eram dez e trinta e dois minutos da noite de quinze de Junho de mil novecentos e noventa e três, precisamente seis meses após o meu décimo oitano aniversário, e cerca de cem dias desde que o &lt;em&gt;charter&lt;/em&gt; havia transferido para esta terra o meu corpo, esquecendo-se da alma na ilha. A lua brilhava no alto, envolta numa névoa amarelada, e estava quente, abafado, num prenúncio aos dias eminentes do Verão. O asfalto reflectia os faróis dos carros, que corriam de janelas abertas e braços de fora; imaginava os condutores com os colarinhos desabotoados, com o suor a caír-lhe pelas bochechas encarnadas, partilhando a noite com a máquina inumana. Os poucos anúncios de &lt;em&gt;néon &lt;/em&gt;piscavam sem convicção. Eram sempre os mesmos, faziam parte da paisagem, como as casas - já não os lia. As estrelas mal se viam, relegadas para segundo plano pela sacrílega iluminação de Lisboa. Apenas uma ou outra mais destemida rompia a cúpula e anunciava a sua presença. Machico não apresentaria este céu. Talvez o Funchal; mas Machico estava escondida do progresso, a luz da noite ainda era o luar, e este convidava as estrelas, repousando no oceano. E o oceano tornava-se infinito, unia-se ao céu e cobria este de ondulaçöes. As estrelas pareciam cintilar em virtude destas ondulações. Mas não em Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Catarina estava irrequieta. Saltava do banco para o passeio, espreitava para a estrada, dava uma pirueta, espreitava de novo, retornava para junto de mim, repetia o ritual. Os poucos transeuntes que passavam lançaram-lhe olhares dúbios, cautelosos, mostrando as defesas erguidas ao máximo de quem receia encontrar, de noite, algum maluco. Espreguicei-me no banco. Sentia-me aborrecido. A estrutura da Mãe D'ågua repousava, silenciosa e desapercebida, junto a nós. Olhei para os arcos, para o aqueduto no alto, pensei na água. Na água que na cidade fluía debaixo do chão, corria por cima das pessoas, rios invisíveis cerceados por condutas de ferro e a necessidade de um conforto superior. A água corria escondida, e quando inundava as ruas de asfalto era uma calamidade. Tinha ainda presente o incidente de semanas atrás, em que o mar tombara dos céus, implacável, e cobrira a Baixa como um manto, lavara a pedra dos passeios, apagara as frases de revolta, vermelhas e inchadas, que surgiam de súbito, como uma bofetada, no olhar, desfeando as fechadas já de si sujas. A água tocara a pedra, suavizara as suas cortantes arestas, e o povo, o povo minúsculo, reclamara, de sapatos numa das mãos e peúgas na outra, calças arregaçadas, pé ante pé a atravessar o rio indesejado, a porção da natureza onde não devia existir nada natural - apenas fumo de gasolina queimada e pressa. Açougueiros, padeiros, directores, caixas, advogados, pedintes: a multidão seguia pela Rua Augusta como filhos do mesmo útero. E eu, observando o espectáculo pela televisão, pensei: eis o grande equalizador, mais forte que os sonhos dos samaritanos, mais eficaz que a vontade! E um alívio, um estranho alívio, apoderou-se de mim; como se estivesse a ser vingado... ou a descobrir que, afinal, até as capitais podiam ser purificadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Purificadas pelo riso. Precisava disso, no início daquela noite. Catarina começava a irritar-me com os seus maneirismos. Queria-a junto a mim, abraçada, para poder disfrutar ao máximo das sombras e da cumplicidade. Já tinha percebido que não era das mais prestáveis; tinha sido fácil de conquistar, isso sim, mas não avançaria daí. Namorar era a sua situação normal, mostrar alguém às amigas, ter intimidades para trocar em conversa, andar de mãos dadas e aos beijos. Não era um acto nosso, era um acontecimento social. Há quase um mês que andava com ela, mas podia contar pelos dedos das mãos o número de dias em que ficáramos a sós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Catarina, pára quieta. Vem cá - chamei-a. Por aquele andar, o rompimento não estaria longe. Não que me importasse muito. Não fora por amor que iniciara o namoro, mais por conveniência: uma forma de me integrar. - Quando é que surgem os teus amigos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se costumam demorar - disse ela, espreitando de novo para a estrada. Tinha sido outra das suas ideias para colectivizar a nossa relação. Íamos saír com o grupo de &lt;em&gt;motards&lt;/em&gt; do irmão dela, presumivelmente para assistir ao espectáculo que uns conhecidos seus pretendiam mostrar num bar. Combináramos para as nove e meia. Eram quase onze horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez fosse melhor irmos para casa - comecei. Fazia-se tarde e conhecia bem a minha mãe. Nunca fora um grande frequentador da noite por sua imposição. Conquistara alguma liberdade quando viera para o continente, deixando-me saír mais vezes e chegar a casa depois da meia-noite. Mas ainda não permitia noitadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspeitava que a permissão inexplicável se devia à sua ignorância do que acontecia em Lisboa durante a noite. Por que não a frequentava, não era confrontada com os grupos a caír de bêbados e a urinar nas esquinas, com os bandos de cabelos compridos e fatos de cabedal, com as mulheres dos Restauradores a exibir ostensivamente a celulite como se estivessem na praia. Não conhecia, e o meu pai não me elucidava por que ainda vivia na Lisboa dos seus vinte anos, ainda vivia a Revolução dos cravos. Era a ignorância que permitia a minha liberdade. E, pensava eu, há que aproveitá-la, porque não durará muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começava a apreciar verdadeiramente a noite. Fazia-me sentir calmo e apaziguado, o que era estranho, por que não me apercebia conscientemente de qualquer estado de angústia durante as horas do dia. Conscientemente, observava os acontecimentos que me rodeavam sem produzir juízos de valor de monta - desistira deles, não me conduziam a resultado algum. Conscientemente, começava a aceitar a minha vinda, a esquecer-me do passado, a ficar insensível. E, de algum modo misterioso, a noite invertia a hierarquia, dava voz ao íntimo. O brilho hipnótico das luzes amarelas que entorpeciam a vista e nos faziam entrar num estado de sonolência acordado, misturando o sonho com o real, dando-nos a sensação de controlo que por vezes temos a dormir. E as regras mudavam. Os limites ficavam opacos, o horizonte indescirnível. As pessoas permitiam-se comportamentos extremos, por que a ausência da luz tornava belos, quase sublimes, certos actos, escondiam a sua nudez. A coberto da noite, uma bebedeira era uma travessia mágica por uma terra de incertezas e mistério, pontuada até por dificuldades de orientação e lutas internas com o próprio organismo: o trajecto clássico dos heróis das sagas gregas. O espectáculo agonizante do vómito incontido tornava-se na purgação suprema, o sacrifício exigido ao herói para poder voltar a casa, aos braços da realidade nua. Era, sem dúvida, um estranho ritual de afirmação pessoal, de que começava a entender os signos e as recompensas. Tantos mistérios por descobrir na noite, e eu à espera de estranhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Catarina, talvez fosse boa ideia... - mas ela nunca conheceria a minha boa ideia. O trovejar repetitivo de várias motorizadas cobriu o repouso do jardim das Amoreiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São eles, são eles - quase gritava ela. Olhou para mim e acenou-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-os a subir rapidamente a estrada, vindos do Largo do Rato. Era um grupo modesto, em termos de número: sete motorizadas, três delas comportando um passageiro à retaguarda. Considerando o que sentiria mais tarde, o primeiro contacto não me causou uma impressão demarcante. Apenas mais um grupo de apaixonados pelas duas rodas a dar nas vistas, como, pensando bem, todos tentavamos dar, à nossa maneira. De blusões negros ou azuis-escuros, luvas de couro e plástico, capacetes de várias marcas, de botas afiladas ou sapatos normais, de calças de ganga ou fazenda, debruçados sobre o guiador, como cavaleiros impiedosos, não passavam de pessoas normais, frequentadores indómitos da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em breve, mudaria de opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ascenderam a subida das Amoreiras, enquanto Catarina lhes acenava entusiasticamente, e pararam à nossa volta, cercando-nos e fazendo troar as máquinas. Um dos &lt;em&gt;motards&lt;/em&gt;, o condutor de uma Honda reluzente e linda, ergueu a placa do capacete e dirigiu-se à minha namorada. Não o consegui ouvir, e aparentemente, nem ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parem com isso - pediu Catarina ao grupo, e eles deixaram de fazer barulho com os motores. Pareciam muito interessados em mim. Inconscientemente, acerquei-me dela. Percebi que o condutor da Honda era o irmão dela. Catarina continuou: - Mas onde é que vocês estiveram? Sabem há quanto tempo estamos aqui à vossa espera?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pede satisfaçöes ao Morcego. Ele é que nos fez atrasar. Não apareceu a tempo no Guardião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda, já vos disse - ergueu-se o vozeirão do outro, à minha esquerda. - A bófia confiscou o carro do meu primo e tive de ir com ele buscá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Às dez da noite? - perguntou Catarina, incrédula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que não! Foi mais cedo. Mas o carro não queria andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As histórias que tu inventas, Morcego - ripostou o irmão de Catarina. - Ficaste a tomar cervejas com o teu primo e esqueceste-te do encontro. Não era a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E que tal se eu te enfiasse a mão no focinho? - gritou o outro, rispidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rapazes, rapazes, calma - soou uma voz apaziguadora. Eles acalmaram-se visivelmente, o que muito me satisfez. O tal de Morcego tinha um porte que ninguém seria capaz de ignorar. Se haveria alguém no mundo capaz de dobrar vigas de ferro, seria ele. E não estava a gostar nada de me encontrar entre os dois participantes da discussão. - Já viram a má impressão que o namorado da Catarina está a ter de nós? - Virou-se para mim. - Não ligues, pá. É só fogo de vista. No fundo, gostam muito um do outro, só não querem que ninguém saiba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os intervenientes soltaram grunhidos de contestação, mas não proferiram palavra. O condutor da voz calma tirou o capacete e estendeu-me a mão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou o Tóni.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apertei-lhe a mão. Tinha um aperto firme e confiante, a mão seca e quente. Não era novo; teria já ultrapassado a casa dos trinta, denunciava o rosto encovado e os olhos pequenos e mordazes. O bigode espetado cobria-lhe o lábio superior e soltava um hálito envolvente de tabaco. Percebi que era o manda-chuva natural do grupo. Percebi, também, que fui avaliado ao primeiro olhar, e aceite. Ninguém o conseguia enganar. Gostei dele desde a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rui Pedro - respondi com voz firme, tentando não soar como o puto imberbe que me sentia perto daquele homem experiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O madeirense - soltou o irmão de Catarina. - Já deves saber quem sou. Francisco. - E também me apertou a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Detesta que lhe chamem de Chico - confidenciou a minha namorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, um por um, o grupo deixou de ser uma amálgama de capacetes sem rosto para se tornar em nomes e vozes e olhos avaliadores. Fui apresentado ao Morcego, de quem não revelaram o verdadeiro nome (a não ser que aquele fosse mesmo o seu nome!); ao César, ao Alberto, ao João, ao Fernando. E aos passageiros, que se revelaram todos passageiras: Graça, Margarida, Rita, presumivelmente as namoradas respectivas dos três últimos condutores, a quem se abraçavam. Reparei também nas motos: eram diferentes, em marca e modelo. No lusco-fusco da má iluminação da estrada, sö conseguia distinguir quais eram as Hondas e as Suzukis das Kawasakis e de outras. Não percebia muito de motorizadas, pelo que não reconheci imediatamente os modelos; mas notei que se tratavam, quase todas, de máquinas com elevada cilindrada e potência. Excepto a do César: era uma DT.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez fosse boa ideia metermo-nos a caminho - avançou Francisco. - O espectáculo deve estar quase a começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com certeza - replicou a irmã dele. - Não vim aqui para conhecer o jardim das Amoreiras. Quem leva quem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu posso levar-te a ti. E o Rui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu levo o Rui. Não te importas? - sorriu-me Tóni.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indiquei que não com a cabeça, ligeiramente atordoado pela rapidez dos preparativos. Percebera finalmente que iria montar-me numa mota e ser conduzido por um grupo de motards profissionais, completamente estranhos, que nunca encontrara anteriormente. Não sei o que esperava, quando Catarina propôs a ideia, mas decerto nunca imaginara que teria de andar naqueles veículos. A ideia assustava-me de morte. Mas não lhes podia dizer, não poderia mostrar o meu receio, seria a derradeira humilhação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que não me importo - reforcei com palavras. - Vamos a isso. - E por dentro, tremia como geleia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje a Marília não veio - disse Catarina, montando com segurança e experiência o banco traseiro da Honda do mano. Era mais uma afirmação do que uma pergunta. Tóni sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem exame amanhã. Teve de ficar a estudar - disse este. Na sua voz, percebi uma mistura leve de perturbação e orgulho. Seria irmã? Namorada? Deveria ser nova, mais do que ele, se ainda estava a estudar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As consideraçöes abandonaram depressa o meu espírito. Nada permanecia fixo nele, ante a ideia de viajar num daqueles cavalos de ferro com aspecto tão enganadoramente pacífico. Tóni seguiu o meu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguma vez montaste num trovão, Rui? - Deu uma pancadinha afectuosa na moto. - Alguma vez sentiste que tinhas um animal poderoso preso entre as pernas, e que se te enganasses a comandá-lo, isso te custaria a vida? - E num à-parte que conquistou gargalhadas de todo o grupo: - E não me refiro a mulheres...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abanei suavemente a cabeça. Tóni ligou o motor, e o trovejar encheu a atmosfera. Dei um ligeiro sobressalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouve-me isto. Um demónio puro encarcerado numa jaula de aço e fogo. As chamas lambem-lhe o dorso, levando-o a urrar de agonia. Consegues entender o que grita, Rui? Consegues sentir a vontade que tem de fugir? - Os olhos brilhavam como faróis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- És um verdadeiro poeta - cortou Francisco com o tom de quem se lhe esgostava a paciência. - Posso lembrar que já estamos atrasados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens razão - respondeu Tóni, perdendo um pouco do ar evocativo. - Monta, Rui. Com respeito, como se montasses um animal. Esta é a Suzuki GSX R 1100, a moto mais veloz do mercado. Cento e cinquenta e cinco cavalos de pura raça. Segura-te bem - e depois, quase num sussurro, virando a cabeça para trás, encontrando-me já sentado: - Não te preocupes, não irei muito depressa. Mas agarra-te bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A máquina vibrava entre as minhas pernas, fazia-me estremecer o corpo todo. Era uma sensação estranha, parecia realmente viva. Uma besta de ferro. Fechei as mãos em torno do apoio traseiro como se agarrasse um cabo salva-vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E partimos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113845727123068860?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113845727123068860/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113845727123068860' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113845727123068860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113845727123068860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/encontros-imediatos.html' title='Encontros Imediatos'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113824486590849048</id><published>2006-01-26T03:03:00.000Z</published><updated>2006-01-26T03:10:03.723Z</updated><title type='text'>Série Convergente (Guião)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Linha Temporal da Narrativa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A narrativa decorre em momentos temporais distintos que são expressamente assinalados no contexto de cada cena – maioritariamente em dois dias seguidos (designados por «ontem» e «hoje»), mas igualmente em momentos anteriores a esses dias (designados pelo mês do ano, apenas para referência da ligação entre si). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez que a narrativa é não-sequencial, e que o significado de cada momento temporal não é revelado por completo logo quando surge (pelo que estaremos continuamente a revisitar momentos com entendimento diferente), é crucial que a transposição cinematográfica tenha em consideração a individualização das sequências pelo recurso a técnicas de iluminação, cor e fotografia, pelas diferenças no estilo de filmar ou por pistas auditivas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1 – EXT. CASA DE PRAIA DE JORGE – HOJE PELA MANHÃ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imensidão do céu, azul e límpido pela manhã, possivelmente de finais de primavera. Estamos acima da linha do horizonte. A câmara roda e entram no plano sinais de nuvens de fumo, fumo muito negro e que progressivamente vai ficando espesso à medida que focamos a coluna principal de fumo. A cena decorre em SENTIDO TEMPORAL INVERSO: as nuvens descem do céu, convergem para a terra, contraem-se ao invés de se expandirem. A câmara desce para acompanhar esta convergência. Agora já se discerne o horizonte, vêem-se casas e montes e talvez um pouco de mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A câmara fixa-se numa vivenda, em plano picado. Uma parte do tecto desabou e o interior arde em enormes labaredas – mas como continuamos em sentido inverso, as labaredas não se espalham mas vão minguando e vão deixando livres e intactas partes da casa. Um carro vermelho está estacionado à entrada, coberto e amassado por pedras e tijolo desfeito, argamassa e madeira; ao redor, o jardim está igualmente sujo destes materiais, e fuligem e papeis a arder voam pelo ar em direcção ao incêndio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, as labaredas recolhem-se, e os detritos que cobriam o carro e o relvado erguem-se violentamente no ar e convergem de forma abrupta para o lugar que ocupavam no traçado da vivenda. O carro perde a amolgadela. O fumo entra no buraco que rapidamente se vai fechado, vai sendo preenchido pelo detrito que se revela como parte integrante da casa. A explosão recolhe-se como uma rosa que fecha as pétalas. E de súbito a vivenda fica inteira e incólume, e voltámos à manhã perfeita de primavera.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2 – INT. CAFÉ DE AUTOESTRADA – NOITE – (PASSADO: Janeiro)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO surge da casa de banho de um café de bomba de gasolina como os que se encontram nas autoestradas. O café apresenta janelas amplas, por onde se vê a estrada e o estacionamento, e se percebe que cai uma tempestade forte, cobrindo os vidros de chuva. Há poucos frequentadores, a maioria concentrados numa televisão colocada no alto da parede, ao fundo. Vestem roupa de inverno, cachecois e gorros no caso de algumas crianças. Por todo o café vêem-se decorações de Natal, e talvez mesmo uma árvore enfeitada de plástico se encontre ao canto. Fixada na parede, uma grinalda anuncia votos de Feliz 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António está nos cinquenta e poucos anos. Tem a barba por fazer e o cabelo despenteado, o que lhe dá um ar bastante desmazelado. Veste uma camisola de gola alta, forte, e um casaco de cabedal. Avança para uma mesa, onde HELENA o aguarda, de cigarro na mão. Helena é mais cerca de quinze anos mais nova, e tem uma aparência confiante, cheia da sensualidade e segurança de uma mulher madura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António senta-se de forma pesada. Apercebemo-nos do rosto pálido, dos tremores e do suor, do ar de extremo desespero. Fecha o casaco com força como se tivesse muito frio. Por cima da sobrancelha esquerda escorre um fio de sangue proveniente de um corte extenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(preocupada)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;António, quem era? Morreu alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(abanando a cabeça)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não, não. Era do trabalho. Papeladas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;E deixou-te assim tão preocupado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Senti-me mal disposto, tive de ir à casa de banho. Não é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Mal disposto com o quê? Queres que peça alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Deixa estar, já passa. Tenho de descansar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Foi do almoço? A mim não me afectou. Deitaste... cá para fora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Se vomitei?... Sim, sim, foi isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;E desmaiaste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(indicando com o dedo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Estás a sangrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António leva a mão à sobrancelha e encara o resultado. Fica transfigurado a olhar os dedos esticados, e lágrimas começam a surgir lentamente e a escorrer-lhe pelo rosto. Cerra os punhos, encosta a cabeça. Helena mostra-se preocupada, levanta-se e vai sentar-se do outro lado da mesa, ao lado dele, para confortá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Pronto, António. Pronto. O que foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Desculpa, desculpa. Isto é stress. E mal estar. Tudo junto. Não ligues. Que vergonha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Vergonha de quê, António? Tens de ter cuidado contigo. Olha, precisas de tomar qualquer coisa quente. Deixa-me ir buscar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(virando-se para ela de repente, agarrando-lhe no casaco)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não vás, fica aqui.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Pousa a cabeça no ombro dela)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sabe bem. Incomoda-te?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Claro que não.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Afaga-lhe o cabelo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Vá, descansa. Já passou. O que quer que tenha sido. Temos de limpar isto. &lt;br /&gt;&lt;em&gt;(começa a tratar-lhe da ferida com guardanapos que retirou do dispensador da mesa)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António queixa-se de dor. Riem-se ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Sou um bebé crescido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Com barba e dois metros de altura. Alguém te deu um murro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Bati com a cabeça... Fiquei meio atordoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(em tom de brincadeira)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não tinha notado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continua a tratar dele. António fecha os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Sabe mesmo bem. Há muito tempo que não cuidavam assim de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Então para que servem as tuas amigas de ocasião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Ó Helena, já nem essas tenho. Até isso se perde com a idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Qual é o mal de ter-se cinquenta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;É o cansaço, Helena. Ver o que se alcançou a fugir-nos das mãos e ser preciso recomeçar. Começar a vida de novo. &lt;em&gt;(Pausa) &lt;/em&gt; Não me via a fazer isto com esta idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;O quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Sabes, sempre quis ter filhos. Queria tê-los cedo, como os meus pais. Queria chegar a esta idade com filhos já crescidos, talvez casados, e ter netos. Não sei porquê. Talvez a continuidade, não sei. Sempre me senti confortável rodeado de juventude. Mas depois a Maria adoeceu e não pode engravidar. E decidi ficar ao lado dela. Pensei, ainda pensei muito, em deixá-la e ir atrás desta vontade. Mas não me sentia bem abandoná-la. E gostava dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;E no fim ela deixou-te...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Deixou-me com os meus sonhos por realizar. Este é um dos meus cansaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Podes sempre encontrar alguém mais novo, e concretizar esse sonho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Não seria o mesmo sonho. A mesma família. E não posso ir à procura porque me apaixonei entretanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena fica calada durante uns instantes. Nota-se que ficou afectada pela última observação, mas persegue outro assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Foi o teu destino. Não se consegue lutar contra isso. Nem prever o que vai acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Pausa. Parece ponderar no que Helena disse)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não tenho medo do futuro. Só tenho medo de não ter futuro. Que não aconteça nada de extraordinário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Não tens medo de morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Não... já não tenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Eu tenho. Imenso. Às vezes ponho-me a pensar, se soubesse o dia da minha morte não ia aguentar a expectativa. Tentava suicidar-me antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Isso é uma contradição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(rindo-se)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Talvez. Mas o conhecimento seria insustentável. Saber que tudo o que nós fazemos, todas as nossas preocupações mais pequenas, tudo isto vai desaparecer naquele dia, naquele instante, e a nossa história, seja ela qual for, é ali que acaba. O ponto final. Não te assustaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Mas não se pode fugir a isso... Não interessa mais qual a história que se vive até acontecer? Que tenha um desenlace? Que não fiquem pontas soltas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;De que é que estás a falar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Imagina o seguinte. Estavas a começar uma relação. Estavas ainda na fase em que podias sair sem grandes mágoas, em que não sabes bem no que é que vai dar. Uma relação é um nevoeiro cerrado. Não vês o fim do caminho, não sabes o que vai acontecer. Isso até faz parte do interesse de uma nova relação. Mas imagina que o dia ficava claro. Imagina que o nevoeiro se levanta por umas horas e dão-te a conhecer o desenlace. Se calhar vais casar, ter putos e ficar para sempre junto da pessoa, ou então divorciam-se passados vinte anos, cheios de dívidas e de mágoas. Se calhar só dura seis meses, até encontrarem pessoas melhores. Se calhar gostam muito um do outro, mas o trabalho ou uma guerra afasta-vos e acabam por arrefecer e esquecerem-se um do outro. Imagina que sabes logo à partida que não vai durar para sempre. O que fazes? Decides mesmo assim arriscar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Não sei... é como o dia da morte, não é? Se já sabes o fim, onde é que está a graça? Tudo o que fizeres, todas as tuas escolhas, sabes que não há fuga possível. Vais estar sempre a pensar que vai acabar daquela maneira. Vale então arriscar, fazer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Mesmo que venha a ser a paixão mais intensa de toda a tua vida? Negarias, por muito breve que fosse, vive-la?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Não sei, nunca amei assim... É preciso amar de verdade a outra pessoa... &lt;em&gt;(Pausa)&lt;/em&gt; Isso é uma ideia extramente romântica, António. Não te sabia assim romântico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorri. Ela baixa os olhos, fazendo a pergunta que temia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Isso que tu disseste... é o que estás a sentir por essa pessoa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Não consigo deixar de pensar nela dia e noite. Sinto-me como um adolescente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;E ela... sente o mesmo por ti?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(docemente, virando-se para ela)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não sei. Sentes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(subitamente comovida)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;António! Já não me faziam corar há imenso tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Fica-te bem. Pareces uma adolescente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Adolescente com rugas à mistura... Então e os teus sonhos? Os teus filhos? A tua família grande? Não te vais arrepender mais tarde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;Esse não é o nosso destino. É outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELENA&lt;br /&gt;Como é que podes ter tanta certeza? O dia clareou, e viste o fim do caminho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTÓNIO&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(sorrindo, afagando-lhe as mãos)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Só tenho a certeza do que sinto por ti. E do dia de hoje. E de que nos espera uma grande história. Juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um telefone começa a TOCAR de forma insistente. António e Helena são totalmente alheios ao som. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena toca-lhe no rosto, comovida. Olham-se durante uns instantes. António inclina-se para ela. Beijam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone continua a tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua na próxima quinta-feira)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113824486590849048?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113824486590849048/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113824486590849048' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113824486590849048'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113824486590849048'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/srie-convergente-guio.html' title='Série Convergente (Guião)'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113823025344859577</id><published>2006-01-25T22:54:00.000Z</published><updated>2006-01-25T23:14:07.366Z</updated><title type='text'>O Deificador (I)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NINGUÉM SABE DE ONDE AS HISTORIAS SURGEM.&lt;/strong&gt; Por definição, as histórias não existem num plano material. Trata-se de uma ilusão sustentada por instantes no tempo, que encerram uma realidade em si mesma, ali contida. Como uma música. A música não tem princípio e não tem fim, e precisa do tempo, precisa da morte dos segundos para viver. Da mesma forma, uma história não tem início, embora tenha um começo. E que fim terá, ou deverá ter? A música só não é eterna porque temos outras coisas para fazer. Este é, a bem ver, um truísmo que aceitamos com unanimidade. Dizer o mesmo da finalidade da história, isso é bastante mais difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O INEVITAVEL &lt;em&gt;SLICE-OF-LIFE&lt;/em&gt; APRESENTADO COMO UMA CONVERSA DE CAFÉ.&lt;/strong&gt; Beijava-a. Ou tínhamos os lábios encostados. Durou cinco, dez, talvez quinze segundos. Tentei, na forma elaborada que é falar pelos actos numa relação, demonstrar que continuava interessado nela. Isto não era necessariamente verdade, mas atravessava uma fase que não seria melhorada tendo de enfrentar uma crise emocional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela acendeu um cigarro no fim. O bafo fedorento do vicio envolveu-me, deixou-me triste. Talvez isso explique a minha agressividade seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi muito rude da tua parte não teres dito para onde ias ontem à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela soltou uma exclamação de espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Peco perdão, doutor saio-quando-quero-com-os-clientes-e-nao-dou-cavaco. não sabia que tinha de pedir decreto a Vossa Excelência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não saio por prazer mas por negócios. Sabes disso. - A conversa estava gasta, não íamos a parte nenhuma. Um dia não voltaríamos sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, claro, copos e putas, o auge da produtividade. Isso faz avançar a economia do pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, não quero discutir. Estou cansado. Devias tratar-me com mais respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cada um tem o respeito que merece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não o mereço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez não na totalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que fiz eu para me tratares assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela calou-se. Havia uma certeza feminina naquele silêncio de que me dizia ter atingido a ferida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então? - insisti. Ela brincava nervosamente com os dedos, a preparar-se para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deste o emprego àquela Rita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céus: territorialidade, controlo e dinheiro. Que fúteis são os animais humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não foi por minha vontade, já te expliquei - menti descaradamente. A Rita tinha o melhor par de mamas de todas as secretárias, e o facto de ser a minha fazia os outros directores pretos de inveja. Não, nem sempre tem a ver com sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expliquei-lhe de novo como era vítima das circunstâncias. Como a empresa cortava custos e tinha encontrado na Rita uma ajudante disposta a trabalhar por pouco dinheiro - o que era verdade. Como seria melhor para ela prosseguir uma profissão autónoma e não ser vista como uma protegida por ter um relacionamento com o chefe - o que também era verdade. Só não lhe expliquei que tê-la por perto iria prejudicar gravemente os meus &lt;em&gt;flirts&lt;/em&gt; ocasionais e impedir a justica das minhas desculpas de trabalho excessivo. Nem toda a verdade deve ser dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela não aceitou. Fingiu, apagou o cigarro, disse que tinha de voltar, combinámos para o dia seguinte. Demos um outro beijo, ainda mais seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria a chegar ao fim? Vi-a partir. Pensei o que seria estar sem a certeza da sua presença, e senti-me triste. Ao mesmo tempo, algo impedia uma maior intimidade. Não tinha a certeza de que aquela fosse a dita pessoa da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telemóvel apitou, indicando que tinha uma mensagem. Tempo de voltar ao mundo real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NO QUAL A HISTóRIA DEIXA DE SER O QUE PARECIA E SE TORNA NUM OUTRO QUALQUER OBJECTO.&lt;/strong&gt; A mensagem dizia simplesmente &lt;em&gt;O seu aparelho pessoal de vigilância detectou sintomas de infecção por ficcionite. Foi enviado um alerta automático para os serviços de saúde mais próximos. Deve aguardar a sua chegada. Evite entrar em contacto com outras pessoas ou interagir com objectos. Não se desloque do sítio em que está. Não comunique com ninguém, seja visual, oral ou gestualmente, por via telefónica, internet ou outra. Não escreva mensagens nem as leia. Se se encontrar rodeado de pessoas diriga-se a um sítio isolado rapidamente, em que possa ficar sózinho; os melhores lugares são casas de banho. Lembramos que a ficcionite crónica é uma doença altamente contagiosa, da qual é quase impossível recuperar. Em 100 infectados, 99 não conseguiram recuperar a vida que tinham. Para mais informações, ligue 89888998. Este foi um serviço do Centro Nacional de Saúde - protegemos a sua vida com um sorriso.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;THIS ISN'T FUCKING HAPPENING!&lt;/strong&gt; O momento do pânico. Agarra o telemóvel, relendo o texto em que não quer acreditar. Nada mais existe de repente. Nada mais existirá. Aquele é o momento da verdade. O tal que enquadra a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A SENSAÇÃO DE QUEDA DESCONTROLADA.&lt;/strong&gt; Vertiginosa, as mãos brancas, o rosto pálido e suado, os olhos brilhantes de corça apanhada pelos faróis do carro, a cara de rato encurralado a um canto, a boca aberta de quem se afoga, o tremor violento, incontrolável de quem encara o chão a aproximar-se do rosto e sem pára-quedas. &lt;em&gt;Ecce homo &lt;/em&gt;cinco segundos antes do embate. Quatro. Três. Dois. Um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o telefone toca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CHEGUEI À ENCRUZILHADA E NÃO SEI DECIDIR.&lt;/strong&gt; O telefone decide por ele. Continua a tocar. João - porque era esse o seu nome - continua a encará-lo abismado. Abismado no sentido de quem encara um abismo e não sabe se pode voltar para trás. Olha em volta mas descobre ninguém interessado, o café está estranhamente desprovido de gentes, e as pessoas sentam-se ao longe. O visor indica número desconhecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deverá ele:&lt;br /&gt;a) atender e arriscar contacto com um personagem ficticio que lhe vai estragar a vida&lt;br /&gt;b) ignorar e não receber o aviso do sistema de saúde que lhe salvará a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A indecisão não levou a melhor no fim. Pois eram muitos os anos de programação genética para responder a chamadas telefónicas. Até na idade das cavernas o berro dos bichos de plástico era imediatamente satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não iria interagir. Ouvir sem falar. Talvez nem ouvir. Risco nulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;NA QUAL O SILÊNCIO CONSTITUI UMA ANTÍTESE.&lt;/strong&gt; Porque foi esse o brinde imediato. Silêncio. Nem sequer estática. Apenas a constatação da ausência de som, a indicação de um problema. Neste ponto diferimos dos homens das cavernas: estes não se espantariam se um objecto não falasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para o visor. A chamada estava activa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fez o que tinha a fazer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está aí alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;arrependendo-se logo logo de seguida, sim logo de seguida mas sem ter muito tempo para pensar em arrependimento pois&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- És tu, João?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;soou do outro lado o que lhe trouxe suores frios e uma imobilidade tal que ficou rígido de telemóvel na orelha a pensar Já fizeste merda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece-me a tua voz…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Merda da grossa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, fala comigo, tenho tantas saudades tuas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e finalmente uma reacção, que se traduziu em desligar abruptamente, ficar a encarar o objecto, o coração disparado, a cara de peixe fora de água, a olhar em volta, a apalpar os braços, a limpar o suor da testa. Sim, ainda ali estava. Não havia seres estranhos em torno de si. O café mantinha-se, a bica na mesa, o bolo meio comido, as pontas mal fumadas que ela deixara. Teria escapado? Lembrou-se de um truque, escutado numa festa ou no emprego, e tirou o bilhete de identidade da carteira. Ali estava a fotografia, solene e de gravata. A impressão digital, uma assinatura que lhe parecia familiar. Nome próprio, nome do pai, da mãe, idade, tudo parecia estar certo. Se os teus documentos forem reconhecíveis, é bem possível que estejas safo. O que nunca chegou a perceber bem se era pela mudança da memória se era por a doença mudar toda a realidade excepto a memória...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MIL E UMA RAZÕES PARA ESTAR SATISFEITO:&lt;/strong&gt; pensando bem, era só um telefonema trocado. E não tinha recebido outro de volta. Engano, de certeza. Ou alguém que não reconhecia. Voz de mulher. Muito agradável. Saudades, dizia ela. Sabia o nome dele… bem, lá seria coincidência. Ou algum &lt;em&gt;flirt &lt;/em&gt;que tivesse ido longe de mais na cabeça dela. Não tinha culpa de ser atraente. Não caíam como moscas, mas algumas grudavam. É aquele tipo de mulher, acasala para a toda a vida. Nesse aspecto, quem seria? Que parvo, ter-se deixado levar pela porcaria da mensagem. Se calhar até tinha sido brincadeira. Sim, tudo relacionado. Que grande totó!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o telefone toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DE PEITO ERGUIDO &lt;/strong&gt;atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- João? João, és tu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez seja. Com quem deseja falar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- João, não me faças isso, por favor. Não vês que me magoas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha senhora, vai ter de me dizer quem é, não estou a reconhe… espere, espere, não chore. Não chore. Diga-me só…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- João, é a Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alice?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A tua esposa. Alice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui atira com o telefone para o chão, trepa pela cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é casado. Não conhece nem conheceu nenhuma Alice. Não com os olhos dela…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra-se de uma aliança no dedo. Não não tem nenhuma aliança…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra-se de. Não não se lembra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO! Céus, o que foi fazer? &lt;em&gt;Não comunique com ninguém.&lt;/em&gt; Porquê? Porquê ele? Porquê ele, a grande besta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não teria remédio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;UM POUCO DE SANIDADE ENTRA PELA PORTA.&lt;/strong&gt; O homem encara-o, vê o telefone no chão e percebe de imediato. João sente-se pequeno ante o olhar de reprimenda do outro. Tenta pedir desculpa. Mais dois homens entram, de sensores na mão. Medem o ar, João não sabe porquê. Só então nota que estão todos vestidos de cinzento. A meia-lua do Serviço Nacional de Saúde – lua = sorriso – brilha estampada no ombro esquerdo de cada um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenha calma, vamos medir a gravidade do problema. Conte-me o que houve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João tem dificuldades em falar. A custo, traduz em palavras a breve conversa. O semblante do enfermeiro é de reprimenda mal contida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor recebeu, leu e entendeu o nosso aviso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe que não devia ter iniciado conversa ou contactos com nenhuma pessoa e devia ter minimizado quaisquer contactos com objectos ou tecnologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei que podia ser… brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É sempre bom adoptar uma postura céptica relativamente ao perigo. Vamos ver que danos foram feitos. Manais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alfa a vinte por cento. Beta a sete. Ómega a trinta e dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entreolham-se. O olhar do outro homem parece preocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está alguma coisa errada?, pergunta João, assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não se preocupe. As nossas leituras vão ter de ser certificadas por exames mais profundos, pelo que lhe vamos pedir que nos acompanhe até ao Centro. Aqui fazemos apenas um despiste de emergência, para impedir e tentar fechar as aberturas causadas no nosso tecido da realidade. Não estou autorizado a explicar-lhe o que significa cada um daqueles parâmetros, a não ser que as leituras indicam que chegámos a tempo, ainda no início da formação da ficciofissura. Contudo, e isto posso dizer-lhe, os valores de ómega normais vão até sete porcento, pelo que trinta e dois é extremamente elevado. É por esta razão, principalmente, que queremos fazer-lhe testes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que significa? Estou livre de perigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não lhe sabemos dizer, senhor João. Fez muito bem em desligar o telemóvel, senão talvez tivéssemos chegado tarde de mais. A ficciofissura foi interrompida, e temos notado que em sessenta por cento das vezes, é o suficiente para não voltar a surgir à mesma pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas com este ómega… - comentou o terceiro homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digam-me lá, o que significa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem… - o seu interlocutor estava indeciso em falar. – Podemos somente dizer que parece estar relacionado com a intensidade e abrangência da fissura em causa. Ouviu falar do caso de Veneza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade que se tornou numa selva subaquática?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim. Foi registado então um ómega de vinte e nove genérico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suores frios…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu caro senhor João, não pretendemos assustá-lo mas simplesmente alertá-lo para o facto de a ficcionite ser uma doença muito perigosa e incontrolável. Não só para si mas para a sociedade. Por isso agradecia que viesse connosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está a ver – disse outro -, através da pessoa infectada a realidade de outro plano perturba a nossa, altera vidas, muda a configuração do universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O tempo fica mais lento ou mais rápido – disse ainda outro -, o céu muda de cor porque na outra realidade a atmosfera é diferente ou o sol tem outro tamanho, terras afundam-se ou cobrem-se de gelos, animais monstruosos surgem do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas isto só nos piores casos – disse o primeiro, apaziguador -, pois normalmente é só a vida da pessoa infectada que muda. Esquece os amigos, perde a família, todo o passado dessa pessoa fica diferente. É como se entrasse num caminho alternativo, uma outra versão de si mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céus, não me assustem ainda mais! Podem curar-me? Estou ainda doente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A fissura ainda está aberta, pois senão não teríamos conseguido a leitura, mas encontra-se controlada. Nós somos potenciadores desta realidade. Sabe como funciona esta doença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sei é o que é contado na televisão e em conversas. O que não é muito e sempre cheio de contradições. Preferia ser informado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As contradições são naturais. Ainda é tão pouco o que sabemos… Muito simplesmente, senhor João, o senhor neste momento está a ser retratado num livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como assim?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Num livro ou numa pintura ou num filme ou numa conversa. Alguém está a falar de si, deste momento e possivelmente de nós todos. É assim que a ficcionite funciona. Tornam a vítima em personagem, e logo ficam com o controlo absoluto da sua vida. E de tudo o mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu faço parte de um livro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez. Não sabemos muito bem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso não faz sentido nenhum! Como é que uma pessoa normal pode fazer parte de um livro noutro lado? Como é que vocês provam isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai ter de confiar em nós, senhor João. Não podemos falar sobre o assunto ao pé de uma fissura. Senão quem estiver a ler fica a saber, e pode travar a nossa acção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se nós somos personagens…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como lhe dissemos, controlámos a fissura. Quem quer que esteja a falar de nós, apenas pode relatar, não alterar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou perfeitamente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compreendo, senhor João. Pode acompanhar-nos então? Podemos ir respondendo a mais perguntas pelo caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estou livre de perigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por enquanto ainda não. A ficcionite é o senhor que a tem. Vamos tentar impedir que fique pior ou que tenha uma recaída. Rapazes, já temos tudo o que precisamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Análise feita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos fechar esta filha da mãe. Manais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já estou nessa. Está quase. Pron&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113823025344859577?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113823025344859577/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113823025344859577' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113823025344859577'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113823025344859577'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/o-deificador-i.html' title='O Deificador (I)'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113815099719214089</id><published>2006-01-24T00:59:00.000Z</published><updated>2007-07-30T10:52:29.344+01:00</updated><title type='text'>Ionesco à Solta</title><content type='html'>[Eliminado. Uma versão revista e melhorada deste conto aguarda aceitação numa publicação nacional.]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113815099719214089?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113815099719214089/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113815099719214089' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113815099719214089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113815099719214089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/ionesco-solta.html' title='Ionesco à Solta'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113815075647989465</id><published>2006-01-23T00:55:00.000Z</published><updated>2006-01-25T00:59:16.490Z</updated><title type='text'>Memórias do Futuro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;em&gt;Bobby didn't like the world much after a really good movie in any case; for a little while it felt like an unfair joke, full of people with dull eyes, small plans, and facial blemishes. He sometimes thought if the world had a plot it would be so much better.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Stephen King&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Decidimos hoje o futuro do nosso filho. Seria um médico famoso, especialista em neurocirurgia remota; aos vinte e oito anos descobriria um método prático para remover tecido danificado do cérebro humano e substituí-lo com tecido de crescimento, através da utilização de ultrassons para dar ordens aos nanobôs cirúrgicos, contrariando a prática corrente que preferia a comunicação electro-magnética. A primeira operação com sucesso seria executada num paciente que tinha vivido em estado vegetativo durante quinze anos, e que a família mantivera vivo, a aguardar que a tecnologia se desenvolvesse para o salvar. Esse paciente encontrava-se hoje a brincar alegremente nas praias do sul: tinha onze anos e não fazia a mínima ideia que, na data em que receberia o doutoramento, uma pequena veia iria rebentar no seu cérebro e o faria mergulhar num sono profundo e demorado. Os pais, tendo sido avisados do destino do nosso filho, vieram cumprimentar-nos e agradecer-nos por tudo o que de bom ele lhes iria trazer.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Foi a primeira comprovação real de que tínhamos decidido bem, embora a escolha daquele futuro tivesse implicado uma fatia muito grande dos nossos ganhos actuais e futuros. Mas as opções eram limitadas. A geração vindoura atravessaria um período calmo em termos sociais, sem desafios nem crises que implicassem o surgimento das grandes personalidades públicas. Poderia ter sido músico ou escritor, ou mesmo estadista. Médico pareceu-nos nobre. O meu pai foi médico, de uma forma modesta e limitada, pois os meus avós não tinham muitas posses. Trabalhou durante décadas num pequeno consultório com vista para o centro comercial, sem viajar nem fazer grandes gastos, para me poder dar o melhor futuro que lhe fosse possível. Empenhou-se ao máximo, mas eu nasci e cresci sem dívidas. Foi o meu maior mentor na vida. Queria que o meu filho lhe seguisse as pisadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, era tudo uma questão de dinheiro, agora. Não conseguia imaginar como seria no tempo do meu pai. Como teria para ele sido possível arriscar e confiar no futuro sem saber o que iria acontecer, sem se poder planear o progresso e o desenvolvimento do filho. Morreu cedo de mais, antes de me ver pai, antes de ser avô, um homenzinho triste e derrotado pela vida, a quem a mulher abandonou para se casar com um artista. Não queria que o mesmo acontecesse comigo. Não queria ficar na ignorância do que estava reservado à minha descendência - um livro a que nunca conheceria o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o meu pai não aprovasse o que ajudei a montar. Naqueles tempos, a ideia do livre arbítrio confundia-se com a identidade do «eu», e qualquer ataque à liberdade do indivíduo punha em causa a legitimidade da prática ou da invenção. Mas não seria mais perigoso manter a sociedade desgovernada, sem um plano e uma orientação, à mercê do progresso e dos caprichos humanos? Não seria mais perigoso deixar os assassinos potenciais à solta, desenvolvendo-se no meio de nós, alguns tornando-se em ditadores políticos ou religiosos? Gostariam que o vosso filho se tornasse num deles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos os meios para controlar a situação. A informação gera mais informação, o progresso tende para o progresso. Quando a sociedade se tornou demasiado complexa, passou-se oficialmente o controlo para as inteligências artificiais, que na prática já o detinham. O futuro, pelo menos em traços globais, tornou-se moderadamente previsível e muito mais seguro. Sabia de antemão quem era o meu filho. O que o fazia mexer, o que o irritava. Com quem se casaria. Quem o abandonaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, contudo, não podia saber, para não contrariar o destino que estava traçado. Podia romper para sempre connosco, se descobrisse antes de tempo. Mas só lhe iríamos contar quando ele próprio compreender, quando também for pai. Sabíamos desde já que iria barafustar, mas acabaria por compreender. Pois que pais, podendo, não desejariam o melhor para os seus filhos?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113815075647989465?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113815075647989465/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113815075647989465' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113815075647989465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113815075647989465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/memrias-do-futuro.html' title='Memórias do Futuro'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113793184781856211</id><published>2006-01-22T12:10:00.000Z</published><updated>2006-01-22T12:19:35.576Z</updated><title type='text'>Merry-go-round</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(terceira e última parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro mês do último período desse segundo ano encarregar-se-ia de me instruír na realidade. Tinha feito amizades novas, perigosas, daquelas que se desfazem em fumo nos momentos de aperto. Avançávamos destemidamente para o coração das trevas como putos marginais do liceu, tornados verdadeiros terroristas numa multidão de estudantes. Eu adorava a situação; não que julgasse mal os meus colegas mais aplicados (eu próprio fazia, quando necessário, as longas abluções perantes os manuais todo-poderosos), mas considerava a sua existência cinzenta, sem o à-vontade do dom natural que julgava possuír. Queria sentir a aresta do proibido na fenda das mãos, abrir cofres, violar intimidades, descobrir que tipo de pessoa emergiria do centro deste turbilhão de ignomínia. Infelizmente, descobri-o; e não gostei do que vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos mergulhado no álcool até altas horas da noite e percorríamos as ruas cheios de bravata, à procura de sarilhos. Éramos três, apenas, eu, John, e um rapaz do West End que baptizáramos de Garfield por um motivo obscuro, para muito seu pesar. Eu era o único estrangeiro, the alien. A designação estrangeira soava quase sobrenatural, inumana. Quase me transformava numa figura ante o comando de forças poderosas que escapavam à minha compreensão, mas que deixava invadirem-me o corpo, na mudança da hora. Acontecia de facto uma transfiguração. Não me sentia completamente lúcido naquela noite, e a causa não se devia unicamente ao álcool. Passava entre nós uma corrente eléctrica de cumplicidade e desejo, que fazia brotar as ideias mais loucas e nos enchia de vontade de cometer proezas loucas, desafiar. Atravessávamos as ruas escuras a cantar obscenidades sem nexo; caminhámos por muito tempo, ou assim nos pareceu, sem encontrar viv'alma - o que nos desgostava. Faltava-nos um alvo em quem descarregar o mais perfeito dos projécteis. Nesse instante, John teve a ideia que seria o clímax da noite. &lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Iríamos roubar um carro. Não um carro qualquer, assegurou-nos ele. Iríamos aliviar o seu próprio pai de um Mercedes último-modelo, e experimentá-lo na estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um filme, dirão. Em que de súbito surge o pretexto para mostrar cenas com carros desportivos a alta velocidade, em estradas desertas, e perseguições policiais. Foi o que pensei de imediato. Mas havia uma história por detrás daquele desejo. O pai de John morava numa das zonas ricas da capital, numa vivenda que, se bem que não luxuosa, seria pelo menos bem abastada. John vivia com a mãe num apartamento de três assoalhadas no outro extremo. Os pais estavam divorciados, alegadamente devido a maus tratos por parte do marido, apesar de nunca se ter conseguido provar isso em tribunal. Mas John lembrava-se desses tempos de martírio - embora não o quisesse admitir. Desviava os olhos e estremecia, como se assolado por um arrepio de frio, se o assunto fosse ligeiramente mencionado. Aprendemos a nunca lhe colocar perguntas, mas secretamente eu adivinhava. Adivinhava que não seria apenas a mãe a vítima desses maus tratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai ganhou a disputa em tribunal. Concedeu o divórcio e entregou o filho, mas não se obrigou financeiramente. Desligou-se por completo da educação do seu rebento genético, devotando-o ao abandono. De modo que também John frequentava a faculdade ao abrigo de uma Bolsa da Assistência Social, visto a mãe, secretária de escritório, não auferir o suficiente para o sustentar. John vivia cheio de raiva. O rosto do pai, nos seus olhos, tinha a forma redonda e concentrada de um alvo. E eu encontrava nesse desejo o eco ampliado de um certo tempo de criança, que me atraía como um imã. Aderi ao plano daquela noite por simpatia e vingança pessoal, como se pudesse sublimar, indirectamente, parte do que, por mim próprio, havia sofrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O automóvel encontrava-se guardado com sete trancas na vivenda do pai, onde chegámos pouco antes do raiar da aurora. John informou-nos que o pai costumava viajar muito pela Europa, a negócios, pelo que não seria provável que estivesse em casa. E nós, com o nosso estado de perfeita racionalidade, anuímos nessa certeza de imediato, sem pensar duas vezes. Ele também não parava de dizer que tinha as chaves para tudo e sabia decifrar o código que desligava os alarmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não guardo qualquer lembrança do formato da vivenda. Estava muito escuro, e a bebida fazia tardiamente surtir o seu efeito. Não me recordo do tempo que decorreu. A silhueta do carro não passa de uma imagem sem contornos, extraordinariamente negra e aguçada, na minha memória. Mas lembro-me perfeitamente da polícia a irromper de arma em punho, pela garagem. Perdi de imediato qualquer vestígio de ebriedade. O álcool foi substituído pela adrenalina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem seguinte foi a das grades da cela. Sentia-me miserável e sujo. Tinha a alma da mesma negrura da tinta com que me haviam tirado as impressões digitais, e que ainda agora me sujava as pontas dos dedos da mão direita. Não queria falar com ninguém; os últimos meses da minha vida abriam-se-me diante dos olhos como uma flor pela manhã, uma flor negada que descobria a imagem de um insecto vil e traiçoeiro envolto nas suas pétalas, devorando o sumo da planta, a seiva doce que usava como alimento - uma alusão tão simples que fiquei obcecado por ela, deslumbrado pela brancura ofuscante daquele pedaço de vida no prado iluminado. Faltava luz à cela, a luz do dia, testemunho de vida. Precisava de chorar, e no entanto, não o queria fazer diante de tanta gente, à mostra como um animal no zoológico. Só pensava que tinha sido cometida uma asneira monumental; e essa asneira tinha sido minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas passaram. Os pais de «Garfield» vieram buscá-lo, presenteando-nos com a expressão secular do ódio puro, como se tivessemos forçado o querido filhinho a seguir-nos. Não nos concederam uma palavra abonatória. As horas passaram. Sentia um cansaço como nunca sentira; talvez desânimo fosse um termo melhor. Tentei dormir um pouco, mas era impossível fazê-lo no catre desconfortável. Já devia ser manhã; os guardas estavam a ser revezados no turno. Uma leva de homens fortes e decididos por detrás da protecção das suas fardas entravam aos grupos na esquadra, de olhos vermelhos pela obrigação de acordar, mas no entanto apresentando a frescura de um dia que começava; outros abandonavam o turno, também de olhos vermelhos mas inchados, com a lentidão do fardo cumprido. Uma ideia estranha invadiu-me a mente, a de como era possível agir-se tão naturalmente, sabendo que, ao lado deles, pessoas estavam confinadas por detrás de grades, presas, submetidas à vontade e caprichos dos outros. Não costumava pensar desse modo, e sabia que aquela ideia provinha somente do meu presente estado em que saboreava o outro lado da questão. Era necessário que houvesse uma força policial, por que o mundo era um lugar perigoso a necessitar de pessoas que restaurassem o equilíbrio - mas admirava-me precisamente com essas pessoas, e com a forma natural como lidavam quotidianamente com a violência. Gostaria de ter discutido isso com John, que partilhava a mesma cela, recolhido de braços cruzados e mudo num dos cantos. Mas não tinha nada para lhe dizer; nunca mais teria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois apareceu um homem que o levou. Um cavalheiro distinto com o ar austero e frio de quem calculava o dinheiro que a cada instante deixava de ganhar por ter sido obrigado a resolver uma situação incómoda. O pai de John. Antecipara o regresso da viagem de negócios. Trocaram olhares de contenda, mas, no fim, John acedeu em segui-lo. Não soltou sequer um mínimo de toda a raiva que acalentava, agora que tinha o alvo defronte de si - nem, pude observar, jamais o faria. Tinham-lhe colocado o açaime, como se costuma fazer aos cães danados. Fiquei desiludido, embora, racionalmente, não estivesse à espera de atitude diferente. Mas a justificação que John deveria ter apresentado representava a última defesa da integridade e justiça do nosso acto; ficando calado, confirmou o que eles suspeitavam: éramos apenas mais um conjunto de putos malcriados, uns marginais de merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai dele retirou a queixa, e fui colocado em liberdade. O sol recebeu-me com uma bofetada; era um condenado de longa data que finalmente regressava ao mundo da maioria. Pai e filho desapareceram num ápice no carro metalizado. Não se despediram, não me deram boleia. Estava sózinho. E nem sequer poderia aspirar pelo fim de Setembro, pela imagem do Renault cor de cereja a surgir na curva da esquina; como desejei vê-lo, nessa manhã, naquela estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem ter dinheiro para os transportes, fui a pé para a faculdade. Aguardava-me um recado do reitor. Pedia para ir falar com ele de imediato. Fiquei sem pinta de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evidentemente que sabia de tudo. Estava furiosíssimo. Durante meia hora banhou-me com um olhar sem reservas onde se misturava o desprezo e a desilusão. Compreendia o que ele estava a pensar: o aluno mais promissor revelara desprezo pela centelha de genialidade com que estava abençoado, o que o tornava imerecedor da sua riqueza. Falhara o degrau na minha ascenção para o alto; e, quando nos encontramos no alto, o tombo é maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tem consciência do que fez, ao menos?», pronunciou na sua maneira afectada de cidadão britânico. «Tem consciência de que desacreditou um programa de intercâmbio, o qual, por si só, é vítima incessante das conveniências políticas dos nossos países? Tem consciência da importância do nome da universidade? O que o senhor fez é mais grave do que o mero deslaivo da juventude; se fosse apenas isso em causa, talvez pudesse perdoar. Não creio que o senhor seja um marginal. Mas o senhor traíu-nos, senhor Ferreira. Traíu o bom nome desta universidade. Traíu a confiança que depositámos em si. Não creio que seja recomendável a continuação da sua presença neste lugar.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e eu, pequeno e minúsculo no cadeirão de espaldar largo, ouvi o ditar da sentença pelas vozes dos mortos que decoravam as paredes, as fisionomias de pedra, inatingíveis, afixadas nos limites das molduras como janelas do outro mundo que entravam directamente na nossa vontade, ouvi as vozes da sabedoria acumulada o pó das estantes o peso dos tomos e não disse nada absolutamente nada quis que acabasse fiquei à espera que acabasse para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;John ficaria. Garfield ficaria. Esperei desterrado no aeroporto de Heathrow, no meio dos estranhos, meras vinte e quatro horas após o dia da derrota, um dia em que, se tivesse ficado no quarto, quieto e calado, tudo ainda seria possível. Não teria tido de fazer as malas de ombros curvados, não teria de ver a reprimenda nos olhos dos meus colegas, que se calavam durante a minha passagem pelos corredores longos, frios e escuros, não teriam eles tido de fechar as portas. Ansiava por saír daquele lugar, daquela terra, fugir. Mas tinha receio de voltar a Portugal, aos braços dos pais, receio de ver a desilusão também nos seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia-me muito triste e cinzento o céu de Lisboa, quanto aterrei. Eles estavam à minha espera, os dois, pontualmente, de expressão reservada. Surpreenderam-me: não mencionaram o assunto. Foram conversando de pequenas coisas, novidades minúsculas, fazendo perguntas banais. Podiam estar à espera que me abrisse, mas não o davam a mostrar. Agiram como verdadeiros amigos. Pensei: «eles conhecem-me, eles sabem que nunca seria capaz de roubar nada. São os meus pais, e gostam de mim, e eu agi como um ingrato, querendo fugir deles, odiando-os.» E foi então que chorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me deram a notícia logo, disse o meu pai mais tarde, por razões óbvias. Esperaram alguns dias, para que me recompusesse, e só então me chamaram à sua presença, fizeram-me sentar e disseram muito naturalmente, com a graça de quem inclui um comentário numa conversa, o teu tio morreu, e foi só isso que disseram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tio morrera de enfarte. E eu não sabia de nada, não tinha querido saber de nada. Não me preocupara sequer com a saúde daqueles dois seres distantes que pertenciam à minha infância, e a um tempo em que, embora ingénuo, agira com mais inteligência e humanidade do que agora. Senti-me sujo, como se continuasse na prisão. O meu tio havia amado um monstro que escarnecera desse sentimento. Chorei de novo, pelo tempo perdido, pela humilhação, pela perda do meu rumo, por tudo. Mas principalmente pelo tio. Ironicamente, no momento decisivo, não houvera guarda-chuva que lhe valesse. As trevas tinham chamado por ele das profundezas. As mesmas profundezas nas quais me senti afundar, nos primeiros meses do meu regresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi então que vi a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;" align=center&gt;&lt;em&gt;(FIM)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113793184781856211?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113793184781856211/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113793184781856211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793184781856211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793184781856211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/merry-go-round_22.html' title='Merry-go-round'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113793179409489644</id><published>2006-01-21T12:08:00.000Z</published><updated>2006-01-22T12:27:00.360Z</updated><title type='text'>Merry-go-round</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(segunda parte)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhi como residência um bed &amp; breakfast que dava para as traseiras de uma ruela contígua a Leicester Square. Normalmente, teria permanecido na Residencial da faculdade, mas o edifício encontrava-se em obras e tinha-nos sido dada a oportunidade de encontrarmos lugares modestos e baratos, que seriam custeados pela Bolsa. Foi um contributo importante para a minha libertação. A dona da casa era uma velhota irlandesa de modos bruscos mas pacientes, e de uma tez ruiva que deveria ter atraído os rapazes do seu tempo. Bamboleava-se pela casa a arrastar o seu corpo quase cilíndrico enquanto limpava o pó dos móveis e soltava imprecações inspiradas contra a Dama-de-Ferro. Uma guerra decorria nas terras distantes das Falklands, iniciada, segundo percebi, devido a uma questão de orgulho nacional, ou por outras palavras, uma birra infantil. Não se falava de outro assunto na faculdade, uma facção denunciando o conflito, possivelmente com receio do seu próprio destino, outra defendendo a Union Jack até às últimas consequências. A televisão mostrava imagens dos soldados que partiam nos couraçados, e das mães, irmãs e esposas chorosas que ficavam em terra; mostrava o dia-a-dia do conflito naquela ilha pequena de mais para que fosse possível acontecer um drama de tamanha magnitude. O tema entristecia-me; entristecia com a visão de todas aquelas famílias nos cais, temendo terem feito as últimas despedidas às suas crianças.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, enchia-me de enfado: não era a minha terra, não era o meu povo. Havia no ar o travo amargo de uma xenofobia exaltada e ligeiramente ridícula. Era como se o mundo se tivesse virado subitamente contra eles, como se tivessem receio do juízo feito pela História da resposta intempestiva que havia sido lançada contra a ilha do Pacífico, contra o insecto. Não era requerido muito para se iniciar o processo de segmentação e erguerem-se as muralhas. Agiam como rebeldes inconformados, na senda eterna da forma de compensação que alguém, algures, teria de pagar pela queda do seu Império. Não que não encontrasse pessoas excelentes entre os ingleses, que se tornaram minhas amigas, mais tarde - mas, nos primeiros meses de adaptação e convívio, reuni-me aos restantes estudantes estrangeiros, talvez motivado pela semelhança das nossas condições, e formámos grupos para visitar Londres à noite, penetrar na selva urbana em que Lisboa não se havia ainda tornado, frequentar os bares proibidos e as ruas perigosas. Acompanhei-os semi-consciente do risco. Tinha consciência do que se encontrava entre nós, mas, verdadeiramente, não queria pensar em nada, pensar era uma actividade extenuante. Tornara-me num outro eu. Havia um centro de comandos diferente a controlar os meus movimentos e a dar ânimo às minhas paixões. Intocável, enfrentava tudo de peito erguido. Em jeito de loucura, bem sei. Mas não conseguia pensar. O universo abrira-se à minha passagem, havia um caminho por entre as águas. Tinha de correr antes que se voltassem a fechar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corremos o risco, mas não enfrentámos o perigo. æ excepção de um caso ou outro, em que acabava a noite à estalada, naquela dança peculiar do ódio que também é uma filosofia de vida, os excessos da nossa embriaguez foram tolerados sem punição; estávamos, sem o saber, a enredarmo-nos na teia que nos traria a punição maior - mas isso só aconteceria depois, tarde de mais para o podermos antever. Entretanto, escapávamos ilesos, fugíamos para posteriormente regressar e começar de novo a loucura. Todos os fins de semana, semana após semana, mês após mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liberdade para agir implicava liberdade para escolher. E neste sentido, escolhia o melhor modo de aproveitar os tempos livres. Nunca fora um rato de biblioteca, mas adorava livros. Extasiava-me com o cheiro dos livros por abrir, o aroma envolvente daquela polpa de madeira tornada em sabedoria; as narinas ficavam cheias da substância das tintas, os olhos perdiam-se no nevoeiro semiótico das páginas amareladas e empoeiradas dos habitantes da extensa biblioteca da escola onde por vezes passava as tardes de sábado, quando o dinheiro escasseava e eu sabia que tinha de me refugiar das lojas e dos antros do consumismo antes que a mesada da Bolsa fosse consumida. Foi desse modo que encontrei Keats e Woolworth, que me perdi nos meandros de Shakespeare e na rebeldia de Byron. Enquanto os meus colegas ditavam queixumes contra a prisão daquele saber antigo, eu rebolava-me nele como um cachorro se rebola na terra, descobrindo o prazer do conhecimento. Embrenhei-me nesse mundo de tal forma, embrenhei-me naquela cultura e na existência em terra estrangeira, que quando a carta dos pais surgiu, a perguntar por notícias, a recebi com espanto - e duplo espanto tive, ao ler que o pai fora despedido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-me assolado por um ligeiro choque cultural ao contrário. Deixara de escrever cartas, não tanto pela indisponibilidade para o incómodo, mas por que o português se tinha tornado num conjunto de sons pouco familiares, estranhos ao ouvido e repelentes ao sentido. Escutei de passagem dois emigrantes a conversarem na estação de caminho-de-ferro e não reconheci de imediato a minha língua pátria, dei por mim a pensar que raio de palavras seriam aquelas, capazes de invocar recordações adormecidas. Era uma situação perturbante. Não conseguia explicar aos pais, ou a ninguém que não tivesse passado por ela. Mal a explicava a mim próprio. O cordão umbilical desvanecera-se no nó em que se cria mais forte, e eu não estivera preparado. Descobrira que, afinal, o receio dos viajantes era verdadeiro: nem sempre conhecemos o caminho de regresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só conheceria o caminho de regresso quando terminou o período da Bolsa. Aconteceu por minha culpa, antes de completar metade do curso. Sustentar-me-ia durante dois anos consecutivos, o segundo ano mais inseguro, uma vez que atingira o nível mínimo de qualificação disciplinar para me encontrar novamente elegível. Embora não pertencesse mais ao patamar de excelência que me fizera conquistar a Bolsa, consegui continuar a disfrutar dela, atribuíndo o desequilíbrio do primeiro ano à dificuldade de integração, e os pais acompanharam-me no engano. Iniciaria o segundo ano por baixo, confiante mas insensato, após algumas semanas que passei a acompanhar uns amigos luxemburgueses que tinham decidido escolher Portugal para as suas férias. Nesse verão, mal vi a minha casa, os pais, e certamente que não me recordei sequer da mansão distante. Quão longe se encontrava aquele país diferente, rodeado pelo muro, ileso da passagem do tempo e do envelhecimento da memória! Era uma pessoa tão sofisticada, agora, declamando as minhas frases com pronúncia correcta, trocando anedotas com os companheiros de correspondência estrangeira, aprendendo palavrões nas suas línguas e proferindo-as pelos corredores da residência, insinuando-me junto das francesas, embaraçando os professores com o meu brilhantismo. Julgava-me adulto e experiente, tendo visto mais do planeta que os meus conhecidos portugueses, julgava-me possuidor de uma cultura universalista e aberta que em nada se assemelhava à do meu país. As equações eram pássaros que passavam vertiginosamente por nós - e só eu os conseguia ver, distintamente, um a um, adivinhar-lhes o destino. Os outros colegas gaguejavam incertezas. Sentia-me no início da minha ascensão, e os professores vaticinavam-me tal destino, por detrás de portas fechadas, em conversas que mais tarde viria a saber. Acreditava, acima de tudo e com soberba, que me era permitido o impensável; e que, tendo praticado-o, escaparia impune e indemne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua &lt;a href=http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/merry-go-round_22.html&gt;aqui&lt;/a&gt;)&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113793179409489644?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113793179409489644/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113793179409489644' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793179409489644'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793179409489644'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/merry-go-round_21.html' title='Merry-go-round'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113793169620801293</id><published>2006-01-20T12:07:00.000Z</published><updated>2006-01-22T12:27:32.360Z</updated><title type='text'>Merry-go-round</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(primeira parte)&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha quinze anos quando o círculo do tempo que regia a minha vida se tornou numa seta de direcção única sem retorno, e me perdi, perdi-me a mim próprio e ao conjunto de orientações que usava como guia. De súbito, pormenores outrora cruciais pareciam irrisórios, e até infantis. Não me importava mais em manter os pequenos rituais de início de estações, não ansiava por encontrar ninhos na floresta ou acordar antes do sol. Toda essa filosofia havia sido ofuscada pelas luzes da cidade, pelo deslumbramento da noite e do amor. Arranha-céus de betão e vidro polarizado ocupavam, nos meus sonhos, o espaço onde as árvores outrora se haviam erguido; cartazes publicitários e sinais de trânsito recortavam-se de encontro ao horizonte, encurtando a vista, trazendo promessas de admiráveis mundos novos; e, ao invés do canto dos pardais, enchia os ouvidos com o troar ensurdecedor das bestas de pistões e gasolina nas competições ferozes das estradas da capital. Descobrira, também, essa espécie tão misteriosa quanto irresistível que dá pelo nome de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia nas narinas o perfume dela, a fragância evasiva de almíscar que nunca se rendia à definição perfeita, nem se conseguia capturar na atmosfera, era como uma brisa passageira. As minhas mãos afogavam-se na textura macia e fluída da sua pele, deslizavam na água branca da carne que encontrava subitamente nos meus braços, insinuando-se como um animal em busca de carinho, respirando delicadamente contra o meu pescoço nu - e eu, atrapalhado, cobria-me de suores a temer a minha própria igorância, excessivamente crítico em relação a qualquer acto meu, a todas as minhas palavras, de modo que os braços pendiam-me como tentáculos mortos ao longo do corpo e da minha boca só surgiam ruídos guturais e inintelingíveis. Mas então ela ria de agrado e dava-me um beijo, e ficava tudo bem. Era este o meu universo da adolescência.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Escusado será acrescentar que me afastei da mansão de estio. A mudança implicou um sacrifício; para vítima, escolhi-me a mim próprio. Ofereci a pessoa que ocupara os primeiros quatorze anos do meu corpo como moeda em troca do deslumbramento fácil das luzes de néon. Não considerei na época que tivesse feito um mau negócio. Creio que nem sequer parei para pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O verão do ano anterior tinha sido perfeito, em todos os aspectos. Não me recordava de um único dia em que acordasse mal-humorado, ou o vento não fosse de feição à nave do meu espírito. Sentira-me como se uma divindade tivesse descido calmamente à terra e habitasse a minha alma, unindo-a ao céu e à relva, conferindo um rumo onde parecia não haver caminho. Eu era apenas mais um dos elementos do cenário. Havia uma certeza inultrapassável nos acontecimentos, como nunca sentira antes e não voltaria a encontrar. Tinha inclusivamente chuvido no final de Agosto, mas, longe de incomodar, a água cinzenta trouxera uma nova riqueza ao desenho das árvores, ao contraste cromático do céu pesado e ameaçador, ao meu espírito insaciável. E, como companhia, aparecera o Bola de Algodão, o gatinho que os meus tios haviam comprado. O verão impossível de aperfeiçoar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez tenha sido essa a razão do rompimento. Talvez receasse que não fosse possível ultrapassar, ou igualar sequer, aquela explosão silenciosa de felicidade. Talvez nunca tenha regressado daquele lugar, mas apenas a minha figura, e ainda por lá continue a povoar a floresta, a deliciar-me com o desenho intrincado das teias de aranha húmidas de orvalho pela manhã. Mudei. Passados poucos meses, era um estranho. Quando os pais anunciaram que não tinham dinheiro para fazer as férias habituais (corriam rumores de que o emprego do pai não se encontrava muito famoso devido a incompatibilidades políticas - mas, como de costume, era obrigado a adivinhar o que em casa não se mencionava em voz alta), e que não faria sentido deixarem-me em casa da irmã da mãe, e que há muito tempo não passávamos férias em família, para muita surpresa deles não me opus. Não me importei. Quando os tios telefonaram a perguntar por mim, repetidas vezes, não me encontrava em casa, saíra para passear por Lisboa, com mão de outro alguém na minha. Esquecer-me-ia de devolver os telefonemas. O cordão umbilical tinha-se rompido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois, quando o inverno surgiu, arrastando consigo o fim do amor e das promessas, fui votado ao abandono - e então encontrei-me demasiado envolvido nas malhas da fúria e do despeito para me recordar do mundo exterior à minha miséria. Queria fugir a todo o custo, mudar por completo. Não tinha, ou julgava não ter, mais espaço para o romantismo. Abracei a oportunidade de saír do país sem olhar para trás. Um programa de intercâmbio estudantil entre vários países europeus entrou em vigor, e eu lancei-me na corrente. Ao contrário dos pais dos outros colegas, os meus não se oposeram; pela primeira vez, encontrava na sua maneira desprendida de ser um benefício para mim. Fui para Londres, ao abrigo de uma Bolsa de estudo que conquistara com algum suor e artimanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudar no estrangeiro é abrir a porta e saír de dentro de nós próprios. Para um jovem é, talvez, o derradeiro passo na eterna evasão ao ambiente protector da família que permeia os últimos anos da adolescência. Encontramo-nos duplamente sozinhos, não só por sermos completamente estranhos, mas por que a terra é estranha, a atmosfera é estranha, as cores das casas são diferentes, o olhar das pessoas é animado por paixões que desconhecemos. As pessoas são estranhas, é verdade; somos todos da mesma espécie, mas simultâneamente, não somos, estamos regidos por regras de comportamento que dificilmente encontram terreno comum. O mundo nosso conhecido deixa de existir. Não se pode voltar atrás. A solidão cerca-nos e abafa-nos como um predador ante a presa. E temos de sobreviver. Por orgulho. Por vontade própria de conseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acolhi a mudança de braços abertos e sorriso nos lábios - como se fosse o acontecimento mais natural da minha vida. Sentia-me forte, invencível, pronto para qualquer embate e desafio; gostava de me sentir assim. Estava coberto de couro, agora: não me permitia ser arranhado por carências tão irrisórias como a falta de amor dos pais. Não confessaria dependência externa nenhuma, a não ser a que «parecia bem»: a dos amigos da minha própria escolha. Segurava firme nas mãos o leme do meu destino. Ou assim acreditaria por algum tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(continua &lt;a href=http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/merry-go-round_21.html&gt;aqui&lt;/a&gt;)&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113793169620801293?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113793169620801293/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113793169620801293' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793169620801293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113793169620801293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/merry-go-round.html' title='Merry-go-round'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113771701664121596</id><published>2006-01-19T00:26:00.000Z</published><updated>2006-01-20T00:38:23.926Z</updated><title type='text'>Experiência: Cinco</title><content type='html'>&lt;div align=center&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/836/161/1600/111.png"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" alt="Ilustração de André Esteves" src="http://photos1.blogger.com/blogger/836/161/320/111.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br/&gt;Ilustração de André Esteves&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os votos começaram a chegar logo pela manhã. Ilídio, principal-mor dos escrutinadores, começou a disseminar os resultados pelas propostas candidatas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Começam cedo – disse o representante da proposta da Certificação da Qualidade de Informação Online.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A agenda para hoje está sobrelotada – disse Ilídio, retirando da impressora um gráfico de dispersão histórica das demografias de voto. O representante olhou para o calendário e assobiou. – Não vai ser pior que 15 de Fevereiro do ano passado, em que tivemos de apresentar mais de trezentas moções em 24 horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que sessão da tarde é esta assinalada? – o representante apontou para a linha a amarelo. Ilídio nem retirou os olhos do ecran.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a proposta do Morais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Morais vai apresentar uma proposta? – o rapaz soltou uma gargalhada. – Deixa-me adivinhar: descontos no imposto sobre o vinho para a terceira idade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele melhorou muito nesse aspecto... Vai reformar-se, é a grande despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A corte vai ter de encontrar outro bobo... O que é isto, «Fundo para a Exploração de Emissões Extraterrestres Inteligentes»?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Exactamente o que diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este gajo não existe... Bem, vai ser agradável ter um momento de descontracção. Quanto tempo é que falta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A revisão da quota anual de pesca de linguado ao largo da costa está quase a terminar... diria dez minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou descer para os bastidores. Dá-me uma boa iluminação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É indiferente para as câmaras, como sabes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas não para mim. Até logo.&lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align=center&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;Com o recurso dos meios de comunicação pessoais e o acesso barato e instantâneo a informação complexa, o processo da democracia sofreu uma evolução exponencial. A escolha morosa e popularista de um governo que prometia representar os interesses distantes do eleitor desapareceu para dar lugar à participação directa do cidadão no processo governamental. As pessoas deixaram de votar em princípios para votar em propostas concretas, apresentadas na Assembleia e difundidas pelos canais de comunicação vinte e quatro horas, sete dias por semana, por especialistas representantes das várias equipas multidisciplinares que as haviam estudado e elaborado, consoante as moções ou assuntos em debate. Por cada moção, havia normalmente duas ou três alternativas que eram apresentadas à vez, de forma sumária e com particular relevância para o impacto social, tecnológico, ecológico, económico da região ou do país, qual a viabilidade económica e qual a abordagem proposta – no final, as vantagens e desvantagens de cada uma eram resumidas, e a moção ficava uma semana à votação do público, por meios electrónicos e com possibilidade de consulta dos cadernos de estudo e do historial de votações e assuntos relacionados até então acontecido. Tratava-se de um processo muito objectivo e sem azo a interpretações demagógicas, como no passado, pois as equipas provinham do mundo da ciência e das finanças, e não da política pura – que, aliás, não se podia dizer que existisse. A forma que mais se aproximava das correntes antigas era o debate das questões éticas, mas quando era necessário introduzir esta vertente, abria-se um fórum publico de debate, durante um período, e convidados representantes dos vários sectores sociais para intervir e moderar – o que interessava, no fim, era a participação dos cidadãos, e normalmente as conclusões, ou observações, encontradas, enriqueciam o corpo principal das propostas. Desta feita, o cidadão podia intervir directamente nos assuntos que mais lhe diziam respeito e entender melhor as opções em debate, e o que teria de abdicar para obter o que queria. Isto não isentava a existência de lobbies ou tentativas de influenciar a opinião – deixada à solta, a multidão não tem opiniões, mas ideias vagas, e é facilmente influenciável... Contudo, a existência de pontos de vista diferentes por cada moção, trabalhados por equipas distintas e em concorrência, oferecia uma garantia maior de exaustividade e dificultava a tentativa de manipulação. E quem não tivesse tempo para assistir e estudar convenientemente, podia sempre escolher para o representar uma figura pública que considerasse ter ideias parecidas; neste sentido, podia dizer-se que havia ainda políticos, neste caso independentes que traziam no bolso um número de votantes, variável consoante a moção e a sua tendência de voto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era de admirar que um político da velha guarda não se conseguisse enquadrar neste mundo moderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morais era dos poucos que, por todo o mundo, não tendo conseguido adoptar uma nova mentalidade e seguido a maré, persistia em continuar a aparecer nas reuniões da Assembleia, normalmente ficando-se pelas filas de trás, sozinho, absorto e lento a intervir. Provinha de um tempo em que o processo legislativo se fazia pela demagogia e não pela análise de informação. Não conseguia digerir os quadros e números apresentados, julgava as apresentações secas e demasiado práticas, e fugia das respostas binárias e comprometedoras do Sim e do Não. A política que ele conhecia era feita de nuances e tons de cinzento, não de brancos e pretos. Os putos de agora não entendiam nada – mas aturavam-no e aceitavam-no e vinham ouvir as suas histórias, embora não conseguisse passar-lhes as preocupações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas como é que conseguimos representar o povo se não debatemos os assuntos? – perguntava ele na cafeteria, agarrado à sua garrafilha de prata. A rapaziada ficava a olhar-se mutuamente numa atitude crítica; raios para eles, que se julgavam demasiado puros para tocar em álcool; os seus melhores momentos tinham sido quando se encontrava «tocado». – Para cada pergunta, meia dúzia de pontos a assinalar ideias... uma explicação breve e já está...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os assuntos são debatidos nos foruns de estudo – responderia um dos rapazes ou raparigas ou andróginos, vestidos de forma leve mas prática, com as roupas ecológicas e os dísticos ostentando funções e escalão de representatividade. – Onde há especialistas e analistas, e participação do publico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seria uma perda de tempo conduzir isso durante uma sessão da assembleia – diria outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se a proposta não está suficientemente desenvolvida, deverá ser agendada nova sessão – diria o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senão, perdemos tempo e gastamos dinheiro público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se sente que precisa de debater aquela proposta, deveria pedir antecipadamente para participar no seu desenvolvimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raios os partam, estavam todos em conluio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas a responsabilidade... a necessidade do debate... – a cabeça andava à roda – contrariar as opiniões do adversário...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual adversário? O interesse aqui é comum: gerir a sociedade e a economia da melhor forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pela análise do problema e escolha das alternativas mais propícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O país é uma corporação gigantesca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E por isso tem de ser eficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vê os administradores passar dias a debater, e sem informação adicional, baseados apenas em ideais, rumos a seguir no mercado... – a malta riu-se. – Eis porque a máquina legislativa e a máquina executiva estavam tão distantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um ministro define estratégias, políticas a seguir... – diria Morais, a visão turva. Tinha de pedir café. Uma bica, que ainda sabiam fazer neste local, pois até essa droga inofensiva se tinha tornado impopular. Os novos yuppies, mais assustadores que os originais, seguiam dietas intensivas e eram adeptos da terapia genética. Era tudo mais assustador. Principalmente o dia-a-dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas um ministro naquele tempo estava longe de toda a informação necessária para o fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E longe das vontades do povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dependia dos seus secretários e apoiantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A não ser que fosse um político exemplar, mas para isso tinha de perder muito tempo com manobras internas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E tempo é dinheiro dos contribuintes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este estado da nação só é possível pela democracia da informação de que hoje dispomos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estamos contra si – disse finalmente um deles. – As organizações sociais surgem pelas razões que surgem, não é nosso dever julgá-las. No seu tempo, fazia sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lançou-lhes o melhor sorriso, mas não os demoveu. Antigamente era tudo o que bastava. Vinham comer-lhe às mãos, os jovens, sedentos de orientação e sabedoria. Um sorriso e um discurso, e era vê-los de olhinhos a brilhar. Estes eram tecnocratas ao vivo. Não eram maus rapazes, embora fossem de convicções impenetráveis e quase telepáticas. Tanta união num governo assustava-o. Fazia-o pensar em ditaduras. Mas depois, na prática, não era assim, pois aquela malta, como os advogados, era capaz de liderar equipas de investigação sobre pontos de vista opostos e degladiarem-se mutuamente nas Assembleias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos, Ilíado era um pouco diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Até hoje me vais obrigar a fazer isto? – os pontos amarelos e verdes dançavam no ecran, e ele seguia-os com os dedos, tentanto tocar-lhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temos de voltar sempre ao assunto? Faz o teste e está calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas se estou em condições... – as bolas dançavam de um lado para o outro, era difícil segui-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em condições? Bolas, Morais, vais obrigar-me a cancelar a tua apresentação. Olha para estes valores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, Ilídio, pensas que és jovem como eles? A gente vem da mesma geração, do mesmo mundo. Que te custa não ligares a isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ao teste de uniformidade de raciocínio? É como não ligar ao facto que o depósito do avião em que vamos não tem combustível. Quem manda é a máquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dantes quem mandava éramos nós. Desde quando é que tenho de obedecer a uma porcaria destas? – e deu um safanão no ecran.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois, assim é que não te deixo entrar mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabes a quantas sessões assisti completamente bêbado? E muitos dos outros deputados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por isso é que inventaram o teste. Acaba lá isso. Vai com calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um pouco de alcool não faz mal a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morais, há quem beba e mantenha a integridade de raciocínio, mas não consiga conduzir em condições. Outros conseguem conduzir, mas a bebida afecta-lhes a forma como tomam decisões. Cada caso é um caso. No teu caso, tens a tendência de seguir o lado emocional quando estás mais alegre... tomas opções diferentes de quando não estás. E essa inconsistência é o que o teste revela. Por isso é que tens de fazer o teste todos os dias. Para termos um histórico. E não é só a bebida... podes estar com febre, podes tomar um medicamento, e isso é suficiente para te tornar inviável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz de conta que estou com febre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já pus isto mais lento. Acaba lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dava trabalho como um filho, pensava Ilídio, mas de certa forma iria ter saudades. Dava cor a um local muito uniforme, e ele entendia que isso era necessário. Não que ele soubesse fazer alguma coisa: era um político puro da velha guarda, e logo especialista em inflamar discussões, combinar arranjinhos, tomar decisões baseado em pouca informação ou rumores (ainda se lembrava da vergonha que resultara na sua caída final em desgraça, quando Morais se prestou a participar num estudo que provaria que decisões daquela natureza eram geralmente desastrosas; foi a humilhação pública, que o arrasou por completo, e talvez essa fosse a fonte da simpatia que Ilídio nutria pelo ex-deputado), fazer intrigas de gabinete, e favorecer pontos de opinião. Sem qualquer capacidade real de análise, de crítica fundamentada e de gestão. Tudo dons com pouca utilidade nos dias actuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, mas estava a chegar ao fim. Ilídio observou os resultados e a monitorização cardíaca. Que estaria aquele homem a sentir? Era, de certa forma, o ultimo a morrer, o irmão que durara mais tempo, na família, e devia estar tremendamente sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tens a apresentação pronta? – perguntou-lhe. Estava quase fora dos limites, mas aprovou a sua entrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, aqui – apontou para a cabeça, e sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto vai ser lindo..., pensou Ilídio.&lt;br /&gt;&lt;p align=center&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;Subiu ao palco, encontrou o seu lugar no palanque; o pequeno microfone ansiava pelas suas palavras. Sobre a superfície encontrava-se o discurso, impresso em papel e equilibrado com clips, pois a superfície era na verdade um ecran que reproduzia a projecção que se encontrava nas costas do orador para o libertar de ter de virar-se enquanto falava. O assistente mostrara-se perplexo com a falta de uma apresentação visual mas fizera o seu melhor. Morais colocou os óculos, aproximou o discurso. Fingiu lê-lo. Depois pousou-o e encarou a audiência. A Assembleia estava quase vazia de pessoas, mas um indicador na parede oposta informava-o de que era seguido por cento e cinquenta mil pessoas em directo – além do tempo que lhe restava, que não era muito. Ergueu a mão direita e começou a contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Visão. Confiança. Orgulho. Princípios. Perseverança – mostrou a outra e continuou. - Inovação. Aventura. Tradição. Diversidade. Inspiração. Eis os dez grandes pilares de uma grande sociedade. Ter uma visão para a sociedade que guie as nossas escolhas num tempo de constante mudança, feitas tendo confiança na capacidade dos cidadãos e orgulho nos resultados conseguidos, seguindo princípios humanistas que contribuam para a evolução da espécie, perseverança para ultrapassar as decisões difíceis e os sacrifícios, e inovação na forma de ultrapassá-los e diminuir os efeitos negativos. Mas conduzir este progresso como uma aventura no sentido positivo do termo: diversão, descoberta, conhecimento. Sem nunca esquecermos a tradição das nossas origens, honrarmos a diversidade inerente às pessoas que constituem a nossa sociedade, e acima de tudo, inspirarmos as gerações vindouras. Poderia elaborar sobre o assunto, mas não há tempo. E na verdade, não é preciso. Basta olharmos em volta. O que conseguimos. Onde estamos. Como saimos das cavernas e conquistámos o medo e aprendemos sobre a natureza e o mundo, como aos poucos, após guerras e tiranias e ideologias castradoras, chegámos aqui, a um contrato social, complexo, possível por um conjunto de instrumentos que nós próprios desenhámos. Podemos ser indivíduos mas também nação sem que um conceito choque com o outro ou tenhamos de abdicar de coisas irrazoáveis. Vou confessar-vos: nunca esperei que a democracia sobrevivesse muito tempo. Ainda sou do tempo que se lembra das histórias dos avós sobre ditadores e polícia política. Mas ultrapassámos uma barreira qualquer, e ficámos mais unidos. Não é perfeito, mas vai resultando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilídio olhou para o cronómetro. O tempo iria esgotar-se em breve. Como organizador, caberia a si interromper o apresentador a meio. Suspirou, antevendo o que se ia passar. Morais dançava de um lado para o outro do palco, enunciando as palavras com precisão e falando com convicção. Parecia décadas mais novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O discurso tinha avançado. Falava dos navegadores portugueses. Falava da conquista do Novo Mundo. Falava do exemplo de Kennedy e do objectivo-Lua. Falava dos territórios desconhecidos e de como já não havia planetas para explorar, pois mesmo os do sistema solar seriam fotografados e cartografados antes de alguém colocar pé neles. Chegou por fim à proposta, que era o mais simples e anti-climático do discurso, pois implicava construir um parque de radio-satélites para escutar o espaço exclusivamente à procura de sinais inteligentes extra-terrestres. Algo que ninguém ainda tinha feito devidamente, apesar dos esforços antigos do projecto SETI. Mas que era importante para a preservação da espécie e para a continuação da sociedade. O facto de descobrirem que não estavam sós. E porque isso poderia demorar décadas ou gerações, deviam começar já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilídio tentou mantê-lo no ar o mais possível, apesar da chuva de protestos dos outros apresentadores e do estrago no planeamento do dia, mas teve de acabar por interrompê-lo e pedir-lhe que resumisse. Depois ligou ao representante da contra-argumentação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paulo, sê breve e indolor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cinco minutos, Paulo resumiu os esforços das últimas décadas na escuta do espaço, que porção do espectro tinha sido analisada, quais os resultados, quais os problemas esperados, quais os reais benefícios e por fim, qual o custo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moção foi a votação. Morais já não estava no edifício.&lt;br /&gt;&lt;p align=center&gt;* * *&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;Discreta e lentamente, a moção foi recusada por dez por cento do eleitorado nas primeiras vinte e quatro horas, normalmente decisivas para as propostas de pouca importância. Ilídio tentou telefonar a Morais, sentindo-se quase na obrigação de dizer algo, mas não conseguiu estabelecer conexão. Algo no íntimo o alertou, e quando lhe comunicaram na manhã seguinte que o antigo deputado tinha sido encontrado em coma alcoólico e falecera a caminho do hospital, não se sentiu realmente espantado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O representante para a Proposta da Qualidade da Informação Online, que naquela manhã iria defender a revisão das Seguranças de Acesso para Respeito da Privacidade, soltou um trejeito de desaprovação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que forma de acabar... com um desempenho miserável e o vício nojento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pensas mesmo que o desempenho de ontem foi miserável? – perguntou Ilídio. Sentia-se estranhamente ausente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Claro que foi. Uma proposta idiota e cara sem benefícios para a sociedade. Que ganhariamos dos extra-terrestres, se os descobríssemos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez uma... visão diferente do universo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, durante uns tempos, mas depois há que continuar a cuidar da casa. Cuidar dos nossos problemas reais. Mas não concordas que foi miserável?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilídio parou um pouco e encarou o rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por sinal, creio que foi um dos discursos políticos mais emocionantes que alguma vez ouvi. Dos grandes. Morais, noutros tempos, teria sido um grande lider.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eram tempos ignorantes. O que precisamos é de método científico e racionalidade – disse o representante com convicção. - Tentar evitar o erro. Não se pode conduzir um país pelo instinto. Já bastam os erros do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O mundo avançou mais depressa do que ele... e depois já não era necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, era tão obsoleto como teclados num computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilídio olhou-o profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que idade é que tens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vinte e um... porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada – e Ilídio voltou às tarefas com um sorriso conhecedor que o rapaz não seria capaz de entender na íntegra durante muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113771701664121596?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113771701664121596/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113771701664121596' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113771701664121596'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113771701664121596'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/experincia-cinco.html' title='Experiência: Cinco'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20429324.post-113757393093958835</id><published>2006-01-18T08:38:00.000Z</published><updated>2006-01-18T08:45:31.673Z</updated><title type='text'>O Herói das Histórias Dela</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;(segunda e última parte)&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim de semana começou abruptamente, cortesia de Ana, que me ditou as recomendações habituais, avisando que a miúda tinha estado constipada, pelo que teria de ter cuidado com os agasalhos, e enviou-me porta fora com um Até amanhã bem medido. Quis procurar tema de conversa, prolongar a estada. Uma curiosa forma de masoquismo impelia-me a saber mais sobre ela, como ocupara a semana, se estava bem, se tinha dormido com ele na nossa cama. Precisa de descobrir intuitivamente pela observação da forma de comunicar entre eles até que ponto se ergueria já a intimidade mútua. Tinha de saber se se teria recostado suavemente depois, a trautear de mansinho uma cantiga, como fazia quando me julgava a dormir - atitude que enchia-me sempre o peito de orgulho masculino indisfarçado. Por vezes, acendia um cigarro, a única ocasião em que fumava. Farejei o ar, à procura, como se a evidência do pecado se mantivesse impregnada nas paredes. Não tive oportunidade de descobrir nada. Temendo dar a entender o meu ciúme, irritado comigo próprio, agarrei na miúda, no saco com a roupa e voei porta fora, subindo a rua até ao carro - um veículo modesto, muito ao meu feitio, nada comparado com o do atleta. Dediquei a viagem a interrogar Anita sobre os seus dias, os amigos, a escola. A miúda gostava muito de falar, e quando começou, entreteve-se durante todo o caminho. Não prestei muita atenção. O meu pensamento não embarcara no carro, continuava naquela casa, à espreita. A imaginar os dois. Abraçados. Sózinhos durante o fim de semana. Aliviados do fardo da criança que eu fora buscar. Senti-me triste, mas não sei se devido à semelhança com o meu passado, se tinha meramente ciúmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei por casa, para deixar o saco. O ambiente vazio impressionou-me ligeiramente; já me tinha habituado à presença de Cláudia aos sábados de manhã, a passear pela casa vestida com a minha camisa e a beber café, cheia de sono. A cozinha estava assustadoramente arrumada e silenciosa. Accionei o gravador de chamadas, não fosse encontrar alguma mensagem sua de Évora. Não havia nada. Peguei na miúda, tranquei a porta e fugi daquele lugar abafado, ao qual só pretendia regressar pelo fim do dia. &lt;br /&gt;&lt;span class="fullpost"&gt;&lt;br /&gt;Fatalmente, o nosso destino foi o Jardim Zoológico. Prometera-lhe na semana passada que seria desta vez que o visitaríamos. Há muito tempo que tentava adiar a visita. Não me sentia bem ao presenciar os animais enjaulados, sabendo que cumpriam sentença perpétua, que nunca voltariam encontrar o habitat de origem, o deserto, a savana, o clima mais frio ou mais quente ou mais húmido que o de Lisboa. Sabia o que era estar do outro lado das barras de ferro da indiferença. Mas era impossível adiar mais; logo, cumpri o meu dever de pai, encontrei lugar o mais perto possível do Zoo e levei a miúda pela mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que Anita adorou. Sabia o nome das espécies, tinha estado a estudá-las na escola - e quando não sabia, inventava, teimando que estava certa mesmo quando tentei corrigi-la. Fazia questão em ter a última palavra. E soltava um berreiro monumental junto às jaulas ao tentar explicar-me, por vezes assustando os animais, e atraindo as atenções dos outros visitantes, em particular das mães, que me lançavam sorrisos de compreensão. Havia muitas mães a passear sózinhas com os filhos, notei; talvez fossem divorciadas, talvez os maridos não estivessem muito preocupados com o divertimento das crias. Podia ter metido conversa com elas, aproveitar a situação para as conhecer, casual e justificadamente, uma vez que falaríamos das crianças, somente das crianças, somente da inocência. Nos olhos de algumas encontrei uma ânsia de contacto que não tinha motivo de existir, a não ser que estivessem cansadas de ser mães, cuidar dos filhos, envelhecerem: que procurassem na atenção de um estranho a confirmação de que mantinham ainda a beleza dos vinte anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mandei calar a miúda, embora nos momentos de maior excitação fizesse chsssss baixinho para a acalmar. Tinha imenso orgulho na sua esperteza, e queria que os outros pais vissem que a minha filha sabia e mostrava que sabia; não era como os seus petizes lerdos e calados, que seguiam pela trela da mão sem interesse nem ânimo ao que os rodeava. Vaidade egoísta e mesquinha, bem sei, mas nunca pretendi ser perfeito, particularmente no que toca à defesa de Anita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visita demorou toda a manhã. Levei-a a almoçar num restaurante modesto perto de casa. Estava irrequieta a princípio, mas depois acalmou e comeu em paz - e eu também. Sentia-me cansado mas contente. Decerto não aguentaria aquele ritmo se a ele fosse submetido todos os dias, mas naquele momento invadia-me uma ideia de paz e segurança, como se pudesse passar o resto da vida a levar a minha filha ao Jardim Zoológico e depois almoçar com ela. Como se ela fosse eternamente pequena e eternamente minha. Impeli-a a comer como qualquer pai bem-comportado, apesar da sua contrariedade. «Já sei comer sózinha», reclamava ela, mas em seguida deixava caír um fio de esparguete no guardanapo que servia de babete, e eu brincava com ela, «És uma bebé. Olha para isso, não sabes comer». «Quero ir ver os desenhos animados», continuava, mas eu dizia «Antes tens de comer», aborrecido com o facto de a TV nos roubar as crianças, no pouco tempo de que dispomos para passar com elas. Pretendia trocar-lhe as voltas e passear de tarde na Caparica, mas o céu mostrou-nos uma carranca feia e ameaçadora, uma ventania gelada começou a soprar, e receei pela saúde da miúda, lembrando-me do aviso de Ana. Ficou em casa, a ver os desenhos animados, enquanto eu, vencido, a sentava no colo; depois, foi brincar sózinha com as bonecas. Não quis forçá-la a estar comigo; entendo que as crianças se enfastiem depressa da presença dos adultos e do seu mundo. Sentei-me na sala a desempenhar a tarefa mais inglória de um professor, a correcção de testes, desejando possuír também um refúgio secreto no meu espírito, o meu mundo pessoal. Surgiu na sala ocasionalmente para que eu perguntasse uma ou outra coisa às bonecas, incluindo-me com facilidade no seu imaginário. Não fez nenhuma pergunta embaraçosa, felizmente, mas começava a pensar que só as fazia na presença de Cláudia, que se desatava a rir com a minha atrapalhação. Também não perguntou por que não vivia com a mãe - só perguntou isso uma vez. Devia ter-lhe comprado um brinquedo novo, uma outra boneca, pensei ao vê-la pentear o cabelo de fibras amarelas da figura feminina, falando baixinho com ela, dizendo como se devia comportar. Mas não me sentia bem em oferecer-lhe prendas constantemente; era como se tentasse comprar o amor dela, suprindo a minha ausência com pedaços de plástico inanimados. Ter-lhe-ia o atleta oferecido alguma coisa?, ocorreu-me, e pela primeira vez, o meu coração ardeu de verdade. Não queria imaginá-la sequer a chamá-lo de «paizinho».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tarde morreu numa mordomia cinzenta, obscurecendo a minha vontade em levar Anita a passear no domingo. Cláudia telefonou depois do jantar, só para dizer que estava tudo bem e que voltaria na noite seguinte. Não procurou conversa, desligou de imediato. Pousei o auscultador mudo, e fui deitar Anita. Teimou de novo, não queria ir para a cama. Quando a forcei, não queria ficar sózinha. Insistiu que lhe contasse uma história. Retorqui que estava cansado. Ela persistiu, pedindo que lhe contasse aquela história sobre a luz, o conto com que encantava aos quatro anos, quando ainda éramos um lar unido. Não contava a história há muito tempo. Julgava que ela nem se lembrasse sequer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conto era de invenção minha. Era didáctico, ou pretendia sê-lo, vestindo os elementos da Física com as roupagens próprias das histórias de fadas. O espaço era o reino, o sol, o palácio; a luz tornava-se numa raínha, e esta raínha tinha milhares de mensageiros que emanavam constantemente do palácio para espalhar pelos povoados e pelas gentes do reino, que estava ensombrado por um feitiço de escuridão e medo, a notícia de que a raínha continuava no poder, de modo que mantivessem a esperança. Não os chamava de fotões, apenas de mensageiros. O reino era tão grande, dizia eu, tão vasto e espaçoso, que os mensageiros nunca conseguiam voltar para casa antes de morrerem. Era o lado triste da história, e perturbava-a sempre um bocado; notando isso, uma vez não mencionei esse factor, e ela percebeu imediatamente a falta. Zangou-se por estar a ser enganada. Aguentava melhor a tristeza do que eu imaginara - talvez se passe o mesmo com as outras crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O reino era, então, vítima do assalto das forças do Mal, que tentavam completar a tarefa antiga que se iniciara com o feitiço milenário. Por toda a terra, a confusão espalhava-se: os mensageiros deixaram de aparecer, as pessoas soltavam frases sem nexo, as vacas e as ovelhas deixavam de dar leite, os relógios andavam para trás. A Natureza insurgira-se contra si própria e contra tudo o que estava vivo, e o medo tomou o poder dos espíritos. O tempo perdeu o seu rumo, como um comboio descarrilado. Por toda a terra, o reino da raínha Luz parecia ameaçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o desastre parecia iminente, fazia surgir de uma povoação modesta um jovem de ar determinado que abordava corajosamente a raínha no palácio e se propunha a enfrentar o representante do Mal. A raínha ficou tão impressionada, que lhe prometeu oferecer a mão de sua filha em casamento, caso o bravo aventureiro saísse vitorioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naturalmente que neste ponto o jovem se apaixonava pela princesa e partia com um sorriso tolo nos lábios para a sua tarefa perigosa. Na sua demanda, enfrentava inúmeras peripécias, que mudavam sempre que recontava a história, por vezes mais imaginativas, noutras vezes fracas e forçadas. Raramente conseguia acabar a história e devolver a paz ao reino, por que essa paz descia em primeiro lugar ao rosto de Anita, suavizando-lhe a expressão, fechando-lhe os olhos, adormecendo o seu jeito de respirar. Esta não foi uma das raras ocasiões. Contemplei feliz o sucesso do meu feito, como o jovem aventureiro deveria ter contemplado o azul regressar ao céu e o dia iluminar a terra após matar o feiticeiro, e saí do quarto em pontas dos pés. A sala onde entrei estava escura e fria, o oposto. Percebi que estava a entrar na vida, no mundo real, e que o mundo real estava separado de Anita apenas por uma porta de madeira velha e frágil. E eu não tinha forças para manter a porta trancada para sempre, manter quente e primaveril o mundo de Anita. A minha filha iria crescer e tornar-se mulher, encontrar um homem que lhe destroçaria o coração e afastar-se de mim como se afastou a mãe, como se afastaram todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior era que desperdiçava a sua infância com os mesquinhos jogos politicos dos seus pais, empurrada de lar para lar, de fim de semana para os dias úteis para outro fim de semana numa existência dupla e segregada, que dividia mais que complementava. As crianças serão os eternos sacrificados, pensei. Nunca nos poderemos emendar, nunca poderemos redimir a culpa por que o tempo não caminha na direcção contrária, apenas de encontro ao momento da vingança. De crianças castigadas sem razão, justificamos o nosso sofrimento enterrado mais tarde, quando nos for concedido o ceptro que decide a vontade e felicidade da espécie pequena, do povo indefeso. Nesse caso, talvez esteja errado, talvez o tempo de facto caminhe para trás, no regresso infinito, a consequência sem causa, o acto sem vontade - viajando da última bofetada dada, para a primeira a ser sentida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca perdoaria a Ana. Nunca perdoaria aos meus pais, a John, a Garfield, à porra do reitor, nunca os perdoaria pela minha filha. Falhava como pai por culpa deles. Poderia ter sido alguém diferente, poderia ter sido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, João, disse para mim próprio, a culpa não acabaria sempre por ser tua?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas formas de olhar para o céu, disse uma vez um professor meu de Astronomia, agitando uma longa caneta-ponteiro defronte do mapa celeste, e essas duas formas dividem as pessoas que olham, ou os momentos das suas vidas. Algumas, ao olhar, vêem a luz das estrelas, contam os pontos brilhante, exclamam para si próprias, Tantas que são!; outras, não vêem nada mais que o espaço entre as estrelas, a extensão negra e vazia, e lamentam baixinho, Como estou só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;" align=center&gt;&lt;em&gt;(FIM)&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="font-size:85%;" align=right&gt;Publicado pela primeira vez em «Mosaicos», vários autores, Editora O Escritor, Lisboa, 1995&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20429324-113757393093958835?l=cadernodecontos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/feeds/113757393093958835/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=20429324&amp;postID=113757393093958835' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113757393093958835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20429324/posts/default/113757393093958835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cadernodecontos.blogspot.com/2006/01/o-heri-das-histrias-dela_18.html' title='O Herói das Histórias Dela'/><author><name>Luís Filipe Silva</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='10915780008821296515'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry></feed>